TOE – Transtorno Obsessivo pra lá de Esquisito

livros

Para Catita

O ser humano tem muitas neuroses.

Algumas são sérias, complexas, perturbadoras. Outras são engraçadas, meio patéticas, surreais. Mas hoje eu fiquei pensando que talvez o primeiro passo para curar uma neurose é ter coragem para olhar para ela de frente, assim como quem enfrenta um demônio num deserto. Você e ela, ali, cara a cara. Sem máscara, sem mentira. Sem panos quentes, sem vergonha. Olhar assim, de verdade. A conscientização de uma neurose pode ser um marco. O início mesmo de um processo de cura. Uma libertação definitiva da coisa que faz a gente ser, esse bicho esquisito que a gente é.

Eu, por exemplo. Eu sei que eu tenho um leve nível de TOC correndo nas minhas veias. Para quem não sabe, TOC é a sigla para o transtorno obsessivo compulsivo, um distúrbio psiquiátrico que faz as coitadas das pessoas terem “pensamentos obsessivos e compulsivos, comportamentos considerados estranhos pela sociedade ou por si próprios; normalmente trata-se de ideias exageradas e irracionais de saúde, higiene, organização, simetria, perfeição ou manias e “rituais” que são dificilmente controláveis”. Pois é. Eu tenho um pouquinho dessa coisa aí. Uma coisa leve, assim, quase imperceptível a olho nu. Mas eu tenho. E toda a vez que eu percebo a coisa em mim, um sininho toca e eu fico bem aborrecida com o fato. Não, eu não fico aborrecida. Eu fico me sentindo prisioneira de uma coisa que não precisava ser.

Deixa eu explicar melhor.

Desde pequena eu tenho um lance com arrumação. Minha mãe sempre foi super organizada. Minha avó era metodicamente organizada. Então de alguma forma, alguém me ensinou que a ordem sobre o caos é uma coisa positiva. Até aí tudo bem. A questão é quando a coisa começa a se desequilibrar e se torna uma obsessão, isto é, um apego exagerado a uma ideia de que tudo tem que estar milimetricamente no lugar. Eu tenho para mim que muito do meu TOC tem a ver com um caos interno. As coisas aqui dentro já são tão bagunçadas que eu fico arrumando desesperadamente o lado de fora na esperança de que dentro as coisas vão se organizar melhor. Eu até já escrevi um texto sobre isso: sobre as minhas arrumações compulsivas dos armários quando estou deprimida. Mas ultimamente tenho percebido que a coisa extrapolou o armário e tomou conta da casa toda.

A coisa é mais ou menos assim. To passando do quarto para a sala. Olho de butuca de olho a pilha de livros que está lá na estante do outro lado da sala. Os livros estão empilhados de qualquer jeito. Assim, uns por cima dos outros, mas sem nenhuma simetria estética. Cada um olhando para um lado. Eu não sossego enquanto não vou lá para empilhá-los direitinho. Não é uma atitude meio esquisita? Isso já foi pauta de terapia. E dever de casa desafiador no grau máximo. A tarefa era simples. Olhar a pilha de livros e ficar contando, respirando no incômodo, até me libertar do desejo louco de ir lá arrumá-los. Ahhhhhh. Que agonia!

Quando comecei a pensar nesse texto e no tema polêmico do TOC, liguei para minha irmã, que na minha modesta opinião, está alguns níveis acima da minha loucura. Aquela ali tem TOC brabo, mas não se incomoda com isso. A casa dela é Casa Cláudia e ela se orgulha disso. Tudo está sempre pronto para ser fotografado. Não há uma gavetinha sequer naquela casa que não esteja em ordem total. Mas eu estava aflitíssima ao telefone:

– Má, fiz a besteira de entrar num site para pesquisar os sintomas de quem tem TOC. Cara, eu tô num nível básico em quase todas as listagens. Você acha isso grave?

