As divinas azeitonas

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Eu só tenho três azeitonas para comer. Apenas três. Elas e uma taça de vinho.

E é nelas que está contida toda a minha inspiração para falar sobre um assunto muito sério para mim: a magnitude das azeitonas. Tenho um amigo que diz que sou muito exagerada no meu uso de adjetivos. Eu concordo. Mas como é que eu vou conseguir me controlar se o que eu quero esta noite é falar sobre azeitona?

Essa tal de Wikipédia revoluciona minha vida. Fui pesquisar sobre as azeitonas e levei um susto quando descobri que as pretas são as verdes envelhecidas. Questão de metamorfose. Gente, eu não sabia disso! Será que todo mundo sabe? Enfim, prefiro senti-las como o vinho… quanto mais amadurecidas, melhor. Sim, porque sempre tive predileção escancarada pelas pretas. As verdes são incríveis, principalmente aquelas gordas. Mas as pretas, ah… as pretas. Elas tem uma maturação no sabor, uma textura carnuda, um paladar visual. Elas me levam diretamente ao Mediterrâneo, ao seu calor e sol e casas brancas com janelas azuis. Dizem as más línguas que é super hiper mega calórico. Imagina só se alguém me vê com um pão entupido de grossas fatias de azeitona na mão? Vão pensar que enlouqueci. Quem liga para caloria quando se é feliz?

Essa coisa de gulodice misturada com avareza é coisa séria. Pecado brabo. Só pode ser. Uma vez eu quase morri por causa de uma azeitona verde. Eu estava dando uma festa de aniversário em casa e obviamente, ganhei de presente um pote de azeitonas verdes argentinas, daquelas enormes. Coloquei numa cumbuca algumas para servir junto dos petiscos. Comi uma. Como duas. Na oitava achei que devia parar. Eu queria prolongar aquele prazer. E no mais, estavam todos avançando na minha azeitona. Pois bem. Coloquei a cumbuca na geladeira e voltei para sala. Alguém pediu uma cerveja e eu fui buscar. Abri a geladeira, peguei a latinha e assim que eu ia fechando a porta, vi aquelas bolotas verdes indecentes olhando para mim. Ah, pensei, vou comer só mais uma… peguei a safada, joguei na boca e ela foi direto para a glote. Nossa Senhora. Aquela coisa se instalou na minha goela, não descia, nem voltava. Fiz de tudo. Me enforquei, tentei virar de cabeça para baixo. Foram minutos de uma angústia profunda. Achei mesmo que ia morrer. Que patético, pensei, morrer entalada por uma azeitona. Quando finalmente consegui fazer a bicha descer garganta abaixo, já tinha até me despedido da vida.

As azeitonas habitam minha alma num andar muito alto, quase cobertura. Lá estão também o milho verde, a canela, o queijo gorgonzola. Mas isso é assunto para outra prosa. Hoje fico aqui com esse último pedaçinho, da última azeitona que me restou. Isso é que é ser feliz com pouco. Ou com nada. Taí! A azeitona é o Tao do Sabor. Tudo e nada numa só bolota. Maravilha.

Eu era madame e não sabia

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Marly foi embora e com ela todo um tempo de monarquia doméstica onde vivi os últimos quinze anos da minha vida.

Não foi ela que quis ir embora. Fui eu que a demiti, por razões logístico-financeiras muito complicadas para serem explicadas aqui. Mas só hoje, um mês depois de sua partida, é que eu me dou conta da dimensão dramática do que isso significou para a minha vida.

Dos tempos áureos de Rainha do Lar hoje só me restam alguns trapinhos velhos, muitas tupperware sem tampa, algumas vassouras esgarçadas e a certeza de ter sido somente uma Maria Antonieta para o meu pobre reino nesses últimos anos. Sinceramente, eu não sabia de nada do que se passava por aqui. Abastecia a dispensa de brioches e achava que isso já era o suficiente.

Empregada doméstica é uma faca de dois legumes. Ela cuida de tudo para nós, é uma maravilha. Toma posse das funções maçantes do dia-a-dia, limpa-lava-e-passa, te alimenta, dirige sua vida e te enche de ilusões do quanto você é livre. Mas a coisa não é bem assim. O preço que se paga por essa liberdade é bem maior do que um salário mínimo e taxas. Para ter uma auxiliar administrativa cuidando de tudo que é nosso, a gente paga o preço incalculável de distanciar-se de tudo aquilo que nos restaura e fortalece, isto é, o nosso próprio lar.

