Cabelos brancos

cabelobranco

Tenho fascinação por gente idosa. Uma admiração mesclada com respeito tão forte, que quando cruzo com algum velhinho na rua, a vontade que sinto é de lhe fazer uma reverência. Olho impressionada para aquele ser que passa e me pergunto há quanto tempo estará ele caminhando. Quanta vida não viveu, quantos problemas enfrentou, em quantas encruzilhadas não deve ter sofrido a dura tarefa da escolha. Não estou falando de meses nem anos. Falo de décadas. Experiências profissionais. Emocionais. Casamentos. Filhos. Viagens. Perdas. Frustrações. Meu Deus! Eu tenho 33 anos e as vezes me sinto tão cansada. Imagine se eu viver até os 99? É toda a minha vida, mais o dobro de tudo que vivi. Considerando que os primeiros anos foram só diversão, 66 anos pela frente me parecem uma história sem fim.

Outro dia cruzei na rua com um senhor que já devia ter seus oitenta e tantos anos. Vinha de bengala e caminhava com calma e elegância. Tinha a cabeça toda branca e estava muito bem vestido. Olhou para mim, abriu um enorme sorriso, me cumprimentou com um educadíssimo “boa tarde” e seguiu em frente – se tivesse um chapéu certamente o teria tirado da cabeça. Fiquei com tanta vontade de convidá-lo para tomarmos um chá… Imagina quantas histórias maravilhosas não terá esse homem para contar? Que diferencial tem esses cavalheiros… Meu feminismo vai por água abaixo quando um homem me abre a porta do elevador ou me cede o lugar para sentar. Me sinto uma dama. E me derreto com essa gentileza que os homens da minha geração perderam.

A questão é que não posso ver um ancião sem considerá-lo um verdadeiro herói. Um guerreiro espiritual. Um coração batendo, ininterruptamente, durante toda a existência! Já imaginou o que é isso? Deve ser muito difícil para um pessoa que nasceu com os bondes ver o mundo do jeito que está. Eles foram espectadores de muita degradação e não puderam fazer nada. É claro que a modernidade trouxe muitos benefícios para a humanidade. Mas imaginemos como deve ser estranho aos olhos de quem já viveu quase um século, toda essa espantosa transformação da realidade. O caos se instalou muito rapidamente. O universo dos meus avós era completamente diferente do que vivemos no presente. É como se eu vivesse hoje e velhinha estivesse no cenário de Blade Runner. Nada simples.

A proximidade da morte também não deve ser fácil. Não ter todo um futuro pela frente. Estar na tal fase de descida da vida. Não gosto dessa imagem de subida e descida. Prefiro pensar na metáfora de uma escada que se sobe a vida toda e que quando acabam-se os degraus, é sinal de que chegamos. Seja lá onde for. Chegamos.

Eu vou gostar de ser velhinha. Ter uma vida toda de histórias para contar. Filhos e netos para amar. Amigos de toda uma vida que também estarão velhinhos como eu. Não quero fazer plástica a não ser que minhas pálpebras estejam me impedindo de continuar a ver o mundo. Idealizo minha velhice como um tempo de calmaria interior. Uma serenidade que tomou o lugar da ansiedade que quase me matou na juventude. Um tempo de ter mais tempo. Ou ao menos, uma relação diferente com o tempo. Curtir o sabor divino da sabedoria. Olhar no espelho minhas rugas e ter a certeza de que tudo que fiz, fiz da melhor maneira que pude.

 

O Capô da Sorte

capo

É o capô do meu carro que tem me devolvido a esperança na raça humana.

Há uns meses atrás, num trânsito tartaruga na Lagoa, bati a 20 por hora no carro de um velhinho. Fiquei para morrer. Foi um baita susto para mim, imagine para ele. Desci correndo para me desculpar. Sou daquelas que assume a culpa imediatamente mesmo se não tenho culpa de nada. Nesse caso tinha. Bati porque Catarina tinha dado um grito, eu tinha levado um susto e intuitivamente, tinha olhado para trás. Em um segundo, o carro da frente freou e o meu entrou na traseira dele. É mais ou menos assim que as coisas acontecem.

