Uma Carta de Amor

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Para Jonatan Agra 

Meu amado e admirável amigo,

Foi numa curva da vida que eu te conheci.
Num tropeço do destino, numa dessas armadilhas que reconfiguram a nossa estrada.
Não demorei muito para perceber o encanto.
A vida tem dessas coisas.
Ela é uma sucessão ininterrupta de surpresas lindas e aterrorizantes.
Te conheci para te reconhecer.
Mas esses últimos meses ao teu lado tem sido tão sublimes,
que ficou insuportável não escrever.

Vivemos os dias na eterna lembrança do que fomos.
E você diz finalmente ter lembrado de onde nos conhecemos.
“Da fogueira, minha querida. Nos conhecemos de outras vidas”
Acredito. Mas vou além.
Nos conhecemos de um lugar também muito profundo em nós.
Um lugar que habita a minha e a sua alma.
Um observatório que temos no centro do peito.
De onde contemplamos a vida e o lado de dentro de todas as coisas.
Tu e eu temos a mesma lente.
A mesma janela. O mesmo filtro.

E assim, nesse espelhamento deslumbrado, seguimos vivendo nossos dias.
O dia-a-dia contigo é um eterno achado de tesouros no fundo do mar.
Não há segundo desperdiçado.
Não há gesto esvaziado.
Não há suspiro que não seja justificado.
Você transpira emoção, razão e poesia.
Amor, arte e verdade.
Te assisto como quem assiste um milagre.
Um artista nas vísceras, uma criatura excêntrica, um ancião no tempo acelerado do mundo.
Há uma pureza em ti que me emociona.
Há uma crença no mundo em ti que me emociona.
Há uma esperança em ti que me emociona.

Meus olhos andaram fechados de cansaço.
O mundo me assusta.
Os seres humanos me assustam.
Mas algo muito puro emerge de teu coração, querido amigo, e esse algo tem me trazido de volta o frescor de um tempo perdido.
E eu me reconheço nesse frescor.
Sim, eu estou lá. Eu estou aqui.
Eu sou isso que você transpira.
Eu sou esse deslumbre.
Esse entusiasmo. Essa paixão.
Eu estou viva de novo e por tua causa.

Te agradeço amigo querido.
Todo o suporte diário.
Todos os abraços reequilibrantes.
Todas as coincidências.
Todos os olhares cúmplices.
Todos os insights, todas as gargalhadas que temos dado nas delícias e dores dessa rotina que você não permite que nos massacre.
Te agradeço os ensinamentos implícitos.
Os olhares que me compreendem mudos.
As palavras de amor e a troca de todos os instantes vividos.

Não levarei do mundo nada que não seja o amor que vivi com as pessoas que pude amar.
Te levo e te levarei comigo, num agradecimento interno e profundo.
Obrigada por extrair sempre o que há de melhor em mim.
Reencontrar uma alma-irmã é uma dádiva para poucos.
Devemos merecer isso minha Bruxa.
Devemos merecer.

Que o nosso amor seja eterno, até a próxima vida.
Que eu possa ter a sorte de te reencontrar sempre.
E que para sempre também possamos somar esse extraordinário e ordinário que há em nós.
Que possamos nos dividir e nos multiplicar.
E, sobretudo, que possamos sempre nos compreender.

Eu te amo, Jo.

Da sua sempre,
Tatiana

P.S. Obrigada por ter me apresentado Ludovico Einaudi. Sem dúvida, é a música da nossa alma.

O Poder Avassalador de um Abracinho

Abraço mágico de Gisele Magalhães - minha irmã.

Abraço mágico de Gisele Magalhães – minha irmã.

Minhas filhas são criaturas estranhas. De vez em quando, elas parecem seres de outro mundo. Claro que elas são muito chatinhas também. Todos nós somos. Mas tenho assistido atitudes nelas surpreendentes nesses últimos anos. Esse tal desse amor incondicional que a gente ama os nossos filhos deve fazer alguma mágica. Pelo menos nas minhas, está fazendo.

Outro dia Clara me abraçou depois de um berro que eu dei com a Catarina. Foi uma das coisas mais bonitas que eu já vivi com ela. Eu gritei, ela veio na minha direção, olhou fundo nos meus olhos e me abraçou. E no abraço, ela ficou respirando fundo, como se quisesse que eu a acompanhasse na respiração. Foi inacreditável. Minha impaciência foi se dissipando, a raiva foi indo embora. Quando me dei conta, estava imersa num manto de amor que ela me cobriu.

