Meus seios doem

amor

Para Gisele Magalhães


Meus seios doem.

E são hoje o símbolo maior da minha existência e exaustão.

No alvorecer do dia eles estão cheios de alimento e frescor. Descansados e intumescidos, trazem no leite a aurora de toda a leveza do desabrochar da vida. E do mais recôndito do meu ser, oferecem energia vital ao que mais amo – minhas filhas.

Mas quando a noite se deita sobre o sol, é nos meus seios que vejo meu cansaço refletido. Contraídos, doloridos e vazios, não há fome, necessidade ou desejo que os façam fabricar mais alimento. Talvez para algum afeto possam servir, através do calor da pele ou das ondas sonoras que atravessam o meu peito e reverberam as batidas do coração. Mas mesmo assim… doem.

É quando isso acontece que percebo que o fio invisível que venho tecendo minha vida desde que minhas meninas nasceram é feito de algodão. Numa porção doce e cor de rosa, meu algodoar diário começa quando abro os olhos e antes mesmo do espreguiçar iniciam-se minhas infinitas funções maternas… A primeira mamada de uma se amarra ao copo de Toddy da outra, que vem morno e doce – não do peito – mas da cozinha. A primeira troca de fraldas tem um monte de sorrisos pendurados nela. A fraldinha puxa o café que tomo correndo já que tem uma turminha louca para brincar. Mamãe, vamos desenhar? Mamãe vamos montar a casa de boneca? E é no enrolar desse gigante algodão-doce que tenho confeitado os meus dias, pendurada numa roda gigante, num parque de diversões imaginário.

…ai o sino ta tocando – meio-dia, hora do almoço!

Clara, escovar os dentes – vamos correr para a escola

Catarina, agora seu banho – xíí… já está na hora do mingau!

passeio – sol – parquinho – outra fralda suja de cocô?

hora da soneca – mocinha…chegou da rua direto lavar as mãos – hora do jantar

vamos tomar um banho para dormir quentinha? – olha o pijama

Clara, escovar os dentes por favor filha

– quer que a mamãe leia um livro?

e depois cantar todo o repertório de músicas de ninar

boa noite meus anjinhos…

ai que bom que dormiram… finalmente…

Mamãe, traz um copo d’água! Tô com sede!

Meus seios doem.

Mas essa dor que vem do colo é a mais prazerosa das dores humanas. Porque é dor que significa, que se justifica, é dor que enche e esvazia. Que transborda e logo se esvai. Dor que formiga o mais profundo da essência feminina e sua potencialidade selvagem de nutrir um outro ser.

Nunca imaginei que o ofício de ser mãe fosse ser essa experiência tão surreal. Que fosse ser esse sacrifício – esse sacro-ofício. Essa alegria tamanha. Esse milagre que é vivido na intimidade dos dias, na simplicidade lúdica da infância, no compartilhar da melhor e mais autêntica versão que a humanidade pode alcançar vir a ser.

Meus seios doem.

E como não doer, se tudo o que tinha dei em forma de ser?

Doem mesmo porque dói tudo que se refere a essa coisa enlouquecedora que é ser mãe: doem as contrações, dói o parto, doem os bicos que se racham nas primeiras sugadas, doem na pele as horas não dormidas, doem as costas, doem os pontos. Dói o medo de perdê-los, de não compreende-los, de não saber educá-los.

Mas sobretudo, dói a imensidão do amor com que amamos essas criaturas que saíram de dentro de nós.

Férias espetaculares

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Férias é um período mesmo formidável. As crianças passam metade do tempo se divertindo, metade entediadas e as mães passam quase 100% do tempo querendo cortar os pulsos.

Para muita gente nesse mundo, férias é sinônimo de alegria e descanso. Dias deliciosos de repouso, pausa no trabalho, período sem compromisso. Viagens gostosas com a família para um hotel fazenda ou um resort daqueles de revista de viagem.

Não é o meu caso.

Férias no meu dicionário quer dizer: desespero. Um desafio hercúleo onde todas as minhas qualidades são colocadas à prova e todos os meus defeitos são grifados com marcador de texto fosforescente. Cara, eu sou uma pessoa paciente. Sou criativa. Tenho certeza de que sou uma mãe divertida. Mas sem dinheiro, sem empregada e sem ajuda, as férias tem se transformado num período de crises e superações. Vivo a beira de um ataque de nervos. Acordo todos os dias de manhã e me faço sempre a mesma pergunta – parodiando Pink e o Cérebro:

– Tati, o que você vai fazer hoje?

– O que faço todos os dias, tentar divertir minhas filhas.

