Predador

Neblina_do_Douro

De vez em quando eu sou capturada por um predador que me leva para um lugar horrível.

Clarissa Pínkola Estés, autora do maravilhoso “Mulheres que Correm com os Lobos” chama esse bicho de predador. É um cara chato, inconveniente, que mora dentro da gente e que não serve para nada a não ser detonar a nossa autoestima e criatividade.

Esse bicho me pega quase todas às vezes que começo a escrever.

Escrever, mas escrever para quê?” ele pergunta.

Desgraçado.

Já li muitos textos de autores incríveis que se debruçam sobre essa mesma questão. Por que escrever? Para quem? Será que algum dia eles também foram apanhados pelo predador?

Tenho muitas aflições. A primeira delas é uma preocupação altruísta de que meus textos sejam sempre sobre o meu “eu”. O que sinto, o que penso, o que vejo. Tudo bem que escolhi a crônica como veículo e ela geralmente é assim, o olhar do autor sobre alguma coisa. Mas será que não é cansativo para o leitor essa coisa de eu, eu, eu? Bom, tai um detalhe que Clarice Lispector nunca deve ter se preocupado. Ela não estava nem aí para isso. Falava de si como quem fala do melhor assunto sempre. Tive um amigo que vivia me dando conselhos sobre isso. Ele era de opinião que eu deveria escrever ficção ao invés de crônica porque através dela eu poderia colocar todas as minhas opiniões na boca de alguém inventado. E que isso de alguma forma disfarçava as minhas próprias sombras.

Mas não foi o que Carpinejar disse. Há alguns anos fiz um curso de crônica com ele em São Paulo que mudou minha vida. Tipo divisor de águas. E ele era categórico no quesito “falar sobre si próprio”. Ele dizia com todas as palavras que o verdadeiro cronista não pode ter medo de se expor e que é isso que o leitor precisa para se identificar. E que ele tem que ter muito senso de humor porque no fundo a gente tem mesmo vergonha de ser o que é. “O papel da crônica é humanizar as relações”. Foi uma viagem inesquecível. Foi depois dela que eu resolvi tatuar a palavra coragem no meu pulso direito. Na mão que escrevo. Não basta ter pulso. É preciso coragem para se viver por inteiro.

Lygia Fagundes Telles também me ajuda a viver. É dela uma frase que tenho presa na porta do meu armário: “O escritor pode ser louco, mas não enlouquece seu leitor. Ao contrário: o escritor pode afastá-lo da loucura. A função do escritor é produzir sentido e só o sentido se opõe à loucura. Por isso não consigo parar de escrever. Se você para de escrever, se torna infeliz, pois está desfazendo uma vocação. Está tapando os ouvidos para um chamado. Você está traindo esse chamado e, assim, traindo a si mesmo”.

Talvez textos que fluam devam fazer parte de um propósito maior. Deepak Chopra fala sobre isso em “As Sete Leis Espirituais do Sucesso”. A lei do darma ou do propósito de vida diz que todos nós temos um talento e uma maneira única de expressá-lo. “Existe alguma coisa que você consegue fazer melhor do que todo mundo. E para cada talento singular, em sua forma única de se expressar, existem necessidades específicas. Quando essas necessidades se combinam com a expressão criativa de seu talento, surge a fagulha que cria riqueza.” Opa, essa fagulha aí eu ainda desconheço. Mas isso são outros quinhentos.

Outra aflição que tenho é sobre estilo. Leio meus textos e não consigo detectar estilo algum. Quase como se só ele pudesse definir minha identidade e sem identidade eu não pudesse me reconhecer em texto algum. A única coisa da qual tenho certeza é que ou eu estou com alma poética e fico tentando extrair metáforas profundas do caminhar de uma joaninha – o que me dá muito trabalho – ou estou com a alma inflamada e saio escrevendo feito uma máquina compressora, numa enxurrada de ideias de fazer batucar o teclado, com uma propriedade assustadora. Tipo agora. Tipo esse texto. Ele flui. Transborda de mim. Como se cada ideia, cada palavra, estivesse sendo psicografada por alguém que está aqui encostadinho em mim.