Na mesma hora me lembrei do vídeo sobre o abraço que já tinha mostrado para elas no Youtube.

Puxa vida. Quanta coisa a gente aprende e esquece que aprendeu.

Mas essa coisa do abraço tem um poder muito esquisito mesmo. Depois daquele dia com a Clara resolvi experimentar a vivência com os meus alunos. E foi incrível também. Quando eles estão nervosos, ou impacientes, ou desestruturados com alguma coisa que tenha acontecido, eu pergunto com todo o carinho: “você quer um abracinho?”. A resposta é sempre a mesma: sim. E ali, naquele encontro de peitos, chacras e corações, as energias entram numa mesma vibração e tudo o que estava caótico, entra em harmonia. Eles se acalmam e voltam para um centro de alegria lindo de ver. É impressionante.

Bom, se o abraço não fosse mesmo uma forma mágica de tocar as pessoas, a Amma não teria tantos discípulos como tem hoje. Para quem não conhece, Amma é uma guru indiana que transforma multidões apenas com o poder de seu abraço. Minha mãe recebeu um abraço dela quando ela veio ao Brasil e disse que ele tem uma potência astronômica e que não dá para explicar o que é.

Minha mãe me ensinou a abraçar desde muito pequenininha. Ela dizia que duas coisas demonstravam muito sobre o caráter de uma pessoa: o aperto de mão e o abraço. O aperto de mão precisa ser firme. A firmeza nesse ato vai falar da sua firmeza na vida. Não tem nada que me dê mais nervoso do que apertar a mão de alguém e esse encaixe ser molinho porque a mão do outro já veio molenga para sua. Ai! Caramba. É horrível. A mesma coisa é o abraço. Tem muita gente que tem medo de abraçar. Medo de encostar o corpo. Medo de encostar os sexos eu acho. Mas quando a gente encontra uma pessoa que sabe abraçar, nossa. É um oásis. Um Sol na Terra.

Tem uns abraços que recarregam a nossa bateria em segundos. Como o abraço das minhas pequenas. Já ensinei para elas o lance do aperto de mão. E do abraço. Ainda bem. O que seria de mim se não tivesse as duas para me lembrar das coisas que insisto em esquecer?

 

Mecanismo de Salvação

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Na caminhada da vida, de vez em quando a gente precisa inventar uns mecanismos de salvação.

Uns botes que te salvem de redemoinhos, umas âncoras que te impeçam de sair voando pela atmosfera, umas máscaras de oxigênio que caiam automaticamente do nosso pai Céu.

Eu tenho algumas cartas na manga, mas atualmente a que mais tem surtido efeito nos meus dias de surto, é a meditação.

No inicio da jornada eu sofria muito só de ouvir a palavra “meditação”. Porque eu queria muito meditar, porque eu entendia perfeitamente o quanto aquilo podia ser maravilhoso para mim, mas era só eu me sentar para meditar que a ansiedade vinha a galope. Eu ficava numa luta incessante com os pensamentos. Suava frio. Respirava. Espantava o pensamento. Recomeçava. Respirava fundo. Respirava de novo. Ficava tonta de tanto respirar. Voltava a tentar. Depois de dez minutos eu desistia exausta e frustrada da minha categórica incompetência oriental de esvaziar a mente.

Mas os anos foram passando. E eu fui entendendo, com calma e um pouco mais de serenidade, que meditar está muito mais na intenção do ato que o ato em si. E que a grande sacada é o seu movimento interno de querer se aquietar. Pronto. Isso já é meditação.

O mundo por aí anda de arrepiar. Essa semana eu vivi um das semanas mais cansativas no trabalho de todos os tempos. As meninas andam agitadas, eu ando agitada, a vizinhança anda agitada. A rua anda frenética, as pessoas andam histéricas e a impressão que me dá é que a qualquer momento, algum de nós vai ter um colapso.

Eu desejei meditar todos os dias.

Desejei o estado da coisa. Desejei o ritual que antecede a minha meditação. Aquela coisa deliciosa de acender a vela, o incenso na vela, a minha alma na vela. Mas o ritmo era tão sobrenatural, que antes mesmo de querer qualquer harmonização com o meu ser interior, eu desmaiava na cama, exausta de ser.