Graças a Deus no carro do velhinho não tinha acontecido nada. Só a esposa dele que tinha ficado meio pálida com o tranco. Pedi mil desculpas. Expliquei da Catarina. Perguntei se estava bem. Ela acabou sendo gentil com a minha gentileza de ir até lá pedir perdão. Fez um pequeno sermão de como, em hipótese alguma, devemos olhar para trás enquanto as crianças falam, gritam ou brigam. Tudo deve ser feito pelo espelho retrovisor. Me perguntei se ela teria filhos. Provavelmente não. Mas ouvi resignada. Era o mínimo que podia fazer.

A princípio meu carro parecia ter saído intacto da colisão. Também tinha ficado trêmula, mas pensar nessa despesa, me fazia tiritar. Foi quando ouvi a primeira buzinada frenética do carro ao lado dentro do Túnel Rebouças. Era um homem gritando que o capô estava aberto. Assim que vi um posto, parei. O frentista abriu, analisou e deu o diagnóstico. Tá fechando senhora, mas o capô empenou. Que saco.

Na semana seguinte levei ao mecânico. O orçamento parecia piada. Mil pilas só para desamassar. Tadinho do Billy – esse é o nome do nosso Uno, Billy Ray – talvez numa outra vida eu fosse consertá-lo. O que eu não previa era que o não-conserto do capô fosse me comover tanto.

Passou a ser uma rotina nas nossas vidas. Já temos um discurso pronto. Em média, mais ou menos umas cinco pessoas por dia, nos avisam aflitivamente da abertura do capô. Se por acaso eu vou mais longe, essa estatística dobra.

A solidariedade das pessoas é uma coisa extraordinária. Elas não deixam passar. Tem gente que buzina, grita, acena com os braços, reduz a marcha, abaixo o vidro do carro correndo, faz de tudo por uma comunicação imediata. A abertura de um capô de carro em movimento pode se transformar num acidente fatal. E é isso que deixa todo mundo de cabelo em pé.

Clara e eu colecionamos sorrisos para essa gente bacana. Sou eu que costumo falar, mas às vezes ela se antecipa. Coloca a cabecinha para fora, espera o recado e com o sorriso mais lindo do mundo, tranqüiliza a pessoa. Se preocupa não, moço. Tá empenado. A gente espera o alívio do vizinho e agradece o aviso. Até Catarina já decorou o discurso.

Eu não consertei o Billy por fala de dinheiro. Agora é a gente que não quer mais consertar. É um presente assistir de perto, todos os dias, a sorte batendo no nosso capô.

Simpatia é Amor

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Eu estava na fila do banco. Fila de banco geralmente é um lugar perigoso. Se você der mole, pode levar uma mordida de alguém. As pessoas, que estão sempre com pressa, na fila do banco estão insuportavelmente apressadas. Bufam de minuto em minuto a impotência de não poder fazer nada contra o tempo que corre e a fila que não anda.

Eu, que não sou boba nem nada, sempre levo alguma coisinha para ler. Não sei se para me entreter ou se para me salvar do mau humor do vizinho ao lado. A questão é que nesse dia eu estava lá na fila do banco e mesmo tendo em mãos um artigo interessantíssimo sobre formigas para ler, de tempos em tempos, levantava a cabeça para observar as pessoas. Se tem uma coisa que eu adoro fazer é observar as pessoas. Nos mínimos detalhes. E quando tenho tempo, ainda invento uma história para cada um. Pois bem. Nesse dia enquanto eu levantava a cabeça, a moça que tava na minha frente na fila, se virou e olhou para mim. Trocamos rapidamente um olhar e do nada – do nada mesmo – ela me abriu um sorriso enorme, desses que tem dentro um sol inteiro brilhando.

Aquele sorriso me derreteu. Inundou minha alma de um sentimento tão puro, tão profundo, que eu devolvi a ela o melhor sorriso que podia, o maior que tivesse no meu repertório de sorrisos. E naquela fração de segundos ficamos daquele jeito, trocando uma espécie de amor incondicional, que só existe em gente que tem a capacidade de amar dentro de peito.

