Luxo de lixo

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Desde que o mundo é mundo, a vida dos seres humanos é um verdadeiro enigma. Estamos vivos e conscientes num planeta complexo, por um período quase sempre indeterminado, fazendo não se sabe o que direito, sobrevivendo aos dias e às noites aos trancos e barrancos há milênios e o pior, sem nunca ter recebido nenhuma explicação para isso. Ou a nossa existência é uma grande piada cósmica ou alguém, em algum lugar, tem planos muito objetivos para nós.

Adoro uma frase de Benjamin Franklin que diz assim: “Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia.”

Meu pai é ateu. Tenho pena dele. Deve ser insuportável estar nesse mundo achando que tudo não passa de uma loteria biológica. Ele não confessa, mas eu sei que sofre. Que lá, bem no fundo da alma, vive um conflito profundo por não fazer idéia do que está fazendo aqui. Eu não suportaria viver num mundo sem Deus. Sem a crença de que algo maior existe, algo que está além da nossa limitada compreensão. Uma força incomensurável e bacana que orquestra o milagre da vida com alguma intenção.

É claro que como ser humano eu tinha um bocado de perguntas para fazer ao Criador. Tem um milhão de coisinhas mal explicadas né nessa nossa história. Mas fazer o que se Ele não tem tempo para responder. O Cara é super ocupado. Quem sabe depois – depois que a gente for embora – tudo seja esclarecido. Esse deve ser um dos melhores momentos da nossa vida: quando tudo que a gente nunca entendeu seja minuciosamente explicado, tim-tim por tim-tim, e nada do que tinha sentido passa a ter em questão de segundos. Nossa, um conforto imaginar isso. Vou morrer com essa esperança em mim.

A questão é: o que fazer aqui enquanto estamos vivos?

Vejam bem: se temos saúde e alguma condição, todos os dias estamos vivos e inseridos no mundo. Não tem como fugir. Quer dizer, até tem. Tem gente que enlouquece, tem gente que acaba com a brincadeira encerrando a própria vida antes da hora. Tem gente que dá um jeito de fugir adquirindo uma doença bem grave. Física ou emocional. Mas se você não fizer nada disso e não tiver sido contemplado com um karma desgraçado que dificulte tudo – tipo vir ao mundo cego, surdo e mudo – você está vivo e com a necessidade diária de sobreviver. Como todo mundo. Não tem jeito.

(vou abrir um parêntese para um desabafo: acho esse tal de karma uma sacanagem do Criador. Poxa, que troço injusto pagar por uma coisa que meu espírito fez em outra vida! Falta de controle absurdo esse o nosso. Porque hoje, inserida na minha cultura e na condição que me foi “dada” eu to aqui fazendo um esforço enorme para viver da forma mais dármica possível. Faço tudo como manda o figurino. Mas se em outra vida eu fui uma esculhambação de pessoa, o certo deveria pagar lá, naquela própria vida, tudo de errado que eu fiz. Mas infelizmente, parece que não é assim que a coisa funciona. A que se faz, a que se paga. Em várias prestações, durante muitas vidas. Sacanagem!)

Mas… de novo pergunto: o que fazer aqui enquanto estamos vivos?

O homem teve que ceder à sua própria demanda existencial. Criou um mundo dentro desse mundo onde foi locado, fez um monte de coisa errada e agora vive administrando, na maior parte do tempo, tudo aquilo que criou e não deu certo. Claro que ele evolui, se desenvolve, mas também paga por sua essência gananciosa desde que dominou o fogo. Coitado. Graças a Deus (olha Ele aí de novo) também foi criada uma fina camada de gente que está desesperadamente tentando transmutar todos esses nossos erros e transformar o nosso lixo em luxo.

Essa gente aí é a minha tribo. E descobrir isso me deu uma enorme alegria. Só Deus sabe a chatice da ladainha que repeti anos a fio: “oh Deus, o que estou fazendo aqui? Por que vim, ao que vim, quem sou eu, porque sou assim?”. Fazer luxo de lixo é coisa de artista. E fazer arte é um privilégio para poucos. Uma libertação. Mas eu precisei amadurecer para entender o sentido dessa liberdade. Porque liberdade não é fazer o que se quer. Liberdade é fazer o que deve ser feito. Li uma vez que o “homem não vale pelo que tem nem pelo que é. O homem vale para o que serve.” Uau. Esse conceito pode dar uma nova e revolucionária perspectiva ao meu plano de vida de qualquer pessoa. E isso não tem preço. Porque na jornada de todos os dias, ou você tem um propósito bem amarradinho ou a coisa fica toda tão solta que você pode facilmente se perder pelo caminho. E acabar transformando sua vida num cotidiano massacrante de uma existência inoperante.

