Perder-se

De vez em quando, eu perco o caminho.

Não só por tudo da vida que me atravessa.

Ou as tantas demandas de todo dia.

De vez em quando eu perco o caminho, porque a travessia é difícil mesmo.

A estrada não é uma linha reta, as placas nem sempre são claras e os atalhos são infinitos.

Clarice dizia que “perder-se também é caminho.” Mas o que me aflige é saber que todas as vezes que eu me perco, quem acaba sofrendo mais é a alma.

Porque eu deixo de escrever. Deixo de cuidar de mim. Da minha vida criativa. Daquilo que mais importa. Porque fico barata tonta. Porque perco o rumo. Porque amanheço e adormeço no automático. Porque vou vivendo os dias cumprindo tarefas, esquecendo os tantos deslumbramentos que a vida sempre me dá de presente.

Aí vem aquela frase da Adélia que eu amo, mas me dói tanto:

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Eu olho pedra e vejo pedra mesmo.”

É sobre isso.

Perder-se pode ser bem perigoso.

Porque fora do trilho, meu trem corre sem ver, sem sentir, sem registrar, sem traduzir.

E o que será da vida sem o espanto e a poesia?

O que achou?