Claro que as férias de inverno são mais difíceis que as de verão. Mesmo que intermináveis, as férias de dezembro, janeiro e fevereiro tem um poder de transmutação: o calor. Quando a temperatura esquenta, a galerinha vai lá para fora e qualquer programa aquático diverte. Por horas. Mangueira, banho de bacia, piscina, praia! No verão as crianças viram peixe e não se importam com absolutamente nada. Mas no inverno… no inverno a coisa complica. Todo mundo quer ficar entocado em casa, comendo tudo o tempo todo, jogando videogame ou vendo filme. Tudo lindo.  Até bater o tédio. Depois do terceiro filme e da 12ª bacia de pipoca, elas começam a dar curto circuito.

Clara até tenta. Fez uma listinha genial de ideias mirabolantes de coisas para fazer numas férias sem dinheiro, até mesmo a realização de um documentário sobre isso. A listinha tinha de tudo: criar um mapa de tesouros e depois ir atrás deles, vender brigadeiros (sendo que a mamãe faz e enrola claro), fazer um show no condomínio, fazer piquenique no topo do morro, montar uma barraca de lençol e fingir que está acampando, organizar uma festa a fantasia. Mas a melhor de todas foi A Cápsula do Tempo. Ela teve a ideia de produzir uma caixa onde colocaria objetos da nossa época (!) e cartas para gente guardar na caixa e só abrir daqui a 20 anos. Piramos. Ela e Catarina já fizeram as delas. Só falta a minha. Já comecei a carta umas três vezes, mas estou sem saber o que quero dizer a mim mesma quando estiver com sessenta anos. Loucura, gente. Coisa de Amelie Poulain! A questão agora é saber onde vamos enterrar a relíquia.

Não sei, mas nas férias todo o trabalho da casa aumenta tanto… Tudo se multiplica feito “Gremlins” na água. Roupas sujas nos cestos, roupas limpas na corda, sujeira nos cantos da casa, pipocas embaixo do sofá, bonecas saindo pelas gavetas, papeizinhos de BIS brotando do rodapé, essa fome infinita por gulodices, vizinhos entrando pelas portas e janelas buscando diversão na casa da Tia Tati. Ufa. Faço quilos e quilos de feijão mas não dou conta. Fui ao supermercado quase todos os dias, até que a moça do caixa me perguntou assustada com o aumento significativo de comida: mas a senhora não tinha duas filhas? É, mas os amiguinhos delas amam a nossa casa. Ai, ai.

Já fizemos de tudo. Argila, pintura, desenhos com giz, colagens. Peteca, bola, elástico. Jogos, mímicas, bolo de cenoura com brigadeiro. Cuca de banana. Spa. Tratamentos de beleza. Tardes de maquiagem. Filmes de aventura. Filmes de ação. Comédias. Já lemos livros, revistas, almanaques. Wii, Friv e todos os possíveis entretenimentos virtuais. Perdi a conta de quantas amiguinhas já vieram dormir. Já fiz e refiz um milhão de caminhas, um milhão de Toddys, um milhão de pães de queijo e as férias estão longe de terminar.

Tomara que nas férias de verão eu consiga relaxar um pouco. Me divertir mais do que me estressar. E poder entrar de verdade, de corpo e alma, na onda das minhas peixinhas. Não quero ser uma mãe chata, quero ser uma mãe sereia!

Meninas acordando

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De todas as graças que sou abençoada nessa minha vida, uma das mais sutis e maravilhosas é ter a oportunidade de ver minhas filhas acordando todos os dias.

Minhas manhãs são simples e rotineiras. Abro os olhos e a primeira coisa que penso é na sensação estranha de me sentir viva mais um dia. Silenciosamente agradeço por isso e saio espreguiçando meu corpo como se precisasse desesperadamente dizer para ele que o tempo do quentinho da cama acabou. Me levanto, caminho lentamente para o banheiro, faço xixi, escovo os dentes. Depois sigo para cozinha para tomar meu religioso copinho d´água para ver se consigo me acordar por dentro.

Há qualquer coisa de divino no tempo da manhã. Uma luz diferente no horizonte, um frescor de orvalho deixado pela noite, um tom celestial no canto dos passarinhos. Não sei bem o que é. Mas acordar de manhã é como renascer sem ter morrido. Como voltar de uma jornada profunda sem ter partido. É como despertar de sonhos vividos e ter a certeza de que não estávamos lá, mesmo tendo certeza de que estávamos.

Enfim. Ainda na cozinha busco os ingredientes para fazer a poção mágica que desperta minhas bonecas há mais de dez anos: o nutritivo e achocolatado Toddy de todas as manhãs. Preparo a bebida, encho os copinhos do leite morno e doce que elas tanto amam e sigo ansiosa para o quarto delas.

