Amor e verdade

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Para Marcia Cypriano

Eu sempre achei essa coisa de “lema de vida” uma coisa meio cafona, meio lugar comum, meio comercial da Nike. Talvez por preconceito. Talvez por temer ficar na superfície das coisas, como se uma frase de motivação não pudesse nunca resumir um sentido de vida para mim. Uma atitude bem pedante se a gente for pensar, mas era assim que eu sentia.

Aí um dia eu conheci um cara que revolucionou a minha forma de olhar o mundo. Que me fez despertar de um monte de coisa esquecida em mim e me fez reavaliar metade das coisas que eu achava que pensava do mundo. Sabe essas pessoas que a gente conhece e acabam virando um divisor de águas na nossa vida? Pois é. Isso foi o que fez Jonatan Agra quando chegou na minha vida. Uma bagunça incrível que eu nunca vou esquecer.

Eu não sei bem como a coisa começou. Eu sei que duas palavras surgiram nas nossas bocas e passaram a ser repetidas como um mantra. Quando a gente via, lá vinham elas de novo, trazendo tudo que a gente queria dizer. Foi então que a gente entendeu que elas tinham chegado para ficar. E que de alguma forma, tinham virado um lema de vida. A gente passou a ter orgulho delas. E orgulho de ter um lema. Para vocês verem como a vida às vezes dá um safanão na nossa cara. Mas tudo bem.

Amor e verdade.

De repente, tudo no meu cotidiano parecia perfeitamente espelhado no sentido mais profundo dessas duas palavras. E elas passaram a ser um pilar. Uma estrutura básica de conduta e força para a minha vida. Uma coisa linda. Poética. Viva. Real.

Mas… A vida é como ela é.  E não é só é uma caixinha de surpresas. Mas também um baú de concreto que de vez em quando cai sobre as nossas cabeças. Mesmo que a gente ache que já passou por tudo, não. Não passou.

Então, na semana passada, um golpe do destino me fez cair do cavalo e me fez regurgitar meu lema de vida só para me mostrar que as coisas não são tão simples como eu gostaria que fossem e que para se ter um lema de vida é preciso muito mais do que proferir duas palavras. E preciso entender que ou elas caminham juntas, ou podem simplesmente se aniquilar.

A vivência foi simples. Eu coloquei o amor na frente da verdade, contei uma mentira e vi todo o meu mundo despencar. Foi patético. E muito doloroso.  Porque acabei ferindo outras pessoas, mesmo sem ter tido a intenção.

Mentira é uma coisa muito esquisita. Porque ela é tolerada pela sociedade desde que o mundo é mundo e muita gente acabou se acostumando com ela. As pessoas falam mentiras, os políticos falam mentiras, as propagandas falam mentiras. Ela está entranhada no nosso dia-a-dia. E a pergunta que me faço é: por que é tão difícil falar a verdade?

Prestemos atenção num dia de 24 horas: quantas pessoas no mundo conseguem passar um dia inteiro sem contar uma mentirinha sequer? Para alguém ou para si mesmo?

Aquele ditado que mentira tem perna curta é irritantemente verdadeiro. Mas porque será que ela não se sustenta? Porque ela é feita de pó. De boato. De embromação. De ilusão. No dia que fui pega na mentira, senti uma dor tão forte no peito que mal podia respirar. Deve ter sido o efeito da adrenalina. Ou da vergonha. Voltei para casa com vontade de fugir para longe e nunca mais voltar. Mas como é da minha natureza, ao invés de fugir eu resolvi que queria ir fundo na experiência e entender porque, naquela altura da vida, eu ainda conseguia cair numa armadilha dessas. E cheguei à conclusão de que a verdade é muito mais difícil de ser aplicada do que o amor.

O amor, para quem foi amado, é um sentimento fácil de ser multiplicado. Porque ele se espalha e penetra com facilidade nos menores cantinhos. Em muitas ações, grandes ou pequenas, podemos disseminar o amor.  Até mesmo para aqueles que preferem o substantivo ao verbo. Mas a verdade…

A verdade já são outros quinhentos. Porque ela carrega em si um peso daquilo que não tem filtro, não tem máscara, não tem saída. A verdade é crua. E absoluta. E por isso pesa. Porque o ser humano é contraditório e egoísta. E por mais que a gente queira ser honesto sempre, muitas vezes acaba simplesmente não conseguindo falar a verdade, porque acha que ninguém vai entender o que você não conseguiu explicar.