Lar. Uma palavra tão pequena e tão querida. Palavra quentinha, macia e cheirosa. Que traz em si – imagine – todo o conceito de conforto existencial. Mas se a nossa casa é o nosso abrigo mais precioso, não seria mais correto cuidarmos nós mesmos dela? Desde que Marly foi embora fui obrigada a voltar a olhar para tudo do meu cotidiano com um novo enfoque. Olhar – não só no sentido de enxergar – mas num sentido de examinar tudo ao meu redor com mais profundidade, como se pela primeira vez em muitos anos, eu pudesse voltar a observar o espaço onde habito. Sabe quando a gente passa muito tempo viajando e quando volta, tudo parece diferente? Pois é. Essa foi a sensação que eu tive na primeira segunda-feira que me vi cara a cara com a minha casa super ultra mega bagunçada do fim de semana.

Tenho quase certeza de que segunda-feira é um dia complicado para todo mundo. Quando tudo precisa voltar para o lugar e a nossa alma ainda está cochilando a soneca de domingo. A gente precisa pensar no cardápio da semana, fazer supermercado, trocar a roupa de cama, as toalhas, fazer faxina, colocar a casa em ordem. Nossa, as minhas segundas-feiras sempre foram dias muito difíceis para mim. E a coisa toda agora piorou muito já que não tenho mais a minha salvadora virando a chave da porta bem cedinho de manhã, para tomar as rédeas do caos que eu mesma criei.

Eu não tenho mais essa salvação. Não tenho mais Marly. Agora sou só eu. Eu e Deus. E Agepê no som, porque se é para fazer faxina que seja ouvindo Agepê. Descobri que varrer a casa cantando “Deixa eu te amar” dói menos. Bem menos. E assim eu tenho passado o meu tempo: batendo cabeça, tentando me entender nas funções, cantando para não chorar. Fazendo listas e mais listas do que preciso fazer. Tentando priorizar o essencial, mas perdendo um tempo enorme limpando dispensa, arrumando armário, jogando muita coisa fora. Numa boa, empregada tem uma mania muito estranha de guardar coisinhas. Paninhos, potinhos, tampinhas. Ferrinho de amarrar pão. Pedacinho de Bombril. Eu odeio Bombril! No dia que Marly foi embora joguei fora todas as bolinhas de Bombril enferrujadas que ela guardava. Troço nojento.

E agora – agora assim muito recentemente – eu tenho percebido uma mágica acontecer. Depois de ter mexido na casa toda, deixado tudo do meu jeito, com a minha energia, passei a fazer as coisas com um cuidado diferente. Tipo: quando vou passar roupa, passo roupa fazendo disso um momento único. Nada de mau humor ou má vontade. Se é para passar roupa, que seja com tempo e calma. Porque assim aproveito um pensamento amarrotado e passo também. Cozinhar? Hora de mergulhar nas cores dos legumes e no perfume dos temperinhos. É para picar cebola? Então faço isso com gosto. Viajo na cor da cebola, no jeito da cebola, nessa coisa dela me fazer chorar. E aproveito pra chorar aquele choro que tava escondido em mim e eu nem sabia. Lavar louça? Essa parte é difícil, porque eu não gosto muito de lavar louça. Mas to reaprendendo. Lavar louça é um pretexto danado de bom para lavar saudade. Ou um sentimento ruim. O detergente tem feito milagre nas minhas agonias. É isso. Descobri que qualquer ação feita com devoção é uma espécie de meditação. E se eu sempre precisei desse momento de pausa para me equilibrar e nunca encontrei por falta de tempo, agora foi o tempo que encontrou um jeito de cuidar de mim. Sem cobrança, sem aflição. Só com sabão, vassoura, esponja e esfregão.

Marly foi embora. E dela agora só me resta a saudade de duas coisas insubstituíveis: o abraço que ela me dava quando eu tava triste e o seu incrível pudim de leite. O mais macio e perfeito pudim de todos os tempos.

Pão querido de cada dia

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Tem coisas que me ajudam a viver. Padaria é uma delas.

