Picasso e tudo aquilo que eu entendi

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“A arte é o vazio que a gente entendeu”
Clarice Lispector

Semana passada fui ver o Picasso. Sozinha. Ah! Tem coisas que eu a-do-ro fazer sozinha. Exposição é uma delas. Se cada um tem um tempo diferente para entender a vida, imagina uma obra de arte. A viagem precisa ser individual para que cada viajante possa vivenciar a experiência da forma que desejar. A arte é um mergulho profundo no vazio de cada um. Estar só nesse momento – pelo menos para mim – me ajuda muito no processo de entrega para a coisa.

Mas então. Picasso.

Me comove muito essa coisa do povo enfrentar uma, duas horas de fila só para ver uma exposição de arte. Gente! É demais. Esse tipo de coisa me devolve a esperança no mundo. Na humanidade. E me faz lembrar aquele livro da Celina Fioravanti “Os Curadores do Espírito” que fala dos artistas como principais agentes de cura e equilíbrio do mundo.

Bom, eu enfrentei uma hora de fila feliz. Li um pouco, observei as pessoas, ouvi conversa alheia, comi pipoca, liguei para uma amiga, lixei minhas unhas, arrumei minha carteira, tomei água com gás, masquei meia dúzia de chicletes. Na verdade nem terminei de fazer minhas tarefinhas de bolsa quando recebi a senha para entrar.

O Centro Cultural Banco do Brasil é um espetáculo por si só. Aquele lugar é uma viagem no tempo. Todas as vezes que entro naquele prédio e sinto aquele cheiro característico dele – uma mistura de café, cultura, refinamento e elegância – agradeço por existirem lugares no mundo como ele. Na verdade o espaço é uma garantia de prazer. Não importa que exposição esteja em cartaz. Nem que peças de teatro estejam passando. Ir ao CCBB é um programa barato e de satisfação garantida. Não sei o que é. Tem uma coisa na atmosfera daquele lugar que me fascina. A começar por aquela cúpula que fica no centro do prédio. Aquilo não é uma cúpula. É um portal para outra dimensão.

Mas voltando ao Picasso.

A fama do cara é uma coisa indiscutível. Picasso é considerado hoje um dos mais importantes artistas plásticos do século XX. Num leilão em maio desse ano, alguém pagou quase 180 milhões de dólares por um quadro dele. Pensa. É uma quantia astronômica por uma obra de arte. Mas eu entrei na sala e dei de cara com uma pintura dele. E naquele momento, não havia nada entre nós. Nem a fama, nem a história, nem o valor da obra, nem o tempo. Só eu e ela, a tela. E dentro dela, a alma dele, impressa na textura daquela tinta a óleo.

Uau.

Primeiro quase não consegui respirar. Como pode? Eu estava ali e podia sentir a presença dele. Não a presença do mito, mas do Pablo, o cara que tinha nascido na Espanha, que desenhava e pintava desde pequeno, que quase morreu de escarlatina, que sonhava em morar e trabalhar em Paris, que tinha amado e maltratado muitas mulheres e tinha revolucionado a arte com suas ideias. Minha fértil imaginação me capacita a coisas incríveis. Em alguns segundos, voltei no tempo. Ao dia, ao exato momento que ele pincelava naquela tela aquelas impressões que o mundo lhe causava. E pensei na brevidade do tempo diante de certos fenômenos da nossa existência. Essa é uma das razões da arte me fascinar tanto… Ela é imune ao tempo.

Mas voltando ao quadro.

Devo ter ficado alguns minutos em frente à primeira tela da exposição. Depois de passado o deslumbramento da viagem no tempo, voltei à sala do CCBB e fiquei tentando imaginar porque que aquela pintura era tão famosa. Lia e relia os resumos do curador da exposição e ria sozinha daquelas definições esdrúxulas que os entendidos em arte insistem em escrever, tentando definir o indefinível. Taí uma coisa que eu não entendo nas exposições. Para quê tanta explicação intelectual para algo que deve apenas ser sentido com o coração? Nada do que está escrito ali pode me ajudar a buscar uma emoção se ela não vem. Geralmente nas exposições que vou, elejo o quadro ou o objeto que mais me emocionou na sala e vou seguindo a jornada, os guardando na memória e no coração. Antes de ir embora, volto para me despedir de cada um, agradecendo silenciosamente sua existência, como se eles de alguma forma tivessem despertado algo mágico dentro de mim.

Na exposição do Picasso um único quadro me emocionou. E é o tipo da coisa que não dá para explicar por que. O pintor mesmo tem uma frase que gosto muito. Ele diz: “a qualidade de um pintor depende da quantidade de passado que traz consigo”. Talvez o mesmo possa ser dito do espectador. Gostar ou não de uma obra de arte também pode depender de tudo que o espectador tenha vivido. Como nos filmes. Dificilmente conseguimos explicar a alguém que odiou determinado filme, o porquê de termos gostado tanto dele. Nosso passado. O que vivemos. O que vimos do mundo. A forma que vimos. O quadro que amei da exposição era pequeno e sem destaque. Mas calou em mim alguma coisa que não sei explicar. E nem preciso. Sei o que senti e pronto.

A verdade é que essa exposição do Picasso – e todo estranhamento que ela me causou – me trouxe uma reflexão profunda em relação à arte. Um artista traz ao mundo sua criação. O que as pessoas vão fazer com o que sentiram em relação a ela só compete a elas. Tá. É engraçado estar parado em frente a um quadro e ouvir atrás de você uma pessoa tentando explicar o que está vendo. É difícil decodificar o que se está sentindo, principalmente quando o que se está sentindo é algo profundamente abstrato. Pérolas saem dessas situações. Mas surreal mesmo é ouvir um intelectual metido a entendedor de Picasso afirmar categoricamente o que aquele quadro quer dizer. Como assim? Como ele acha que pode afirmar o que estava se passando dentro do Pablo naquela hora que ele pintou um minotauro cego sendo guiado por uma menina que carregava uma pomba?