Mas é uma escolha.

Assim como muitas que a gente precisa fazer todos os dias.

Com a verdade não há sobressaltos, nem medo, nem adrenalina, nem arrependimento. Com a verdade só há preto no branco. Ou uma paradoxal transparência.

Amor e verdade.

Eu rogo para que vocês nunca mais se separem, e que ao caminharem juntas, possam me ensinar que muito mais do que um lema para a minha vida, vocês possam ser aquilo que eu vou poder deixar de herança para as minhas filhas. Um legado de paz a um mundo que cada vez parece mais perdido em suas contradições. E por isso, termino meu texto aqui parodiando Frida Kahlo, com toda a admiração que tenho por ela:

“Onde não puderes amar e falar a verdade, não te demores”.

A estranha consciência da morte

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Eu sempre fui uma pessoa esquisita. Fora dos padrões, fora do lugar. E sempre tive uma sensação muito profunda de inadequação no mundo.

Mas talvez uma das coisas que mais me faça sentir uma marciana nessa vida seja essa minha estranha consciência da morte.

Não tem nada a ver com morbidez. Ou qualquer outra esquizofrenia nefasta. É apenas uma estranha e absoluta certeza da minha finitude.

Não me lembro direito quando foi que essa sensação me arrebatou pela primeira vez.  Eu estava fazendo uma coisa qualquer, num lugar qualquer. E de repente, não mais que de repente, eu me descolei da cena e percebi que tudo aquilo, um dia, chegaria ao fim.

Me senti esvaziada. Olhei ao redor. Olhei pro céu. Respirei fundo. Como era possível um dia deixar de existir? Como era possível um dia ter que deixar isso tudo para trás?

Talvez esse tenha sido um dos momentos mais estranhos e solitários que eu já vivi. E mais significativos também. Como se o meu fim, muito antes de acontecer, me pudesse ter sido soprado no rosto e isso não tivesse vindo como maldição, mas como profunda benção divina. Claro que na hora foi meio assustador. Uma conscientização tão aguda assim da nossa não eternidade não é um troço fácil de viver. Foi quase como um tapa na cara. Um choque de realidade. Ou da não realidade. Sei lá.

Sei que isso voltou a acontecer muitas vezes. Mas depois, com o tempo, eu fui me acostumando àquela coisa que vinha de vez em quando. E quando a coisa vinha, eu acolhia como quem acolhe um filhotinho de qualquer espécie, com muito cuidado, amor e respeito.

Foi então que eu fui estudar espiritismo. Depois comecei a meditar. Comprei o “Livro Tibetano do Viver e do Morrer” (mas nunca li). Depois entrei na terapia. Descobri o xamanismo. Com o tempo, todo o processo foi perdendo peso e ganhando a leveza que precisava ganhar. E no final consegui transmutar a tal sensação de mau agouro numa profunda e abençoada consciência de estar viva.

Não é para todo mundo que eu posso contar essa história. As pessoas tem muita dificuldade de falar sobre a morte. Só o assunto provoca arrepios. E quando eu digo que quero ser cremada? As pessoas me olham com um olho arregalado, me achando uma criatura de outro mundo. “Como é que você pode pensar numa coisa dessas?” Ué gente. Eu acho bonito o ritual de jogar as cinzas de quem morreu num lugar bonito. Nunca vou esquecer o momento que joguei as cinzas da minha avó no Jardim Botânico. Foi uma das coisas mais bonitas que já vivi. Ela amava aquele lugar e pôde voltar para lá de alguma forma. Isso não é bonito? Inteiro? Verdadeiro? Por que a morte tem que ser um assunto tabu sempre? Por que a gente não pode nem falar sobre isso? Será que as pessoas não entendem que a gente está aqui só de passagem? Que somos seres espirituais, passando por uma experiência terrena? Será que as pessoas evitam o assunto porque não falando dele, ele passa a não existir?

Ah sei lá. Esses assuntos que a gente não pode nem tocar me fazem pensar sempre que são os que mais a gente precisava falar.