Muitas vezes eu tenho vontade de sacudir o meu pai. Violentamente. Olhar bem fundo naqueles olhos verdes dele e dizer, quase gritando: Acorda pai! Presta atenção ao seu redor. Olha para o mundo. Olha para tua história. Tudo que você viveu, construiu, desenvolveu… você acha mesmo que tava sozinho nessa? Pai, meu Pai. A vida não é uma piada cósmica. A vida é um enigma. Um joguinho complicado que a gente joga a vida inteira e nunca vai sair vencedor. Sabe por quê? Porque a gente ganha o jogo quando nasce, pai. Essa é grande sacada. Entendeu?

Na cama com Morfeu

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O relógio dá uma piscadinha para mim. Onze horas da noite. Perfeito.

As meninas já estão dormindo, a casa está tranqüila. O cd de piano na última faixa, o incenso na guimbinha da cinza. O pijama macio já esquentou o corpo, o chá de erva-cidreira já esquentou a alma. Já pinguei o soro no nariz, o floral na língua. Acho que não falta nada. Só respirar fundo, abraçar minha cama e deitar para dormir.

Fecho os olhos. Intrometido, vem o primeiro pensamento. Xííí… não paguei a conta da internet hoje, putz grila. Não! Nada de repassar a lista do que não foi feito hoje. Amanhã você faz isso. Relaxa.

Respiro profundamente. Esvazio o peito de ar mentalizando esvaziar meu dia que termina. Mudo de posição. Aquela tava meio ruim. Esse edredom tá pouco para o frio de hoje… Será que coloquei cobertor suficiente nas meninas?

Respiro fundo. Clara espirra no outro quarto. Sento na cama e espero o próximo. Ele vem. Tá vendo, coloquei pouca coberta… Levanto, vou até o quarto das meninas, saco mais uma mantinha do armário, cubro as duas e antes de voltar para cama, dou uma última espiadela. Sinto inveja do sono profundo que estão mergulhadas. Tão profundo que parecem pálidas e com olheiras. Uma vez comentei isso com Dra. Manoela – minha irmã shiatsu-acupunturista, grande conhecedora de medicina chinesa – e ela me explicou esse fenômeno que faz minhas bonecas parecem meio mortinhas quando dormem: quando entramos em estado de sono profundo, o nosso chi – energia vital – se recolhe também, ao centro do nosso organismo para se recuperar. Nesse momento, nosso corpo fica em absoluto relaxamento. E é na face que mais percebemos sua ausência.

Sei. Deve ser por isso que estou sempre pálida e com olheiras quando estou acordada. Como durmo pouco, meu pobre chi nunca tem tempo de se recolher. O cara vive cansado. Assim como eu.

Enfim, volto para cama. Deito e deixo o corpo pesar na cama que me acolhe. Cama querida… Ela quer que eu durma. Ela sempre quer que eu durma. Me chama não sei quantas vezes todas as noites. Minha mente cansada também quer dormir. Meu corpo exausto também quer dormir. Ótimo, vamos todos dormir. Fechos os olhos. Respiro fundo.

Procuro ficar quieta na cama, quase imóvel. Contendo qualquer movimento que me distraia. Não deixo o corpo mexer. Não deixo nem as pálpebras se mexerem. Mas não consigo conter o globo ocular. Vejo o escuro da direita. Depois o escuro da esquerda. E quando paro para olhar o escuro do centro, vejo nele uma palavra freneticamente piscando. Em cores fosforescentes. No centro do escuro dos meus olhos, emitindo um sinal malévolo, está mais uma vez, a palavra INSÔNIA.

Pronto. Quando essa constatação é feita, o desencadear dela é destruidor. Eu não posso acreditar que estou com insônia. De novo. Mas que droga!

