Urgência artística

origami-passaro-1_2521697

Final da tarde. Céu azul já se pintando de laranja. Praça XV frenética com seu vai-e-vem de gente correndo para alcançar a barca. Um homem solitário está sentado numa cadeira meio quebrada, solando um som psicodélico em sua guitarra estridente, com os olhos vidrados em algum lugar muito longe dali. O amplificador – a um passo de quebrar também – não me parece amplificar somente sua música, mas também sua explícita angústia de colocar para fora esse desejo incontrolável de expressar-se. Me emociono. Ali está mais um caso de urgência artística, um dos grandes males que sofrem os artistas do mundo. Sei como o moço da guitarra se sente. Porque sou exatamente como ele.

Rapidamente me vem à cabeça meia dúzia de filmes que falam sobre isso. Nicole Kidman, no papel de Virginia Woolf, escrevendo alucinadamente até fazer calos nas mãos em “As Horas”. Ed Harris, no papel de “Pollock”, que quase enlouquece até encontrar sua melhor forma de pintar. Isabelle Adjani como “Camille Claudel”. Salma Hayek como “Frida Kahlo”. Sim, não há dúvida que há algo muito perturbador que assolam os artistas mas o mais incrível, é que mesmo que eles não tenham muita condição de se manifestar – como é o caso do guitarrista da Praça XV – eles sempre inventarão uma forma de serem ouvidos e sentidos. Mesmo que seja numa rua frenética cheia de transeuntes apressados e surdos.

Sigo meu rumo em direção ao CCBB. Esta noite vou assistir a uma peça sobre Clarice Lispector. Que alegria imaginar que daqui a algumas horas eu vou estar sentada dentro de um teatro, numa poltrona confortável, entregue de corpo e alma, simplesmente, a uma manifestação artística de alguém como eu, que não pode viver sem arte. A vida é maravilhosa.

Passo pelo Café Livraria Arlequim. Hummm. Sinto uma vontade incontrolável de tomar um café expresso. Entro no Café e agradeço poder sair um pouco do ar viciado e carbônico da Primeiro de Março e poder entrar num mundo paralelo, apenas atravessando uma porta de vidro. As livrarias definitivamente tem um cheiro divino, principalmente as que se misturam com café. Essa alquimia ainda pode se tornar mais curativa, quando além do olfato você cuida dos ouvidos. Entrei na Arlequim e tive um sopro de prazer. Tocava um tango. Belíssimo! Entrei, fechei os olhos, respirei fundo e disse para alguém que não ouviu: obrigada pelo instante!

Ah essa fartura sensorial de que é feito o mundo! Como é bom poder garimpar no cotidiano formas criativas para se viver melhor. Eu adoro. É claro que a gente precisa nutrir o corpo, mas nutrir a alma é quase tão importante. E não só de obras de arte, mas também da arte que a vida nos dá. No cotidiano, nos sentidos, no observar as pequenas coisas e inundar-se delas. Outro dia ganhei um presente da vida. Eu voltava para Niterói de 750 e me deliciava com aquela beleza absurda do sol refletindo na água do mar  – quando consegui me deparar com uma cena ainda mais linda dentro do ônibus. O trocador, quieto e concentrado, fazia um origami de pássaro numa nota de dois reais.

Uau.

Saramago costumava dizer que “todos somos escritores, só que alguns escrevem outros não.” Eu diria que todos somos artistas, só que alguns tem pressa, outros não.

Redes Surreais

Para Clara Meira

A discussão toda começou por causa de um texto que eu tinha postado e resolvido tirar do ar. Um texto que ela tinha amado. Mas que eu não tinha ficado nem um pouco satisfeita.

– Mas mãe, por que você fez isso?

– Porque eu não gostei do texto, filha. O site é quase um retrato da minha alma. Uma extensão do meu coração. Se escrevo alguma coisa da qual me arrependo, eu tenho todo o direito e licença poética para ir lá e tirar.

– Aff mãe, você se preocupa demais com umas coisas e de menos com outras. Com quantas curtidas está sua página no Facebook?