Hoje, pela primeira vez sozinha e em silêncio depois de muitos dias em desequilíbrio, aquietei minha mente e meu coração ouvindo um mantra e a impressão que me deu, é que eu redescobri um lugar em mim onde é só quietude. Equilíbrio. Esperança. Um lugar onde as coisas estão onde deveriam estar. Onde o mundo não é uma guerra, mas um paraíso. Onde a vida corre como um rio sereno, aceitando as pedrinhas que estão no caminho – porque assim é a vida, uma sucessão de pedrinhas no caminho – aprendendo simplesmente a desviar delas com sabedoria.

O desafio é conseguir trazer isso para o nosso dia-a-dia. E vivenciar esse lugar de plenitude pelo menos uma vez a cada 24 horas. Porque a gente precisa desse esvaziamento. A gente precisa esvaziar para encher de novo. Precisa digerir para conseguir se alimentar de novo.

Minha vida tem sido um safári. Termino meus dias não com a impressão de ter matado um leão, mas uma manada deles e isso é irracional. Desumano. Enlouquecedor. Mas como não posso – nesse momento – mudar a configuração de fora, então preciso mudar a de dentro. Porque não quero entrar em colapso. E para isso, não posso levar para a cama todos os conflitos, discussões, problemas e vivências que passei ao longo do dia. Não posso.

Eu entendi que meditar é um mecanismo de salvação. Agora o desafio é inventar um mecanismo para conseguir acessar esse mecanismo todos os dias. Alguém aí tem alguma ideia?

Esse magnífico vídeo tem imagens da Terra hipnotizantes.

https://www.youtube.com/watch?v=19nm5_nAwQg

Olhar essas imagens e ouvir essa música com total entrega é uma espécie de meditação.

Alguém aceita vir comigo?

O Jequitibá e o tempo

Foto de Irene Monteiro

Foto de Irene Monteiro

Outro dia vivi uma experiência extraordinária.

Eu tinha viajado com a minha família para o Sítio São José, em Cachoeira de Macacu e minha mãe cismou que eu precisava conhecer uma árvore.

Minha mãe é esse tipo de pessoa que quando cisma com alguma coisa, essa coisa vai precisar da nossa atenção porque algo inesperado pode acontecer.

Pois bem. Lá fomos nós: minha mãe, John, as pequenas e eu para o Parque Estadual dos Três Bicos, onde morava a tal da árvore.

Caminhamos uns dez minutos num trilha deliciosa, das minhas preferidas: bem úmida, fechada, com milhões de texturas e cores de folhas, um cheiro de terra inebriante. Passamos por cavernas de pedras, raízes esculturais, várias espécies de borboletas. De repente, numa clareira, eu vi a árvore.

Levei um susto.

Fiquei olhando para ela em choque como se tivesse visto um fantasma.

A árvore era nada mais nada menos que um Jequitibá-rosa de 40 metros de altura e um tronco com um diâmetro de mais ou menos sete metros. Um gigante em meio àquela floresta.

Mas de todas as coisas que aquela árvore me despertou naquele dia, talvez a mais arrepiante de todas tenha sido pensar que ela está ali há mais de mil anos.

Gente. Mil anos.

Pensem comigo. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, essa árvore já estava ali há 500 anos. Eu não sei para vocês, mas para mim é uma piração imaginar uma coisa dessas.

Bom, naquele dia, quando eu consegui chegar pertinho do tronco, a primeira coisa que me veio ao coração foi a necessidade profunda de me deitar aos pés daquela divindade e reverenciar sua ancestralidade e sabedoria. Depois me levantei e abri os braços para abraça-la quando percebi que Clara e Catarina já estavam abraçadas a ela de olhos fechados há um tempão. Minhas filhas-fadas. Que orgulho meu Deus.

Passamos ali um tempo mágico. Ninguém queria ir embora. Ninguém conseguia acreditar no que via. A presença do Jequitibá era tão forte que a impressão que me dava é que a gente podia senti-lo respirando.

Parece que no Parque Estadual do Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro em São Paulo, tem o maior e mais antigo Jequitibá-rosa vivo no Brasil. Ele tem 3.032 anos de idade. Será que isso é possível?

Mas desde o dia que eu estive na presença do Jequitibá, não consigo parar de pensar nele. Fecho os olhos, coloco na palma das mãos o pedaço de tronco que encontrei dele no chão (esse da foto) e me conecto a alma daquele ser de uma forma estranha e mágica.

Desde pequena sou uma viajante do tempo. Perdi a conta da quantidade de vezes que fui ao Centro do Rio e fechei os olhos, sentada num banco de praça e me imaginei voltando no tempo. Eu abria os olhos e via os bondes, as pessoas elegantes vestidas passeando com seus chapéus, via Machado de Assis escrevendo no Café da esquina. Quantas vezes me vi na praia imaginando o tempo em que essa terra era somente habitada por índios!