O surrealismo de Salvador Dali eu até alcanço. Mas o cubismo de Picasso! Poxa vida. Eu até tentei estudar o movimento, mas foi quase impossível para mim. O que entendi do processo – e por isso não importa se eu gostei ou não da exposição – é que ele criou um movimento por um profundo desejo de contravenção. E para isso eu bato muitas palmas para ele. O cara ficou exaurido de um sistema, foi lá e reinventou as perspectivas no que deu na telha dele. Pô. Isso é genial. E precisa ser respeitado. E admirado. Se as pinturas são estranhas, tortas e o cara parecia estrábico, definitivamente não importa. O que importa é celebrar a coragem que ele teve de ir lá e fazer.

Tenho recebido muitas críticas aos meus textos. Hora porque estou colocando vírgulas onde não devo, hora porque estou conjugando verbos de maneira errada, hora porque não me aprofundo, hora porque me aprofundo demais. Depois de ver Picasso pensei no quanto as pessoas que vão lá e fazem, mexem com as outras que apenas assistem. É preciso muita coragem para se expor e colocar para fora o que nos inquieta a alma. É preciso coragem para enfrentar o mundo de dentro, mas é preciso ainda mais coragem para enfrentar o mundo de fora.

A Soma dos Dias

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Hoje o despertador tocou às seis horas da manhã. Eu desliguei o alarme e me espreguicei. Quando levantei, a coluna travou. Senti uma dor lancinante e caí de volta na cama sem acreditar no que estava acontecendo. Era a minha alma gritando outra vez.

Há muito tempo venho repetindo um mesmo processo emocional que não consigo me curar. Somatizar significa transferir para o corpo um problema de origem psicológica. Hoje, depois de toda a estrada percorrida nos meus quarenta e dois anos, já entendi que não há nada, absolutamente nada que o corpo fale, que não tenha sido dito pela alma. Mas mesmo com toda a compreensão, com todos os anos de terapia sofridos, todos os florais tomados, meu corpo segue dando pistas de como minha alma continua inflamada.

É mais ou menos como varrer a casa e colocar toda a sujeira embaixo do tapete. Com o tempo, o que era só uma fina camada de poeira vai se transformando num enorme calombo. A gente começa a tropeçar na sala e percebe que não dá mais para disfarçar aquele bolo gigante de sujeira. A mesma coisa acontece com a gente. No dia-a-dia, a gente vai vivendo aos trancos e barrancos. Vivemos intensamente e mal conseguimos compreender tudo que nos acontece. São emoções, frustrações, raivas. Sentimentos e experiências acumuladas que não conseguimos digerir. Esse acúmulo, ao invés de nos nutrir, começa a nos intoxicar. As  vivências vão se transformando num grande e espesso lixo anímico que se transforma numa massa de dor. A alma pede socorro, mas não temos tempo de ouvi-la. Porque desprezamos o cansaço. Enterramos a tristeza. Desrespeitamos os sentimentos. Então a alma começa a chorar.

Quando a alma chora, a gente leva um susto. E rapidamente saca da bolsa um Rivotril para calar essa coisa estranha que nos aperta o peito. Ou toma logo uma Neosaldina para essa enxaqueca que não passa. Ou um Omeprazol para essa dor de estômago que nos incomoda tanto. E como esses milhões de remédios vão sendo consumidos todos os dias para que os lamentos da alma se calem. E a gente possa continuar a jornada da vida, afinal de contas, nós precisamos trabalhar. Precisamos lutar pelo pão de cada dia. Porque precisamos ser felizes. Porque precisamos ter sucesso. Porque precisamos mostrar para todo mundo como somos felizes e como somos bem-sucedidos. Até que um dia a alma explode e não há remédio que nos tire de uma crise de lombalgia aguda.

Eu herdei do meu pai uma hipocondria patética. Talvez por ter descoberto desde pequena que a doença sempre o traria para mais perto de mim. Mas a verdade é que aprendi com louvor a ler e decifrar bulas na intenção de sufocar qualquer tipo de dor. A dor de existir já me é tão dolorida que as dores do corpo eu não consigo suportar. E assim, aprendi um mecanismo esquizofrênico de me antecipar ao sofrimento, antes mesmo que ele possa me alertar de qualquer coisa que esteja errado com a minha máquina. É engraçada a hipocondria do Woody Allen nos filmes. Mas na vida real é uma doença aprisionante e bem deprimente. E uma grande aliada nesse processo de calar a voz da alma.

Não fazemos por mal. Não fazemos numa intenção maléfica. Fazemos porque temos medo. Porque não sabemos se suportaremos tudo que a alma tem a nos dizer. Nem se suportaremos as nossas mais profundas verdades. Porque no fundo, não queremos sair das nossas zonas de conforto. Não queremos ter trabalho. Não queremos ter que olhar para as nossas sombras. Olhar para a parte em nós que nos envergonhamos. Olhar para as nossas feridas que nunca cicatrizaram. Não. Tudo isso é demais para quem tem que acordar às seis da manhã e viver um dia inteiro de trabalho e provações e desafios.

Mas um dia o despertador toca. E a gente levanta. E a coluna trava de tal maneira que por mais que a gente queira muito, ou precise, o corpo simplesmente te impede de levantar. É um mecanismo genial esse não, que a natureza inventou? Me estico para pegar o livro que está na cabeceira – “A Doença como Símbolo”, de Rüdiger Dahlke – e abro na página que diz: lombalgia. Leia o parágrafo com desânimo: “sobrecarga; não suportar o peso que se carrega; sentimentos de pequenez e inferioridade, o chamado entre o eu e o instinto dilacera a pessoa; dilacerar-se; torcer-se.” Não é possível. Mas está tudo bem! Eu estou dando conta de tudo. A vida está me trazendo os desafios e eu estou correspondendo a eles como devo.