Tinha passado o dia todo de pé. Andando quilômetros da cozinha para sala, da sala para o quarto, do quarto para a cozinha. Estava exausta. Meio vesga. Mudança faz a gente ficar meio zureta. Me dei conta disso quando no meio da tarde, percebi que tinha parado tudo para fazer uma faxina na casa da Barbie. Isso porque já tinha vestido e penteado umas tantas bonecas antes. Me sensibilizaram as coitadas, nuas e descabeladas, espalhadas pela casa.

No final do dia resolvi ir à padaria. Precisava sair um pouco. Ver a luz do dia que já estava de saída, respirar um pouco de gás carbônico da Miguel de Frias, sei lá. Ver gente.

Entrei na padaria e dei aquela cafungada funda. Só faço isso quando tenho 100% de certeza de que o odor é confiável. Nas padarias, sempre é. Padaria tem cheiro de colo de mãe. Pãozinho misturado com bolo de fubá. Tem o burburinho dos apressados que estão voltando do trabalho, loucos para chegarem em casa para se livrar de seus sapatos apertados. Tem a risadinha das crianças, hipnotizadas pelos doces e picolés. Tem os solteiros na fila do frango. Tem as vovós tomando sopinha e vendo novela na televisão sem som.

Fui para fila do pão meio anestesiada. Uma dor no corpo. A cabeça bagunçada. A mente passando e repassando a lista de tudo que faltava empacotar. A moça perguntou quantos eu ia querer. Calculei rapidamente o lanche, a fome da madrugada e o café da manhã.

– Quero seis, por favor.

Quando ela me devolveu o pão depois de pesar, percebi que a fornada tinha acabado de chegar. Eles estavam quentinhos! Sem pensar, abracei o pacote e ali mesmo fiquei de olhos fechados, atracada com aquele calor cheiroso e revigorante, sentindo sem querer, uma profunda felicidade. Parecia que aquele instante estava me devolvendo todo o equilíbrio que eu tinha perdido, toda a energia que tinha me esvaziado encher tantas caixas. Encostei os olhos no pacote, depois o rosto todo. Respirei fundo e só então percebi o quanto me sentia só.

Abri os olhos e dei de cara com a mocinha me olhando torto, meio sem graça pela cena de tão explícita paixão. Nem liguei. Fui para a fila do caixa, pagar satisfeita por aquele tesouro incalculável que eu tinha acabado de adquirir.

Tem coisas que me ajudam a viver. Amar a vida é uma delas.

Milho verde

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O paladar é o sentido mais apreciado pelo meu coração, porque ele é de todos o mais generoso dos sentidos. Ao unir suas forças ao olfato, por exemplo, que desperta o aroma mágico dos alimentos, ele se potencializa ao seu grau máximo de prazer. Assim como também através da visão, suas características mais secretas podem se revelar pela simples aparência do objeto desejado. Mas não é só por isso que ele é genial. Mas por ser a porta de entrada para um mundo fascinante de sabores. Ele é o início de incríveis jornadas, um presente dos Deuses ao homem, um tesouro que nunca deixa de ser redescoberto a cada alimento experimentado.

Quando pequena pensei em seguir a carreira de nutricionista. Adorava pensar na intimidade que podia ter com a comida ao conhecê-la tão profundamente. Depois, os anos passaram e o teatro foi mais forte como vocação. Mas hoje penso que se, naquela época, já existisse a profissão de Chef Gourmet tão divulgada como é hoje, talvez ela tivesse superado minha paixão pelos palcos da vida. E eu seria uma feliz e contente doutora em gastronomia.

“Não há amor mais sincero do que o amor à comida” já dizia Bernard Shaw. Concordo profundamente com ele. Quem ama comer tem na personalidade uma característica passional com os alimentos. Eu sou assim. Ouso dizer que amo comer tanto que amo viver e isso se deve ao meu generoso e querido paladar.

Minha avó há alguns anos atrás perdeu o olfato e o paladar e só conseguia distinguir o salgado do doce. Sentia uma enorme compaixão por ela. Como, meu Deus, viver sem o universo de sabores que nos é oferecido de bandeja? Menus simples ou especiais, receitas afrodisíacas, pratos internacionais. Frutas, molhos, especiarias. Vinhos, pães, queijos! Doces, bolos, rocamboles. Dizem que os amantes do boa comida sentem mais intensamente os sabores que os outros mortais e que tem maior concentração de papilas gustativas na língua. Eu devo ser assim, porque não é possível tanto gemido a cada garfada.