De todas as qualidades do ser humano, simpatia ainda é uma das que mais me espanta. Tenho verdadeiro fascínio por gente simpática. Porque é tão genuíno. Tão gratuito. E ao mesmo tempo tão generoso.

Depois que a moça se virou, eu fiquei olhando de rabo de olho para ela. E pensando, o que faz uma pessoa ser assim? Educação? Índole? Temperamento? Será que as pessoas que são sempre simpáticas estão obrigatoriamente de bem com a vida? Não creio. Me lembro de uma vez ter ouvido um dos elogios mais sinceros que já ganhei na vida. Foi de um porteiro, o Luis. Ele disse assim: “Dona Tati, faça chuva ou faça sol, está sempre sorrindo. Eu sei que tem dias que a senhora está triste. Mas mesmo triste, tem sempre um pouco de doçura para nos dizer bom dia.” Quem agüenta com uma coisa dessas? O dia que ouvi isso do Luis tive vontade de chorar.

Acho que simpatia é uma coisa que a pessoa nasce com. Não é nada que se possa adquirir com o tempo ou moldar na própria personalidade por simples desejo. Simpatia é um dom. Uma dádiva concedida pela natureza que se espalha pelo mundo por absoluta osmose comportamental. O que faz uma pessoa assobiar na rua? Dar passagem para você entrar primeiro? Te abrir a porta do elevador – e mesmo que esteja no fim de um dia muito difícil, ainda assim – lhe dar um boa noite sonoro e verdadeiro? O que faz uma pessoa, mesmo sem te conhecer, te oferecer um sorriso ou uma ajuda para qualquer coisa que seja?

Simpatia que é prima da gentileza que é prima do amor. Tá tudo no mesmo pacote. Queria oferecer essa crônica àquela moça da fila no banco. Que eu nunca mais vou encontrar, nem sequer esbarrar. Mas que me ensinou profundamente o valor que a vida tem, quando a gente oferece ao outro, o sol que brilha dentro da gente.

Seres marginais

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Ele vinha solitário caminhando pela estação das barcas. Não parecia alegre nem triste. Nem disposto nem cansado. Vinha. E ninguém percebia sua presença. Estava ali, pelo simples acaso de existir, marchando em direção a lugar algum, provavelmente em busca da única coisa que lhe apaziguaria a alma: um restinho de comida qualquer.

Não sei por que as pessoas têm tanta dificuldade de conviver com seres marginais. Não os marginais fora-da-lei, mas aqueles que estão à margem da sociedade. São sempre escorraçados. Mal tratados. Desrespeitados. E o pior é que no fundo, só desejam o ser e o estar invisíveis para justamente não incomodar ninguém. Coitados. Sempre incomodam.

Bom, mas nesse dia, a minha alma justiceira se inflamou na estação das barcas justamente por causa de um ser marginal. No caso, um pombo cinza desses que todo mundo não quer nem passar perto. O pobre estava quieto, lanchando seu biscoitinho num canto, quando veio um sujeito do nada e lhe deu um chute, sem dó nem piedade. Quando vi a atrocidade, saltei para cima do cara como quem parte em defesa de um filhote. Com o coração aos pulos, perguntei aos gritos pro malvado: “Vem cá, o senhor tá maluco? Enlouqueceu?” Ele tava com cara de quem tinha bebido. Com os olhos vermelhos, meio esbugalhados. Esquisito que só. Demorou um tempão para entender minha pergunta.

Mas eu não me intimidei. Fiquei ali parada em frente ao homem, corajosa e feroz, esperando qualquer resposta que fosse para o crime. Me sentindo o Robin Hood das aves. A Evita Perón dos despenados. Mas é claro que o cretino não conseguiu me responder nada. Ficou me olhando com cara de basbacão depois saiu resmungando uns palavrões até desaparecer na multidão.