Abro a porta. O quarto está quieto. Geralmente Clara está coberta até a ponta do nariz com o edredom. Catarina está virada do outro lado da cama, toda torta e descoberta. Olho para o rosto delas e percebo a profundidade do sono em que estão. Há um ronquinho no ar. O som de uma respiração que vem lá de dentro do corpinho de cada uma. Por onde andarão suas alminhas? Com o que será que estão sonhando? Me ajoelho perto das duas e começo o processo do despertar cheirando o cangote de cada uma. Cheirinho de Deus!  Tem a mistura do cheiro do xampu, com o perfume do amaciante que está na fronha e o cheirinho da pele delas que mais me parece com um doce de confeitaria.

Da cafungada no cangote, passo para o beijinho de leite – beijo inventado por elas – que é um beijo miudinho e sem som, quase imperceptível a olho humano. Esse beijo dou em todas as partes do corpo que estiverem descobertas… rosto, braços, pernas. Mas quando passo a beijar por cima do pijama, o beijo já pode estalar. Aliás, deve. Quanto mais alto, mais chances tenho de fazê-las despertar. É com os beijos estalados que as coisinhas começam a chegar.

O primeiro indício da chegada é o desejo de espreguiçar. Nesse momento me afasto para assistir a melhor parte do show, quando elas deixam de ser meninas e passam a ser uns filhotinhos, uns bichinhos desses que a gente morre de amor no zoológico quando começam a se espreguiçar. Elas fazem caretas. Soltam gritinhos. Grunhidos. Uma coisa muito deliciosa. Vontade que dá é de sair mordendo.

Os “bons-dias” geralmente saem da boca antes mesmo dos olhos se abrirem. Cada uma traz seu amor e sua doçura na forma com que me reconhecem. “Bom dia, Mamisquilis” diz Clara. “Bom dia, Lindoca” diz Catarina.

Emocionada, corro para abraçá-las como se não as visse há muito, muito tempo e rapidamente me transformo no que elas mais gostam: um enorme puf-mamãe. Elas sobem e pulam em cima de mim. E nos embolamos como se fossemos um corpo só. Como são lindos os olhinhos inchados e remelentos, como são cheirosas as boquinhas com bafo de tigre, como são perfeitos os cabelos enormes e descabelados, como são quentinhos os abraços com braços tão fortes.

Se eu pudesse resumir as partes boas que vivo no cotidiano da minha vida, estas manhãs certamente estariam na lista das mais queridas. É uma benção imaginar que num mesmo dia posso renascer e ver renascer aquilo de mais preciso que coloquei no mundo. Que maravilhoso dia para se ter alegria!

O ungüento das canções de ninar

caderno

Alguma coisa aconteceu ontem.

Tem noites que eu me sinto muito sozinha. O dia vai bem. A manhã passa depressa e a tarde sempre me traz de presente algumas horas livres para escrever. E o dia tem o sol que acaba iluminando as minhas sombras, mesmo as mais sombrias. Mas quando cai a noite eu começo a me sentir muito só. Em outros tempos era a minha hora predileta, justamente o momento em que o sol saía de cena e a lua chegava me trazendo inspiração, quietude, reflexão.

Mas ontem aconteceu alguma coisa diferente.

A lua já tinha me trazido as bonecas da escola, exaustas e famintas e com elas a infinita lista de afazeres que se resumem as nossas noites. Eu sei que sou uma mamãezinha para lá de exagerada, mas fazer o que? Chegaram? Jantar, suco, sobremesa. Banho na primeira. Secar os dedinhos do pé, colocar talco, limpar as orelhas com cotonetes falantes, hipoglós, fralda, desembaraçar o cabelo. Banho na segunda – esse com um tanto de briga claro, para entrar e para sair – coordenar a esponja com sabão, o xampu, o condicionador. Depois outra luta para ensinar como se seca sozinha. Outro pijama, outro cabelo para desembaraçar, unhas compridas para cortar. Hora de fazer as camas. Preparar o quarto para dormir. Ligar o abajur. Sim, o Toddy, que ainda por cima tem que ser quentinho e da cor exata se não o freguês devolve… Finalmente escovar os dentes, passar fio dental. Bochecho, o ultimo xixi e cama. Ufa.