Minha relação com o paladar é quase sexual. Digo isso porque sei o que sinto quando me deparo com uma barraquinha de milho verde no meio da rua. Quando percebo no ar o aroma de milho cozido, uma força cósmica me atrai ao carrinho prateado. Um arrepio me sobe o corpo e eu sou levada diretamente ao panelão de água fumegante. Em transe, escolho a espiga mais suculenta. Observo atentamente o vendedor envolvê-la carinhosamente na água salgada e a agarro com toda a força quando ela finalmente me chega às mãos. Minutos inesgotáveis espero até que ela esfrie para dar a primeira mordida. E num ritual quase vampiresco, cravo os dentes nos inocentes grãos macios e chupo o caldinho salgado até encher a boca. Mordo e chupo. Mordo e chupo. E assim fico, numa seqüência infinita de suspiros e gemidos até acabar com o último grão amarelo. Nossa. É quase um orgasmo. Ou, como explica com sabedoria meu companheiro Houaiss, uma excitação incontrolável do espírito!

Simplesmente divino!

Anjo miúdo

Foto Adriana Esteduto Machado

Foto Adriana Esteduto Machado

Como posso ser tão cega e não perceber o que essa criança está a horas tentando fazer?

Acordei de madrugada mais uma vez para escrever. A inquietude da minha alma tem me despertado todas as madrugadas, por volta das três horas da manhã como se fosse oito. Resignada, levanto, lavo o rosto, preparo um chá e vou para frente do computador tentar descobrir o que de tão urgente precisa sair de mim.

Mas nada acontece. Me distraio então com alguma pesquisa na internet, dou uma olhada nos meus e-mails e me lembro, como um despertadorzinho interno, da maravilhosa declaração de David Lynch a respeito da criação artística: “Se desejamos pegar peixes pequenos, podemos viver em águas rasas. Mas se desejamos pegar peixes grandes, então não escapamos de mergulhar em águas profundas”. Sei bem o que isso significa: meditação.

Meditar para mim é um esforço sobre-humano. Todas as vezes que tento meditar me deparo ainda mais com as turbulentas águas em que transbordam minhas idéias. O contato com essa realidade é assustadora. Somos um povoado de imagens e sentimentos que se misturam violentamente dentro da cabeça. Minha guru diz que a meditação é o único caminho para a paz interna. E que a paz é a única chance que temos de sobreviver ao caos em que o mundo se instalou. Através dela temos a chance de expandir nossa consciência e ir ao encontro da divindade que habita no fundo da nossa alma. Ela diz também que meditação não é nenhum bicho de sete cabeças. Basta sentar-se e permanecer em silêncio. Mas e quem disse que eu consigo ficar em silêncio com todas as urgências gritando dentro de mim?

Pois bem. Estava eu aqui de madrugada debruçada sobre essas questões, quando chega Catarina, minha filha caçula, descabelada agarrada ao seu urso e chamando chorosa por “mamãe, mamãe…” Ai puxa vida, pensei comigo, agora mesmo que a meditação foi para o beleléu. Peguei-a no colo e a coloquei na cama.

– Não mamãe, quero colo.
– Catarina, pelo amor de Deus minha filha, tá de noite, olha só lá fora, o sol ainda não chegou, você tem que dormir…
– Tá, mas no seu colo mamãe.
– Tá bem…

Coloco-a no colo e canto baixinho uma canção de ninar. Minha cabeça continua a ferver. Ansiosa, desejo desesperadamente que ela durma para que eu possa voltar ao meu universo conturbado de tão sérias questões a resolver. Devagar, a acomodo sobre o travesseiro macio. Saio de mansinho. Um minuto depois, ela sentada na cama, de olhos molhados, me chama:

– Mamãe, eu quero você.
– Filha, o que é que tá acontecendo com você meu anjo?
– Mamãe, quero colo.
– Tá bem, eu vou deitar do seu lado.
– Não, eu quero colo. Colo sentada.