Eu acho que não sou do meu tempo. Sempre tive uma sensação física de estar fora dele. O dia que Woody Allen fez “Meia Noite em Paris” enlouqueci. Aquele filme me representa! Mesmo a moça que morava no tempo antigo que ele visita, sonhava em viajar no tempo ainda mais antigo do que o dela, achando que somente aquele tempo deveria ser legal. Minha cara.

Para o futuro nunca me projetei. Até porque a minha cultura cinematográfica me impede de desejar o futuro. Quem viu “Blade Runner” sabe do que eu estou falando.

Mas a verdade é que eu estou sempre pensando no tempo. E aquele Jequitibá me atiçou isso de novo.

Pensando no tempo. E nas dobras do tempo. E nas possíveis dimensões que o tempo nos traz.  Quem me dera ter capacidade mental de estudar a fundo a física quântica. Isso sim deve fazer uma pessoa pirar o cabeção. Na física quântica a realidade é comprovadamente relativa. E o tempo não existe como o compreendemos.

Quem sabe essa paixão toda por essa árvore não se justifique porque eu fui uma indiazinha que presenciou o início do crescimento desse Jequitibá há mil anos atrás? Hein? Quem sabe?

Ah Tatiana, isso aí, só o Grande Espírito sabe. Mais ninguém.

Gratidão

amor

“Quanto menos eu preciso, melhor me sinto”
Charles Bukowski

Desde a entrada da primavera, um sentimento de gratidão tem me invadido o corpo, a mente e a alma.

Como algo que emerge de um lugar muito profundo e se instala na superfície possibilitando a instalação de uma nova lente no olhar e um novo filtro no coração.

É uma sensação sublime de plenitude. Um sentimento simples. Quase tão orgânico como respirar. Quase tão óbvio como existir.

É um estado de contentamento. Uma possibilidade de compreensão do quanto me sinto abençoada e sortuda com a vida que ganhei, conquistei e integrei.

Porque é isso. Tem uma parte que a gente ganha quando nasce. Alguns acreditam em sorte. Eu acredito em merecimento espiritual. Você ganha existência e é um girininho nadando num oceano de infinitas possibilidades. Mas é claro que tem girininhos que nascem abençoados, e outros nem tanto.

Depois tem a parte da conquista. Aquilo que você batalhou muito para conseguir depois que se transformou num ser adulto e consciente de toda a suas possibilidades. A conquista não fala de sorte, mas de todo o esforço e empenho que você tratou a vida.

Mas de todas, a parte que eu mais gosto é quando a gente chega num determinado pedaço da caminhada e entende que de nada adianta nascer bem ou conquistar um bocado de coisas se ao longo da vida você não aprende a integrar tudo que plantou, semeou e colheu.

Integrar conhecimentos e experiências para mim hoje é o grande pulo do gato nessa vida. Quando você consegue pegar toda a massaroca do que aprendeu e passou e transforma a coisa em sabedoria de vida. Porque simplesmente… Amadureceu.

Já dizia Cecília Meireles: “Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar inteira”.

Então é primavera. E eu estou aqui transbordando essa gratidão por tantas coisas.

Por ter tido a benção de trazer ao mundo não só uma como duas criaturas inacreditavelmente especiais.

Por ter uma família para lá de gostosa e amorosa que me apoia tanto em tantos momentos da vida.

Por ter uma saúde maravilhosa apesar  a minha hipocondria insistir em dores e doenças que nunca existem graças a Deus.

Por ter uma lista tão grande de amigos de verdade, amigos que me apoiam, me abraçam, me perdoam. Dividem bravamente suas existências comigo, contando comigo, me dando sempre de presente parte de seus corações.

Por ter um trabalho tão significativo, tão importante para o futuro e, sobretudo, por poder ter minhas filhas inseridas nele.

Por ter um namorado tão cuidadoso e amoroso, que luta para estar comigo como um guerreiro e me enxerga de um jeito doce e poético como nunca ninguém enxergou.

Por ter encontrado nas palavras uma arma para lutar, por ter sofrido tanto e ter tanto o que falar, por ter nascido quem eu sou, com essa alma exagerada e esse jeito desesperado de viver os dias como se eles fossem os últimos, todos os dias.

Eu agradeço meu Deus, eu agradeço.

E sei, aqui dentro de mim, que a qualquer momento eu posso morrer. E não tenho medo disso. Tudo que vivi e senti, já valeu essa encarnação.