– Ti, se acalma. A gente foi criada assim. Não lembra que a gente não podia brincar na casa da vovó para não desarrumar nada?

– É, eu lembro.

– Nossa mãe tem o armário arrumado em degrade de cores, cara. Isso tem um peso nas nossas referências.

– É, você tem razão. Mas eu quero me libertar disso.

Para quê secar a bancada da pia depois de lavar a louça? Por que fazer a cama e ficar paranoica que alguém vai sentar e engruvinhar toda a colcha que você acabou de esticar? Pra quê se preocupar de fazer bolinhas com as meias e calcinhas depois que as tiramos do varal? Por que passar Veja tantas vezes na mesa da sala? Por que se importar tanto com as impressões digitais gordurosas no vidro da varanda?

Não pensem vocês que me orgulho de ser assim. Se pudesse mudar alguma coisa em mim, com certeza que essa neurose de arrumação estaria no topo da lista. Claro que eu gosto de ver as coisas organizadas, limpas, cheirosas. Me orgulho de saber que não sou uma acumuladora e que na minha casa não tem nada quebrado ou fora de uso. Arrumar o lugar onde a gente mora tem a ver com honrar de alguma forma tudo que foi conquistado. Eu sei. Mas também sei aqui dentro de mim, que a linha que divide a ordem do ambiente para uma coisa psicoticazinha de arrumação é bem tênue. E assustadoramente esquisita.

Minha irmã teve um professor de história da arte que disse que 1% da população mundial tem alguma preocupação com estética. Taí. Deve ser isso. Eu sou um desses caras. Estética é um ramo da filosofia que tem por objetivo o estudo da natureza da beleza e dos fundamentos da arte. Talvez meu lance lá com os livros assimétricos fale de uma necessidade filosófica de tornar o ambiente da minha casa bonito e equilibrado. Até aí tudo bem. Mas o que me incomoda é perceber que sou prisioneira dessa estética. Eu não conto para ninguém, mas depois que Marly vai embora na segunda-feira – depois de um dia auspicioso de faxina – eu saio consertando objeto por objeto na casa, arrumando as coisinhas na simetria lógica da minha cabeça que não tem lógica nenhuma. Ou tem?

Ah, sei lá. Esse é um assunto que dá muito pano para manga. Das muitas características bizarras de quem sofre TOC realmente essa da arrumação – em mim – me parece a pior. Eu sei que tem muita gente que padece com essa doença. Que fique aqui registrado meu profundo respeito e compaixão para quem luta com esse dragão. Só mesmo a psicanálise para explicar tanta esquisitice. Ou não. Dizem as pesquisas que apesar de vários estudos publicados o TOC ainda é considerado um “enigma” e continua sendo um desafio para os pesquisadores.

Na minha pesquisa pessoal, descobri que algumas sensações mentais se repetem no coração de quem sofre a coisa: percepções ilusórias de se “sentir em ordem”, sensação constante de incompletude, de “ter que” fazer alguma coisa e por fim, a sensação de esvaziamento da energia interna. Nossa. Essas sensações me parecem ser de um profundo sofrimento subjetivo.

Escrever é um processo de cura para mim. Compartilho com o mundo as minhas neuroses para ver se com isso consigo dar uma meia dúzia de socos nesses demônios que me atormentam. E na esperança também de ajudar alguém que talvez sofra do mesmo TOE que eu. Porque gente, não dá para ficar levando a vida tão a sério né. Tudo bem. A gente é esquisito. Mas eu não quero ficar me martirizando com isso. Eu quero rir disso. Talvez a verdadeira libertação das neuroses esteja no segredo de rir delas. Ou escrever sobre elas. Cada um com a sua possibilidade de libertação exorcizante. Nietzsche dizia que “temos a arte para que a verdade não nos destrua”. Eu tenho as palavras para que as neuroses não me destruam. Aho!

Uma Canção para Aylan

maefilha

Já perdi a conta da quantidade de vezes que fui acusada de alienação.