Mas nunca me esqueço da mãe de santo que cruzou meu caminho certa vez e me afirmou, com todas as letras, que meu escrever vinha dos meus humores. Aqueles líquidos que correm em nós e falam de tudo aquilo que sentimos. Aquilo sim foi o maior presente que o além poderia ter me dado. Eckhart Tolle, do “Poder do Agora” diz uma coisa genial: “uma emoção é uma reação do corpo à mente”. Se eu for mesmo essa coisa transbordante de emoções, tudo que preciso é construir pontes cognitivas para traduzir o que sinto.

Depois disso tudo, o que fica é uma tremenda vontade de dar um soco na cara desse bicho. E não me preocupar tanto em falar de mim. Falar de mim é falar de toda gente, que assim como eu, sente, sofre e absorve o mundo do jeito que pode. Se eu puder ajudar alguém com as minhas tentativas de tradução simultânea do mundo, pronto, já valeu a viagem.

E o estilo? Ô meu Deus… será que isso realmente importa? Meu estilo deve ser esse aqui: coração aberto, escancarado. Coração sem vergonha de dizer o que sente. Escrevo com o amor que me habita. E é com esse amor que um dia eu ainda acabo transformando esse bicho, numa pulguinha insignificante. Só para ter o prazer de matá-la espremidinha entre as unhas.

Que maldade.

Ensaio sobre a sangueira

tpm

TPM só pode ter sido um mecanismo diabólico inventado por Deus. Um plano maquiavélico que Ele tinha em mente, para fazer a gente virar o mundo do avesso todo mês. Ele sabia que o mundo precisava disso. Que geralmente é no avesso que está o direito. E obviamente que Ele sabia também que só a mulher podia dar conta desse serviço.

Desde a adolescência até a velhice, nós mulheres somos induzidas mensalmente a fazermos um pequeno mergulho no abismo de nós mesmas. Somos violentamente conduzidas por uma orquestra afinada de hormônios que nos fazem viver a seu bel-prazer. Quando é o estrogênio que manda, ficamos poderosas. Lindas, exalando sensualidade, com a libido à flor da pele, felizes e bem dispostas. Uma beleza. A natureza quer que a gente procrie. E faz a gente arrepiar no calçadão. Depois que passa o período da ovulação e a natureza se dá conta de que não houve nada de novo no front, traz de presente o período das trevas. A progesterona manda e a gente chora. O tempo todo, por qualquer motivo. De divas passamos à categoria de trapinho velho.  Ficamos tristes, sombrias e inchadas.

É real. A coisa toda é muito real. E o pior é que o assunto está para lá de batido. Todo mundo já falou sobre. Já discutiu sobre. E mesmo assim, a gente continua passando pela mesma história todo mês, sem descanso, sem pausa, se sentindo no mínimo injustiçada. Porque nada do que foi dito, nada do que foi escrito, aplaca a dor da incompreensão do nosso processo. Pelo menos, nos dias de hoje, nessa sociedade em que vivemos.

No tempo em que o homem vivia mais próximo da natureza e dos seus ciclos, a menstruação nas mulheres era coisa respeitada e reverenciada. Pela tradição indígena, por exemplo, uma mulher em seu ciclo lunar era considerada pela tribo, uma mulher em estado absoluto de graça. Ela tinha permissão de se recolher à Tenda da Lua e se isentar de todas as tarefas domésticas, como cozinhar e cuidar de seus filhos. O Tempo da Lua era considerado um tempo sagrado da mulher, quando ela recebia as honras por ser a Mãe da Energia Criativa. Durante esse ciclo ela deveria se libertar das energias antigas que seu corpo vinha carregando e se preparar para a religação com a fertilidade da Mãe Terra, aquela que ela seria portadora no próximo mês. Nossos ancestrais sabiam o quanto era importante dar espaço para que cada mulher pudesse se aprofundar em si mesma em seu espaço sagrado durante esse período. Afinal, eram elas as mães da tribo. Eram elas que davam continuidade à nação. Eram elas que abrigavam em seus ventres os sonhos de toda uma geração. Por isso, nada mais justo que em seu período de Lua, elas apenas descansassem.