Ali percebi que a discussão ia esquentar.

– Minha filha, sinceramente, você acha que eu sei essa resposta assim, na ponta da língua?

– Mãe, você parou de abastecer sua página, não dialoga com o seu público, como quer que a página cresça se não investe nela? Nem Twitter você tem!

– Ah não Clara, não me vem com essa história de Twitter de novo…

– Mãe, o Twitter tem um poder muito maior de divulgação que o Facebook. E o seu Instagram, há quanto tempo você não coloca nada lá? Assim não dá mãe…

– Mas filha, para mim é tudo a mesma porcaria. Eu não consigo entender para que tanta diversidade de rede social. Pensa bem: é Whatsapp, Facebook, LinkedIn, Twitter, YouTube, Instagram, Skype, Vimeo, Snapchat, Tumblr. Caramba! Todo mundo tem tanta coisa pra falar, mas quantas se escutam? Eu conto nos dedos os amigos que eu realmente troco alguma coisa de verdade.

Ela fez aquela cara que ela faz quando tá arquitetando uma resposta inteligente para me desarmar.

E de repente, me deu um aperto no peito. Uma angústia, misturada com frustração, com desânimo. Meus olhos se encheram d’água e eu não sabia mais o que falar.

Ela desarmou a cara de briga e me olhou com aquele olhar doce de quem entendeu tudo. E veio me abraçar com todo o carinho.

– Mãezinha, por que você tá chorando?

Eu queria tentar explicar para ela que os poucos anos que dividem as nossas gerações, transformou tudo rápido demais e o que parecia tão simples e óbvio para ela, não fazia quase nenhum sentido para mim.

– Clarinha, eu sou de um tempo muito diferente do seu. Quando eu tinha a sua idade ninguém tinha acesso a computador. Não existia essa tecnologia toda que existe hoje. Imagina que só tinha aparelho para tocar CD quem fosse muito rico. O máximo que eu tive em casa foi um telefone com fax e isso era assim uma coisa muito extraordinária. Eu tinha aparelhos eletrônicos sim, mas era um toca-fitas, uma vitrola e um aparelho de videocassete para ver filmes alugados. Você sabia que se a gente não rebobinasse a fita pagava uma multa na locadora? Você entende agora a diferença dos nossos tempos?

– Entendo mãe, claro que entendo. Mas hoje você tá muito bem adaptada às modernidades desse novo tempo, só resiste um pouco a elas.

– Eu to, claro que eu to. Eu tenho um laptop meio calhambeque, mas tenho. Tenho um site oficial de crônicas e isso eu agradeço muito porque foi a chance que eu tive de mostrar para muita gente aquilo que escrevo. Eu tenho um celular moderno, com android – mesmo sem saber direito o que isso significa – e eu tenho conta em algumas redes sociais, mas no fundo, lá no fundinho de mim, eu sempre fico com a impressão de que esses lugares mais me sugam energia do que me nutrem…

– Como assim, mãe?

– Ah Clara, tem muita gente postando coisas interessantes nas redes sociais, mas na grande maioria o que vejo é o retrato de uma geração solitária e esvaziada de sentido. Por exemplo: as pessoas amam tirar selfie. Tudo bem. Mas para quê tanto selfie? Ninguém mais tá vivendo o momento, porque só se preocupa em registrar o momento.

– Mãezinha, não precisa levar tudo tão a sério… Posso te falar uma coisa?

– Pode.

– Você não quer ser uma escritora famosa e poder viver do que escreve?

– Sim.

– Você não sabe que o caminho para publicar um livro através de uma editora é bem complicado?

– Sei.

– Então, a internet mãe é uma ferramenta poderosa porque atinge muitas pessoas em segundos. Eu sei que isso te assusta um pouco, mas respira e segue em frente.

– Eu não sei se eu consigo dar conta desse mundo, filha.