Não Tatiana. Nada está bem. Você tem sofrido o último ano de infecção urinária de repetição – que nada mais é do que “chorar por baixo”, ter uma necessidade desesperada de se livrar de lixos anímicos – vira e mexe volta a ter labirintite – que é uma luta agressiva pela orientação certa em relação ao mundo e ao equilíbrio anímico. Anímico! Tudo gira em torno da sua alma, você não percebe? Até quando você pretende fingir que não está escutando o que sua alma tem a dizer? Até chegar a um diagnóstico de câncer?

Minha terapeuta costumava dizer que a gente cura as nossas feridas em camadas. E que se voltamos ao que nos parece ser o mesmo ponto que partimos, é sinal que na espiral da vida, ao menos um véu já conseguimos tirar dos olhos. E muitos… muitos são os véus que nos cegam. Depois de passar semanas com dores insuportáveis nas costas, descobri que minha lombalgia tinha se transformado numa hérnia de disco. Hérnia de disco quer dizer: “abertura de uma ferida antiga; estar sob pressão em decorrência de problemas antigos, que já eram urgentes na época da lesão”.

Talvez eu precise voltar para terapia. Sinceramente não me vejo capaz nesse momento de conseguir decodificar tantos sinais. Me sinto perdida numa escuridão interna. Não estou sozinha. Sei que muitos seres invisíveis me ajudam e me apoiam na minha caminhada. Mas a jornada da alma é um caminho de muitas bifurcações e escolhas delicadas. Não quero me perder dentro de mim mesma. Não quero fazer o quadro de uma doença sem cura. Não quero e não pretendo morrer antes da hora.

Meu amor aos Musicais

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Para Henrique Band

Há certos sentimentos nessa vida que são complicadíssimos de se explicar. Ou as pessoas o sentem ou jamais entenderão aqueles que sentem.

É o caso dos filmes musicais. Outro dia um amigo meu – músico – me indagou atônito, como é que eu podia ser capaz de “amar de paixão” os filmes musicais. Eu respondi: é muito simples. É que a vida lá é exatamente como eu gostaria que fosse cá. Ele não entendeu nada. E seguiu reclamando da coisa ser muito nonsense. “É esquisito as pessoas estarem falando… e de repente! Saírem cantando”. Ué. Mas a própria vida não é esquisita? Esquisito é a gente se acostumar com as esquisitices da vida.

Dentro de mim é assim: os musicais me fazem estar num lugar onde tudo parece ser possível, onde tudo é celebrado, onde a vida consegue ser mais do que um videoclipe. É uma longa história celebrada com canções, lágrimas e gargalhadas. Eles mexem comigo porque muitos sentimentos me vêm à tona. E deixam meus cabelinhos em pé. Porque os sentimentos não são escondidos, são venerados. O sentir é celebrado com exagero. Se há tristeza, ela é cantada com drama. Se há alegria, ela é supervalorizada. Como se o mundo de repente pudesse se transformar num grande caldeirão de emoções. E nele eu pudesse me reconhecer sem medo ou vergonha.

Tá, eu sou um exagero. Eu sei. Mas ser um exagero na vida cotidiana tem seu preço. Experimenta ser assim na realidade massacrante do mundo? Destoa, gente. Fica chato. Por isso eu vivo disfarçando meu lado Piaf de ser. No musical eu me realizo. Porque me identifico. E me encontro. E me liberto, porque finalmente me aceito.  Ai que coisa mais prazerosa que é a gente se aceitar!

Em Mamma Mia – filme que a Meryl Streep canta as músicas do ABBA – há uma cena antológica em que as amigas a convencem a voltar a ser uma menina divertida e despudorada como na juventude e cantam juntas “Dancing Queen”. Elas saem do quarto e vão pela linda Grécia, contaminando todo o vilarejo com sua música e entusiasmo e terminam a cena num grande pulo na água do mar! Como que alguém em sã consciência pode não se contagiar com uma cena dessas?

Como não se contagiar com a “Noviça Rebelde” quando ela dá dicas de como enfrentar o medo da tempestade aos filhos do Capitão Von Trap? Ou com a música mais linda de amor que Nicole Kidman e Ewan McGregor cantam juntos em “Moulin Rouge”? Como não cair em prantos na cena em que Anne Hathaway canta seus sonhos perdidos em “Les Miserables”? Como não explodir de excitação na cena final de “Dirty Dancing” quando Patrick Swayze mostra para aquela burguesia nojenta que dançar com paixão pode ser a coisa mais linda e pura do universo?

Ah! Como eu queria conseguir explicar pra esse meu amigo esse sensação que eu tenho de que as músicas associadas a histórias de pessoas podem ir além da própria música! E que se a gente se permitir eles podem nos servir como verdadeiros divãs. Eu faço isso todas as vezes que a vida vem querendo me pesar. E como num despertar de consciência, lembro o quanto o mundo me espanta e o quanto preciso traduzir esse espanto para o mundo. Escrevo por vocação, porque se pudesse ter escolhido um talento, com certeza teria pedido a Deus um gogó de ouro para sair cantando por aí.

Terapia para quê gente! Vai estourar umas pipocas e assistir “Cantando na Chuva” para ver que tipo de milagre pode acontecer na vida de vocês!

A seguir, um mergulho em algumas cenas citadas no texto. Divirtam-se!