Procurei meu amigo para ver se precisava de socorro, mas o infeliz já tinha partido. Eles podem ser pacíficos, mas não são bobos. Sinceramente, o que é que leva uma pessoa a dar um toco num pombo? Provavelmente a mesma coisa que leva uma pessoa a colocar fogo num mendigo. Taí. Coitados dos pombos. São a classe-mendigo das aves. Tudo bem, eu sei que eles transmitem doenças e isso já está arqui-comprovado. Mas por isso a gente extermina a espécie feito barata? Trata os pequenos como a verdadeira escória avícola?  E não é justamente o pombo o símbolo da paz?

Será que as pessoas sabem que os pombos tem uma perspectiva de vida na cidade de cinco anos e no meio da natureza de quinze? Será mesmo que elas acham que eles gostam de viver aqui e serem enxotados o tempo todo? Caramba. Aposto que ninguém sabe que os pombos são umas das únicas espécies de aves que formam um par a vida toda. E que quando vieram para o Brasil – eles são de origem europeia, imagine – foram trazidos nos navios portugueses para serem servidos de alimento para a tripulação.

É minha gente, antes de ser considerado uma praga urbana, neguinho comia pombo ensopadinho, igual galinha. Acho-te uma graça.

 

 

O pentelho voador

mosquito

Poucas coisas nessa vida me tiram do sério. Inseto é uma delas.

Minha vida nova na casa nova é um paraíso. Apartamento térreo, predinho de quatro andares. O lugar é um sonho. Estou onde sempre sonhei estar. Num lugar tranqüilo, silencioso, rodeada de árvores por todos os lados, convivendo com passarinhos, corujas, flores de todas as cores… e insetos. Muitos insetos.

Tudo nessa vida tem um preço. E já tem um bocado de tempo que eu aprendi essa lição. Mas há alguns dias, quando completei um mês de vida na roça, tive meu primeiro surto psicótico no adorável condomínio de Bosques de Pendotiba.

Tudo por causa de um microscópico mosquito.

Gente, o que é um ser humano, adulto e inteligente, travar uma batalha de titãs com uma criatura ordinária como o mosquito? Foi uma cena patética.

No entardecer, é preciso fechar todas as janelas porque é no lusco-fusco, a hora em que os mosquitos procuram abrigo. Ok. Mas nossa… eu estava apaixonada pela brisa fresca que adentrava minha bucólica janela, iluminada pela lua cheia daquela noite. Pensava comigo no quão privilegiada era minha nova existência, ali deitada, no lugar mais calmo do planeta. Estava quase pegando no sono, quando ouvi o primeiro rasante da criatura no meu ouvido. Arrancada do momento mágico que antecede nosso primeiro soninho da noite, abri os olhos e pensei: “Cara, não acredito que tem um mosquito no quarto.”

Silêncio. Voltei a olhar para lua e a pensar que no fundo, estava tudo bem. Mosquitos fazem parte desse lugar encantador. Então, vagarosamente fui deitando na cama de novo, pesando a cabeça no travesseiro macio, quase embarcando na jangada dos sonhos, quando…

Zzzziiuuummmmm

Respirei fundo. Tentando me controlar, levantei devagar e fui fechar um pouco a janela. Voltei. Deitei. Outro rasante. Só que dessa vez do outro lado, no outro ouvido. Pronto. Agora eu tinha ficado irritada. Permaneci na cama imóvel e de olhos bem abertos, tentei adivinhar o próximo movimento do pentelho voador. Outro rasante. Foi quando eu dei um pulo da cama, acendi a luz e gritei para as paredes: “Cadê você seu desgraçado!”. Abri correndo o armário, peguei a raquete, liguei no ON e gritei de novo, para quem quisesse ouvir, provavelmente de olhos bem arregalados: “Agora eu quero ver você vir para cima de mim, seu mosquitinho de merda… vem! Vem que eu vou te fritar de uma vez só! ”

Louca. Louca. Louquinha de pedra.