– Presta atenção. Foca nas três redes mais importantes para você agora. O Facebook, o Instagram e o Twitter são redes diferentes, mas você precisa de todas para formar uma grande rede de pessoas. No Facebook você pode trocar coisas interessantes com os seus amigos, divulgar seus textos e ideias. O Instagram é um registro mais pessoal de você como pessoa e o Twitter é aquela rede social mais rapidinha, que tudo acontece em segundos, mas que por causa da possibilidade dos retweets, você vai atingir muito mais gente…

– Mas como que eu vou dar conta de tanta coisa num dia só? Abastecer todas as minhas redes sociais, escrever, ler, cuidar de vocês, de mim, da casa, do trabalho e do espírito? Eu não vou dormir né?

Dessa vez ela abriu um sorriso tentando buscar paciência.

– Mãe, é só se organizar que você vai conseguir. Quer que eu te ajude?

– Quero.

– Quer perguntar alguma coisa?

– Quero. O que é retweet pelo amor de Deus?

 

Eu já tenho

chazinho

Arte de Inge Löök

Outro dia olhei para o meu pé e me dei conta de uma certeza avassaladora: eu já tenho um joanete.

Eu já tenho manchas brancas na pele. Brancas e beges. Daquelas que as velhinhas alemãs têm aos montes.

Eu já tenho varizes nas pernas.

Eu já tenho manias.

Mania de tomar chazinho antes de dormir. Mania de passar creme no cotovelo antes de dormir. Mania de dormir na frente da televisão.

Surdez eu sempre tive. Isso não é novidade. A novidade agora é colocar os óculos para ler, depois de não aguentar mais esticar o braço para reconhecer qualquer coisa.

Eu já tenho uns cansaços esquisitos, uma dor no calcanhar misteriosa e uma câimbra na costela esquerda desde a última gravidez.

Eu já tenho rabugices. Detesto quando os homens da minha casa fazem xixi e não fecham a tampa de volta. Me irrito quando abro a geladeira e não tem água gelada nas garrafas, mesmo não gostando de tomar água gelada. Reclamo baixinho sempre que posso. Resmungar é uma rabugice deliciosa de fazer.

Eu já tenho muitas histórias para contar que aconteceram há mais de duas décadas. Tá. Há mais de três. E isso de vez em quando me assusta.

Eu já tenho rugas nos olhos. E um olhar diferente para as coisas. Incrivelmente, eu hoje tenho mais calma do que jamais tive e isso é maravilhoso porque foi o que mais sonhei para minha idade avançada. A serenidade para olhar e reagir à vida.

Eu já tenho filhas que me aconselham, sobrinhos que namoram e uma tiavó de 105 anos que já não lembra mais muito de mim.

Eu já tenho cabelos brancos. E levo um susto cada vez que o cabelo ruivo cresce e eu me dou conta de que não sou ruiva e no meu couro cabeludo mora uma grisalha que eu nem conheço.

Eu já tenho isso tudo e nem fiz cinquenta anos. E o melhor, estou muito feliz por isso.

 

P.S. Quando fui pesquisar imagem para colocar no texto, achei essa preciosidade no Google. Pinturas de velhinhas felizes da artista finlandesa Inge Löök! Tudo que eu sonho para minha velhice. Divirtam-se!

http://www.contioutra.com/as-velhinhas-felizes-da-artista-finlandesa-inge-look/

 

Ladies and Gentlemen

IMG-20160314-WA0001

Ele estava sozinho numa sala toda branca, gelada e silenciosa. Enorme, imponente, colorido. Ocupava quase toda a parede de um extremo ao outro numa das salas da exposição de Andy Warhol no Centro Cultural Banco do Brasil. Entrei sozinha e fiquei ali, em estado de choque, ao me deparar com a imagem que via. Era um retrato duplicado de duas mulheres, carregado de muita tinta, que delineava formas e texturas e enchia de sombras um simples retrato.

Para falar a verdade, até aquele momento, a exposição não tinha me emocionado muito. Eu conhecia um pouco da história de Warhol e da importância de tudo que ele tinha feito – e pensado – sobre arte no mundo contemporâneo. Gostava da releitura com a imagem da Marilyn Monroe e da reflexão que ele sugeria ao imaginar que até as celebridades, ao serem retratadas de forma mecânica e em série, podiam se transformar em figuras impessoais e vazias. Mas daí a me emocionar com que ele tinha feito eram outros quinhentos.