Mamma Mia
https://www.youtube.com/watch?v=juTRRspWUqM

Moulin Rouge
https://www.youtube.com/watch?v=fFtssl7u7lE

Les Miserables
https://www.youtube.com/watch?v=-M2mpgwFSQ0

Dirty Dancing
https://www.youtube.com/watch?v=l9BbUqHrWFI

Cantando na Chuva
https://www.youtube.com/watch?v=-yaxcdMDcrs

Minha Mestra Yoda

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Para Manoela Monteiro
minha irmã shiatsu-acupunturista

Pegou no meu pulso com aqueles dedinhos quentes, mediu alguma coisa ali que pulsava e disse categoricamente:

– É uma crise de fígado. Vamos pra maca.  Vou cuidar de você.

No domingo almocei na casa da minha irmã. Ela tinha feito uma incrível macarronada com atum e estávamos nos preparando para assistir um filme. Em cima da mesa, o laptop estava aberto com uma notícia do Johnny Depp. “Ué que estranho, olha como ele tá com o olho caído nessa foto” observei. Todo mundo olhou, mas ninguém viu. Foi aí que eu percebi que tinha alguma coisa de errado comigo. Eu cobria os olhos alternadamente e percebia que o olho direito estava bem, mas o esquerdo parecia em curto. Como se estivesse perdendo o foco e trepidando as imagens. Comecei a ficar aflita. Em minutos minha visão escureceu. Tudo aconteceu muito rápido. Me deu enjoo, a pressão baixou e, claro, fiquei tão nervosa que comecei a chorar: “Má, acho que eu tô tendo um treco.”

Ela me deitou na maca, pediu que eu respirasse fundo. Ligou o abajur e avisou: vou colocar uma música bem baixinho para te acalmar. Respira, Ti, respira que eu vou cuidar de você.

Minha irmã é shiatsu-acupunturista. E a medicina chinesa a transformou numa fada encantada – tipo um Mestre Yoda feminina – cheia de força, sabedoria e coragem.

O que vivi ontem me emocionou tanto que eu quis escrever esse texto em homenagem a ela. Em homenagem a tudo que ela se transformou depois que resolveu fazer da cura seu propósito de vida.

Ela sabe que eu detesto agulha. E que precisa de mais paciência comigo do que com qualquer paciente porque considero aquelas coisinhas fininhas um instrumento de tortura. Elas me dão uns tremeliques, e eu choro e quero morrer. Ela não liga. Dá umas palmadinhas, dessas que se dá em neném e diz: tá tudo bem, tá tudo bem…. e explica tudo como se eu realmente fosse entender:  tem vento aqui no seu fígado, seu pulso está cheio e a pulsação sem força nenhuma. Há muito calor no seu organismo e a sua energia está excessivamente yang. Vou esvaziar uns pontos e nutrir outros… Respira, irmã, vai dar tudo certo.

Diz ela que não sou só eu, que muitas pessoas têm medo de agulha. Mas, na verdade, o medo não é das agulhas. O medo é de sentir medo. É de antecipar na mente, uma dor que ainda não veio. É o medo da energia que o corpo tem e a gente nem sempre consegue controlar. É o medo dessas emoções que estão contidas nos nossos nervos e que a agulha vem para equilibrar. Cá entre nós, essa coisa de medicina chinesa é muito genial. Eles têm um olhar tão diferente para todas as coisas. Imagina que minha irmã quando me encontra não me pergunta mais se estou bem. Só pede para ver minha língua. Oi?!

Bom, só sei que ontem aquela salvação foi realmente extraordinária. Como a simplicidade do vento que venta, ela esvaziou meu medo e, no lugar do desequilíbrio, fez surgir uma serenidade dessas que a gente quer levar pra vida. E aquilo me inundou de um amor e um orgulho tão profundo que me fez chorar de novo. Mas esse chorinho ela não viu, porque estava naquela hora totalmente absorvida, de corpo e alma, numa massagem revigorante na planta do meu pé. Ela disse que ia cuidar de mim. Mas ela não me cuidou, ela me curou.

Trânsito: uma história de amor e fúria

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De todas as provações humanas talvez uma das mais perigosas e patéticas seja o trânsito.

Penso, penso e não consigo encontrar um lugar mais perfeito para radiografar a nossa alma do que esse covil de máquinas ambulantes. Bestas e santas criaturas se revelam e não podem esconder sua face porque a coisa está toda ali, na cara de todo mundo e não há disfarce que possa esconder quem você é.

Vejo por mim. Eu não sou nenhuma santa, mas estou trabalhando muito pela minha tentativa de evolução espiritual. E mesmo eu, que ouço mantra, medito, rezo e peço a Deus todos os dias por muita paciência já me peguei no trânsito com desejos compulsivos e assassinos.

Veja bem: se eu estou numa via rápida distraída, dirigindo lentamente e vem alguém e me dá uma piscadinha, eu acho chato, mas saio para pista do lado. Agora, se eu estou numa via rápida, dirigindo rapidamente e vem um carro, desde lá debaixo, piscando o farol freneticamente para eu sair da frente dele, o tempo fecha. Como é que essa pessoa se acha no direito de me mandar sair da frente dela se eu estou na velocidade adequada para a pista? Não, porque a mensagem subliminar desta infame piscadinha é: “sai da frente sua mosca, porque você está me atrapalhando”. E aí, o que acontece, é que toda a minha suposta elevação espiritual começa a ir por água abaixo. O meu sangue ferve e dele desperta o monstro negro que mora nas minhas entranhas. Ao invés de simplesmente sair, eu diminuo a velocidade e fico no retrovisor fazendo um gesto de “ué, fofinho, passa por cima.” Feio. Muito feio.