Assumir uma insônia é como assinar um atestado de óbito de uma noite bem dormida. É perder a esperança de recolher o chi, de descansar o corpo, dar um tempinho para alma. Minha irmã diz que eu tenho muito dificuldade de abrigar o shen – alma etérea – porque sou muito ativa, penso demais, tenho excesso de criatividade. Engraçado ela falar de shen. Os índios chamam nosso excesso de pensamento de chenhenhem. Não parecem palavras primas? Culturas tão distintas falando sobre uma mesma coisa.

Seja o que for: shen ou chenhenhem, já entendi que esse nheco-nheco é a base da minha problemática noturna. Mas o que fazer para mudar esse comportamento maníaco-destruidor?

Sou uma pessoa totalmente avessa a calmantes, tranqüilizantes e qualquer ante que me faça dormir quimicamente. Não sei, tenho uma cisma com qualquer remédio de tarja preta. Parece aviso funerário. E se eu me viciar no vodu? Como é que faço depois para curtir um Passiflorine, uma Maracujina? Nada mais disso vai fazer efeito. E no mais, são anos e anos lutando contra a falta de sono. A longo prazo, a medicina vai ser mais nociva do que o próprio cansaço acumulado.

Quando eu era adolescente, me lembro de precisar colocar uma toalha na soleira da porta, para esconder a luz do quarto acesa durante a madrugada. Tudo para impedir que minha mãe entrasse lá pela décima vez para dizer: mas minha filha, será possível que você não vai dormir de novo! Tudo bem. Naquela época eu não dormia antes das quatro. E forçava totalmente uma barra para ter insônia. Como dormir se uma vida inteira clamava por mim? Livros a serem lidos, colagens a serem feitas, poesias a serem escritas sob a noite fresca do luar? Dormir era puro perda de tempo.

Mas depois as filhas chegaram. E o sono passou a ser artigo de luxo. Eu vivia exausta. Porque cuidava delas tempo integral. Mas também precisava de tempo para mim. Então, ao invés de descansar enquanto elas descansavam, eu me metia a escrever, estudar e pintar nas únicas horas que me restavam. Resultado? Estafa. Mas só jogava a toalha depois de um diagnóstico alarmante do médico: ou eu dormia, ou a máquina ia pifar de vez. Foram anos de um cansaço profundo. Absoluto. Avassalador.

Isso praticamente descabela minha irmã. Ela acha que 90% dos meus problemas existem por causa da minha falta de sono. Meus cabelos brancos, minha tristeza, minha dificuldade em processar os conflitos, meu desânimo… isso tudo fala da perda constante da minha essência, que os orientais explicam que uma vez perdida, jamais pode ser recuperada.

Tá, eu sei que faço do tempo moeda de troca. E que se uma madrugada resultar num bom texto, eu realmente não me importo em virar um legume no dia seguinte. Mas também… tem troço mais esquisito do que dormir? Vivenciar essa “pequena morte” todos os dias requer um bocado de confiança na vida. Acho meio surreal passar oito horas de olhos fechados, esticada numa cama, desconectada do mundo, sem controle nenhum sobre nada e ainda por cima, sonhando as coisas mais esdrúxulas que a gente sonha. Pô, coisa de maluco.

Descobri a pouquíssimo tempo que Morfeu era um dos mil filhos de Hipnos, o deus do sono. Assim como o pai, era dotado de grandes asas, que o transportavam em poucos instantes, e silenciosamente, aos pontos mais remotos do planeta. Se eu soubesse disso antes já teria mudado de atitude e teria me esforçado bem mais para dormir toda noite. Cair nos braços de um cara desses? Espetáculo de noite!

A partir de hoje vou mudar radicalmente minha estratégia para dormir. Nada de pijaminhos macios e chá de erva-cidreira. Vou deitar de camisola bonita e perfumada. Nada de perder a chance de ir para cama como um deus grego e conquistar o coração daquele que pode ser – e eu nunca soube – a maior inspiração para as minhas criações literárias: Morfeu, o cara que tem o poder de revestir de sonhos a imaginação dos mortais adormecidos. Loucura!

A Revelação da Tríade

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Sensibilidade, espiritualidade ou imaginação?

Há uns dias atrás tive um insight incrível. Um estalo desses que a gente vive poucas vezes, mas quando vive, fica com a impressão de que entendeu quase tudo sobre a vida. A iluminação aconteceu no Mergulhão, aquele lugar sinistro da Praça XV.