Deitei com elas e de novo me bateu aquela dor no peito. Eu as tenho tão perto do meu coração. A solidão que sinto não tem nada a ver com elas, é comigo. É essa solidão de não poder mais compartilhar esse amor nos moldes que sonhei de família. Quando a gente ama desesperadamente os filhos, precisa muito dividir esse amor. Até porque minhas filhas são duas preciosidades. De pijama então, me deixam louca de paixão. Clara e Catarina. Uma, miniatura da outra. Muitas vezes penso em como posso ter feito coisas tão perfeitas. É demais ver as duas agarradas aos seus respectivos ursos de estimação. Clara com Teddy e Catarina com… Teddynho, claro. Dois ursos iguais, só que de tamanhos diferentes, na proporção certa, para cada uma. São crianças de sonho. Devagarinho as vejo se acomodando entre minhas coxas, colo e os tantos travesseiros macios que estão sobre a nossa cama. Exalam um cheiro doce, puro, divino. De olhos bem abertos, me esperam abrir o mágico caderno das canções de ninar.

Sim, foi através dele que ontem aconteceu alguma coisa diferente dentro de mim.

Sempre cantei para as meninas dormirem. Foi uma tradição que herdei da minha mãe e fiz questão de manter. Nunca esqueci a voz dela me encaminhando devagarinho para o mundo dos sonhos. Só que ao longo dos quase sete anos de maternidade, foram tantas as músicas que acumulei no meu repertório, que comecei a confundir as letras e por isso resolvi fazer um caderno, escrito à mão, com uma caneta roxa de glitter, com cheiro de uva.

Ontem eu cantei o caderno inteiro.

E a cada canção cantada, eu dissolvia um pouco o nó que apertava o meu peito. Foi então que eu descobri que nas canções de ninar existe um ungüento mágico e poderoso. Que o som da minha voz cantando aquelas melodias podia fazer um caminho secreto dentro de mim, me levar por um túnel no tempo, para o melhor e mais iluminado pedaço da minha vida, quando eu era pequenininha e não conhecia a solidão. Foi extraordinário.

Hoje eu não tive receio da noite, nem da falta do sol, nem das minhas sombras. Porque eu sei que existe uma luz dentro de mim que ilumina qualquer medo. E nem precisa ligar o abajur. Basta cantar Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado… o meu amor, que me disse assim, que a flor do campo se chamava alecrim…  

Crescendo

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Foto Clara Meira

Minhas pequenas estão crescendo e cada dia que passa está ficando mais difícil explicar a vida para elas.

As questões estão se aprofundando. As dúvidas se misturando a medos desconhecidos. E por mais atenta que eu esteja, por mais calor que haja em meu colo, não há nada mais apavorante do que descobrir a efemeridade da nossa existência.

Minha avó paterna partiu há alguns dias. Minha avó materna está morrendo. E o assunto da morte invadiu nossa casa com a força de um furacão. Foi preciso uma rodinha no chão de mãos dadas, um minuto de silêncio e um pequeno altar no centro da nossa mandala de perninhas cruzadas – com flores, incensos e velas – para eu ter coragem de começar a falar sobre o assunto.

A vida é estranha e maravilhosa. Daqui nada levamos a não ser o amor que amamos. As relações que conseguimos construir, o bem que fazemos aos outros. Mas se temos uma missão a cumprir, estaremos vivos até que essa missão se cumpra. A morte é só uma parte dessa jornada que a gente vive. Somos energia como a luz da lâmpada, só que no nosso caso, essa energia ilumina nosso corpo e dá força para gente falar, pensar, comer, viver. Para fazer com que a gente experimente estar aqui nesse planeta – nesse mundo cheio de gente – preparados para fazer um monte de coisas legais. E as coisas não tão legais a gente vai aprender a desviar. Só isso. A vida é uma experiência.

– Mas e quando um bebezinho morre mamãe – diz Catarina, como pode alguém ter uma missão tão pequena?

A vida é estranha e maravilhosa. E cheia de mistérios e perguntas que jamais serão respondidas. O que a gente precisa é ao longo da vida, ir entendendo aquilo que nos ajuda a viver. E ter uma bolsinha mágica cheia de formas para gente conseguir lidar com o mundo. Mamãe por exemplo, não gosta de meditar, rezar e cantar esses mantras engraçados? Essas coisas estão na minha bolsinha. Porque me ajudam a caminhar sem medo. A ter confiança. A entender que mesmo sem explicação, a vida é estranha e maravilhosa.

Minhas filhas estão crescendo. Mudanças estão acontecendo em seus corpinhos e em suas almas. Até o amor começa a surgir de uma forma diferente para elas. Clara me faz perguntas complexas sobre ele. Como explicar que o amor é sublime, mas também pode machucar? Como se prepara alguém para o caminho do amor compartilhado? Não há fórmula segura para a mais sagrada das experiências humanas. Mas isso eu não vou poder explicar para elas. Elas terão que descobrir sozinhas.

Catarina anda muito ansiosa. “Estou confusa, mamãe. Porque quero tanto da vida, quero tantas coisas ao mesmo tempo. Minha cabeça está cheia e eu não consigo relaxar.”