Talvez o único apertinho no coração que permaneça desse processo é quando a coisa vem e eu estou ao lado das meninas. Aí o meu coração contrai. Deve ser por esse amor desesperado que eu sinto por elas. Ou por essa coisa de ser mãe e achar que os filhos sempre precisarão da gente. Eu não tenho medo de morrer. Talvez tenha medo de sofrer para morrer. Mas da morte, não tenho medo nenhum. Muito pelo contrário. Imagino que voltar para as estrelas será um grande alívio no final das contas. Claro que viver é uma benção. Mas para mim não é fácil viver. Nunca foi. Nem mesmo quando eu era uma menina-fada e achava que a vida era um sonho.

Mas quando olho nos olhos dessas filhas que me escolheram para vir para cá, fica difícil de me imaginar fora daqui. Difícil me imaginar separada de corpo delas. Porque a separação só vai ser de corpo né. De energia – espiritualmente – eu nunca vou me separar delas. Um amor como o nosso, nem a morte pode romper.

Sim. Um dia eu vou morrer. E se Deus quiser, vou virar pó de estrela. Rezo muito para que quando eu já esteja nesse estado cintilante, Deus também possa me soprar no rosto, um estranho instante de consciência, só que ao invés da morte, seja da vida. E que esse sopro, me traga o hálito da Clara e da Catarina. Só para me dizer, que no final das contas, não importa em que dimensão a gente está. O que importa é o que a gente é. E acredita, esteja vivo ou não.

Um Certo Doutor Rodrigo

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Para Rodrigo Vianna

Há pessoas e pessoas nesse mundo de meu Deus.

Se eu pudesse classificar meu ginecologista e obstetra Dr. Rodrigo, diria que ele é uma das pessoas mais incríveis que eu conheço.

Antigamente, lá nos tempos onde tudo era tão diferente, existiam médicos que eram considerados verdadeiros curandeiros. Eram médicos de família e conheciam profundamente a história de seus pacientes. Não só a história de suas enfermidades e órgãos, mas a história de suas almas.

Dr. Rodrigo é um médico de antigamente.

Nos conhecemos na época que eu estava grávida da Catarina. Na época estava tentando um parto mais humanizado e tinha escolhido ter meu neném em casa, com uma parteira. Ele era o médico que estaria de plantão caso alguma coisa acontecesse. Como de fato aconteceu.

Antigamente, lá nos tempos onde tudo era tão diferente, talvez nossa situação pudesse ter ficado mais séria. Eu tinha o cordão tão curto, tão curto, que a bichinha fazia força para sair, mas a placenta – como um ioiô – fazia força para ela voltar. Apesar de ser um grande entusiasta do parto normal, Dr. Rodrigo acabou sendo meu herói naquele dia. Fez uma cesariana emergencial super bem sucedida e no final da história, acabou salvando a minha vida e a vida da minha pequena.

Nunca me esqueço do dia que ele foi me visitar em casa depois da cirurgia. Com seu sorriso de sempre, entrou no meu quarto, mediu minha pressão, examinou meu corte, fez algumas perguntas, sorriu, brincou com a Catarina, indagou como andava meu coração depois de todo aquele susto, receitou alguns remédios e foi embora levando com ele minha profunda gratidão por aquele instante. Eu nunca tinha sido visitada por um médico em casa. Nunca tinha sido cuidada dessa forma por um profissional da saúde. Fiquei me achando importante. Única. E isso faz a maior diferença. Não só para uma mãe frágil no pós-parto, mas para qualquer pessoa que precisa de cuidado.

Depois daquele dia, nunca mais pude me imaginar consultando outro médico.

Dr. Rodrigo deve ser o obstetra mais amado de Niterói. Seu consultório vive abarrotado de barrigas-luz e ele atende todo mundo como se não existisse mais ninguém na sala de espera, esperando. E não é só de grávidas não. Moças, mulheres e senhoras esperam o quanto for para serem atendidas porque sabem que poucos médicos tem um respeito tão profundo pelo sagrado feminino como ele. E isso para gente, faz uma diferença enorme na hora H.

Com sua voz serena e uma calma hipnotizante para falar, ele cuida da gente como quem cuida de um jardim. Tem umas mãos de nuvem que fazem do Papanicolau parecer um suspirinho de três segundos. E conversa sobre o tempo, explica questões médicas sérias com leveza, troca experiências, reclama do Fluminense, conta histórias e ri da vida como quem já entendeu quase tudo.

É por essas e outras que eu digo: há pessoas e pessoas nesse mundo. Mas algumas fazem a gente ainda ter um monte de esperança na humanidade. Dr. Rodrigo é uma delas.