Foi quando começou a guerra. A ridícula guerra entre um gigante e um micróbio. Corri atrás dele uns bons segundos até conseguir, numa jogada de mestre, incinerar o pobre coitado. Um cheiro de defunto invadiu o ar. Olhei o corpinho da coisa pulverizada no chão. Uma meia perninha. Um pedaço da cabeça. Senti culpa. Não pelo mosquito, que tem vida curta mesmo e nem merecia viver depois de me atormentar tanto. Mas culpa pela dimensão do prazer sádico que me deu ver aquela morte. Olhei para raquete e pensei: isso aqui é uma arma carniceira. Um jeito bem esquisito da gente entrar em contato com a nossa sombra mais maquiavélica.

Ainda bem que poucas coisas nessa vida me tiram do sério. Caramba.

Experiência de amor

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Outro dia fiz uma viagem extraordinária na hora de dormir.

Foi só fechar os olhos que vi minhas duas pequenas, encolhidinhas na cama dormindo na maior tranquilidade do mundo.

Aproveitei a visão e dei um beijo de boa noite em cada uma delas. Daí lembrei dos meus sobrinhos, que dormem lindos de boca meio aberta, e imaginei os dois, cada um em sua cama, já adormecidos. Senti um amor profundo por eles dentro de mim, como se fossem meus filhos.

Então de repente, me deu um impulso de sair voando por aí, visitando pessoas da minha família, amigos pelo mundo, fazendo na verdade uma jornada interna, lembrando de todas as pessoas que eu amava e sentia saudade.

A experiência foi incrível. Porque consegui visualizar todas as pessoas que desejei. Aconchegadas entre travesseiros e cobertores, em estado profundo de sono, algumas encolhidas como minhas bonecas, outras espalhadas pela cama. Para cada uma eu inventei um jeito. Mas dentro de mim, o que batia forte – sempre – era essa divina possibilidade de poder amar a cada uma daquelas pessoas, num simples gesto de dar-lhes boa noite.

Foi umas das experiências de amor mais fortes que já vivi. Uma viagem que eu tenho desejado repetir todas as vezes que preciso me alimentar dessa egrégora que me fortalece, esse círculo de amigos de alma que eu ganhei da vida, que são hoje meu elo mais forte com o mundo.

A Liquidez da Compreensão

liquido

Um dia fui numa mãe de santo que me disse assim:

“Fia, suncê tem que escrever com humor.”

Torci o nariz. Humor? Mas essa preta velha incorporada nessa moça bonita acha o quê hein? Que é todo dia que a gente tá para alegria? Só consigo escrever com humor ou quando eu tô muito inspirada ou quando meu estado de espírito acabou de chegar de férias do Caribe. Não é todo dia que a gente tá solar e vê o mundo colorido. Caramba tem dias que saio da cama com uma lente cinza chumbo nos olhos que não há Cristo que me tire aquele ânimo gris da alma. Melancolia pura.

Parecendo ler meus pensamentos, a preta puxou um tanto do cachimbo, soltou aquela fumaça cheirosa em cima de mim e falou:

“Num é esse humor que ocê tá pensando. Tô falano daquele humor, aqueles líquido que a gente tem no corpo e governa o coração. É com eles que suncê tem que escrevê.”

Hã?

Demorei um tempão para processar aquela informação. Só quando cheguei em casa e fui procurar no dicionário a palavra humor, é que vi numa tacada só, todas as fichas da minha vida, caindo em cima de mim, como naquelas máquinas de cassino, quando te premiam 1000 mil dólares em moedas de um.

Humor são todos os líquidos secretados pelo corpo e que determinam sua condição física, mental e emocional. Genial! Devia ter enchido aquela preta velha de beijo. Como é que eu não tinha entendido isso antes? Usar o humor como guia para o que escrevo, é nunca mais desperdiçar uma alegria ou tristeza sequer. É não me envergonhar da raiva, é grifar o amor, é permitir o negrito de tudo que vejo com as minhas lentes cinza chumbo. É entender que meu barco pode confiar na bússola que pulsa no meu sangue, porque é justamente lá nas minhas veias, que está o melhor e mais confiável oceano para navegar.