Ah se eu tivesse descoberto as lições de Eckhart Tolle aos seis anos de idade não teria em meu currículo nenhuma crise de ansiedade ou pânico. E mando na lata, amando a ideia de ter pelo menos uma solução para um probleminha seu:

Filha, eu vou te ensinar um segredo que vai te ajudar para o resto da vida. Não existe de verdade nada além do que a gente está vivendo agora, como por exemplo, essa conversa que a gente está tendo. Ou o sorvete que você tomou agora há pouco. O que aconteceu ontem e o que pode acontecer amanhã não importa muito. Só o que existe de verdade verdadeira é esse momento de agora, que a gente vive no presente.

“Por isso que você vive dizendo que o presente é um presente, mãe?”. Isso aí, pequena. Isso aí. A gente acha que é complexo e que eles não vão entender… Mas eles entendem. Entendem tudo. Em profundidade.

Minhas filhas estão crescendo. E os pesadelos estão cada vez mais constantes, assim como as perguntas e as incertezas. Como explicar a estas duas pequenas criaturas que infelizmente não há nada que extinga o nosso imenso vazio existencial? E que esse mistério faz parte do pacote e por isso a vida é estranha e maravilhosa? Elas já sabem que há dentro de cada um de nós um enorme buraco. E que a gente vai passar a vida tentando preenchê-lo de alguma forma. Buscando uma vida legal, amando e respeitando os outros, construindo um mundo que seja de verdade para gente morar. Não há dúvida que existem um milhão de formas de ir preenchendo esse buraco. E é esse o esquema mágico que eu preciso aprender com elas, quer dizer… que eu preciso ensinar para elas.

Minha menina do arco-íris

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Minha pequena acordou triste hoje.

Tomou café e ficou quietinha num canto da casa, sem sorrir, sem fazer bagunça, com o olhar perdido em algum lugar. Perguntei uma, duas, outras tantas vezes o que tinha acontecido para ela ficar tão triste. Ela não sabia responder.

Desmarquei todos os meus compromissos. Disse para ela: Hoje você vai passar o dia comigo, mocinha. Ela levantou os olhinhos e sorriu. Um sorrisinho mixuruca, mas sorriu.

Fomos ao cinema, comprei pipoca gigante, balinha, chocolate. Depois saímos de lá e ela se queixou de dor na barriga. A levei de cavalinho pelo shopping até uma sorveteria. Como eu imaginava – ela estava com dor – mas não tanta dor a ponto de negar um sundae.

Mamãe, quero ir para casa.

Fomos. Chegando ela se deitou na cama e continuou quieta. Comecei a ficar realmente preocupada. Tirei do coração uma última cartada para tentar alegrá-la. Já sei filha, vamos desenhar…

Peguei um monte de papel, lápis de cor, pilot, meu super bloco de papel canson, e sim… meu adorável estojo de giz de cera pastel que ela adora. Sentamos juntas e começamos a desenhar. Em silêncio. Eu tinha certeza de que alguma coisa ia acontecer ali. Ou ela ia se abrir comigo ou os próprios desenhos iam me dizer alguma coisa sobre o que estava acontecendo.

Devagarinho, ela foi puxando papo. Gostava mais de falar mal dos meus desenhos do que de prestar atenção nos dela. Começou a rir das coisas horrendas que eu desenhava. Até que disse baixinho: Mami, desenha um arco-íris vai… é o que você faz de melhor…

Obedeci imediatamente. Peguei as cores no giz pastel, separei uma folha em branco e reparei que ela fez o mesmo. Então juntas começamos a desenhar, cada uma, o seu arco-íris. Óbvio que eu não agüentei e comecei a cantarolar somewhere over the rainbow… e ela comigo… até que me deu uma coisa e eu disse: Quer saber? Vamos fazer esse arco-íris nas nossas paredes filha! Você no seu quarto e eu no meu.

Foi então que a mágica aconteceu.

Coloquei para tocar bem alto a música para que as duas ouvissem, cada uma em seu espaço. Ela lá projetava fervorosamente suas cores. E eu, cá no meu canto, pintava o meu arco-íris assistindo emocionada o que acontecia com ela. Minha pequena foi se transformando em luz em cada cor que pintava na parede. Do roxo para o vermelho, uma risadinha. Do vermelho para o laranja um grito: como é que tá indo aí? Do laranja para o amarelo ela veio correndo e me deu um beijo. O seu tá lindo, mãe! Do amarelo para o verde… uma gargalhada… a gente tá ficando toda colorida filha… do verde para o azul, ela começou a assobiar no quarto. Cheguei devagarinho e a vi, parada em frente à sua majestosa obra de arte, de olhos brilhantes e a alminha lavada.