Já perdi a conta da quantidade de vezes de ver gente bufando o absurdo da minha postura de não ler jornal.

Já perdi a conta da quantidade de vezes que tirei gente do sério simplesmente por fazer a escolha de não querer saber das notícias cruéis do mundo.

No início, eu me sentia envergonhada. Escondia de todo mundo essa escolha bizarra de ir no contrafluxo do mundo enlouquecido de informações e me desculpava constrangida por não saber do menino que matou outros vinte na escola. Pedia desculpas pela minha ignorância e disfarçava essa minha opção maluca de vida.

Mas com o tempo, eu me fortaleci. Compreendi em profundidade o que era a sombra do mundo e o que fazia parte da cultura do medo. Entrei de cabeça no estudo e na vivência da minha jornada espiritual. Saí de grupos do Facebook que me alertavam sobre os perigos da cidade, saí de fininho das conversas que sangravam, aprendi a dizer para o motorista de táxi que não me contasse os casos de assalto da região, aprendi a defender minha escolha de vida com orgulho e ver nela todo o sentido que eu buscava. É impressionante como a gente acha que não, mas a gente pode escolher em que frequência do mundo quer viver.

Mas mesmo com todo o cuidado, todo o filtro e toda a tentativa de escapar da dor que o mundo me causa, um dia, uma fotografia gruda na minha retina e não me deixa respirar. A fotografia de um menino morto na beira da praia entra em mim e me toma por inteiro. Me doem os ossos. Me dói o estômago. Me dói a alma. Tento desesperadamente entender o contexto, ler as notícias atrasadas. Me sinto culpada pela impotência, sou bombardeada de mensagens no whatsapp de amigos em sofrimento como eu e penso: quando é meu deus, que a humanidade vai parar de ser como é?

Muito já foi dito sobre essa história essa semana. E o Efeito Aylan Kurdi é real. Depois da morte do menino sírio, algumas coisas já se transformaram na Europa. De alguma forma, essa dor que o mundo sentiu fez mover energias profundas que precisavam desesperadamente ser transformadas.

Mas aqui dentro de mim, dentro desse meu pequeno universo que habito, o que eu queria dizer com esse texto essa semana, era que desde o dia que aquela imagem foi divulgada para o mundo, antes de dormir, eu não consigo fazer outra coisa que não seja imaginar colocar o pequeno Aylan no colo e cantar para ele uma canção de ninar. Rezo para que ele, sua mãe e seu irmão encontrem luz no Caminho Azul e compreendam que a humanidade ainda vai precisar de muito, muito tempo para se transformar. Não consigo imaginar mais nada que eu possa fazer por essa história nesse momento.

O mundo não me cabe. Mas como Aylan pode não caber?

A Soma dos Dias

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Hoje o despertador tocou às seis horas da manhã. Eu desliguei o alarme e me espreguicei. Quando levantei, a coluna travou. Senti uma dor lancinante e caí de volta na cama sem acreditar no que estava acontecendo. Era a minha alma gritando outra vez.

Há muito tempo venho repetindo um mesmo processo emocional que não consigo me curar. Somatizar significa transferir para o corpo um problema de origem psicológica. Hoje, depois de toda a estrada percorrida nos meus quarenta e dois anos, já entendi que não há nada, absolutamente nada que o corpo fale, que não tenha sido dito pela alma. Mas mesmo com toda a compreensão, com todos os anos de terapia sofridos, todos os florais tomados, meu corpo segue dando pistas de como minha alma continua inflamada.