Impaciente, saio de novo do computador e a pego no colo. Sento na cama. Ela me olha fundo nos olhos, dá um sorriso, faz um carinho no meu rosto e fecha os olhos. Só então eu compreendo. Meu anjo miúdo de cabelos cacheados tinha saído de sua caminha para vir até aqui me ajudar a meditar. Que burra! Como pude ser tão cega e não perceber o que essa criança estava a horas tentando me dizer? Deitada eu pegaria no sono com ela. Sentada, precisando fazê-la dormir, era uma chance de ouro que eu tinha de entrar em profundo estado de meditação. Bastava fechar os olhos e sentir nossos corações baterem juntos.

Nessa madrugada fiz uma meditação profunda. E agora sentada aqui no computador escrevendo, com o pensamento mais tranqüilo, percebo um barulhinho que vem da janela e que me chama a atenção. Olho depressa. É um passarinho, outro anjo miúdo, que me olha através do vidro da janela. O que ele veio me dizer eu já sei: não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho.

Colecionando instantes

polaroid

Entrou na praça e viu.
Uma revoada de pombos vinha em sua direção.
Juntos faziam um desenho quase geométrico
no azul daquela tarde de sol.
No momento em que passaram sobre sua cabeça,
fechou os olhos e com a alma
fotografou o instante.
Sorriu.
Guardou a fotografia na gaveta dos sonhos e seguiu em frente.
Costumava fazer isso todos os dias de sua vida.
Colecionar instantes.
Esses, que tornavam sua existência sublime.
Alimentava o sonho infantil de pedir a Deus
um último desejo antes de morrer:
assistir por inteiro a seleção de instantes
que guardara ao longo dos anos.
Como num filme, onde teria enfim,
a essência do que fora sua felicidade.

Quimera do olhar

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Foto Clara Meira

Árvores. Folhas verdes. Vários tons de verde. Várias texturas de folhas. Céu azul. Nuvens brancas. Brancas, com tons de rosa e laranja. A laranja-fruta tem furinhos. Pequenininhos. Como os poros da pele. Que também pode ser colorida. Branca, vermelha, amarela, negra. Negra, como a cor da noite. Noite onde tem estrela brilhando. Ela pisca, ou é impressão? Não, impressão é o que os olhos sentem, porque o mundo é da forma que você o vê. Ou da forma que te ensinaram a ver. Poetas tem esse dom. Eu vejo o mundo vibrante se o dia tem sol. Mas se chove, vejo a vida triste, com toda a beleza que pode existir na melancolia. Eu gosto de ver chuva. De ver gota pingando no chão. Gota correndo do vento. Relâmpago. Trovão. Adoro ver essa luz eletrizando o céu. Luz elétrica. Luz linda é a luz da vela. Luz suave, doce, mágica. A luz do mundo, quando o mundo era simples. A luz que atravessa os poros e ilumina a alma. Luz perfeita para se escrever cartas de amor. Amor. Eu vejo amor por toda a parte. Na flor que desabrochou hoje no jardim. Na borboleta que é pétala que voa, como me ensinou Clarice. Vejo amor nos olhos da Clara. Nos abraços incriveis da Catarina. Vejo amor no suspiro profundo. No choro miúdo. Na gargalhada do Edu. Vi amor quando fiz pudim de leite ontem. Vi amor nos sorrisos felizes dos que comeram o pudim. Ah! As coisas de comer podem ser as mais lindas do mundo. Principalmente as que vem direto da natureza. Como os morangos, por exemplo. Kiwi, quando se revela por dentro. Carambola, quando vira estrela. Gominho de mexerica. Carocinho de mamão. Tudo tem sua beleza. Não foi Neruda que viu na cebola uma rosa de água com escamas de cristal? Eu não vejo mais, eu fotografo com a minha polaroid mental. E vou guardando tudo na memória até encontrar a palavra certa para cada imagem arquivada. Aquilo que minha retina viu e ficou pasma, eu corro para tentar traduzir em palavras. Acho que é por isso que tenho tido tanta urgência em escrever. Por medo de perder esse instante. Mas coisa feia eu não guardo. Por nada. Não perco meu tempo. Mas as lindas, ah… estas eu foco o olhar com o coração e deixo que elas me inundem. Como zeppelin voando no céu. Clara conversando com formiga. Sorriso desdentado de velhinha. Vento varrendo folha. Açúcar virando caramelo. Cata-vento ventando. Gato se espreguiçando. Córrego escorrendo. Copo de vinho tinto. Bocas se beijando de língua. Trilho de trem quando se bifurca. Avião rasgando o céu indo para longe. Arco-íris! Cavalo correndo livre. Noite virando dia. Dia virando noite. Ondas do mar fazendo espuma. Gelo boiando na água. Tinta de caneta virando poema. Última página de livro. Os cílios da minha mãe. Língua falando lápis-lazúli. Linhas do tempo na palma da mão. Mão fazendo pão. Mão carinhando alguém. Mão dando adeus. Mão pedindo. Mão oferecendo. Mão é uma coisa danada de linda. Pode ser mão pequena, delicada. Ou mão de homem da terra, toda enrugada. Mão maltratada pelo tempo. Mão de bebê. Para mim, mão é a parte mais linda do corpo. Acima dela, só mesmo o olho. Olho que é o único órgão que brilha, que se explica na íris e que se entrega na lágrima. Olho que pode ver tudo. Quantas vezes quiser. Que pode ver árvores. Folhas verdes. Vários tons de verde. Várias texturas de folhas. Céu azul. Nuvens brancas.