Eu fui porque precisava ir. Porque não perdia uma única exposição no CCBB. E porque queria entender e ver de perto o que o mundo chamava de “pop art”. Mas na hora que eu entrei naquela sala e deu de cara com aquele quadro, meu coração congelou.

A tela eram dois retratos idênticos, um acima do outro, numa mesma tela gigantesca. Duas mulheres, duas faces de mulheres, uma mais à frente e a outra recuada para trás, como se abraçasse a primeira pelas costas. Bom, para falar a verdade as duas eram meio andrógenas, mas eu as vi como mulheres. Estavam sérias.  E o que diferenciava os retratos eram as cores que predominavam em cada imagem: laranja, rosa e azul na de cima. Verde, roxo e um outro tom de laranja, na de baixo. Pois bem. Tudo teria sido igual se a mulher que estava mais à frente no retrato não tivesse uma estarrecedora semelhança comigo.

Fui olhar o nome do quadro: chamava-se Ladies and Gentlemen e tinha sido pintado no ano de 1975. Rapidamente fiz as contas de quantos anos eu teria na época. Em seguida me senti ridícula por ter feito isso. Voltei a olhar a imagem. Eu olhava para ela e ela olhava para mim e eu comecei a sentir um desconforto esquisitíssimo. A boca pequena, o lábio fino, o nariz, o formato do rosto, o olhar sério, o cabelo, o jeito. Eu sabia que era uma loucura pensar isso, mas eu pensei. E num fração de segundos eu imaginei que aquela mulher talvez pudesse ser eu. Numa outra vida, numa outra época, numa outra geração, num outro nome, numa outra dimensão.

Na mesma hora me lembrei de um dos meus filmes favoritos do Krzysztof Kieslowski: A Dupla Vida de Veronique. Numa das cenas do filme, o personagem de Irene Jacob se vê de longe numa praça. Ela está dentro do ônibus e por um instante a “outra ela” a vê também dentro do ônibus e elas se reconhecem. Essa foi uma das cenas mais emocionantes que eu já vi no cinema e agora eu estava ali, com a mesma impressão e pavor por estar me reconhecendo num quadro de Andy Warhol.

Ah, esse dia foi muito surreal. Eu demorei horas para conseguir sair daquela sala. Fui à livraria, comprei o catálogo da exposição e fiquei sentada o resto da tarde naquela escada que tem no vão central do CCBB com o livro no colo e um café na mão, com o olhar perdido e uma sensação esquizofrênica de ter perdido algum capitulo da minha vida.

Eu sabia que nada nem ninguém poderia me explicar aquela sensação de dejavú que eu estava sentindo. Mas vamos combinar que não é todo dia que uma coisa dessas acontece na vida de uma pessoa. Qualquer um teria ficado esquisito. E como eu definitivamente não me sinto qualquer um, até hoje essa história me arrepia os cabelinhos.

De tempos em tempos eu tiro esse livro da estante e abro na página 91 e fico olhando para essa Tatiana. E penso que não seria tão mal assim um dia encontrar comigo mesma, quem sabe, tomando um café nas escadarias do CCBB. Nas minhas viagens quânticas, seria mais uma chance de reinventar minha existência.

Quem sabe.

Eu preciso ir além

estrada

Outro dia eu tava lavando louça quando uma frase invadiu minha cabeça:

Eu preciso ir além.

A frase entrou e foi direto para um lugar bem fundo de mim e encontrou lá dentro um eco profundo de aflição e verdade.

Eu preciso ir além.

Além da montanha, além da mesmice dos dias, além do que se vê apenas com os olhos.

Foi bem forte.

Eu sei que a vida habita no simples do dia-a-dia. E que depende de cada um de nós resignificar esse cotidiano.

Mas eu senti que essa invasão de pensamento tinha um porquê.

Como um chamado de uma alma ansiosa que precisa muito ser ouvida.

Um dia eu realmente vou precisar ir além.