Descobri com meu compadre Houaiss, que existem os humores oficiais: o sangue – aquele que faz a gente ferver de raiva ou de paixão, a fleuma que é causadora da apatia, a atrabílis ou bile negra que é responsável pelo último grau da raiva… a cólera, e a bile amarela, aquela que faz a gente ficar com o pior e mais nefasto mau humor!

Mas com a licença poética que me concedeu minha preta velha, depois daquele dia, comecei a pensar em todos os nossos líquidos – mesmo os que não estão catalogados no Houaiss – como outra forma sublime de entender a magnificência da natureza ao criar, por exemplo, a lágrima.

Pode existir coisa mais poética do que uma lágrima? Aquele líquido límpido e salgado que verte de dentro da gente por dor ou emoção exagerada? Viviane Mosé já dizia que: um olhar de lágrimas cristalizadas é como um vidro de carro batido.

Suor acho meio nojento. Também é salgado e geralmente tem companhia de odores fortes de origens quase sempre duvidosas. A não ser o suor que vem do amor. Esse suor é santo. Dois corpos encharcados de suor podem ser considerados sagrados. Talvez porque se misturem aos líquidos do sexo: os fluidos vaginais e o sêmen. Nesses humores estão contidos todos os segredos da humanidade. Nossa origem, nossa semente, nossa evolução. Isso sem mencionar a saliva, o único humor que tem o poder de consagrar no beijo, a história de um grande amor.

Entender os humores do meu corpo me faz entender muito mais coisas do mundo. E principalmente desse pequeno planeta que habitamos. Se os humores da Terra forem como os humores humanos, dá para entender perfeitamente porque o planeta hoje chora mais… do que jamais choveu. Não dá?

Que a liquidez da compreensão possa a partir de hoje, expandir minha consciência. É por isso que vivo, é por isso que escrevo, é por isso que vim.

Tem alguém olhando para mim

rosto

Coisas esquisitas acontecem todos os dias.

Nem sempre a gente dá a devida atenção a cada uma delas. Porque nem sempre a gente tem tempo para isso. Nem sempre a gente tem consciência da coisa. Até repara na coisa. Mas de uma forma inconsciente. Até que acontece de novo. E de novo. E aí a gente leva um susto. Porque a coisa é muito esquisita e não tem explicação.

Foi o que aconteceu comigo ontem. Eu tava no banheiro, fazendo xixi, olhando para o chão do corredor. O chão do corredor é de mármore. Daqueles que são chapiscados de desenhos: bege com desenhos preto e cinza. É uma pedra bonita, perfeita para esconder sujeirinha que eu não tenho tempo pra limpar. Mas eu tava lá, com o pensamento muito longe, quando de repente, meus olhos focalizaram um desenho. Um desenho perfeito de um rosto olhando para mim. Uai. De novo. De novo aquilo tava acontecendo.

Semana passada eu tava no telefone. Sentada no sofá. E eu tinha à minha frente um varal de pé, cheio de roupas penduradas. Eu coloco na sala quando chove porque minha área de serviço é coberta mas sempre molha tudo. E foi daquele jeito, distraída, que eu vi surgir de dentro da estampa de um vestido preto e branco, um rosto perfeito de mulher olhando para mim. Olhos, nariz, boca.

Foi quando eu me dei conta de que esse troço tava se repetindo há um bocado de tempo. E a coisa acontecia justamente quando eu tava distraída. Um rosto nas folhas do arbusto. Um rosto na textura da parede. Um rosto no estampado no papel do embrulho. Um rosto feito de gotículas de água, desenhado no embaçado do box. Estranho – pensei comigo. Será que isso acontece com todo mundo? Nunca ouvi ninguém falar sobre isso…  

Mas ontem detectar aquele rosto no mármore olhando para mim me deu um estranhamento diferente. Um desconforto. Porque aquele rosto tinha vida. Tinha expressão. Era uma moça, tinha cara de moça e ela estava sorrindo para mim. Me encarando. Foi quando resolvi encarar ela também. E então ficamos as duas ali – uma encarando a outra – durante um tempão. Até que me dei conta de que ela podia estar tentando falar comigo. Sei lá. Me mandar um recado do além. Sabe Deus! A gente não tá careca de saber que “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”? Vai saber se a mocinha não tava tentando um jeito de comunicação tridimensional?