Eu saí das barcas e muito a contra gosto desci as escadarias para pegar um ônibus para Tijuca. Geralmente prefiro caminhar até o metrô, mas nesse dia estava muito atrasada e resolvi enfrentar a fedentina. Foi descer as escadas para começar a sentir uma pressão no peito. Respirei fundo. De concreto ali havia a penumbra do lugar, o gás carbônico dos ônibus apressados e o semblante infeliz dos que esperavam sua condução. Mas eu… eu comecei a sentir um monte de coisas.

Primeiro foi o enjoo. Aquele bafo quente dos carros quando se mistura ao cheiro de xixi e cocô de gente é um odor nauseabundo. Mas para o meu espanto, ninguém estava com cara de quem ia vomitar, só eu. Tudo bem. Sigo em frente. Do enjoo vem uma tontura. Uma opressão no peito que eu não sei direito de onde vem. Não consigo entender se é uma sensação, ou um pressentimento. Mas é um peso. Eu não ouço vozes, nem vejo nada demais, mas tenho uma certeza estranha de que outros tipos de seres perambulam por ali. E por último – certamente já sob efeito alucinógeno de todos os meus sentidos invadidos – começo a imaginar tudo que já deve ter acontecido naquele lugar: cenas de violência, crime, tensão, medo… afinal ninguém imagina uma cena de amor num subterrâneo sombrio de filme de terror.

Enfim, tomada por essa mistura esdrúxula de sentimentos, me veio a súbita pergunta: será que eu tava passando mal por uma extrema sensibilidade, por uma espiritualidade não desenvolvida (e por isso vítima de possíveis obsessores presentes) ou por um afogamento de ideias que toda aquela situação me fez criar na cabeça em menos de cinco minutos?

Eureca! Foi nesse instante que milhares de fichas começaram a cair. Tipo Las Vegas.

Sou a construção de um ser baseado na conjuntura de uma santíssima trindade: sensibilidade, espiritualidade e imaginação. A vida me invade e eu a filtro nessa lente onde se misturam impressões sensitivas, espirituais e imagéticas do mundo. Sou mega sensível,  tenho antenas que captam coisas do outro mundo e para completar, uma cultura cinematográfica de arrepiar. Pronto, fechou. Não preciso de mais nada para chegar a uma locação propícia e pirar o cabeção.

Essas confirmações são mágicas porque nos fazem compreender um pouco mais sobre nós mesmos. Esse tal de insight é uma revelação mística. Um presentão do inconsciente para gente entender um pouco melhor sobre a gente mesmo. Poxa, ajuda muito saber que sou simplesmente um conjunto exagerado de absorção do mundo. Um alívio para quem sempre se julgou meio trelelé. Não é fácil não gente, ser assim… super suscetível ao mundo sutil e ter criatividade saindo pelo ladrão.

O fofo do Caetano já dizia que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Hoje eu entendi que não preciso mais sentir tanta dor por ser essa coisa esquisita que eu sou. Só preciso aceitar “o sentir”. E rezar. E escrever. Afinal, a tríade pode se revelar nos lugares e nos momentos mais esquisitos do dia. Nunca se sabe.

Tempos esvaziados

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Tem uns tempos complicados na vida que ou a gente assume a necessidade de solucioná-los ou assume a necessidade de uma postura zen-budista perante eles. São os tempos esvaziados. Eles acontecem praticamente todos os dias da nossa existência. Fazem parte da rotina, do feijão-com-arroz, do escovar os dentes. Não tem como escapar. É o caso do tempo que esperamos um elevador. Pensei justamente nesse texto hoje depois do oitavo minuto sozinha na garagem, olhando a porta do elevador fechada. Eu já tinha tentado meditar, fechar os olhos, esvaziar a mente, respirar profundamente, ir fundo ao néctar do meu silêncio interior, mas não consegui. A irritação pela impressão de tempo perdido foi maior.