Além do que eu planejei, além do que eu sonhei, além do que eu sequer imaginei.

E vou precisar arranjar tempo para ampliar meus horizontes. Ampliar minha consciência. Ter tempo para ler um livro inteiro. Ter tempo para digerir tudo que apreendo do mundo. Ter tempo para criar tudo aquilo que me transborda. Ter tempo para fazer arte. Escrever meus textos. Tempo para meditar, tempo para nadar sem tempo. Tempo para ser. Simplesmente ter tempo para ser.

Um dia eu vou conseguir ir além.

E vou conseguir me desprender um pouco das tarefas mundanas e me dedicar somente às realizações divinas. Aquelas que a gente sente que nasceu para fazer. Para tentar transformar o olhar. Para tentar transformar as pessoas. Para quem sabe, tentar transformar o mundo.

Um dia esse dia há de chegar.

E aí sim eu vou me acalmar. E me sentir realizada. E vou sentir que a vida finalmente fez sentido. E que o mundo pela primeira vez não pareceu tão surreal.

Um dia esse dia há de chegar.

Ou porque consegui um esquema mágico de não ter tantas demandas que me afoguem no dia-a-dia.

Ou porque envelheci e tive a chance de me aposentar.

Ou simplesmente porque desencarnei.

Não importa.

O que importa, é que um dia eu realmente vou precisar ir além.

Além do que eu planejei, além do que eu sonhei, além do que eu sequer um dia eu imaginei.

 

Fragilidade Urbana

Flor_no_asfalto

Uma vez a cada quinze dias preciso sair do Condado onde vivo para atravessar a cidade, o mar e outro tanto da cidade vizinha, para chegar à Tijuca, onde fica minha terapia. Confesso que me sinto uma hobbit corajosa quando saio em busca dessa aventura. A Tijuca parece um lugar completamente diferente de onde vivo, moro e trabalho em Pendotiba. Mas a trajetória até lá é que me impressiona, porque de alguma forma me mostra – como um raio X – o tamanho da minha fragilidade urbana.

A cidade grande me espanta. Todas as vezes que salto da barca e dou de cara com a Praça XV, fico chocada. São milhares e milhares de pessoas apressadíssimas, correndo, atrasadas, ocupadas, falando no celular, falando sozinhas. Elas não enxergam as outras pessoas, não parecem estar presentes no momento presente nem tampouco presentes no espaço onde estão. Elas correm aflitas para o futuro próximo de seus empregos, seus escritórios e seus compromissos. Há uma pressa opressora no ar. E o cenário não ajuda em nada. As ruas estão sempre imundas e em obras. Camelôs gritam para vender suas mercadorias. Cachorros latem para conseguir sua comida. Executivos correm atrás do sucesso. Funcionários correm atrás de bater seu ponto. E os mendigos… bem, os mendigos não correm para lugar nenhum. Eles não existem para a essa cidade. Não fazem parte do cartão postal.

Eu olho ao redor e me sinto totalmente fora do contexto. Uma peça com defeito que não se encaixa no quebra-cabeça. Um peixe fora d’água. O Neo de Matrix quando descobre que a Matrix é uma Matrix.

Não sei se sou eu que tenho essa extra sensibilidade irritante ou se é mesmo a rua que tem cheiros demais, buracos demais, barulhos demais. É uma poluição sonora, visual. Um excesso de energias diversas, contraditórias e desequilibradas. São pombos, pedras, placas, avisos luminosos, cartazes, jornaleiros, árvores secas e abandonadas, pessoas nas ruas dormindo abandonadas, bueiros, buracos, cuspes, pingos de ar condicionados, cocô de cachorro, cocô de gente, pichações, lixo… meu Deus… a quantidade de lixo que tem pelas ruas é uma coisa muito surreal. Um caos absoluto. Eu olho para esse mundo e não consigo acreditar que as pessoas não se afetem com tudo isso. Será que elas se acostumaram com a coisa ou nunca chegaram a perceber o cenário de ficção científica que estão inseridas?