Agora me digam, onde é que cabe essa coisa linda e respeitosa às mulheres hoje em dia? Se elas próprias estão tão distantes de sua sabedoria feminina? Hoje o que a mulher vive em seu período da Lua é um verdadeiro massacre da serra elétrica. Porque passa pelo processo tendo que disfarçar tudo o que sente. É um achatamento da sua natureza. Ela quer se recolher e não pode. Quer ficar quieta e não pode. É daí que nasce sua tristeza. Aquela que se transforma em melancolia. Até ultrapassar todos os limites e ver sua melancolia se transformar numa irritação profunda. Que não precisa de nada para virar uma raiva colossal do mundo e de todas as coisas vivas sobre ele. É complicado. Mas é verdade.

Nada do que vivemos é inventado. O que acontece é físico. Eu mesma vivi uma prova concreta disso no mês passado. Estava trabalhando num texto complexo e a coisa ia toda muito bem. De repente, um dia eu acordei e sentei para escrever. As palavras não se encaixavam. As idéias, que antes se concatenavam com tanta facilidade, agora tinham virado um grande mar de pensamentos confusos. Eu pensei: meu deus, o que é que tá acontecendo comigo? Olhei no calendário e batata. Tinha acabado de entrar no meu período pré-menstrual.

E os transtornos físicos que o corpo passa? A gente sofre e não reclama porque senão é chamada de fresca. Dor de cabeça. Indisposição. Inchaço. Cólica? Ah, isso é besteira! Toma um antiespasmódico e pára de reclamar! É igual gripe, todo mundo tem, é um horror mas ninguém respeita o mal-estar que se passa. Afinal de contas, é só uma gripe. Como assim é só uma gripe? Como assim é só uma TPM?

O Tempo da Lua é um desafio para a mulher. Todo mês ela entra em contato com o seu mundo interno porque os hormônios forçam esse contato. Eles manipulam essa necessidade para que a mulher, ao não fecundar nenhuma vida, possa ter a oportunidade de renovar a sua própria vida e regenerar seu corpo. É um rito de amadurecimento. Uma passagem que ela faz, todos os meses, pelo mais sombrio e profundo dela mesma. E é por isso que eu não entendo, mesmo com toda a dificuldade, o que faz uma mulher, um dia, resolver ir contra a sua natureza e não menstruar mais. Geralmente os motivos são sempre os mesmos: falta de paciência com o mal estar provocado pelo ciclo e nojo de seu próprio sangue. As mulheres que fazem isso assinam o divórcio com o seu feminino. E isso é uma pena. Porque ao se desconectarem de quem são, imediatamente condenam o mundo a um desequilíbrio energético colossal.

Por mais triste, confusa, inchada e irritada que eu fique, eu não abro mão de ser quem eu sou. Não abro mão de entrar em contato com essa força. E entender que é nesse período que eu vou ter a chance de ouro de ouvir o que meu corpo tem a dizer, o que as minhas sensações podem traduzir de mim mesma. É justamente nesse caldo de sangue que a minha sabedoria vai transmutar tudo aquilo que a minha consciência não conseguiu entender ao longo do mês.

Deus tinha mesmo um plano diabólico para nós mulheres, quando inventou a menstruação. Era justamente nos lembrar, mês a mês, que a força do mundo não está nas mãos de ninguém. Está no ventre das mulheres. Toda as vezes que ela decide ou não, fecundar o mundo. Ave Eva!

 

Emplastro de vinagre com sal

arame

Eu era pequenininha quando resolvi cruzar uma cerca de arame farpado. Me arrastei feito uma cobra no chão de terra batida para chegar depressa do outro lado. Desde pequena eu tenho pressa. Mas calculei mal o espaço para entrar. Voltei para casa carregada pela minha irmã, aos prantos, com três sulcos de pele rasgada nas costas. Foi quando eu entrei em casa que eu vi, refletido nos olhos da minha mãe, a gravidade do ferimento. O hospital ficava longe, a viagem era por uma estrada esburacada num jipe desconfortável e naquela hora, já anoitecia. Ela não teve dúvida. Foi na cozinha e voltou com um pote fundo cheio de vinagre com sal. Olhou sério para mim e disse:

– Filha, se prepara porque vai doer.