A mesma irritação me abate quando sou pega de surpresa e calho de ter que ir ao banco sem ter nada para ler dentro da bolsa. Banco é sinônimo de fila. E fila em banco é sinônimo de tempo esvaziado. Muitas vezes tento ser positiva, aproveitar para observar as pessoas, essa absurda diferença que há entre nós – indivíduos de mesma espécie – e todas as nossas curiosas particularidades. Crio uma história para cada um, depois vou juntando os enredos e tudo acaba em novela. Mas mesmo nessa compulsão-criativa-instantânea, esse ato desesperado de aproveitamento de tempo nada mais é que um retrato de tempo esvaziado também. Como se o próprio tivesse sido mesmo consumido sem propósito. Queimado. Desperdiçado. Jogado fora.

Tempo perdido em trânsito engarrafado então, não preciso nem falar. Todo mundo já falou, já sofreu, sofre e não há nada que se possa fazer. A inexorável realidade dos tempos modernos. Milhões de carrinhos, apertadinhos, engavetadinhos num gigantesco quebra-cabeça de ruas. E as pessoas lá dentro pensando – o que é mesmo que eu estou fazendo aqui? – e olha que pode ter boa música, boa companhia, snacks para comer, coca-cola geladinha que alguém acabou de te vender… nada aplaca a dor do tempo esvaziado.

A danação não tem a ver com o tempo que escapa. Mas com o que foge sem sentido. Gasto muito tempo olhando o céu quando ele está daquela azul de chorar. Olhando o que o sol faz com as coisas de manhãzinha. Observando Clara pintar com cotonete, a cebola fritar na manteiga. E as coisas que tem água então, nossa… gasto um tempo que nem sei. Nada melhor do que ver cachoeira cachoeirar. Até aquelas fontes de água em casa esotérica me hipnotizam. No ato. Posso ficar lá por horas vendo a água fazer nada.

A questão é que esse tipo de coisa não esvazia meu tempo. Mas preenche ele de um monte de riqueza. Há uma enorme diferença em ficar olhando a porta do elevador fechada esperando ele resolver chegar e olhar um arco-íris se desfazer no céu. São tempos completamente diferentes. O primeiro é como estar olhando a areia da ampulheta cair, a outra é ver o milagre da vida se expandir. Por que eu não subo de escada? Ah leitor, eu não sou uma atleta. E no mais, subir escada também é um tempo esvaziado. A não ser que elas tenham enormes janelas dando para o mar.

O altar de todos os dias

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“Fé é crer no que não vemos.
O prêmio da fé é ver o que cremos”.
Santo Agostinho

No dia que troquei a rotina pelo ritual, ganhei meu destino.

Aconteceu de um dia para o outro. Eu coloquei uma música, acendi uma vela e entendi que ou pegava minha vida no laço ou ela ia passar batida sem que eu conseguisse fazer nada do que desejava. E eu desejava muito. Muitas coisas.

A vida é mais ou menos assim. Ela passa depressa, como um trem sem freio. E se a gente não se atenta, perde a viagem. Eu sempre tive dificuldade de encaixar minha alma no presente. Vivo viajando numa outra dimensão, flutuando na imensidão etérea da minha existência. Só que com isso, não consigo realizar quase projeto nenhum. Claro né. E pipa tem lá algum objetivo que não seja apenas… voar? Foi quando eu entendi que eu precisava mesmo plantar os pés no chão. Virar um Jequitibá falante. Enraizar minhas ideias, florescer meus projetos, tornar meus sonhos frutos maduros e suculentos.

Descobrir o ritual foi quase como descobrir a pólvora. Porque nele está contido todo o extraordinário poder da intenção. Essa coisa simples e bonita que Deus nos deu e que a gente tem como um potencial radioativo bem no centro do peito. Mas uma coisa precisa da outra. Não adianta ter uma intenção clara e objetiva, se a gente não tem um lugar que nos faça olhar para ela diariamente. É preciso um plano de ação. Uma estratégia metódica para sacramentar a intenção.

Foi quando nasceu meu altar de todos os dias. Altar é um lugar qualquer que você elege dentro da sua casa que vai cercar o seu espaço sagrado. É lá que você vai reunir tudo o que considera importante para lembrar seus objetivos e consagrar diariamente os passos percorridos na sua caminhada. Qualquer objeto pode ser sacralizado. Se ele tem um propósito ou se você o considera um objeto de poder, o importante é que ele esteja lá. Independente da sua religião, todo o indivíduo pode ter um altar que represente a sua própria verdade. Ele deve ser pessoal e intransferível. E sobretudo um território livre para que as bênçãos caiam sobre ele com abundância e prosperidade.