Ausência

trilho

Há sempre algo de ausente que me atormenta
Um avião que parte no céu
A saudade de um amor que nunca voltou
Um trilho de trem nunca mais percorrido
Fotografias de pessoas que já partiram
Navio escondido no fundo do mar
Móveis cobertos com lençol branco
Garrafa de vinho vazia
Flores secas
Perfume que carrega sentimento esquecido
Quadro antigo de lugar que não existe mais

Há sempre algo de ausente que me atormenta
Sentimento que não se explica
Só aperta o coração e faz suspirar
Para tentar arrumar o que não pode ser arrumado
Nem na alma
Nem em nenhum outro lugar

 

 

 

A doença do labirinto

Lucca_labirinto

para Bia Albernaz

Há muito tempo entendi que a estrada da vida não é uma linha reta e sim uma espiral sagrada aonde vamos percorrendo a existência em profundo desejo de ascendência. O que eu não sabia é que em determinados momentos a espiral dá lugar a labirintos e que só saímos dele se entendermos em profundidade o seu significado.

Há três semanas cheguei à emergência do hospital passando muito mal. Tonta, enjoada e com dores de cabeça, o diagnóstico da médica foi certeiro: labirintite. Dizem que a labirintite é uma inflamação no ouvido. Mas isso não é verdade. Labirintite é uma inflamação na alma. De origem exclusivamente emocional, a doença do labirinto é coisa séria e dependendo do Teseu, pode ser tão trágica quanto as piores tragédias da mitologia grega. No meu labirinto não há somente um, mas diversos Minotauros soltos querendo me pegar e o pior, sem ter nem meio metro de fio de Ariadne para me ajudar.

Dizem que o labirinto é, essencialmente, um entrecruzamento de caminhos, dos quais alguns não têm saída e outros só nos levam a alguns impasses. Não há quem me faça desassociar a imagem do labirinto à minha labirintite. Perder o chão é como perder o caminho. Estar perdida dentro de mim mesma é como chegar a uma determinada parte da jornada e perceber que algo muito importante está errado.

No livro “A Doença como Símbolo” a definição de labirintite é devastadora: a doença vem como uma alerta do corpo à alma para que ela pare de se enganar. Como se de repente o indivíduo precisasse voltar a olhar de frente para tudo aquilo que construiu e rever os valores e crenças na qual baseou sua vida. Pancada não?

Debruçada sobre o significado do símbolo descobri que o labirinto foi construído pela primeira vez na intenção de ser um inteligente sistema de defesa. E que há dois tipos de labirintos: aqueles que tem a intenção de confundir os viajantes – e não tem saída – e aqueles que, como numa viagem iniciatória, não tem a intenção de aprisionar o viajante e sim transformá-lo através da experimentação – já que percorrer é mais importante do que sair – e geralmente guarda em seu centro um precioso e sagrado tesouro.