A pergunta é: por que uma coisa dessa tão simples me tira tanto do sério? Eu não sei responder. A verdade é que eu faço isso, mas morro de medo do apressadinho atrás ser um psicótico e se irritar com o meu sarcasmo e apontar uma arma para minha janela, gritando: “quer morrer, madame?” Às vezes os caras insistem. Se isso acontece, geralmente acabo engolindo a raiva e saio da pista por medo da loucura dos outros. O carro passa por mim e eu faço um esforço enorme para não mandar um dedo do meio para o desgraçado. Se estou num dia mais tranquilo, até consigo respirar fundo, contar até dez e desfiar meu rosário de frases feitas que me ajudam a me acalmar do tipo “apressado come cru hein” ou “vai tirar a mãe do puteiro vai!”. Mas essas frases ridículas nunca me isentam de sentir no fundo um peso enorme pela tristeza da mediocridade humana.

Claro que onde há sombra, há luz. E da mesma forma que me irrito profundamente com a falta de educação das criaturas humanas no trânsito, também me emociono e tenho vontade de chorar quando as pessoas mostram o lado mais bonito delas em gestos simples e generosos. É a mesma piscadinha do carro da frente que me faz sorrir, quando estou para entrar numa rua que não tem sinal e o carro pára o fluxo do trânsito para educadamente me ceder a vez, para que eu entre antes de todos. Poxa, isso é lindo demais.

Mas voltando ao lado negro da força, o trânsito já enlouqueceu muita gente. Às vezes uma fechada, uma vaga roubada ou apenas uma buzinadinha pode trazer a tona uma fúria cega que mora dentro da gente. Outro dia recebi um texto muito bom sobre isso (dizem que é do Arnaldo Jabor, mas texto de internet sempre é uma incógnita) Chama-se “A Lei do Caminhão de Lixo”. Ele fala que as pessoas são como caminhões de lixo, que acumulam um monte de raiva e frustrações dentro delas e que na primeira oportunidade, querem despejar toda a porcaria em cima de quem topar. Deus me livre um lixão desses.

Tudo é mesmo uma questão de como a gente se coloca na vida. Outro dia um velhinho me deu uma fechada daquelas de doer. Minhas filhas já me conhecem, não me aborreço com velhinhos dirigindo porque acho que eles têm licença poética de fazer umas besteirinhas no trânsito. Mas esse dia a fechada foi feia. Eu já ia reclamar quando passo pelo velhinho e ele está fazendo um gesto de desculpas… E em seguida me manda um beijo. Fala sério! Morri de amor com aquele velhinho!

Desses retratos de quem somos nós, nunca vou esquecer o enjoo de estômago que saí do cinema, no dia em que vi “Ensaio sobre a Cegueira”. O mundo perde a visão e com ela toda a dignidade humana. Saramago costumava dizer “Não é que eu seja pessimista. O mundo é que está péssimo”. Essas visões sobre nós são assustadoras. Mas nós somos assustadores mesmo. Somos complexos e de uma potencialidade absurda. Para o bem ou para o mal. Podemos ser arrogantes, prepotentes e egoístas. Assim como podemos ser generosos, solidários e profundamente amorosos.

Seja como for, o lema é sempre o mesmo: a vida da gente será o que alimentarmos dela. Se aquele velhinho beijoqueiro me emocionou tanto, é aquele sentimento que eu preciso regar. E não a fúria diabólica que eu senti por aquele Emerson Fittipaldi de araque, piscando alucinadamente para mim, no fundo desejando me transformar em pó. Afinal, de todas as superações humanas talvez uma das mais bonitas e emocionantes seja o perdão.

Adolescendo

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Para Clara Meira

Não. Definitivamente não há cursinho preparatório para gente ter filhos.

Ninguém avisou para gente do neném molinho que ia chegar aos nossos braços, nem da velocidade que as perninhas deles iriam ganhar quando aprendessem a andar. Ninguém avisou das perguntas que a gente precisaria responder, nem do amor avassalador que a gente iria sentir.

Todas as fases dão trabalho. Todas têm sua magia e complexidade. Todas são terrivelmente maravilhosas. Mas nenhuma delas se compara à adolescência.

Muito já foi dito sobre essa fase da nossa existência. Muitos já se debruçaram sobre esse tema. Por isso mesmo gostaria de tentar ir um pouco mais fundo nesse assunto. Essa coisa de dizer que os adolescentes estão desabrochando para a vida é uma visão muito simplista da coisa. Assim como chamá-los de aborrecentes é injusto e preconceituoso. A adolescência é um momento crucial de mudança, um estado dolorido, difícil e febril que todos nós passamos e precisa ser tratado com delicadeza e ternura, para que passe construindo seres e não destruindo essências.

Clara mudou muito desde que o calendário apontou essa mudança de fase em sua vida. Me lembro do aviso que nos deram na primeira reunião da escola, quando ela passou para o Fundamental II. A orientadora pedagógica teve muito cuidado para nos preparar. Mas a sentença era definitiva: em pouco tempo não reconheceríamos mais os nossos filhotes.

Eu tenho tentado com todas as forças enfrentar a coisa com sabedoria e humor. É isso ou me render a uma cartelinha de Rivotril. Mas confesso que os desafios são muito maiores do que podia imaginar. Cada casa deve ter seu drama, claro. Mas aqui a coisa é pesada: temos uma menina virando mulher, um bebê virando menina e uma mulher virando anciã. Uau.

Foi num desses dias de caos temporal que descobri um termo perfeito para o momento. Ela chegou aos prantos e me perguntou com os olhos transbordando de angústia:

– Mãe, peloamordedeus, o que tá acontecendo comigo?

Naqueles olhos eu via o tal desabrochar, mas via também um sentimento adoecido de confusão e medo. Ela tinha um misto de raiva, tédio e tristeza. A coisa saiu da minha boca como se tivesse acabado de ser inventado.

– Você tá adolescendo, filha.

– Como assim adolescendo, mãe?