ComCiência

 

Em tempos de luta e combate aos preconceitos explícitos e implícitos que moram na gente, a exposição de Patrícia Piccinini “Comciência”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, é uma oportunidade imperdível para uma profunda e emocionante reflexão sobre o tema.

Eu já tinha ouvido falar da exposição. Já tinha lido sobre ela. Mas nada que pudesse me preparar de fato para tudo aquilo que me esperava. Fiz questão de levar minhas filhas. Já que o buraco era mais embaixo, achei uma oportunidade riquíssima da gente vivenciar junto, o que quer que fosse.

É impressionante como a gente caminha, caminha, mas está sempre precisando reeducar o nosso olhar. E como a arte é generosa para isso. Porque ela sempre nos leva por um caminho sensorial inexplicável que vai nos mudar para sempre. A gente querendo ou não.

Entramos na exposição e ao caminhar pelas primeiras salas, tivemos todas a mesma sensação de termos entrado num mundo paralelo ao nosso. Numa outra dimensão.

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O lugar era habitado por criaturas bizarras, esdrúxulas e esquisitíssimas. Senti nas meninas e na minha alma uma inquietação engraçada. Uma curiosidade picante daquelas que a gente só sente quando viaja pela primeira vez para um lugar bem exótico e diferente.

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A maioria das obras é de um realismo impressionante. Me lembrou um pouco as esculturas hiper-realistas de Ron Mueck, aquele australiano que faz umas pessoas gigantes em cenas do cotidiano. Talvez pela textura da pele, pelos cabelos de verdade ou pelas expressões que nos parecem tão humanas. Patrícia Piccinini também é australiana. Fui pesquisar um pouco sobre eles depois e descobri que fazem parte de uma patota de artistas plásticos que são considerados “artistas realistas” e que estão fazendo o maior sucesso no mundo.

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Mas seguindo o barco, depois de passado o primeiro estranhamento da coisa, percebi que aos poucos, estávamos nos apaixonando pelas criaturas. E eu sabia o porquê. Todas, absolutamente todas as criaturas estavam imersas numa amorosidade indescritível. Todas tinham uma fragilidade e um carinho no olhar, na expressão, no gesto, na forma de ser e se apresentar ao público. Pareciam tão vivas e querendo nos dizer algo tão importante. Eram tão diferentes e tão parecidas conosco.

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Estranho. Estranho e maravilhoso. Estranho e profundo. A experiência foi me tomando de uma forma intensa e definitiva. E percebi que o mesmo acontecia com as meninas. Primeiro o estranhamento. Depois a admiração. Depois a paixão. Por fim, um respeito profundo por aqueles seres.

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Para quem ainda não viu, aqui está uma grande e fabulosa oportunidade de rever conceitos, valores e impressões sobre o mundo. O mundo de fora e o mundo de dentro.

Sobre os artistas realistas, aqui está o link:

http://www.guiadasemana.com.br/artes-e-teatro/noticia/alem-de-patricia-paccinini-e-ron-mueck-conheca-5-artistas-realistas

 

Velha Alma

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Por onde andas minha velha alma?

Escondida entre folhas em branco?

Espremida entre as horas perdidas desses dias vazios?

Por onde andas minha velha amiga?

Por que andas tão calada, tão ausente, tão desaparecida?

Amanheceres e anoiteceres têm passado e eu não tenho conseguido encontrar-te…

Nem no raio de sol que chega, nem no raio de sol que parte.

Por onde andas minha alma querida?

Andas esquecida de quem somos? Do que precisamos? Do que acordamos quando ainda sonhávamos juntas?

Tenho sentido tanto a tua falta em meus dias, em minhas noites.

Minhas madrugadas não fazem sentido sem tua presença.

Sem ti tenho andado esvaziada, exaurida, ressecada.

Não consigo escrever, não consigo sentir, não consigo viver.

Por onde andas minha alma velha?

Estás escondida? Ressentida? Adoecida?

Do que temes?

Tens preguiça? Estás perdida?

Andei buscando-te entre gavetas, recortes, figuras, livros velhos de poesia.

Em silêncios, lágrimas bobas, memórias esquecidas.

Nos abraços profundos, nas taças de vinho tinto, nas chamas das velas coloridas.

Mas não consigo encontrar-te em parte alguma.

Por onde andas minha alma ferida?