É muita riqueza num símbolo só! Mas tomar consciência da verdade não me livra da labirintite, nem tampouco do labirinto no qual estou perdida. Tenho tomado uma quantidade absurda de remédios alopáticos, florais de emergência, trabalhado minhas questões na terapia. Diminui café, mate, chocolate. Durmo sentada e não abaixo a cabeça para mais nada. Tenho estudado sobre o assunto. Tenho escrito – à mão já que fui proibida de ficar no computador – e meditado. A única coisa que não fiz que a médica mandou fazer foi caminhar. Ah, eu acho tão chato caminhar. Será que isso significa alguma coisa?

Tudo significa algo na simbologia da existência humana. Mas a verdade é que não consigo ficar boa. Não consigo me sentir bem de novo. Não consigo achar uma saída nem achar nada de precioso no centro de coisa alguma. Na vertical já voltei a ter alguma controle. Sigo trabalhando, dirigindo, cuidando das meninas. Mas se abaixo, levanto ou me deito depressa, o mundo continua vibrando na sensação estranha de ter tomado um porre sem ter ingerido uma única gota de álcool.

Os espíritas tem uma explicação para o meu caso. Vários já vieram falar comigo. E o diagnóstico é sempre o mesmo: mediunidade não trabalhada. Dizem que minha tontura e mal estar nada mais é do que um chamado sério da alma para a necessidade de um desenvolvimento espiritual.

Pode ser. Não estou fechada para nada. Já estou em busca de mim mesma, buscar um centro espírita vai ser moleza. Mas que fique registrado no livro cósmico da vida: se a intenção é que eu expanda minha consciência ajudando ao próximo, de uma coisa tenho certeza; isso eu já venho fazendo ao longo dos meus quarenta anos. Tenho um respeito profundo pelo mundo e pelas pessoas. Sou amorosa e isso se multiplica a partir do meu coração em todas as minhas ações cotidianas. Descobri que posso curar alguns espíritos com aquilo que escrevo e isso tudo, de alguma forma, já é trabalhar minha mediunidade, não?

Mas se preciso fazer mais, farei. Se preciso ir mais fundo, eu irei.

Diz o “Dicionário de Símbolos” de Jean Chevalier:

“O labirinto conduz o homem ao interior de si mesmo, a uma espécie de santuário escondido, no qual reside o mais misterioso da pessoa humana. A transformação do eu, que se opera no centro do labirinto, e que se afirmará à luz do dia no fim da viagem de retorno, no término dessa passagem das trevas à luz, marcará a vitória do espiritual ao material e, ao mesmo, tempo, do eterno sobre o perecível, da inteligência sobre o instinto, do saber sobre a violência cega.”

Que o meu saber possa conter essa violência que tenho feito sofrer meu corpo. Que o meu amor vença todos os medos que surgirem em forma de Minotauros. E que a minha fé me faça encontrar a Ariadne que habita em mim e ela possa me alertar, através de sua coragem e inteligência, que não há verdade que doa mais do que a ilusão daquilo que construímos nos labirintos de nós mesmos.

Em busca do sentido perdido

Foto Gisele Magalhães

Foto Gisele Magalhães

Talvez exista algo mais denso do que o nosso próprio sangue. Algo mais profundo que a nossa humanidade. Algo mais vital do que o ar que a gente respira. É ter consciência para o que se vive. Que sentido encontramos para existir. Para estarmos aqui.

A vida é estranha e maravilhosa. Sempre costumo dizer isso. Mas têm momentos da minha caminhada, que nem mesmo com toda a paixão e gratidão por estar viva, eu não encontro direito o sentido para estar aqui. Existir com consciência é um desafio incomensurável.  Muitas vezes invejo os animais simplesmente por não poderem pensar. Eles são livres. Livres nesse mesmo planeta que habitamos e coexistimos. Nascemos, vivemos e morremos. Mas temos absoluta consciência de todo o processo e isso muda tudo. Apesar de tanta evolução, ainda acho muito estranho que tenhamos nos acostumado com isso. Basta olhar a coisa por uma perspectiva um pouco mais distanciada que vai ver que viver é uma coisa muito doida. Desde que o mundo é mundo. Imagina que vivemos nos tempos da caverna como primitivos há milhões e milhões de anos atrás?  Depois vivemos eras e eras de um tempo que nem sequer lembramos mais. Nos digladiamos na Idade Média, vivemos tempos sombrios em todas as guerras que nos enfiamos. E hoje?