– É uma fase esquisita onde a gente não é mais o que era e ainda não encontrou o que é. Imagina você se construindo, de dentro para fora e o mundo te moldando de fora para dentro. É meio conflituoso mesmo, mas você vai sobreviver e se tornar um grande ser.

Sabe que ela gostou? Acho que de alguma forma se sentiu explicada. Resumida. Bom, pelo menos naquele minuto.

Eu acho que a minha adolescência foi branda. Desde muito pequena me lembro da sensação de me sentir inadequada no mundo, então quando adolesci o sofrimento não foi assim tão grande. Eu não era desse mundo mesmo, para que sofrer? Eu não me lembro de ter muitos conflitos. Minha mãe já tinha me apresentado para a arte e ela de alguma forma me equilibrava para estar aqui, mesmo que eu me sentisse uma ET. Eu não me sentia obrigada a ser como os outros, nem me encontrar em nenhuma tribo, porque de alguma forma, já sabia que isso era uma ilusão. Então passei essa fase ocupada vendo muitos filmes, lendo muitos livros, escrevendo noites a fio nos meus cadernos. Eu tinha doze ou treze anos quando minha mãe um dia me encontrou numa vernissage no Shopping da Gávea, com uma taça de água gelada nas mãos, observando um quadro abstrato.

– Tá fazendo o que aqui sozinha minha filha?

– Ué mãe, to descobrindo a vida.

Minha mãe também não era fácil. Que mãe leva uma filha de treze anos para ver “Metropolis” do Fritz Lang? Ou “Koyaanisqatsi”, aquele documentário maravilhoso e barra pesadíssima com trilha sonora do Philip Glass, que fala sobre o desequilíbrio da vida moderna? Ela me ensinou muito sobre a vida no cinema. Me lembro de colocar saltinho, boina e óculos de grau para passar por mais velha nos filmes que tinham censura. Às vezes víamos até três filmes no mesmo dia. E tomávamos lanchinho entre um e outro. Era o nosso melhor programa.

Já minha irmã sofreu muito na adolescência. Nunca esqueço o dia que cheguei em casa e ela estava sentada no chão, de braços cruzados, olhando para a parede. Preocupada perguntei à minha mãe:

– O que é que ela tem mãe?

– Quem sabe, minha filha.

Manô pintou o cabelo com parafina e exigia que minha mãe comprasse roupas de marca para ela. Sua tribo era exigente. Ela convivia com a galera surfista do Leblon. Nada fácil.

Nos dias de hoje, Clarinha definiria minha irmã com maestria: ela estava bugada. Esse é o termo perfeito que se encaixa em quase todos os estados emocionais da Clara: quando a coisa não vai bem, ela se define estar bugada. Eu entendo. É muito bugado perder a inocência, ter que entender como funciona a vida adulta e ainda ter que decidir o que se vai fazer com um futuro que ainda nem chegou. É um processo muito pesado para uma criatura que outro dia mesmo tava brincando de boneca.

Ela tem se queixado de solidão. Que os amigos torcem o nariz quando ela fala uma palavra um pouco mais complicada. “É que eu leio muito, galera” se desculpa com um olhar sem graça. Já eu preciso disfarçar o orgulho que sinto dela e lhe digo com o coração apertado que a vida é assim mesmo, que as pessoas vão amadurecendo de forma diferente, em tempos diferentes, dependendo do jeito que cada um é criado e preparado para o mundo.

Hoje me dou conta do quanto valeu nunca ter mentido para ela, nunca tê-la poupado de nada. E ter forçado a barra para ela sempre ir além, além do sentimento, além do pensamento, além da superficialidade de todas as coisas.

Clara está adolescendo. E crescendo. E sofrendo. E todos os “endos” que é capaz. Eu não me preparei para esse pedaço da vida, mas como estou feliz em poder estar ao lado dela nessa caminhada. Estar com minha filha agora é estar imersa naquilo que chamo de resumo existencial: dói, mas é a dor mais bonita que a gente pode passar. Isso é viver.

O Caminho Vermelho

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Entre o nascimento e a morte de um ser vivente, a linha da vida coleciona momentos arrepiantes que, na grande maioria das vezes, é um marco tão forte na vida da pessoa que ela se sente renascendo. Ou morrendo, tudo ao mesmo tempo. Isso foi exatamente o que aconteceu comigo quando conheci o xamanismo.

Me lembro como se fosse hoje. Minha mãe tinha me chamado para uma “coisa” que era a minha cara. Fui de olhos fechados, porque se tem alguém que eu confio me conhecer, é aquela mulher. A tal “coisa” era um lugar onde várias pessoas se reuniam uma vez por mês para estudar tradições e práticas do xamanismo. O grupo chamava-se Espiral Sagrada. Na hora que entrei na sala já senti alguma coisa diferente. Estavam todos sentados em roda e cada integrante tinha à sua frente um pequeno altar montado com os mais diversos objetos. Cada um mais bonito que o outro. Sobre panos coloridos, havia pedras, chocalhos, tambores, animais esculpidos, folhas, amarrados de penas, sementes, pequenas mandalas, objetos que nunca tinha visto antes. O ambiente era agradável. Um cheiro de sálvia pairava no ar. Era possível sentir na pele uma atmosfera de serenidade e calmaria. Busquei uma almofada para sentar e me juntei ao grupo em silêncio. Duas mulheres – coordenadoras do grupo – pediram para que déssemos as mãos para fazermos uma oração. Foi ali que a coisa aconteceu.

No momento exato em que todas as mãos se entrelaçaram, tive uma visão inacreditável. Estávamos todos num imenso e mágico descampado, num outro tempo, sentados à volta de uma fogueira e cantando canções muito, muito antigas. Aquela visão me inundou de uma emoção que eu nunca tinha sentido antes. Uma sensação profunda de pertencimento invadiu meu corpo e eu comecei a chorar. Como se minha alma pudesse reconhecer cada alma daquele grupo e como se aquele lugar fosse a resposta para algo que há muito tempo eu buscava.