Mas não. Ela não disse nada. Ficou muda o tempo todo e eu acabei cansando de esperar.

Eu sei que coisas esquisitas acontecem todos os dias na vida da gente. Mas vou te contar viu, eu to virando uma colecionadora de experiências esdrúxulas. Ainda bem que eu não fumo nem bebo. Se eu passo por isso careta, imagine com a consciência alterada. Deus me livre.

Onde Habita Minha Alma

vinho

O lar da alma é o abrigo onde mora a minha alegria
É o lugar onde conservo com todo o cuidado a seiva que me alimenta
Onde preservo algumas das minhas últimas ilusões
Onde eu guardo as minhas criativas estratégias de salvação
Meus ungüentos para as dores mais fundas
A esperança de um dia ainda encontrar algum sentido
qualquer que seja
para toda essa bagunça que me meti quando resolvi nascer…

por isso vos digo
onde minha alma habita
é onde eu estou em essência e excelência…

no adágio de Albinoni
na taça de vinho tinto – cheia!
no mar, onde a lua reflete a prata
e o sol reflete o ouro
num enxame de vagalumes
no vento que varre pensamento
na água corrente
numa revoada de borboletas
na primeira mordida do brigadeiro
na sala de cinema
nos filmes que viraram célula
nos sacos grandes de pipoca
nas declarações de amor, feitas ou recebidas
nas caretas da Clara
no banho quente e cheiroso
no prazer de fazer algo de bom para alguém
no entardecer
no amanhecer
num varal de roupas lavadas
numa roupa recém passada
num trilho de trem
numa estrada de terra
na sutileza das poesias do Mario Quintana
na poesia das crônicas do Rubem Braga
na melodia das letras do Chico Buarque
na caneta esferográfica
no olhar da minha mãe
no bigode do meu pai
na gargalhada da minha irmã
na parede pintada de verde-limão
no céu azul quando está muito azul
no numinoso das nuvens
no escuro da noite que revela as estrelas
nos meus cabelos quando estão vermelhos
na dor das esculturas de Camille Claudel
nos corpos com gavetas de Salvador Dali
na paz que me dá ouvir Gurumayi cantar
nos desenhos da fumaça do incenso
na página de um livro bom
nas palavras preciosas
nas estantes cobertas de livros
no café expresso da livraria
na minha coleção de penas
no apito do trem
no badalar dos sinos
no assovio de alguém
nos canais de Veneza
nas cores de Veneza
no desejo diário de voltar à Veneza
na chuva – antes, durante e depois
no cheiro de esperança que ela impregna o mundo
na horta
no pomar
no balão colorido que um dia eu ainda hei de voar
na pipa que ensina leveza
na cereja que ensina a beleza
no passarinho que ensina a gente a ser livre
na gentileza inesperada
no olhar demorado de alguém desconhecido
no suspiro
no espirro
na saúde
na lágrima que escorre
no bocejo que contamina
na semente do morango que estala entre os dentes
no peixe frito na beira da praia
no caldo de cana na beira da estrada
no pacote fechado de presente
no orgasmo
(acho que nessa hora ela não habita, ela grita)
na dor feminina que é sangrar todo mês
no meu blush
no meu perfume de almíscar
nas minhas botas novas de camurça
nas cartas escritas
nas cartas escondidas
nas cartas esquecidas
no cheiro de pão no fim da tarde
no cheiro de canela, de pó de café
de manjericão no molho de tomate
no primeiro gole do chopp
nas fotografias que tem sorriso
na compaixão que me arrebatam os mendigos
na lembrança do que fui na memória dos melhores amigos
na esperança do que ainda posso fazer com a minha própria vida

Essa lista não tem fim. Nunca terá, só no dia que eu morrer. Até lá…

 

A crônica de um caos anunciado

armariobagunça

A pilha de roupas emboladas dentro do armário revela: aí vem um tempo de caos.