O emplastro de vinagre com sal da minha mãe era como um santo remédio. Ardia como fogo, mas me curava toda e qualquer ferida. Nunca precisei tomar antibiótico nem antitetânico na infância. Porque nada inflamava depois daquele emplastro. Naquele dia, a dor que eu senti para me livrar da dor, era como se uma faca tivesse cortando o próprio corte do arame.

Minha mãe tinha um compromisso com a verdade a respeito de dor. Quantas vezes fui tomar vacina e a enfermeira tentando ser simpática, sorria para gente dizendo: Olha fofinha, não vai doer nada tá? Vai ser bem rapidinho. E ela enfurecida saia atropelando a mulher, para ajoelhar na minha frente e dizer: Isso não é verdade, filha. Isso é uma injeção e vai doer sim. Mas é pro seu bem, você precisa passar por isso. Depois fulminava a enfermeira com o olhar e mandava na lata: Não se mente para uma criança. Se eu lhe disser que não vai doer e depois ela sentir dor… como é que vai confiar em mim de novo?

Tenho pouquíssima tolerância à dor. Sou como a personagem de Michelle Pfeiffer em “As Bruxas de Eastwick”. Meu maior medo nessa vida é de sentir dor. E mesmo assim, já fiquei 18 horas em trabalho de parto, passei por duas cesarianas e fiz outras cirurgias ainda piores. Mas isso tudo porque sei que sempre vai existir um espécie de emplastro de vinagre com sal para me curar as feridas do corpo.

Mas e as feridas da alma? Com que tipo de emplastro a gente cura as feridas de dentro da gente? Tive um namorado que me ensinou que o coração é como um orgão perdido porque jamais se regenera. Cada amor que começa e termina, leva consigo um pedaço. Ele contou que seu coração já tinha levado três mordidas. E que eu ali, terminando nossa história, estava dando a quarta mordida. Sim, era eu que partia. Mas partia com o coração menor também, e por causa dele.

Nesses últimos anos tenho pensado muito de que forma posso amenizar a dor dos machucados que tenho feito tentando atravessar as cercas da vida. Mas não conheço nenhuma espécie de emplastro para as feridas da alma. Como se faz para cicatrizar uma mágoa, se ela só existe no centro de um peito imaginário? Dizem que o tempo é o melhor remédio. Não creio. Tempo não é curativo, é substantivo. Ele pode até apaziguar um sofrimento, mas não cura, não soluciona, não restabelece a saúde de um sentimento moribundo.

Outro dia aprendi com uma amiga que a cada mil lágrimas sai um milagre. Será que é na lágrima que mora a essência do meu emplastro existencial? Será que é no pranto que se desinfetam as lesões provocadas pelo desamor, pelas decepções, pela raiva contida, pelo ciúme doentio, pela decepção velada, pelo ressentimento corrosivo, pela amargura do desencanto? Se for, que esse líquido salgado e sagrado me lave as entranhas sem ardor. E que eu possa ter coragem de continuar me aventurando a atravessar todas as cercas de arame farpado, até as mais perigosas e enferrujadas. Porque de chorar… bom… de chorar eu não tenho medo não.

Palavra coagulada

grilhao

Depois de tanto tempo, ela enferrujou.
As palavras estão endurecidas.
Está difícil escrever.
O que antes era fluido e orgânico, agora parece ter uma resistência preguiçosa.
As palavras estão coaguladas.
Estancadas pelo esquecimento.
Esvaziadas de sentido porque não puderam ser ouvidas.
Nem descritas, nem tampouco lapidadas.
Palavras se magoam facilmente.

Ela sofre.
Não queria que tivesse sido assim.
Sempre amou tanto cada uma de suas palavras.
Aquelas que lhe sopravam ideias.
Traduziam-lhe emoções.
Ela sofre por essa perda.
E faz um esforço enorme para ouvi-las.
E se esgota porque tudo parece escondido: palavras, frases, imagens, metáforas.

Vai ser preciso paciência.
Amor para acordar tanta palavra adormecida.
Cuidado para limpar a poeira.
Ternura para despertar os sentidos.
Obstinação para curar o ressentimento.
Para que as palavras acordem e voltem a fluir, ela vai precisar de calma.
E, sobretudo, perdoar-se pela ausência e impossibilidade.
As palavras entenderão se ela explicar.
Seu afastamento não foi por abandono.
Foi pela necessidade de sobreviver e de compreender o mundo.
Não esse que é feito de palavra e emoção, mas o outro, que é feito de ação e razão.

