
Acordei, abri a janela, respirei fundo e levei um susto.
No lugar do ar puro e do céu azul de sempre, tinha um monte de fumaça e um cheiro esquisitíssimo no ar. Fui à varanda, fechei os olhos e senti que tinha alguma coisa de errado. Tomamos café, liguei o Fusquinha e fui levar minha filha no ponto de ônibus, como faço todas as manhãs.
No caminho pelo Muriqui matamos a charada.
A fumaça e o cheiro estranho que tinha invadido a nossa floresta, era um carro ainda queimando, no meio da estrada, abandonado.
Desacelerei, olhei e senti um aperto no coração.
– Coisa esquisita esse carro aqui, mãe… disse Catarina enquanto terminava a maquiagem.
Pensei em fotografar, avisar no grupo, mas algo me dizia para ir embora.
Depois de deixar a Cata no ponto da Caetano Monteiro, voltei pelo mesmo caminho da Rua das Árvores, pensando no quanto me sentia privilegiada por morar num lugar como esse, tão cheio de natureza e silêncio, no meio da cidade.
Mas não demorou muito, lá estava ele de novo, o carro incinerado, ainda espalhando pela mata aquele cheiro ruim de borracha tostada.
Parei o carro e fiquei olhando aquela cena como quem vê um filme. Teria sido um acidente? Ou o carro foi roubado e abandonado ali?
Pensei em olhar de perto, mas alguma coisa falou no meu ouvido: volta para casa, mulher. Foi o que me salvou.
Não demorou nem meia hora para as notícias começarem a pipocar no grupo de whatsapp do Muriqui. Não se falava em outra coisa. O tema era o carro queimado e o cadáver que tinha sido encontrado no porta-malas.
Gente do céu! Agradeci em silêncio por ter sido poupada disso.
Mas o dia seguiu. E as notícias explodiram. Deu no jornal, se falou sobre isso o dia todo pela cidade. A polícia retirou o corpo, começaram as investigações e no dia seguinte, ninguém mais falava sobre isso.
Já eu, que passava por ali todos os dias, comecei a me conectar àquela situação, mesmo sem querer. Aquilo não só tinha atravessado o meu caminho como tinha mexido comigo de um jeito fortíssimo. Então passei a sentir uma compaixão por aquele espírito que tinha partido Deus sabe como. Ficava tentando imaginar quem seria aquela criatura e porque tinha que morrer de forma tão trágica.
– Ah, deve ser bandido. Isso tá com toda a pinta de queima de arquivo. Já devia estar morto quando colocaram fogo no carro – alguém falou.
Como as pessoas são esquisitas. Como que alguém tem coragem de fazer um comentário desses sobre algo tão sombrio?
Como sempre, me senti um ser de outro planeta, estranhando aquele fala como quem estranha o próprio mundo.
Eu sinceramente espero que a criatura que foi encontrada já estivesse morta quando tacaram fogo nele. E no carro. Mas era assim que se resumia a história de alguém?
Passei a viajar pensando se a pessoa que morreu não teria sido um Inquisidor da Idade Média, que tinha queimado dezenas de bruxas na fogueira e hoje estaria liquidando seu karma.
Mas mesmo com todos os delírios e elucubrações, eu jamais ficaria em paz só por saber que aquele corpo era o corpo de um bandido. Como se o bandido um dia não tivesse sido uma criança que talvez não tenha tido a chance de ser uma pessoa melhor ou não conseguiu resistir ao crime.
Procurei por notícias sobre o caso no Google durante várias semanas. Mas nada. Ninguém mais falava sobre isso.
É minha gente, não dá mesmo para negar: estamos de novo num período de trevas da humanidade.
E mesmo com tantas mortes acontecendo pelo mundo, seja pela guerra, por doença, por fome, por injustiça e desigualdade, aqui no meu pequeno pedaço de mundo no Muriqui, tenho passado por aquele carro e abençoado aquele espírito, seja ele quem for.
Será que alguém pensa nele? Sente falta dele? Chora por ele?
Será que alguém pensa nele? Sente falta dele? Chora por ele?
Seja quem for que estava ali, encolhido no porta-malas, ele tem minha empatia e oração.
Hoje coloquei umas florzinhas em cima do carro para ele. Consegui olhar o porta-malas e chorei pensando que às vezes, morrer pode ser melhor do que viver.
Que esse mundo invertido nunca consiga nos anestesiar o bastante para passarmos por uma situação dessas e achar que é normal. “Ah! É desova de presunto. Deixa para lá.”
Se for isso mesmo, pode parar o trem que eu vou descer.