Diga-me: o que preciso fazer para que voltes a cantar em meu peito?

Para que me devolvas a esperança, o frescor dos dias, a alegria?

 

Venha, velha alma.

Venha de volta para mim.

Ajuda-me a nutrir tudo aquilo que somos nós.

Ajuda-me a ver de novo, a entender de novo, a sentir de novo.

Ajuda-me a escrever.

Ajuda-me a suportar.

Ajuda-me a crescer.

Traz-me de volta desse deserto que é viver sem você.

Giulio, o meu amigo de barba

"Ritratto di vecchio con barba" Marcantonio Bassetti (1586 - 1630)

“Ritratto di vecchio con barba”
Marcantonio Bassetti (1586 – 1630)

Entrei na sala e dei de cara com ele. Giulio olhava para mim como se estivesse me esperando há muito, muito tempo. Seu olhar era tão cativante e simpático que eu o cumprimentei mesmo sem conhecê-lo. A paixão foi tão instantânea que eu tive que me controlar para não sair correndo e ir até ele para convidá-lo para um café comigo no bistrô do Paço. Mas eu sabia, que mesmo que quisesse muito, isto infelizmente não seria possível. Giulio está preso há alguns séculos num quadro e por mais vivo que pareça estar não pode sair dali.

Confesso que desde que fui assistir à exposição de pintura italiana no Paço Imperial, não paro de pensar no Giulio. Nele e em todas aquelas criaturas que estão presas lá. Algumas existiram de verdade e são tão bem retratadas que chega a dar um estranhamento olhá-las por mais tempo. Suas almas parecem presas na tinta. Me invade então a inquietante curiosidade de descobrir quem foi cada uma daquelas pessoas. Quem será que foram aquelas criaturas? Será que foram felizes? Pelo que passaram ao longo da vida? O que será que estavam fazendo na hora em que foram pintadas?

Quem viu “Moça com Brinco de Pérola” sabe do que estou falando. O filme de Peter Webber foi uma realização para as minhas fantasias. Na história ele recria o exato momento em que o pintor Johannes Vermeer retrata uma jovem camponesa, e tudo o mais que permeia a criação desta famosa obra de arte. É um filme encantador.

Percorro a exposição e percebo que não é só Giulio que parece estar presente. Tabeliões, condes, homens e mulheres. Sei que era um costume da época retratar o povo, mas qual seria o real desejo de cada um? Tornar-se imortal? Em tempos de selfie, fico imaginando o que há por trás dessa nossa obsessiva necessidade de se fotografar o tempo todo. Desejo de imortalidade também? Imaginem minha imagem fotografada por uma câmera digital, pendurada numa exposição em 2440 e alguém me observando tendo a mesma curiosidade de saber quem eu fui. Será que isso seria possível? Será que a humanidade vai existir até lá?

No fundo o que eu gostaria mesmo era de ser uma viajante do tempo. Ter a licença poética de Deus para conhecer o passado. Descobrir o que fazia esse velhinho bonachão que vocês podem ver aí em cima. Quem ele foi. As pessoas que amou. O que deixou de mais significativo em sua passagem pelo planeta. Acho que ele foi carpinteiro. E deve ter  feito uma cadeira de balanço tão bela para o pintor Marcantonio Bassetti, que este resolveu presenteá-lo com um retrato.

O próprio Paço Imperial é um exemplo de nostalgia histórica inquietante. Nunca consigo passar por lá sem dar uma espiada de rabo de olho nas carruagens e ficar imaginando a cena que Dom Pedro gritou para o povo que ia ficar. Imaginem só o rebuliço que não estava naquela praça, naquele 9 de janeiro de 1822. Não seria fascinante dar um pulinho lá para ver este discurso?

Ah, minha mente viaja. Torço muito para que no futuro uma máquina do tempo seja mesmo inventada e a humanidade possa viajar em todas as dimensões do espaço. Seria maravilhoso receber uma visita dos meus tataranetos. Já pensaram? Sem a menor cerimônia eu pediria a eles para darmos um pulinho no ano de 1600. O que eu faria? Convidaria meu amigo Giulio para tomarmos uma taça de vinho tinto na taberna mais charmosa da Itália. Não seria um programa adorável?

O frio que me habita

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A chegada do frio essa semana me renovou as energias. Ainda estamos no outono, mas sinto que finalmente consigo pensar.