Foi quando ela me viu na porta, correu pra me abraçar e disse: Mãezinha, põe a música de novo… vamos dançar?

Adeus, Zizi

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Vó,

Se eu agora fechar os olhos posso me transportar para um fim de tarde de chuva na sua casa em Teresópolis, onde eu pequenininha deitava na rede da varanda e ouvia por horas e horas a fio você tocar seu amado piano. Me lembro como se fosse hoje a sensação de plenitude que eu sentia naqueles momentos mágicos ao teu lado. Me lembro do som da chuva se misturando às notas melódicas das suas canções, me lembro do cheiro da terra que brotava daquela imensidão verde de mato molhado, me lembro da emoção que me causava aquele conjunto perfeito de impressões do mundo… onde tudo, tudo fazia sentido e eu me sentia tão perto de Deus.

Minha avó querida,

Você ontem conseguiu partir, depois de longos nove meses de sofrimento no hospital. Finalmente pode iniciar sua jornada pelo caminho azul, como dizemos no xamanismo. Depois de noventa e três anos de luta pelo caminho vermelho – o caminho da vida – ontem você conseguiu finalmente fazer sua passagem e atravessar para o outro lado do rio. Estou feliz por você, querida. Estamos todos aliviados por saber que não vai mais precisar sofrer.

Hoje estou aqui mergulhada em memórias e não consigo parar de pensar na saudade que sinto de você, Negucha. Saudade que sinto há mais de vinte anos, vó. Mais de vinte anos. Nós morremos uma para a outra no dia que olhou nos meus olhos e não me reconheceu mais. Há mais de vinte anos que estamos todos te perdendo um pouco a cada dia. Te perdendo para essa doença injusta e ingrata. Te perdendo na névoa das tuas próprias lembranças. Não há nada mais doloroso do que perder uma pessoa em vida. Foram anos duros. De muito sofrimento, provações, perdas e saudade, muita saudade.

Mas hoje, hoje eu só conseguia lembrar de você e da sua elegância, do seu perfume, dos kaftans que usava com aqueles chinelinhos de salto. Você foi a pessoa mais elegante que já conheci, vó. Elegante e prafrentex. Me orgulhava em dizer para os amigos na escola que minha vó tinha se divorciado numa época que ninguém se divorciava e tinha sido o braço direito do advogado mais poderoso de São Paulo! Pensar que hoje ele é considerado o maior escritório de advocacia da América Latina e que vocês começaram juntos, na época da guerra, quando ele te contratou como datilógrafa aos dezoito anos de idade… A vida é estranha e maravilhosa, não é querida? Posso apostar de que foi ele que te recebeu no céu. Estou certa?

Perdi a conta da quantidade de vezes que fomos te visitar no Vale São Fernando, mamãe, Manô e eu, naquele possante Fiat 147 amarelo. Lembra disso? Eram finais de semana de muita comilança, filmes, sol na piscina no verão e histórias deliciosas no inverno, pertinho da lareira. A mesma que guardava pendurada as minhas preciosas meias de natal. Não havia nada mais extraordinário em dezembro do que descer as escadas correndo de manhã para ver que tipo de doces tinha deixado o Papai Noel na madrugada anterior.

Mas eu cresci e me tornei uma adolescente solitária e muitas vezes preferi passar o fim de semana com você do que com qualquer outra pessoa. Eu pegava o ônibus na rodoviária do Rio e você me buscava na rodoviária de Terê. Lembra? Eu entrava no carro, te dava um abraço apertado e seguíamos caladas os longos quilômetros que separavam a cidade do Vale. Nós nos entediamos em silêncio. Nos amávamos em silêncio. Você me ensinou tantas coisas sobre a vida. Sobre música, sobre arte, sobre a solidão.

Hoje passei o dia contigo, vó. Celebrando aqui dentro da minha alma todos os momentos maravilhosos que vivemos juntas. E o que fica é um enorme sentimento de gratidão por ter podido durante alguns anos da minha existência, partilhar contigo, a tua luminosa existência.

Que minhas palavras possam voar com o vento e chegar até o céu. Onde quer que você esteja tenha certeza do quanto foi amada.

E quando for o dia da minha partida, por favor Zizi, venha me buscar.

Com todo o amor,
para sempre
da sua neta
Tati

A vida, como ela pode ser

freehugs

Vinha andando distraída pela rua, paquerando de longe a barraquinha de milho verde, quando dou de cara com um bando de mímicos, em plena Praça General Osório às seis horas da tarde. Eles pulavam de um lado para o outro, abordando as pessoas com um simples cartaz que dizia:

ABRAÇOS GRÁTIS

O pessoal que vinha na minha frente começou a resmungar. Uma senhora correu para atravessar a rua mesmo com o sinal aberto. Um homem com raiva deu meio volta e pegou a direção contrária do que ia.