São raros os momentos que eu consigo respirar nesse mundo. Raros, mas existem. E quando acontecem, são como tomar um fôlego, depois de muito, muito tempo sem respirar. Uma alegria instantânea. Uma brisa no rosto. Um carinhozinho na alma. Acontecem quando encontro um artista de rua – como aquele moço com vilolino que vi ontem em frente ao Paço Imperial. Gente! Que momento sublime foi aquele. Eu fiquei parada diante dele, derretendo por dentro de emoção. E ele tocou aquela melodia triste e me olhou nos olhos e durante alguns segundos eu não me senti mais sozinha. Foi incrível. Assim como quando dou a sorte de cruzar o olhar com um senhor de terno e gravata, cheiroso e arrumado e ele me cumprimenta com um sorriso e um sonoro “bom dia, senhorita”. Ou quando percebo uma florzinha nascendo solitária no meio da rua, no meio do cimento, no meio do caos cinzento. Esses momentos, são momentos importantíssimos para mim. Porque entendo que de alguma forma, há dentro de todos nós, desertos e oásis. E só depende de nós qual cenário valorizar. Se o cenário da luz ou o cenário da sombra. Só depende de nós.

Mãezinha

varal

Um texto de Clara Meira

“É um dia ordinário, comum. Mais precisamente uma segunda. Minha mãe está cansada. É um dia relativamente quente. Me pego a observar esse ser que me segurou durante nove meses dentro de si. Está sentada sobre o nosso sofá cinza com um olhar mais perdido do que bote no mar. Me pergunto o que pensa aquela cabecinha mirabolante. Ela se levanta pois sabe que precisa cumprir suas tarefas diárias (as quais ela mesmo se impõe). Anda com passos leves e ligeiros até chegar à maquina de lavar onde tira as roupas lavadas de dentro. As traz para o sala junto do varal. Vai pendurando com muita leveza. Dá uma parada para desfrutar do cheirinho de roupa lavada que ela tanto ama. Ela sorri e junto dela eu sorrio discretamente para baixo. Ela está linda. Usa uma blusa rosa, um short preto e um coque mal feito. Respira profundamente de cansada. Mas parece tão feliz, tão serena. Me percebe sorrindo e conversamos um pouco. Acaba de estender a roupa e senta comigo, acompanhada de uma maçã descascada (a qual eu tento pegar uma fazendo-a gargalhar). Tão plena. Rimos no nosso gato Zeca dormindo engraçado. Essa é a mulher que cuida de duas filhas, dois gatos, uma casa e um relacionamento. Esta é a mulher que carregou duas crianças em seu ventre. Que passou dezoito horas em trabalho de parto para ter minha irmã. Que tenta nos manter distantes dos desastres do mundo, que lida com todos os problemas de uma forma adulta. E que mesmo assim nos ama, nos cuida, com cada célula de seu corpo. Então eu simplesmente digo: – como te amo.”

 

 

A Esquizofrenia da Ausência

Escultura de Camille Claudel

Escultura de Camille Claudel

Camille Claudel e eu temos algo muito profundo em comum: há sempre algo de ausente que nos atormenta.

Ela foi uma escultora francesa genial, que enlouqueceu de amor e morreu bem velhinha num hospício depois de longos trinta anos de abandono.

Eu sou uma professora de teatro, escritora, brasileira, mãe de duas filhas que mora num condado distante em Niterói.

Nossas realidades jamais poderiam ser comparadas. Mas ainda sim, eu sinto que há entre nós algo muito profundo que nos une: a esquizofrenia da ausência.

Muitas neuroses explicam a identidade e a vida de pessoas que habitam esse mundo. Essa neurose que eu denominei de “esquizofrenia da ausência” nada mais é do que uma insatisfação crônica do que se vive no presente. Confesso que me sinto envergonhada por compartilhar isso. Justo eu, a fervorosa defensora da filosofia transformadora do “poder do agora”. Sim. Não há nada mais libertador do que compreender que é no presente que a vida está. Que não há nada no passado que possa ser transformado e que o futuro é uma ilusão que nem aconteceu ainda. Sim. Mesmo sabendo de tudo isso racionalmente, eu ainda sofro da esquizofrenia da ausência e eu vou explicar por que.