Meu altar tem de tudo um pouco. Começando pelos quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Esse quarteto fantástico reúne toda a sabedoria milenar que rege nosso planeta. Terra representa nosso corpo, nossa Mãe Terra. Nossa conexão com as matas, as árvores, as pedras. Água representa nosso sangue. Nossos oceanos, nossos rios. As águas internas que regem nossos sentimentos. Sangue, suor e lágrimas! Ar representa nosso sopro divino. Aquilo que nos dá a vida. E por fim, fogo representa nosso espírito. Nossa paixão. Nossa força criativa.

É mexendo neles que começo o processo. Em cima de uma toalha de linho branco, ajeito com todo o cuidado meu quadrado mágico metafísico: acendo a vela do dia, meu incenso cheiroso, honro a água que está no copo de vidro mais bonito da casa. Honro a flor que está dentro do copo, colhida diretamente do meu jardim para trazer beleza e delicadeza ao altar. Toco na pedra de cristal e lembro que foi colhida dentro de uma caverna, há alguns anos atrás. Fecho os olhos e sinto ser a conexão entre o meu Pai Céu e a minha Mãe Terra. Pronto. O portal mágico foi aberto. Depois é só colocar uma música especial tocando bem alto e começar a chamar a força e a presença do pessoal. Cada um vai fazer do seu jeito.

Depois que iniciei minha caminhada no xamanismo, começo sempre pedindo a benção do Grande Espírito. Depois chamo a força dos meus ancestrais sagrados, meus mestres espirituais, a guiança do meu animal de poder… nossa… é uma patota que eu chamo todo dia. E de repente eu sinto todos ali, reunidos sobre a minha cabeça, unidos para fazer da minha jornada um caminho aberto, próspero, abundante e equilibrado. Acho que nunca me senti tão assessorada em toda a minha vida.

Engraçado, fé foi uma coisa que eu aprendi a ter depois de burra velha. E na verdade não acho que seja uma coisa que possa ser ensinada. Posso ensinar minhas filhas a ter confiança. A acreditarem profundamente em algo. Mas fé é um processo individual de busca. Uma força colossal que vem de dentro de nós. De um lugar muito profundo de nós. E isso não tem como ensinar a ninguém. Ele faz parte do processo de individuação de cada um de nós.

Ah, foi tão bom quando eu aprendi a rezar. Eu sempre tive tanta dificuldade para falar com Deus. Não fui batizada em religião nenhuma. Meus pais nem tios nem avós tinham esse hábito. Mas eu sabia que orar tinha cara de ser uma prática poderosa. Tentei muitas vezes rezar o Pai Nosso, mas nunca senti muita verdade naquelas palavras.  Depois tentei a Ave Maria. Ela tinha um quê de poder feminino. Mas a parte que eu precisava que ela rogasse por nós pecadores… nessa parte minha boca travava. Pecadora? Mas eu não me sentia uma pecadora. Tudo que fazia na vida estava de acordo com o meu coração. Só preguei o bem e tinha um profundo respeito por todas as coisas. Como é que eu podia ser pecadora?

O dia que eu consegui ultrapassar todos os meus preconceitos, abri meu coração e falei: “Deus, você está aí? Pode me ouvir? Olha, eu preciso falar umas coisas com você…” Nossa, esse foi um dos melhores dias da minha vida. Depois disso, foi só me abrir para o caminho espiritual que tudo o mais foi acontecendo.

Faço a manutenção do meu altar, religiosamente, todos os dias. Troco as flores, a água, a vela, o incenso. Limpo. Renovo cada intenção em cada coisa. As vezes coloco pedacinhos de papel com palavras escritas. Outras, coloco fotos de alguém. O que me der na telha eu coloco. Basta ter uma motivação que venha de dentro. Pode ser uma concha, uma frase, uma pintura. Meu altar é um lugar inventado onde habitam todos os meus sonhos. Estar com ele é como estar com o mais genuíno de mim mesma. Com tudo aquilo que anseio, acredito e desejo. É estar de frente para a estrada da minha vida e repetir, quantas vezes forem necessárias, quem sou, para onde vou e principalmente, o que vim fazer aqui. Aho!