Depois de tantos meses de calor insuportável, do cotidiano esbaforido e melado, das noites mal dormidas na secura do ar condicionado e do superfaturamento da minha conta de luz, o friozinho chegou anunciando tempos de paz e quietude.

Eu não sei direito onde é dentro de mim que a temperatura mexe tanto com o meu humor. Vivemos num país tropical e todo mundo sabe que no Brasil só existem duas estações do ano: o verão e os poucos meses do ano que está um pouco mais fresquinho. Mas essa alegria incontrolável que me causa os 16˚ no termômetro tem uma explicação:

O frio para mim tem um glamour. Uma coisa cinematográfica. Ele veste botas, gorro e cachecol. Talvez seja por todos os filmes europeus que vi ao longo da vida. Talvez seja por essa coisa “Paris” que o frio faz habitar na minha imaginação. Mas sinto que ele nos dá a chance de sairmos de casa um pouco mais elegantes e voltarmos para casa no final do dia ainda razoavelmente inteiros. O frio é perfumado, chique, intelectual.

Claro que o verão tem suas qualidades. É uma estação expansiva, cheia de alegria. O sol brilha, o céu explode o azul, mas tanta energia solar cansa. Dias deslumbrantes de sol exigem da gente uma alegria enorme, e não é todo dia que a gente tá em condições de ser feliz, né?

Mas o inverno é diferente. Ele nos permite uma introspecção quieta. Um respeito maior aos sentimentos. Ele traz um silêncio junto de uma xícara de café fumegante. O frio nos retrai, mas isso não significa uma perda de espaço e sim um reencontro com um lugar interno nosso esquecido durante os meses de calor.

Meu pai costumava contar que os meus ancestrais que chegaram a Joinville no início do século passado sofreram muito com o calor do Brasil. Para quem estava acostumado com o frio da Alemanha, Joinville era uma sauna. Construída sobre um mangue, a cidade das flores no calor não só é muito quente como insuportavelmente úmida. Imagino os meus tataravôs sem conseguir entender aquele suor brotando dos poros e escorrendo por todos os cantinhos do corpo – e a falta da referência histórica de suas roupas pesadas e calefação para viver. Teve gente que morreu de depressão. Barra pesada.

O frio me traz oxigênio. Inspiração para escrever. Uma quietude na alma. Um tempo para ser. Para sentir.

Ele me faz pensar melhor, me dá uma disposição para viver. Ele me traz o vinho tinto, os pratos deliciosos de sopa, o fondue, o chocolate quente. As roupas macias, as luvas e meias coloridas, a lareira. Bem, eu não tenho lareira, mas passo o inverno todo atrás de uma. 

Claro que junto de toda essa coisa glamurosa do frio, vem também a parte sombria da coisa. Na eterna dualidade do meu ser, não poderia deixar de pensar em todos aqueles que não tem nada disso na vida. Nem no mínimo para viver. Não há um dia sequer do meu inverno que eu não pense em quem não tem um lugar para se abrigar, nem um alimento quente para se aquecer. No frio também mora esse aspecto angustiante e dramático como o cenário triste da “Menina dos Fósforos”. Sempre penso nesse história como a história mais triste de todos os tempos.

Vontade imensa de entrar num desses trabalhos voluntários que as pessoas distribuem uma sopa, um casaco, um café com leite. Como são preciosos os seres que disponibilizam seu tempo e energia para fazer bem aos outros. 

Nos ciclos da natureza, o tempo do frio é o tempo de entrar na caverna. Tempo de recolhimento. Para mim é também um tempo de agradecer por todas as bênçãos recebidas. Eu não moro em Paris, mas tenho um teto, alimento e o aconchego de um lar aquecido com muito amor. Sou ou não sou uma pessoa de sorte? 

Dentro

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A vida puxa, os desafios puxam, o externo puxa.

Mas a gente volta para dentro.

O cotidiano pulsa, os problemas se repetem, os obstáculos surgem.

Mas a gente volta para dentro.

A televisão aborrece, o jornal esgota, o laptop absorve.

Mas a gente volta para dentro.

O Facebook drena, o Whatsapp suga, a internet resseca.

Mas a gente volta para dentro.

A política exaure, a violência consome, o futuro amedronta.

Mas a gente volta para dentro.

A família demanda, os amigos pedem, o trabalho exige.

Mas a gente volta para dentro.