 

 

TOE – Transtorno Obsessivo pra lá de Esquisito

livros

Para Catita

O ser humano tem muitas neuroses.

Algumas são sérias, complexas, perturbadoras. Outras são engraçadas, meio patéticas, surreais. Mas hoje eu fiquei pensando que talvez o primeiro passo para curar uma neurose é ter coragem para olhar para ela de frente, assim como quem enfrenta um demônio num deserto. Você e ela, ali, cara a cara. Sem máscara, sem mentira. Sem panos quentes, sem vergonha. Olhar assim, de verdade. A conscientização de uma neurose pode ser um marco. O início mesmo de um processo de cura. Uma libertação definitiva da coisa que faz a gente ser, esse bicho esquisito que a gente é.

Eu, por exemplo. Eu sei que eu tenho um leve nível de TOC correndo nas minhas veias. Para quem não sabe, TOC é a sigla para o transtorno obsessivo compulsivo, um distúrbio psiquiátrico que faz as coitadas das pessoas terem “pensamentos obsessivos e compulsivos, comportamentos considerados estranhos pela sociedade ou por si próprios; normalmente trata-se de ideias exageradas e irracionais de saúde, higiene, organização, simetria, perfeição ou manias e “rituais” que são dificilmente controláveis”. Pois é. Eu tenho um pouquinho dessa coisa aí. Uma coisa leve, assim, quase imperceptível a olho nu. Mas eu tenho. E toda a vez que eu percebo a coisa em mim, um sininho toca e eu fico bem aborrecida com o fato. Não, eu não fico aborrecida. Eu fico me sentindo prisioneira de uma coisa que não precisava ser.

Deixa eu explicar melhor.

Desde pequena eu tenho um lance com arrumação. Minha mãe sempre foi super organizada. Minha avó era metodicamente organizada. Então de alguma forma, alguém me ensinou que a ordem sobre o caos é uma coisa positiva. Até aí tudo bem. A questão é quando a coisa começa a se desequilibrar e se torna uma obsessão, isto é, um apego exagerado a uma ideia de que tudo tem que estar milimetricamente no lugar. Eu tenho para mim que muito do meu TOC tem a ver com um caos interno. As coisas aqui dentro já são tão bagunçadas que eu fico arrumando desesperadamente o lado de fora na esperança de que dentro as coisas vão se organizar melhor. Eu até já escrevi um texto sobre isso: sobre as minhas arrumações compulsivas dos armários quando estou deprimida. Mas ultimamente tenho percebido que a coisa extrapolou o armário e tomou conta da casa toda.

A coisa é mais ou menos assim. To passando do quarto para a sala. Olho de butuca de olho a pilha de livros que está lá na estante do outro lado da sala. Os livros estão empilhados de qualquer jeito. Assim, uns por cima dos outros, mas sem nenhuma simetria estética. Cada um olhando para um lado. Eu não sossego enquanto não vou lá para empilhá-los direitinho. Não é uma atitude meio esquisita? Isso já foi pauta de terapia. E dever de casa desafiador no grau máximo. A tarefa era simples. Olhar a pilha de livros e ficar contando, respirando no incômodo, até me libertar do desejo louco de ir lá arrumá-los. Ahhhhhh. Que agonia!

Quando comecei a pensar nesse texto e no tema polêmico do TOC, liguei para minha irmã, que na minha modesta opinião, está alguns níveis acima da minha loucura. Aquela ali tem TOC brabo, mas não se incomoda com isso. A casa dela é Casa Cláudia e ela se orgulha disso. Tudo está sempre pronto para ser fotografado. Não há uma gavetinha sequer naquela casa que não esteja em ordem total. Mas eu estava aflitíssima ao telefone:

– Má, fiz a besteira de entrar num site para pesquisar os sintomas de quem tem TOC. Cara, eu tô num nível básico em quase todas as listagens. Você acha isso grave?

– Ti, se acalma. A gente foi criada assim. Não lembra que a gente não podia brincar na casa da vovó para não desarrumar nada?

– É, eu lembro.

– Nossa mãe tem o armário arrumado em degrade de cores, cara. Isso tem um peso nas nossas referências.

– É, você tem razão. Mas eu quero me libertar disso.

Para quê secar a bancada da pia depois de lavar a louça? Por que fazer a cama e ficar paranoica que alguém vai sentar e engruvinhar toda a colcha que você acabou de esticar? Pra quê se preocupar de fazer bolinhas com as meias e calcinhas depois que as tiramos do varal? Por que passar Veja tantas vezes na mesa da sala? Por que se importar tanto com as impressões digitais gordurosas no vidro da varanda?