Luz no fim da sombra

lagrima

“É melhor ser inteiro do que ser bom”
Carl Gustav Jung

E então, de repente, tudo escurece.

E onde havia luz, clareza e leveza, se transforma num quarto escuro, abafado e aflito. A vida é assim, eu sei. Dia e noite. Noite e dia. Luz e sombra. Mas a questão é que quando anoitece dentro da gente é assustador. Já passei por algumas crises de tristeza e depressão. Até de pânico já tive que me tratar. Porque a vida é assim, para quem está vivo. Uma montanha russa nada divertida de controvérsias emocionais. A gente vive porque respira. Porque acorda no dia seguinte mesmo que tenha tomado um calmante. Porque a realidade do lado de fora não respeita nosso sofrimento interno. Porque o sol nasce e não espera a esperança acordar. O mundo gira freneticamente e por mais que em algum momento a gente peça desesperadamente para o mundo parar, ele não pára.

Há uma linha muito tênue que divide a luz da escuridão. Mas para quem já atravessou essa divisa, sabe que do outro lado, há um lugar desconhecido e aterrorizante. Porque este lugar está, exatamente, dentro de cada um de nós. E é nessa sombra que mora tudo aquilo que desejamos guardar, esconder, fingir que não existe. Segundo Jung, a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser. E por mais que tentemos usar de todos os subterfúgios externos possíveis, um dia, sem mais nem menos, tudo escurece. E o que havia estado escondido, aparece para nós como um bicho feroz, cheio de dentes afiados e um olhar demoníaco. E passamos a viver um pesadelo mesmo estando acordados. Dizem que quanto mais tentamos conter nossa sombra, mais negra e densa ela se torna.

Durante muito tempo da minha vida tentei driblar meus demônios. Quando a escuridão vinha, eu me escondia de mim mesma sem que ninguém percebesse, num lugar bem quieto e esperava de olhos fechados, o bicho cabeludo passar. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de acender uma vela sobre nenhuma característica nefasta minha que surgisse por ali. Fazer isso como? Com que armas? Com meu otimismo ridículo? Com essa minha fé desconfiada? É preciso coragem para viver. Mas é preciso muito mais do que coragem para enfrentar o que somos. E o pior, enfrentar o que há de mais vergonhoso em nós.

Na minha sombra habitam Tatianas imorais, Tatianas suicídas, Tatianas sem esperança, inflamadas de um rancor dolorido com a vida e com Deus. E a cada vez que anoitece e essas Tatianas surgem, eu choro sem parar, porque tenho muito medo de que um dia, elas tomem conta do que há de melhor e mais puro em mim.

Talvez tenha chegado a hora de acender as tais velas no subterrâneo da minha alma. Acender velas ou tecer palavras incandescentes que possam iluminar meu caminho. Essa coisa de escrever tem me enchido de uma coragem samuraica. Não sei de onde isso vem, mas é gigantesco. Draconiano. Estupendo. É com as palavras que quero enfrentar minha escuridão. Porque é com elas que posso sair inteira dessa caverna sombria que, tantas vezes, me obrigo involuntariamente a entrar. Porque por mais esclarecedor que seja o enfrentamento da sombra, é na luz que geramos vida. É na luz que se vive plenamente. É na luz que se amanhece por dentro.

As Mínimas da Catarina

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Saio do banho, Catarina está sentada no banquinho, tagarelando sem parar.

Dali a pouco, se cala e começa a olhar fixamente para o meio das minhas pernas.

– Mamãe, o que é isso?

– Isso o que?

Sem entender direito, olho para baixo e vejo para onde seu dedinho está apontando.

Abro um pouco as pernas. Ela arregala os olhos.

– Isso aqui filha, é uma parte da pepeca. Chamam-se grandes lábios.

Apavorada ela pergunta:

– E isso morde?

As Máximas da Clara

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Hora de dormir. Quarto escurinho, beijos de boa noite, chamego.

– Mãe, aqui entre nós duas, me explica uma coisa? Por que tem gente que chama o fiófis de cú?