A realidade sacode, o tempo escoa, o dever chama.

Mas a gente volta para dentro.

A saúde fragiliza, a mente desequilibra, o corpo padece.

Mas a gente volta para dentro.

a gente volta para dentro
porque é dentro
que mora a nossa paz.

Sobre fronhas e o universo

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Ontem eu estava dobrando uma fronha para guardar no armário, quando uma pergunta me invadiu a consciência: quanto do mundo pode caber em nós?

Já tem tempo que eu não passo mais roupa, mas confesso que o ritual das fronhas aqui em casa é complexo. Eu tenho um lance com fronha. E por isso cuido delas com muito carinho. O sucesso de uma boa noite de sono começa numa fronha cheirosa e macia. Fronhas são portais para o mundo dos sonhos. É através delas que começamos o processo de descanso. Delas e do jeito que deitamos nossas cabeças no travesseiro e dissolvemos todas as coisas que nos aconteceram ao longo do dia.

Mas a pergunta não veio na hora de dormir. Veio na segunda dobradinha da fronha. Quanto do mundo pode caber dentro de mim?

Desde que o mundo é mundo ele tem o mesmo tamanho. Mas antigamente a gente não tinha a dimensão do tamanho que ele tinha. Minha avó tinha uma casa, um quintal, uma janela e alguns sonhos. Claro que ela teve um rádio que ampliou seus ouvidos e uma televisão que lhe abriu os horizontes, mas eu tenho certeza que a minha vó nunca se fez essa pergunta: quanto do mundo podia caber dentro dela.

Perguntas filosóficas sempre me chegam como um soco na boca do estômago e geralmente quando estou debruçada sobre as pequenas tarefas do dia-a-dia. É impressionante. Como se o micro num pequeno espaço pudesse dar passagem ao macro de um mundo infinito.

Isso já tinha acontecido várias vezes comigo. Mas ontem, entre a fronha e a pergunta, um vazio se abriu dentro de mim. E eu acho que foi pela dimensão da pergunta. Porque sem querer ela comprovou uma teoria louca da minha realidade que eu nunca tinha contado para ninguém.

É assim.

De vez em quando, involuntariamente, eu faço um descolamento da realidade, como se na minha mente tivesse instalado um aplicativo do Google Earth que me situasse no tempo/espaço de onde pudesse me perceber no planeta numa perspectiva planetária.

Ai, deixa eu ver se eu consigo me explicar melhor.

Imagina que dentro do meu quarto, há uma câmera me filmando de cima, dobrando uma fronha. E essa câmera aos poucos vai se afastando. Subindo. Como se estivesse num desses drones loucos que tem hoje em dia. O que vemos em seguida é a janela do meu quarto, comigo menor lá dentro, dobrando uma fronha. Ela sobe mais e podemos ver meu prédio, dentro do meu condomínio em Pendotiba, sabendo que lá dentro, eu estou dobrando uma fronha. A câmera continua a subir e então vemos a região serrana de Niterói. Para em seguida abrir um pouco mais para a cidade do Rio de Janeiro, para em seguida abrir para o estado, a região sudeste, o Brasil, a América do Sul, para enfim puxar até vermos o planeta azul, sempre lembrando de mim, lá no meu quarto, dobrando uma fronha.

Essa perspectiva quase sempre me enlouquece. E me faz pensar no tamanho do mundo e na nossa pequenez enquanto matéria, em contraposição ao infinito que representa o nosso espírito. Fico pensando se não foi uma sorte minha avó não ter tido acesso a tanta informação. Porque cá entre nós, esses avanços da tecnologia da informação podem ser fascinantes na perspectiva de evolução do homem. Mas poder ter informações do mundo inteiro através de um único click no mouse pode ser bem atordoante. Imagina a quantidade de imagens, sensações e informações que entram em nós a cada segundo? Bom, para pessoas excessivamente criativas como eu, é um prato cheio para a piração.