Não pensem vocês que me orgulho de ser assim. Se pudesse mudar alguma coisa em mim, com certeza que essa neurose de arrumação estaria no topo da lista. Claro que eu gosto de ver as coisas organizadas, limpas, cheirosas. Me orgulho de saber que não sou uma acumuladora e que na minha casa não tem nada quebrado ou fora de uso. Arrumar o lugar onde a gente mora tem a ver com honrar de alguma forma tudo que foi conquistado. Eu sei. Mas também sei aqui dentro de mim, que a linha que divide a ordem do ambiente para uma coisa psicoticazinha de arrumação é bem tênue. E assustadoramente esquisita.

Minha irmã teve um professor de história da arte que disse que 1% da população mundial tem alguma preocupação com estética. Taí. Deve ser isso. Eu sou um desses caras. Estética é um ramo da filosofia que tem por objetivo o estudo da natureza da beleza e dos fundamentos da arte. Talvez meu lance lá com os livros assimétricos fale de uma necessidade filosófica de tornar o ambiente da minha casa bonito e equilibrado. Até aí tudo bem. Mas o que me incomoda é perceber que sou prisioneira dessa estética. Eu não conto para ninguém, mas depois que Marly vai embora na segunda-feira – depois de um dia auspicioso de faxina – eu saio consertando objeto por objeto na casa, arrumando as coisinhas na simetria lógica da minha cabeça que não tem lógica nenhuma. Ou tem?

Ah, sei lá. Esse é um assunto que dá muito pano para manga. Das muitas características bizarras de quem sofre TOC realmente essa da arrumação – em mim – me parece a pior. Eu sei que tem muita gente que padece com essa doença. Que fique aqui registrado meu profundo respeito e compaixão para quem luta com esse dragão. Só mesmo a psicanálise para explicar tanta esquisitice. Ou não. Dizem as pesquisas que apesar de vários estudos publicados o TOC ainda é considerado um “enigma” e continua sendo um desafio para os pesquisadores.

Na minha pesquisa pessoal, descobri que algumas sensações mentais se repetem no coração de quem sofre a coisa: percepções ilusórias de se “sentir em ordem”, sensação constante de incompletude, de “ter que” fazer alguma coisa e por fim, a sensação de esvaziamento da energia interna. Nossa. Essas sensações me parecem ser de um profundo sofrimento subjetivo.

Escrever é um processo de cura para mim. Compartilho com o mundo as minhas neuroses para ver se com isso consigo dar uma meia dúzia de socos nesses demônios que me atormentam. E na esperança também de ajudar alguém que talvez sofra do mesmo TOE que eu. Porque gente, não dá para ficar levando a vida tão a sério né. Tudo bem. A gente é esquisito. Mas eu não quero ficar me martirizando com isso. Eu quero rir disso. Talvez a verdadeira libertação das neuroses esteja no segredo de rir delas. Ou escrever sobre elas. Cada um com a sua possibilidade de libertação exorcizante. Nietzsche dizia que “temos a arte para que a verdade não nos destrua”. Eu tenho as palavras para que as neuroses não me destruam. Aho!

Celebração da Primavera

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Este texto é especialmente dedicado ao Roda de Lobas

Sábado passado vivi umas das experiências mais bonitas dos últimos tempos.

Há vários anos minha mãe Irene reúne mulheres (e alguns poucos homens corajosos) para celebrar a entrada da Primavera. É um evento grandioso, mas muito simples em seu propósito. Eu já tinha ido há alguns, nos anos passados. Me lembro como se fosse hoje da Clara pequenininha correndo cheia de flores no cabelo por entre as muitas saias que rodopiavam por lá. Mas este ano aconteceu alguma coisa especial.

O encontro aconteceu na Casa Tebekato, um lugar fora do tempo e do mundo em São Conrado. Um espaço verde, de mata abundante, piscina natural e uma energia extraordinariamente positiva – já que é uma casa alugada especialmente para trabalhos espirituais. As convidadas são, em sua grande maioria, as muitas mulheres que frequentam os grupos que minha mãe ministra do estudo do livro “Mulheres que Correm com os Lobos”. Ela vem fazendo esse trabalho há mais de dez anos. São diversos círculos de mulheres que se reúnem mensalmente para estudar o livro e estudar profundamente o que o livro causa dentro delas.