Tive que me segurar para não soltar uma gargalhada e acordar Catarina.

– Ué, deve ser porque é uma palavra pequenininha e feinha, exatamente como ele é.

Dessa vez foi ela que gargalhou. Daquelas gargalhadas que ela dá e a veia do pescoço pula de alegria.

– Eu sei que cú é palavrão, mãe… mas tem algum nome bonito para ele?

– Hum… tem. Ânus.

– Ânus é feio, mãe! Cú é mais simpático.

– Eu sei minha filha. Mas cú é palavrão. A gente não deve falar. É uma tremenda falta de educação.

– Cú não parece palavrão. Parece palavrinha…

Fiquei sem fala. Ela estava coberta de razão. Foi dali que ela começou sua pesquisa linguística antropológica.

– Sei… e qual o nome feio de pepeca?

– Vagina.

– Ah mãe, fala sério. Vagina é o nome técnico. Eu quero saber o palavrão mais horripilante…

Pensei um pouco. Não era justo mentir para ela naquela altura do campeonato. Ela tinha o direito de saber.

– Tá. Buceta.

– Buceta? Mas buceta é bonitinho…

– Clara, pelo amor de Deus minha filha, isso é um palavrão de quinta, não vai sair por aí falando isso e dizendo que fui eu que te ensinei que vão me chamar de louca.

– E se eu chamar minha pepeca só de Ceta, tudo bem?

– Não, não está nada bem. Todo mundo vai saber que é diminutivo de buceta.

– Hum. Então qual é o nome mais lindo para buceta?

– Pepeca filha. Pepeca é lindo.

– E para peru?

– Pinto.

– E pau?

– Pau nem pensar. É muito vulgar.

– Mas por que a gente pode chamar o peru pelo nome do bicho, mas não pode chamar pelo nome da madeira?

– Clara, o mundo das palavras é um pouco complicado.

– Tudo bem mãe. Mas o que é grelo?

– Boa noite, Clara!

Cheirinho de Deus

cafe

– Mãe, o que é olfato?

– É o sentido que faz a gente perceber os cheirinhos do mundo, filha.

– Cheirinhos do mundo, como assim?

– Ué, se alguma coisa tem cheiro, quem sente é o seu nariz através desse sentido engraçado que se chama olfato.

– Ah… eu gosto do olfato do bolo da vovó.

– Não filha, olfato é só o nome que se dá ao sentido. Você gosta é do cheiro do bolo da vovó. Principalmente quando ele acaba de sair do forno…

– Por isso que você dá aquele sorriso quando o papai faz café?

– Isso mesmo… porque eu adoro cheirinho de café passado.

– E aquela cara feia quando ele dá pum?

– Exatamente. Nem todo cheiro é bom…

– Cocô. Cocô tem cheiro ruim né mãe?

– Tem filha. Não sei por que Deus não inventou um cocô cheiroso.

– Eu sei outro cheiro ruim!

– Qual?

– Chulé.

– Ui. É mesmo.

– Mãe?

– O que foi?

– O que é cecê?

– Outro cheiro ruim. De sovaco que não tomou banho.

– Écate.

– Viu só como a gente tem que tomar banho.

– Mas eu gosto do cheiro do xampu do Bob Esponja. Tem cheiro de morango.

– É verdade. É muito gostoso.

– Qual é o cheiro que você mais gosta mãe?

– Hum, tantos. Gosto do cheiro da roupa que acabou de lavar. De doce de maçã, de cebola sendo frita no azeite. Cheiro de flor, de fruta. Mas de todos os que a mamãe mais gosta é de canela. Porque ela tem um cheiro mágico.

– Mágico? Por quê?

– Porque ela me leva a lugares distantes, imaginários. Como a terra do Aladim, sabe?

– Sei… puxa… que legal… você me mostra?

– Claro.

– Mas e a chuva, tem cheiro?

– Tem. Tem um cheiro maravilhoso de terra molhada.

– Mas o cheiro é da terra ou da chuva?

– Dos dois. Da mistura deles.

– Hum…

– Quando você nasceu seu pescoço tinha um cheirinho de Deus.

– O que é isso mãe?

– É o melhor cheiro do mundo filha. É o cheiro do amor.