Eu desejei desesperadamente entrar de férias. No fim do ano passado estava exaurida, exausta, entupida. E ficava, lá nos últimos instantes dos dias letivos, delirando, sonhando, planejando as férias que iam me salvar daquela sensação de sufocamento.

Ok.

Minhas férias estão chegando ao fim. Mas há semanas eu estou desesperadamente desejando a volta às aulas. Exaurida, exausta, entupida. Com a mesma sensação de sufocamento, só que por outros motivos.

É.

É preciso coragem para se confessar uma coisa dessas. Mas é a mais pura verdade. E o pior, é uma insatisfação que parece estar sempre à espreita na minha vida tentando se manifestar.

No verão, me queixo do calor. Esbravejo, suo como uma condenada e fico o tempo todo desejando o inverno. No inverno, fico cansada do frio, morro de saudade da praia e fico o tempo todo desejando o verão.

No fim do ano cortei meus cabelos curtos porque estava saturada da minha juba de leão. Agora de cabelos curtos, estou saturada da cor dos meus cabelos.

Quando viajo por exemplo. Passo meses planejando a viagem, curtindo tudo que quero fazer, os lugares que quero conhecer. Mas depois de um tempo viajando, já estou morrendo de saudade da minha casa, da minha cama e do meu feijão.

É uma eterna sensação de esvaziamento. Uma melancolia de uma incompletude que eu não consigo explicar.

E não é só isso, sabe? Eu queria me livrar desse sentimento doído que eu sinto todas as vezes que vejo uma foto da Grécia. Ou uma foto de Bora Bora. Fica lá uma impressão esquisita que eu nunca vou conseguir realizar todas as coisas que eu sonho nessa vida. E o pior, vem uma nostalgia no coração de todas as coisas que eu nunca vivi. Como é que pode?

Estranho né.

De vez em quando eu penso no que terá passado na cabeça de Camille Claudel naqueles trinta anos que ela passou no hospício. Pobre criatura.

Graças a Deus faço terapia e acho que vou conseguir me livrar do pinel nessa vida. Mas mesmo assim, mesmo no caminho do autoconhecimento, mesmo escrevendo para me salvar, mesmo sabendo da força que existe no poder do agora, mesmo sabendo que agradecer é o melhor caminho para compreender a verdadeira abundância, mesmo sabendo disso tudo… lá… bem no fundo do meu peito, ainda há sempre algo de ausente que me atormenta.

Talvez isso tenha um nome: humanidade.

 

 

Os sons da alma

trem-antigo-wallpaper

De todas as memórias afetivas que eu guardo no meu coração, talvez uma das mais preciosas e celestiais seja a lembrança do apito do trem que passava nas madrugadas em Joinville.

(clique aqui para ouvir o que eu ouvia)

Todas as noites, ele passava a mesma hora, no mesmo silêncio da cidade adormecida. E eu esperava por ele. Não sei porquê. Mas algo em mim fazia sentido quando aquele trem passava. Eu morava num bairro distante, numa parte da cidade que estava no extremo oposto à estação que o trem passava. Mas mesmo assim eu conseguia ouvi-lo com uma impressionante nitidez. Todas as noites. Eu repetia a mesma cena. Saia da cama em silêncio e ia até a varanda, de camisola, esperar por ele. Perdi a conta de quantas estrelas contei e quantos desejos desejei em estrelas cadentes ao esperar por aquele trem.

A vida é estranha e maravilhosa. E nela habitam tantos sentimentos, tantas experiências e tantas impressões que às vezes, fica difícil de explicar. Deve ser por isso que inventaram a poesia. Para explicar as coisas inexplicáveis. E deve ser por isso que eu vejo poesia em tudo. Porque há coisas demais no mundo que são indescritíveis e inenarráveis.