Como dizem por aí, eu sou uma “loba coroada”. Terminei a leitura do livro, com o primeiro grupo que se juntou em 2004, depois de quatro anos de estudos. Praticamente uma faculdade de psicologia. Foi engraçado como tudo aconteceu. Minha mãe comprou o livro e começou a ler. Alguns meses depois comprou um para mim e me deu com recomendações seríssimas: “Minha filha, você PRECISA ler este livro.” Com o passar do tempo, descobrimos que todas as mulheres que liam aquele livro, passavam pelo mesmo processo: o despertar profundo da Mulher Selvagem que habita dentro de nós. E com ele uma enxurrada de insights que simplesmente não dava para vivenciar sozinha. Divulgamos o encontro para falar do livro e de repente, se juntaram na minha pequena sala da Gávea, mais de vinte mulheres ansiosas por dividir o que estavam passando silenciosamente em suas vidas. Foi demais! Foram anos de muitas histórias, muitas lágrimas, muitos aprendizados e, sobretudo, um belíssimo despertar do nosso feminino sagrado.

Pois bem. Imaginem que minha mãe já está na formação de seu 11º grupo de estudos de “Mulheres que Correm com os Lobos”. E na Celebração se reúnem quase todas as mulheres que já passaram e estão passando por essa experiência. É uma loucura!

Esse ano levei comigo umas amigas queridas, minha Clarinha – que ficou responsável por fotografar o evento e estava empolgadíssima com isso – e Catarina, que no meio do mato fica como um beija-flor. Chegamos lá, tiramos os sapatos, abraçamos meia dúzia de mulheres e descemos para o jardim. O dia estava radiante. Calor, céu azul. Pássaros cantando. Aos poucos, outras tantas mulheres chegaram. De uma hora para outra, Djaala – umas das maravilhosas companheiras de trabalho da minha mãe – começou a puxar uma fila de mulheres que deram suas mãos e iniciaram uma dança silenciosa, em direção à piscina. Pronto. Ali já comecei a ter um treco de emoção. Como uma grande irmandade, fomos dançando e caminhando, dançando e caminhando, até que chegamos até a piscina e nos sentamos ao redor dela, com os pés dentro d’água. Tudo silenciosamente, com sorrisos floridos no rosto. Depois que todas estavam acomodadas, tive o desejo de cantar com aquelas mulheres, velhas canções que despertassem o melhor de todas nós. E foi maravilhoso. Porque cantamos todas juntas, em uníssono, bem baixinho, como se de alguma forma, chamássemos algo há muito adormecido em nós. Não tive dúvida. Com o calor e minha mulher selvagem já correndo nas veias, pulei na piscina de vestido, sem me dar conta que Djaala tinha feito a mesma coisa, ao mesmo tempo que eu. Saímos d’água, nos reconhecemos na travessura e gargalhamos dizendo: “Lobas coroadas”! Não foi preciso muito tempo para que as tantas outras nos seguissem, mergulhando na piscina refrescante da Tebekato.

Quando Maria chegou – nossa querida convidada que seria responsável por conduzir as danças deste ano – aproveitou a cena de filme e mergulhou na piscina para dar inicio as danças ali mesmo dentro d’água. E dançamos as canções de Juremar, unidas numa só voz e coração.

Se o dia tivesse terminado ali, já teria sido um dia perfeito. Mas tantas outras coisas nos esperavam naquele dia mágico. Tivemos a montagem do altar – na base de uma linda e centenária árvore da Tebekato – com flores, velas, incensos e mel para reverenciar o novo ciclo da Mãe Terra, meditação ao ar livre, um almoço coletivo maravilhoso, mais danças e por fim, uma fogueira especialmente acesa para transmutarmos desejos, intenções e todas as mudanças possíveis que a gente sonha na entrada da Primavera.

Naquele sábado senti um orgulho muito profundo pelo trabalho que minha mãe vem fazendo ao longo desses últimos anos. O despertar do que há de melhor, mais sagrado, mais feminino e poderoso dentro de cada uma daquelas mulheres. Catarina foi chamada por ela no final da montagem do altar e as duas trocaram meia dúzia de palavras. Na volta da conversinha com a avó, ela sentou ao meu lado com um sorrisinho feliz. Eu perguntei: “o que Vovó disse para você, filha?” Ela respondeu com o peito cheio de orgulho: “que eu sou a herdeira disso tudo aqui”. E me deu uma piscadinha. É minha gente, a força do mundo não está nas mãos de ninguém. Está no ventre das mulheres. Aho!

celebração da primavera 106

Foto Clara Meira

Oração Miúda

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Para Adélia Prado

Meu Deus,

me dá um pouco de silêncio.