Entre idas e vindas, este é o meu décimo ano na Roda de Cura da Espiral Sagrada. E tudo – absolutamente tudo – mudou na minha vida a partir daquele dia. Como se uma nova Tatiana tivesse despertado de dentro da velha e os meus olhos pudessem ter a chance de ganhar uma nova lente para observar o mundo. A mudança de perspectiva foi tão profunda que precisei entrar na terapia para dar conta de digerir tanto conteúdo. Minha sorte? As coordenadoras do grupo são terapeutas e com isso só precisei escolher em qual delas mergulhar. Foi uma experiência maravilhosa. Se em algum momento, tive coragem de ir fundo nas minhas sombras, isso se deve ao fato da minha interlocutora chamar-se Elizabeth Amaral. De longe, uma das pessoas mais incríveis e fascinantes que já conheci.

Foi ela, nossa querida Beth Bear – como é carinhosamente chamada pelo grupo – que me ensinou que na Grande Teia da Vida, é preciso compreender que não somos seres terrestres vivendo uma experiência espiritual. E sim seres espirituais vivendo uma experiência terrena. Nossa. Isso muda muita coisa, não muda?

O xamanismo é chamado de “o caminho vermelho, ou o caminho do coração”. Será que alguém nesse mundo consegue imaginar um caminho mais bonito do que esse? Poder estar alinhado aos movimentos da Mãe Terra. Atentos aos ensinamentos do Pai Céu. Ter no espírito dos animais, aliados tão fortes para a vida como temos nos grandes amigos. Poder pedir a benção ao Avô Sol ao despertar de cada dia. E a benção à Avó Lua, antes de dormir, para que ela nos ajude a atravessar a escuridão da noite. Ai, eu não sei vocês, mas para mim, essas coisas me dão um treco aqui na goela de emoção. Porque são ações tão simples e tão verdadeiras. Movimentos que me fortalecem, me amparam. Me fazem sentir totalmente integrada àquilo que sempre, sempre teve sentido para mim, mas eu tinha me esquecido…

Quando eu era menina costumava dizer que a natureza era a minha igreja e que era dentro dela que eu queria viver. Porque eu rezava com as estrelas, contava segredo para as árvores. Chorava com a chuva, brincava com o vento. Conversava com joaninha, meditava com o pôr-do-sol. Aprendia sobre as cores com o arco-íris, fazia arte com pétala de flor. Acho que contemplar a natureza era a forma mais profunda que eu encontrava de estar comigo mesma, numa integração plena que só hoje eu consigo entender. Estar mergulhada na terra me fazia estar próxima à minha essência e isso me bastava. Quando a natureza encontra espaço no coração do homem acontece o fenômeno mais bonito que a existência humana pode vivenciar: a reconexão com o Grande Mistério. Não há mais sofrimento, porque entendemos no mais profundo do nosso ser, que não estamos sozinhos. Nunca estivemos.

Somos todos um. E ao me integrar com o outro, vejo nele todas as respostas que procuro. Espíritos ancestrais nos guiam. Espíritos guardiões nos protegem. Objetos sagrados nos fortalecem. Temos um caminho vermelho a percorrer enquanto estamos vivos. Que possamos honrar nossa vida e agradecer por tudo que temos.  E que por fim, no momento de atravessarmos o rio, possamos compreender com o coração, que o caminho azul será apenas uma breve passagem, já que outra incrível jornada estará para começar. Aho!

Para a minha amada roda,
Espiral Sagrada

Box Transcendental

box

Todo box é uma nave espacial.

Não importa se é de blindex, se é de vidro temperado, azulejos coloridos ou fechado com cortininha de argolas. Todo box é uma possibilidade de viagem intergaláctica.

A coisa é simples. Basta entrar na cabine, ligar a torneira-turbina e iniciar a jornada rumo ao desconhecido de diversas sensações. Aquelas que serão despertadas a cada pingo que cair sobre a pele nua do viajante. Para quem gosta de banho quente a travessia pode ser ainda mais prazerosa. O calor é um poderoso catalisador de emoções. E a fumaça o condutor perfeito para uma possível transmutação genética de pensamentos. Está comprovado que o fog londrino dissolve dias cansados e desmancha as mais severas preocupações.

O primeiro contato da água quente com a pele traz uma sensação de descarrego. Chega a ser doído de tão bom. A pele se arrepia e começa a por para fora todas as toxinas que se aglomeraram em sua superfície ao longo do dia. E o corpo, tomado por essa emoção de limpeza astral, nos leva a buscar imagens que se encaixem a essa sensação de renovação: ondas do mar invadem nossa mente, rios e afluentes navegam em nossas veias, cachoeiras cachoeiram dentro de nós.

Todo box é uma nave espacial.

Uma nau despertadora de sentidos: no prazer auditivo e revigorante do barulhinho da água, no gosto da liberdade de viver o instante, na cura aromática dos xampus, no contato da gente com a gente mesmo, matando a saudade no sabonete. Ele é uma embarcação lúdica que nos permite infinitos destinos. A possibilidade real e concreta de uma verdadeira renovação biológica. Muito mais do que um simples banho, o box é o nosso passaporte para o espaço sideral que há dentro de nós.

Os bobs da discórdia

pinmaior

Vivo na contramão do meu tempo. Não é apego ao antigo. É amor ao demodê.

Outro dia entrei na Tonisha e dei de cara com uma gôndola de bobs, aqueles rolinhos plásticos adoráveis, de todos os formatos, cores e tamanhos. Enlouqueci. Comprei uma penca deles e fui para casa sonhando com a minha cabeleira cacheada.