– Ah, já sei. Seu colo tem esse cheiro.

– Querida…

 

Conversinhas com Clara

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As conversas com Clara antes de dormir podem ser surpreendentes.

– Mãe, tinha um menino na minha sala hoje com tanta cecê, mas tanto cecê…

– Sério filha? Que péssimo. Será que a mãe dele não sente?

– Não sei, mas era uma boa pessoa para avisar né.

– Cecê e bafo, se a gente tem intimidade com a pessoa, precisa alertar.

– Mas mãe, as pessoas não tão nem aí pros fedores. Precisa ver quanta gente na minha sala que peida e não tá nem aí.

– “Peida” filha? Mas isso é jeito de falar?

– Peida mãe. Todo mundo fala assim.

– Mas você é menina. Não dá para falar de outro jeito? Pior que o ato “peidar” é a palavra “peido”.

Nessa hora ela ri de gargalhar. Não aguenta a própria mãe.

– Tá mãe, como você quer que eu fale?

– Fazer um pum.

Ela gargalha de novo.

– Mãe, ninguém faz pum. As pessoas soltam pum.

– Tá. Fazer, soltar, não importa. Pelo menos a palavra “pum” é bem mais sonora que “peido”.

– Ah… isso você vai me desculpar, mas não é não.  Peido é bem mais legal de falar. E no mais, peidar já um verbo. Uma palavra só já explica a coisa.

– Eu acho deprê.

– Pior que peidar é mijar.

– Não, cagar é pior.

– Não. Mijar é pior.

– E cagar? Ouve bem: ca-gar.

– Cagar as sílabas combinam.

– Tá, mas você não fala assim né. Pelo amor de Deus.

– Óbvio que não, mãe.

– Ué, não sei. Para mim, quem fala “peidar” pode muito bem usar “mijar e cagar” para se expressar.

– Não, mãe. Eu falo “fazer xixi e fazer cocô”.

– Ah tá. Mas por que xixi e cocô podem usar o verbo fazer, e o coitado do pum não?

– Tá bom mãe…  a partir de agora vou soltar flatulências. O que você acha?

– Acho lindo.

– Melhor ainda: vou dizer que “ops, flatulei”.

– Flatulei é perfeito. Elegante e ainda por cima você ainda inventou um verbo. Mamãe gosta.

Ela ri de novo.

– Quem é você, mãe?

– Quem é você, Clara?

Bipolaridade materna

maitena

Minha bipolaridade materna ainda vai me enlouquecer.

Não sei quantas mães passam por isso. Não sei dentro de quantas casas isso acontece. Mas a verdade é que tem dias que eu preciso sair correndo e ir dar um grito bem histérico na varanda. Mesmo que seja um grito histérico mudo, para não assustar as meninas nem os vizinhos. Uma das minhas tentativas desesperadas de equilíbrio psicológico.

Gente, criança é uma dádiva. Em todas as fases. Em todos os sentidos. Conceber, parir, alimentar. Depois ver crescer, se desenvolver, desabrochar. Esses anjos caídos do céu têm o cheiro mais inebriante que eu já senti. Eles têm pele de nuvem. São espontâneos, adoráveis, amorosos. E conseguem conter dentro daquele corpinho minúsculo, o melhor e mais genuíno da nossa espécie. Mas às vezes – muitas vezes – também são as criaturinhas mais insuportáveis do mundo.

Deixa eu explicar.

Quem me conhece sabe que eu sou, desde que as gurias nasceram, um coração partido em dois batendo fora do corpo. Foi depois que Clarabela e Catalinda chegaram, que minha vida passou a ter sentido. Não que antes a vida não fosse maravilhosa. Ela era. Mas sentido, não tinha não. Minhas meninas me trouxeram em suas asas uma certeza etérea de pertencimento ao mundo. Uma resposta concreta às perguntas mais existenciais que eu já tinha feito às estrelas. Um entendimento absoluto da minha capacidade de amar e me doar em forma de leite, afeto e compreensão.