É impressionante como sou previsível. Tudo parece bem na minha vida até que começo a perceber pequenas bagunças se acumulando nos cantinhos escondidos do meu dia-a-dia. É batata. Sinal de que a coisa por dentro não está nada boa. Lido muito mal com a bagunça. A falta de ordem é a denúncia do avesso. Gosto da ilusão de que a ordem é prima-irmã do controle. Se tudo está arrumadinho, quer dizer que tudo está bem.

Não faço idéia de como as pessoas consigam viver no caos. Na minha casa, por exemplo, não há um único item em desuso. Não guardo nada que não precise nem nada que esteja quebrado. Não tenho depósito e geralmente o alto dos armários está vazio. Não tenho apego a coisas antigas. Não guardo alguma coisa porque “talvez precise dela um dia”. Tralha é a antítese do equilíbrio. O inimigo número um do feng shui. Acho até bonita a coleção de inutilezas de Manoel de Barros, mas se ele fosse meu marido com certeza já teria lhe pedido o divórcio.

É por isso, e somente por isso, que em tempos de desequilíbrio interno, é meu armário quem me denuncia.

A coisa começa devagar. Na pilha de blusinhas. Antes muito bem dobradas e empilhadinhas, começam a ser guardadas de qualquer jeito e tamanho. As meias e calcinhas que antes pareciam gaveta de loja de lingerie, da noite para o dia, viram uma coleção de bolotinhas indefinidas. Os sutiãs se confundem com as meia-calças e uma saia que deveria ter sido colocada para lavar, passa a morar no lugar das bolsas. A gaveta de pijamas, outrora cheirosa, agora tem nela jogada um cinto, uma pulseira e uma escova de cabelo. Cheia de cabelos. Nos cabides, começo a pendurar coisas que são dobrar e as de pendurar, empilho. Amassando vestidos, calças e lenços. Os casacos de frio – lindos que estavam guardados por cores – vão se misturando e perdendo a identidade, mafuados no fundo do armário.

Até que a coisa degringola mesmo. E o caos de fora anuncia no grito a confusão de dentro. Já não encontro mais nada em questão de dias. Quanto mais o tempo passa, mais se percebe o grau da minha desconexão. E o que antes se podia desembolar com facilidade, se transforma por preguiça ou medo, num grande e complexo nó. Todos os cacarecos da casa foram parar dentro do armário. Sem me dar conta, estou entupida de questões até a última gaveta.

É nesse momento que chega a hora da faxina. Sem mais nenhum centímetro cúbico de espaço para guardar nada, é tempo de vomitar todas as meias sujas que deixei acumulando tristeza e confusão. Já perdi a conta de quantas vezes isso já me aconteceu na vida. Deixar se instalar o caos só pelo prazer de me achar de novo dentro dele. Brincadeira de gente grande.

Devo confessar que sinto muito prazer nisso. Nesse processo catártico-espacial. Esvaziar gavetas me recicla. Esvazio tudo. Todos os cantos. Todos os cabides. Deixo o armário pelado para me desnudar. E como num ritual de purificação, passo água de lavanda em tudo e recomeço do zero a pilha das blusinhas. Me desfaço da calça comprida que não me cabe mais. Separo uma caixa de doações para todos os trapinhos, que numa boa, não tem mais nada a ver comigo. Até mesmo aquela calcinha – aquela maldita que me dói o coração só de olhar – aquela que tem nela um amor grudado que eu preciso me desfazer… até essa não escapa da limpeza final.

Meu armário é o espelho mais fiel de mim mesma que eu conheço. E é por isso que se ele diz que é preciso desopilar cabides, é isso que eu faço. A gaveta de lingerie ficou vazia. Sinal de que preciso comprar calcinhas novas? Não, sinal de que meu armário está tentando me dizer que é hora de me abrir para novas histórias de amor.

Então tá. Quem sou eu para desobedecer meu alter-ego de seis portas.