Hoje vivemos um tempo onde a tecnologia e a globalização colocam uma lente de aumento no planeta e nos fazem sofrer barbaramente com a consciência de tudo que acontece ao redor da Terra. Não há coração que suporte assistir de perto toda a dor que o mundo passa. O mundo inteiro não cabe dentro de nós. Não deve caber. De vez em quando paro para pensar no futuro e acho ainda mais triste nos imaginar naquele mundinho hostil, úmido e em curto circuito de Blade Runner. Sei lá. O mundo parece ter se acostumado com tanto delírio. Se não fossem os loucos, os deprimidos e os artistas, eu poderia apostar que o mundo entrou num colapso de anestesia coletiva.

De tempos em tempos eu me perco. Aliás, eu passo mais tempo perdida do que achada. Mas a sensação da falta de sentido na vida é uma das coisas mais apavorantes que eu já senti. Hoje em dia existem muitos diagnósticos para esse vazio: depressão, pânico, ansiedade. No fundo é sempre a mesma coisa. O homem desconectado da sua essência mais profunda. Desconectado de si mesmo e seu propósito. Desconectado da divindade que habita dentro dele. Já li muito sobre isso, mas a teoria é sempre muito diferente da realidade e eu acredito que ninguém escolha por livre e espontânea vontade estar desconectado de si mesmo. Cara, isso foi acontecendo aos poucos com a humanidade por tudo que ela tem passado desde que o mundo é mundo, não? Sim. Mas e daí?

Daí que no ano passado – num dos surtos que tive quando perdi o mapa de onde estava – resolvi levar a sério essa coisa de vazio e entrei o mais fundo que pude no meu buraco. Escrevi, escrevi, escrevi. Num único caderno. Sem pensar em publicar. Sem mostrar para ninguém. Sem mentir, sem florear. Escrevia e me colava. Escrevia e me jogava fora. Escrevia e me passava a limpo. Foi um processo dolorido, esquisito, maravilhoso. Eu tinha descoberto um jeito de construir uma ponte do meu mundo interno para o mundo externo. Estava fazendo a coisa mais sincera e simples e profunda que já tinha feito. Quando terminei o caderno, tinha nas mãos uma fotografia da minha alma. E muitas pistas para descobrir finalmente, o que fazia e que não fazia sentido para mim. Foi uma catarse, mas valeu a pena.

Tenho pra mim que esse pode ser um bom mecanismo de salvação. Pesquisar e montar o próprio kit-sentido. Uma maletinha de primeiros socorros para quando a gente se perde. O meu não tá pronto, mas eu sigo construindo, dia a dia, os tijolinhos que sustentam a minha existência. Cada vez que eu descubro algo novo que faça sentido, um novo tijolo aparece. No lugar daquele vazio que fazia eco, agora tem um monte de Tatianas trabalhando muito para me transformar de geleca embrionária num ser cada vez mais forte, consistente e bonitão.

Talvez agora eu não me perca mais.

Porque todos os dias olho pro meu kit e reconheço de uma forma profunda e inexplicável o valor de cada uma daquelas coisas que estão ali: a maternidade, que me deu de presente duas filhas e a possibilidade de amar esse amor infinito que há dentro de mim e essa capacidade inata que temos de cuidar daqueles que fazem parte de nós. A natureza, que me ensina com sua beleza e força porque as árvores fazem sentido, e os prédios não. O xamanismo e seu fascinante caminho vermelho, que me fez entender com beleza e coerência que não existe um caminho para a espiritualidade, mas que a espiritualidade é o caminho. E por fim, a arte, que de alguma forma sempre me salvou nos momentos mais sombrios e que me mostra sempre a vida sob a lente mais generosa, ampliada e despretensiosa que pode existir.

Sentido. O dicionário Houaiss tem mais de vinte significados para a palavra sentido, mas nenhuma delas explica melhor o sentido da palavra do que o antigo provérbio xamânico que diz: “sinto, logo compreendo”.

Sinto a vida nas entranhas. Escrevo para compreendê-la. Que o Grande Espírito possa sempre me ajudar com essa missão. Hoje e todos os dias que restem da minha jornada por aqui. Aho!