Mas quando os nenéns deixam de ser nenéns e se tornam essas coisinhas que andam e gesticulam e falam e se acham gentinha, trazem com elas acoplado às bochechas, um teste diário de paciência, resistência e benevolência. E é aí que a gente entra em contato com um adormecido monstro do Lago Ness dentro de nós. Porque essas nossas criancinhas provocam na gente os mais contraditórios sentimentos. Dizem as más línguas psicanalíticas, que quem sofre o rompante dessa raiva colossal, nem sempre é a Tatiana adulta e consciente e sim, uma criança interna minha que de alguma forma foi ferida e reage lá de dentro com um sentimento quase sempre… infantil. Hã… é, pode ser. Mas independente de quem ou o quê acorda o meu monstro no fundo do lago, a questão é que me assusta muito a percepção dessa bipolaridade que meu coração é capaz de chegar.

A oscilação entre amor e ódio ocorre entre segundos. Dou o grito. Ela não obedece. Mas é quarta vez que eu estou pedindo para você entrar no banho! Ai ela dá um sorriso. Eu me desmancho. Finalmente entra no chuveiro. Outra mau criação. Agora o drama é para passar o xampu. E eu penso comigo: meu deus, eu tô tão cansada… Ela retruca: mas mamãe, eu tenho dileito de fazer tudo sozinha! Aí eu acho lindo. E me encho de orgulho por esse desejo dela de emancipação. O trocinho só três anos! O tempo passa. Vamos sair do banho, meu anjo? Agora a manha é para sair do banho. Mas você chorou tanto para entrar, não dá para variar um pouco o repertório e não chorar para sair? Não. Não dá. Ela tá cansada – eu penso. Paciência, mamãe, paciência… Dou-lhe uma, dou-lhe duas… Catarina! Ela cruza os braços e me dá as costas. Para não enforcar o pescocinho, vou até a cozinha tomar um chá mate. Respiro fundo. Volto e digo alto e em bom tom: Vamos sair A-GO-RA. Ela diz que não. Então eu desligo o chuveiro e uso minha força para colocá-la para fora. Firme, a coloco em pé em cima do tapetinho do banheiro. Ela recolhe as pernas. Senhor, alguém me ajuda! É quando finalmente eu dou o grito que balança a casa. Ela se assusta. Coloca os pés no chão devagarinho. E das duas bilhas castanhas saltam duas gotas de lágrimas sentidas e transparentes. Aquele choro sofrido. Mudo. Decepcionado. Meu coração se contrai e eu penso: como posso ser tão megera?

Alou? Alguém pode me internar?

Nessas horas eu não penso em mais nada. Claro, porque depois do choro ela diz sempre: mamãe, será que você pode me dar um abracinho agora? Mas depois… depois que eu me acalmo e volto a ter algum discernimento, entendo que não vai dar nunca para compreender o que é um coração bipolar.

Vocês acham que a coisa pára por aí? Não… a coisa não termina nesse happy end lindo. Minha noite ainda me reserva todo um processo de vestir pijamas, pentear cabeleiras e escovar dentes. É. Escovar dentes. Praticamente um pesadelo para mim. Por quê? Porque Catarina é o tipo de criança que tranca a escova na boca enquanto estou escovando os dentes dela. Uma delícia de criança. E quando eu acho que tudo acabou, que o quarto está escuro e elas estão em silêncio, minha grandona pula da cama e grita desesperada: Mas mamãe… e o nosso Toddy? Você esqueceu o nosso Toddy!

A verdade é que desde que eu fiquei sozinha a coisa toda piorou muito. Essa aventura de ter filhos pequenos é para quem sempre desejou ter uma vida selvagem. Mas eu nunca desejei ter uma vida selvagem sozinha. Porque por mais presentes que sejam os ex-maridos, é no cotidiano que a gente sofre essa solidão cansada e se descabela quando desconfia, que esse modo de vida, nunca mais vai mudar.

Eu sei que vai. Um dia esse tempo vai passar e eu vou olhar as fotos delas com uma saudade dilacerante de quando elas eram pequenininhas. É injusta essa parte da evolução da espécie. Porque eles crescem e viram nossos amigos. Companheiros de caminhada, espectadores da nossa história. É maravilhoso. Mas ainda assim é duro saber que de alguma forma, aquelas crianças bagunceiras e melequentas, a gente não vai poder segurar no colo nunca mais.

Hummm. Pensando bem… ainda bem.