 

Me ensina como é que faz para estancar pensamento,

me ensina a acalmar tanto desejo,

aliviar essa dor que eu tenho de existir.

 

Me leva de volta para pescar girino,

para colher morango silvestre,

para dormir no colo da minha mãe.

 

Meu Deus,

Me dá um pouco de silêncio.

 

Me ajuda a entender esse mundo,

me ajuda a traduzir tanto sentimento,

me ajuda a não querer embora antes da hora.

 

Uma Canção para Aylan

maefilha

Já perdi a conta da quantidade de vezes que fui acusada de alienação.

Já perdi a conta da quantidade de vezes de ver gente bufando o absurdo da minha postura de não ler jornal.

Já perdi a conta da quantidade de vezes que tirei gente do sério simplesmente por fazer a escolha de não querer saber das notícias cruéis do mundo.

No início, eu me sentia envergonhada. Escondia de todo mundo essa escolha bizarra de ir no contrafluxo do mundo enlouquecido de informações e me desculpava constrangida por não saber do menino que matou outros vinte na escola. Pedia desculpas pela minha ignorância e disfarçava essa minha opção maluca de vida.

Mas com o tempo, eu me fortaleci. Compreendi em profundidade o que era a sombra do mundo e o que fazia parte da cultura do medo. Entrei de cabeça no estudo e na vivência da minha jornada espiritual. Saí de grupos do Facebook que me alertavam sobre os perigos da cidade, saí de fininho das conversas que sangravam, aprendi a dizer para o motorista de táxi que não me contasse os casos de assalto da região, aprendi a defender minha escolha de vida com orgulho e ver nela todo o sentido que eu buscava. É impressionante como a gente acha que não, mas a gente pode escolher em que frequência do mundo quer viver.

Mas mesmo com todo o cuidado, todo o filtro e toda a tentativa de escapar da dor que o mundo me causa, um dia, uma fotografia gruda na minha retina e não me deixa respirar. A fotografia de um menino morto na beira da praia entra em mim e me toma por inteiro. Me doem os ossos. Me dói o estômago. Me dói a alma. Tento desesperadamente entender o contexto, ler as notícias atrasadas. Me sinto culpada pela impotência, sou bombardeada de mensagens no whatsapp de amigos em sofrimento como eu e penso: quando é meu deus, que a humanidade vai parar de ser como é?

Muito já foi dito sobre essa história essa semana. E o Efeito Aylan Kurdi é real. Depois da morte do menino sírio, algumas coisas já se transformaram na Europa. De alguma forma, essa dor que o mundo sentiu fez mover energias profundas que precisavam desesperadamente ser transformadas.

Mas aqui dentro de mim, dentro desse meu pequeno universo que habito, o que eu queria dizer com esse texto essa semana, era que desde o dia que aquela imagem foi divulgada para o mundo, antes de dormir, eu não consigo fazer outra coisa que não seja imaginar colocar o pequeno Aylan no colo e cantar para ele uma canção de ninar. Rezo para que ele, sua mãe e seu irmão encontrem luz no Caminho Azul e compreendam que a humanidade ainda vai precisar de muito, muito tempo para se transformar. Não consigo imaginar mais nada que eu possa fazer por essa história nesse momento.

O mundo não me cabe. Mas como Aylan pode não caber?

Olha

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Querido leitor, por favor, clique na música antes de começar a ler o texto.

Olha aquelas nuvens alaranjadas no céu

Olha aquelas gaivotas atravessando o sol

Olha aquele menino soltando aquela pipa colorida

Olha aquele mendigo olhando as ondas do mar

Olha a cor daquelas flores na janela

Olha aquela moça chorando pela rua

Olha aquela mãe amamentando o filho

Olha aquela borboleta que pousou na lata de lixo

Olha aquela poesia pichada no muro

Olha aquele velhinho bem velhinho atravessando a rua

Olha aquela menina de maria chiquinha chupando picolé

Olha aquela flor que brotou no meio do cimento

Olha aquele gari dançando com a vassoura

Olha aquela bicicleta azul encostada na árvore

Olha aquele gurizinho brincando na poça

Olha aquela moça beijando o moço na ponta do pé

 

Eu olho pro mundo e o mundo me espanta

Mas o que mais me espanta

É perceber que quase ninguém tá reparando no mundo.