Porque fecho os olhos e posso ver uma mulher caminhando no Afeganistão, um bebê nascendo na Bósnia, um casal brindando em Cuba, um menino andando de bicicleta na Dinamarca, alguém comprando um remédio no Egito, uma velhinha falecendo na Finlândia, um casal fazendo amor na Grécia, uma mulher chorando na Hungria, um grupo meditando na Índia, alguém fumando um baseado na Jamaica, um elefante morrendo no Kenya, uma loira se prostituindo em Luxemburgo, alguém se embebedando no México, um homem escalando uma montanha no Nepal, outro rezando em Omã, uma menina tocando piano na Polônia, um sheik espirrando em Qatar, uma serviçal batendo tapetes num castelo na Romênia, um menino andando numa roda gigante em Singapura, alguém andando de balão na Turquia, um senhor fritando um ovo no Uruguai, uma senhora colhendo arroz no Vietnã, um atleta saltando sobre um camelo no Iêmen e finalmente, alguém cozinhando taturanas para jantar no Zâmbia.

Meu Deus.

Quanto desse mundo pode caber em mim já que ele é ele e mais seus sete bilhões de indivíduos?

Será que existe alguém no mundo nesse exato momento se fazendo a mesma pergunta que eu?

Não sei. Talvez eu preferisse ter apenas uma casa, um quintal e uma janela. E sonhar sonhos mais simples e ter um varal apenas para pendurar fronhas ao sol.

Talvez.

Urgência artística

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Final da tarde. Céu azul já se pintando de laranja. Praça XV frenética com seu vai-e-vem de gente correndo para alcançar a barca. Um homem solitário está sentado numa cadeira meio quebrada, solando um som psicodélico em sua guitarra estridente, com os olhos vidrados em algum lugar muito longe dali. O amplificador – a um passo de quebrar também – não me parece amplificar somente sua música, mas também sua explícita angústia de colocar para fora esse desejo incontrolável de expressar-se. Me emociono. Ali está mais um caso de urgência artística, um dos grandes males que sofrem os artistas do mundo. Sei como o moço da guitarra se sente. Porque sou exatamente como ele.

Rapidamente me vem à cabeça meia dúzia de filmes que falam sobre isso. Nicole Kidman, no papel de Virginia Woolf, escrevendo alucinadamente até fazer calos nas mãos em “As Horas”. Ed Harris, no papel de “Pollock”, que quase enlouquece até encontrar sua melhor forma de pintar. Isabelle Adjani como “Camille Claudel”. Salma Hayek como “Frida Kahlo”. Sim, não há dúvida que há algo muito perturbador que assolam os artistas mas o mais incrível, é que mesmo que eles não tenham muita condição de se manifestar – como é o caso do guitarrista da Praça XV – eles sempre inventarão uma forma de serem ouvidos e sentidos. Mesmo que seja numa rua frenética cheia de transeuntes apressados e surdos.

Sigo meu rumo em direção ao CCBB. Esta noite vou assistir a uma peça sobre Clarice Lispector. Que alegria imaginar que daqui a algumas horas eu vou estar sentada dentro de um teatro, numa poltrona confortável, entregue de corpo e alma, simplesmente, a uma manifestação artística de alguém como eu, que não pode viver sem arte. A vida é maravilhosa.

Passo pelo Café Livraria Arlequim. Hummm. Sinto uma vontade incontrolável de tomar um café expresso. Entro no Café e agradeço poder sair um pouco do ar viciado e carbônico da Primeiro de Março e poder entrar num mundo paralelo, apenas atravessando uma porta de vidro. As livrarias definitivamente tem um cheiro divino, principalmente as que se misturam com café. Essa alquimia ainda pode se tornar mais curativa, quando além do olfato você cuida dos ouvidos. Entrei na Arlequim e tive um sopro de prazer. Tocava um tango. Belíssimo! Entrei, fechei os olhos, respirei fundo e disse para alguém que não ouviu: obrigada pelo instante!

Ah essa fartura sensorial de que é feito o mundo! Como é bom poder garimpar no cotidiano formas criativas para se viver melhor. Eu adoro. É claro que a gente precisa nutrir o corpo, mas nutrir a alma é quase tão importante. E não só de obras de arte, mas também da arte que a vida nos dá. No cotidiano, nos sentidos, no observar as pequenas coisas e inundar-se delas. Outro dia ganhei um presente da vida. Eu voltava para Niterói de 750 e me deliciava com aquela beleza absurda do sol refletindo na água do mar  – quando consegui me deparar com uma cena ainda mais linda dentro do ônibus. O trocador, quieto e concentrado, fazia um origami de pássaro numa nota de dois reais.

Uau.

Saramago costumava dizer que “todos somos escritores, só que alguns escrevem outros não.” Eu diria que todos somos artistas, só que alguns tem pressa, outros não.