Eu abri logo um sorriso. Essa eu não podia perder. De longe, abri os braços para uma moça magrinha que tinha um sorriso gorducho. Ela de longe, fez o mesmo movimento que o meu. Quando nos encontramos, ali no meio da rua, nos abraçamos como se fossemos velhas conhecidas. Ficamos assim um tempão. Foi quando ela me disse baixinho no ouvido:

Ô minha filha, Deus te abençoe.

E eu pensei comigo: está acabando de abençoar!

Lóbulos

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Eu tenho paixão por lóbulos.

Não sei de onde vem esse amor, mas é uma coisa muito esquisita. Pessoas reparam em dentes, olhos, peitos, bundas. Eu reparo em lóbulos.

Nunca me esqueço do lóbulo de um senhor que vi uma vez no metrô. Dizem que na velhice nossas orelhas crescem. Mas na verdade o que acontece é uma flacidez da pele que acaba causando um alongamento do tecido. Eu pesquisei sobre isso. Justamente naquele dia que fiquei hipnotizada com o maior lóbulo que vi na vida. O velhinho era do tipo Papai Noel: gordinho e fofinho. Tinha os cabelos brancos, um sorriso largo e umas orelhas grandes. Mas os lóbulos… os lóbulos eram como almofadas penduradas nas orelhas. Uma imperfeição extraordinária. Macios, vermelhos e gordotes. Tive que me controlar. Afinal de contas, minha paixão não se limita a admirar, o que eu quero mesmo é morder. Se aquele velhinho fosse meu amigo eu certamente teria lhe pedido para dar uma mordida.

Ainda bem que tenho filhas que me deixam morder seus lobulinhos. Todas as noites elas rolam de rir desse estranho hábito da mamãe. E adoram. Tomara que me deixem fazer isso até ficarem velhinhas.

Caravana urbana

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Transportes coletivos são uma experiência antropológica fascinante.

Um laboratório perfeito para observação e tentativa de compreensão dos costumes humanos. Tem muita gente que detesta pegar ônibus e metrô. Eu adoro. É o único lugar onde a gente tem a chance de viver determinadas situações. É claro que eu prefiro metrô. Os ônibus no Rio de Janeiro são calorentos, barulhentos e fedorentos. Muitos “entos” para uma coisa só. Já metrô é outra história. Tem ar condicionado, é mais seguro, confortável e ainda por cima tem aquela musiquinha ambiente nas estações. E a pinta de trem europeu. Acho chique. É o meu favorito.

Já vivi de tudo no metrô.

Outro dia peguei o trem na Carioca para ir à terapia. Faço uma jornada para ir até lá – já que moro em Niterói e a terapia é na Tijuca – e por isso tenho que pegar ônibus, barca e metrô. Faz parte do processo. A estação da Carioca geralmente está cheia, a qualquer hora do dia. Só que nesse dia, não sei por que, a coisa tinha colapsado. Gente saindo pelo ladrão. Para sair e para entrar. O que eu acho curioso é a postura das pessoas diante da epopéia para se entrar no vagão. Não, porque elas não estavam entrando. Estavam se encaixando, como sardinha em lata, espremidas umas pelas outras, desesperadas em não perder a viagem. E o pior… agindo normalmente diante daquela situação medieval. Gente, o que é isso?

Eu fui, mas fui porque estava muito atrasada. Só que na hora de entrar, fui imprensada entre vários corpos. Pronto, bastou a porta fechar para me dar uma vontade desesperada de rir. Vejam bem: na minha frente, grudado no meu nariz, estavam os peitos gigantescos de uma negona, trabalhados num decote sensual e abundante. À minha direita, a catinga inebriante de um sovaco cabeludo de um ser com camiseta cavada. À minha esquerda, um executivo seríssimo de paletó e gravata e atrás, bem atrás de mim – grudado na minha bunda – um velhinho desdentado para lá de safado que não parava de me sarrar. Não dá para se levar a sério uma situação dessas.

Tá, eu sei que a ocasião faz o ladrão e que 90% das pessoas ali não tem escolha. Mas o que me choca é como que as pessoas reagem àquela situação. É surreal. De repente, se cria entre elas uma intimidade forçada. Elas estão grudadas umas nas outras, cafungando o pescoço de um, encostando suas partes íntimas no outro, num amasso grupal sufocante, onde não há como fugir. É uma catarse comportamental. Um apogeu sensorial. E todo mundo vivendo isso com cara de pudim. Como é que pode?