Nunca houve um movimento tão brutal nos salões de beleza para se alisar o cabelo. Queria muito entender o porquê. Tá. Eu sei o que a mulherada fala: que a gente nunca está satisfeita com o que tem. Tem cabelo liso? Sonha com cacho. Tem cabelo crespo? Sonha com fio reto. Eu até já fiz uma escova de chocolate. Mas é porque já tinha pintado meu cabelo de três tonalidades diferentes naquele ano (insatisfeita, eu?) e a escova inteligente explica muito bem para o seu fio de cabelo o que ele precisa fazer… para ficar bonito.

Mas é impressionante o movimento chapinha que se vê nas ruas hoje em dia. Tudo tão igual. Tão enlatado. É nessas horas que eu percebo como não sou a mulher moderna e contemporânea que gostaria de ser.

Eu não sou in, gente. Gosto de torradeira, vestido de bolinha, ouvir Dolores Duran. Meu ouvido não entende o funk, nem o rebolation, muito menos a dança da motinho. Não tive idade para tomar um chopp com Vinícius mas desmaio quando ouço ele cantar Samba do Grande Amor. Acho o cafona muito digno, já tive um brechó e não é a toa que eu olho para os carros na rua hoje em dia e simplesmente não consigo discernir a marca de nenhum deles. Para mim, são todos iguais. Sou do tempo do Alfa Romeu, do Chevette e do Monza. Não freqüentei drive-in mas já namorei numa Caravan Comodoro e achei que estava numa nave espacial para a Lua.

Antigamente as mulheres eram mais femininas. E curtiam muito suas próprias curvas. Hoje tem essa alucinação de malhação. Competição de quem tem o melhor corpão. O Brasil é um dos países campeões de cirurgia plástica no mundo! Por que? O que aconteceu que a gente se perdeu do feminino básico e perfumado das nossas belezas próprias?

Mesmo que eu não tenha nascido com os cachos que eu sonhei… é saudável querer ficar bonita. Só acho estranho querer ficar igual ao modelo que se estabeleceu do belo. Tudo é tão relativo.

Eu ainda quero sonhar com um tempo que a gente pode viver o tempo que quiser. E sonhar em não ser classificada de retrô só porque acho charmoso usar cílio postiço. Que troço chato é esse de todo mundo querer ficar codificando a gente.

Amanhã vou lavar meus cabelos e encher minha cabeça de bobs. Vocês vão ver. Em tempos de chapinha, eles vão acabar se tornando meu maior símbolo de rebeldia. Supimpa!

Clara e as cores

cores

Tudo começou quando dia desses eu entrei numa livraria.

Não posso ver uma livraria que uma força estranha me puxa para dentro. É sempre assim. E quando o lugar tem uma seção de papelaria então, é fatal. Não sei o que me atrai mais: se são os livros ou os papéis, as canetas ou os afins. Fui entrando sem pensar quando de repente vejo uma prateleira de produtos da Faber Castel. Ah… aquilo parecia um retorno ao jardim de infância. Tinha de tudo. Tintas, lápis de cor, giz de cera, massinha de modelar, hidrocores. Que delícia! Que vontade de sair por aí colorindo o mundo.

Foi quando de repente eu dei de cara com os potinhos de anilina. Vermelho, azul, amarelo, verde. Na mesma hora me deu a idéia de fazer um banho com espuma colorida para Clara. Imaginei a pequena mergulhada num arco-íris e não resisti. Passei a mão numa cesta e sai escolhendo a dedo cada cor para pintar a cena.

Chegando em casa, anunciei a aventura com pompa e circunstância. Nem bem deixei as bolsas, percebi Clara ao meu lado, já pelada, prontíssima para entrar no chuveiro. Que ótima estratégia – pensei – preciso de mais idéias como essa para o esquema do banho. Mas na verdade, acho que nem eu nem ela podíamos imaginar o que nos aguardava.

Catei todos os baldes e bacias que vi pela casa e entramos no box. Liguei a água, coloquei um pouco de xampu em cada um dos potes e deixei o jato bater na água com força para fazer a espuma. Aos poucos, fui abrindo os potinhos de anilina e derramando um bocadinho em cada um dos montinhos de nuvem branca. Mas a mágica foi acontecendo através dela, que tinha nas mãos como uma bruxa, uma enorme colher de pau para mexer e remexer em seu caldeirão mágico de poções extraordinárias. Conforme a alquimia das cores foi tomando forma, ela foi sendo tomada por uma emoção indescritível. Era lindo de ver. Ela dava gritinhos a cada cor que se revelava. Pulava. Gritava de novo. Olhava para mim estupefata. Estava em estado de graça. Não acreditava no que via. Nem eu.

Saí do chuveiro desesperada atrás da máquina fotográfica. Como é que eu não fui pensar nisso antes? Não podia perder aquela cena… aquela menina-fada de varinha de condão nas mãos, ao lado de mil potes coloridos!

Aos poucos, Clara largou a colher e começou a pintar os azulejos com as mãos. Os cabelos. A pele. E foi ficando multicolorida. Aquela cena transbordava poesia. Como podem as cores ter esse efeito tão mágico?

Aguardando à hora do final apocalíptico, finalmente derrubamos juntas todos os baldes coloridos. Com a predominância do azul, sem querer, acabamos transformando o box num imenso e agitado oceano. Cheio de ondas, marolas e espuma. Bom, isso foi o que eu vi. Para ela, que estava literalmente mergulhada na água azul, o lugar era outro.

Ela gritava sem parar, como se tivesse descoberto o sentido de tudo: “Mamãe, mamãe, eu tô nadando no céu! Eu tô nadando no céu!” Aquele box nunca mais foi o mesmo. Para nós duas.