Sim. Eu vejo poesia em quase tudo. Mas nem sempre ela se traduz em palavra. A poesia as vezes pode ser simplesmente um estado de ser. Uma forma de ver. Eu via tanta poesia naquele apito de trem. Porque via pessoas partindo. Pessoas chegando. Via um imenso fantasma de ferro atravessando o mundo como quem busca o próprio destino. Havia algo mágico naquele som. E eu não precisava explicar. Só precisava me permitir sentir o que sentia.

Nunca mais esqueci aquela experiência.

Eu tenho uma coisa com o som das coisas. Eu fico mexida quando um sino toca. Quando ouço uma onda se quebrar na beira da praia. Quando o vento chia forte, ou quando o próprio vento faz barulhinho nas folhas das árvores. Eu fico mexida com ouço trovoada, daquelas fortes que dão medo. E desmaio de amor com o som da chuva. Me emocionam os barulhos na natureza. Todos eles. Tipo sapo coaxando. Grilo grilando. Galo cocorocando. Mas também gosto do som de gente. Gente assoviando. Gente cantarolando. Gente gargalhando.

Se eu pudesse juntar minhas memórias afetivas num só lugar, eu gostaria que fosse numa trilha sonora, onde tudo aquilo que ouvi e senti do mundo pudesse se condensar num única música. Uma canção que me fizesse lembrar as melhores e mais profundas experiências que eu pude viver. Só com os sons da minha alma. Para ouvir nas estrelas o dia em que eu não estivesse mais aqui.

Que lindo seria.

 

 

A Jornada do Herói

Menina e o barco

Arte de Beatriz CarbonMade

Não.

Eu não concluí a Jornada do Herói.

Não voltei do processo mais forte.

Não entendi tudo que pretendia entender.

Não passei pelas etapas que um herói deve passar.

Não iluminei todas as sombras que desejei iluminar.

Não cheguei nem perto de desatar os nós que precisava tanto desatar.

A vida geralmente não é aquilo que a gente planeja. A vida é o que precisa ser. Ou aquilo que a gente suporta viver.

Mas de todas as experiências que passei nesses poucos dias, naquela linda casa cravada no coração da montanha, talvez uma das mais significativas tenha sido justamente respeitar os limites da minha dor e ter voltado à civilização antes que minha alma se despedaçasse. É preciso muita coragem para se olhar do avesso. Mas com o tempo aprendi que nem todas as experiências precisam ser vividas com dor. Porque eu também aprendi que o amor cura feridas. Que acolher os meus sentimentos, por mais contraditórios que sejam, também cura as minhas feridas. E que ser verdadeira comigo mesma, sempre, também vai curar as minhas feridas.

Estou há alguns dias recolhida no meu ninho e esse tempo foi extraordinário para me fazer entender o quão heroína eu fui, em todo o processo, desde o início até o fim. Heroína por ter tido coragem de ir, heroína por ter tido coragem de partir. Heroína por assumir que minha jornada era mais curta do que a dos outros heróis. Heroína por ter passado aquelas noites em claro chorando dores tão antigas. Heroína por não ter me envergonhado dessas dores. Heroína por ter pedido ajuda. Heroína por ter aceitado ajuda. E, sobretudo, heroína por não esconder isso de ninguém. Principalmente, de mim mesma.

Herói é aquele que tem coragem de viver, mesmo que por dentro sinta muito medo da vida. É aquele que enfrenta grandes perigos, mas também enfrenta pequenos desafios no dia-a-dia que podem ser perigosamente enlouquecedores. Herói é aquele que caminha com a verdade. É aquele que não desiste. Que insiste. Que permanece vivo. Que se refaz a cada manhã. Que encontra a saída dos labirintos, que se desespera com a fragilidade da vida mas que se supera apesar da efemeridade de sua existência.

Não. Eu não concluí a Jornada do Herói. Mas concluo minha vida todos os dias, a cada noite que anoitece e eu não desisto de viver.

Eu agradeço a todos que de alguma forma, me proporcionaram essa curta e intensa história de cura. De camada em camada, vou seguindo pela vida, resgatando cada pedacinho da minha alma que foi perdida.

Eu agradeço. Eu agradeço. Eu agradeço. Eu agradeço.