Já vivi coisas extraordinárias no metrô.

Uma vez uma moça começou a explicar para a vizinha ao lado, sua amiga, como se fazia um ensopadinho de frango com ervas. Nos mínimos detalhes. Só que eram seis horas da tarde e provavelmente 99% das pessoas ali estavam famintas. Eu reparei. As pessoas começaram a olhar para ela e imaginar cada um daqueles sabores… e a sentir o cheiro da cebola que você frita no azeite, depois coloca o frango… nossa senhora! O povo ficou desesperado com o relato. Teve gente até babando.

Em metrô se ouve de tudo. Não é só receita não. Há discussões filosóficas, políticas, religiosas. Casal discutindo relação. Gente contando segredo achando que não tem ninguém ouvindo. E a diversidade de cheiros? Sentar do lado de alguém cheiroso para mim é quase como ver arco-íris depois da chuva, uma loteria. Adoro. Fico lá curtindo aquela paraíso e por dentro agradecendo o bom gosto do vizinho. Mas nem sempre tenho essa sorte.

Com o olfato apurado que tenho, faço viagens que são um verdadeiro tormento. Sinto de longe os sovacos vencidos, os bafos matinais, a calça jeans do menino que não secou direito, a naftalina no casaco da velhinha. Mas é claro que não há nada, absolutamente nada pior, do que quando alguém solta um pum.

Eu vivi uma catástrofe dessas outro dia.

Estava presa entre quatro corpos quando senti um ventinho nefasto vindo debaixo. No primeiro momento me deu uma onda de enjôo. Depois quis olhar bem para cada um dos suspeitos do crime. Mas não adiantou. Depois do pum, cada um olhou para um lado. Tipo “não estou sentindo nada”. O bom é que do enjôo e da raiva, eu pulei logo pro estágio divertido que é a vontade incontrolável de rir. Quem sabe um dia, eu ainda consigo ter a cara de pau de perguntar bem alto para todo mundo ouvir: “Pessoal, fala sério, quem peidou?”

Mas o melhor que se pode viver dentro de um metrô é uma paquera. Uma paquera inesquecível.

Ele tinha o braço todo tatuado, mas o que me chamou a atenção no desenho era o Buda, colorido e sorridente, perto do cotovelo. Estávamos todos em pé, segurando aquela barra de metal entre as saídas do vagão. Eu, ele e mais umas quatro pessoas. Nossos braços, esticados, formavam uma flor humana perfeita. Eu olhei para ele. Ele me olhou. E como nas frações de segundo mágicas que acontecem às vezes, naquele instante, nos encantamos um pelo outro. Só pelo olhar. Só por todo o universo existente em cada um de nós que trocamos naquele olhar. Essas coisas difíceis de explicar.

Ele não era bonito. Meio baixinho. Provavelmente, tinha acabado de sair do banho, porque os cabelos – bem pretos, encaracolados – ainda estavam molhados. Aquela primeira olhada tinha me gelado por dentro. Isso é curioso numa paquera. Milhões de pessoas trocam olhares por dia em todas as estações de metrô do mundo. Porque às vezes a gente olha para uma única pessoa e sente um troço esquisito por dentro? Tomamos coragem e nos olhamos de novo. Dessa vez por uns segundos a mais. Pronto. Foi o que bastou para eu ficar mole. Meu coração agüenta pouco esse tipo de emoção. Fora que eu fico meio envergonhada com a platéia. A flor de braços já tinha sacado nossos olhares. Óbvio! Tava saindo faísca. Peguei o celular para disfarçar. Ele fez o mesmo. Pensei comigo: que pena que não existe um bluetooth automático para se captar o telefone do vizinho… Ele deve ter lido meu pensamento, porque sorriu na mesma hora. Um sorriso Colgate, cheio de dentes lindos e brancos. Olhamos para o chão. Depois para o céu, para todas aquelas estrelas que tinham surgido ali sobre nós dois. Mais uma estação se passou. De repente, ele me olhou sério como se quisesse me dizer qualquer coisa. O trem parou e ele foi se distanciando de mim. Quando eu vi, já estava do lado de fora do trem. A porta fechou e a gente continuou se olhando. Se despedindo pelos olhos, como se fossemos um casal apaixonado que está se separando pela primeira vez.

Foi quando eu ouvi a voz de um senhor que estava na minha frente dizer: deu bobeira menina, devia ter saltado com ele e trocado telefone. Olhei bem para cara do sujeito sem acreditar no que ouvia. Será que eu tava sonhando? Nunca esqueci aquele dia. E se ele fosse o amor da minha vida?

Surreal? Não. Isso é coisa de quem freqüenta caravana urbana.