É mais ou menos como varrer a casa e colocar toda a sujeira embaixo do tapete. Com o tempo, o que era só uma fina camada de poeira vai se transformando num enorme calombo. A gente começa a tropeçar na sala e percebe que não dá mais para disfarçar aquele bolo gigante de sujeira. A mesma coisa acontece com a gente. No dia-a-dia, a gente vai vivendo aos trancos e barrancos. Vivemos intensamente e mal conseguimos compreender tudo que nos acontece. São emoções, frustrações, raivas. Sentimentos e experiências acumuladas que não conseguimos digerir. Esse acúmulo, ao invés de nos nutrir, começa a nos intoxicar. As  vivências vão se transformando num grande e espesso lixo anímico que se transforma numa massa de dor. A alma pede socorro, mas não temos tempo de ouvi-la. Porque desprezamos o cansaço. Enterramos a tristeza. Desrespeitamos os sentimentos. Então a alma começa a chorar.

Quando a alma chora, a gente leva um susto. E rapidamente saca da bolsa um Rivotril para calar essa coisa estranha que nos aperta o peito. Ou toma logo uma Neosaldina para essa enxaqueca que não passa. Ou um Omeprazol para essa dor de estômago que nos incomoda tanto. E como esses milhões de remédios vão sendo consumidos todos os dias para que os lamentos da alma se calem. E a gente possa continuar a jornada da vida, afinal de contas, nós precisamos trabalhar. Precisamos lutar pelo pão de cada dia. Porque precisamos ser felizes. Porque precisamos ter sucesso. Porque precisamos mostrar para todo mundo como somos felizes e como somos bem-sucedidos. Até que um dia a alma explode e não há remédio que nos tire de uma crise de lombalgia aguda.

Eu herdei do meu pai uma hipocondria patética. Talvez por ter descoberto desde pequena que a doença sempre o traria para mais perto de mim. Mas a verdade é que aprendi com louvor a ler e decifrar bulas na intenção de sufocar qualquer tipo de dor. A dor de existir já me é tão dolorida que as dores do corpo eu não consigo suportar. E assim, aprendi um mecanismo esquizofrênico de me antecipar ao sofrimento, antes mesmo que ele possa me alertar de qualquer coisa que esteja errado com a minha máquina. É engraçada a hipocondria do Woody Allen nos filmes. Mas na vida real é uma doença aprisionante e bem deprimente. E uma grande aliada nesse processo de calar a voz da alma.

Não fazemos por mal. Não fazemos numa intenção maléfica. Fazemos porque temos medo. Porque não sabemos se suportaremos tudo que a alma tem a nos dizer. Nem se suportaremos as nossas mais profundas verdades. Porque no fundo, não queremos sair das nossas zonas de conforto. Não queremos ter trabalho. Não queremos ter que olhar para as nossas sombras. Olhar para a parte em nós que nos envergonhamos. Olhar para as nossas feridas que nunca cicatrizaram. Não. Tudo isso é demais para quem tem que acordar às seis da manhã e viver um dia inteiro de trabalho e provações e desafios.

Mas um dia o despertador toca. E a gente levanta. E a coluna trava de tal maneira que por mais que a gente queira muito, ou precise, o corpo simplesmente te impede de levantar. É um mecanismo genial esse não, que a natureza inventou? Me estico para pegar o livro que está na cabeceira – “A Doença como Símbolo”, de Rüdiger Dahlke – e abro na página que diz: lombalgia. Leia o parágrafo com desânimo: “sobrecarga; não suportar o peso que se carrega; sentimentos de pequenez e inferioridade, o chamado entre o eu e o instinto dilacera a pessoa; dilacerar-se; torcer-se.” Não é possível. Mas está tudo bem! Eu estou dando conta de tudo. A vida está me trazendo os desafios e eu estou correspondendo a eles como devo.

Não Tatiana. Nada está bem. Você tem sofrido o último ano de infecção urinária de repetição – que nada mais é do que “chorar por baixo”, ter uma necessidade desesperada de se livrar de lixos anímicos – vira e mexe volta a ter labirintite – que é uma luta agressiva pela orientação certa em relação ao mundo e ao equilíbrio anímico. Anímico! Tudo gira em torno da sua alma, você não percebe? Até quando você pretende fingir que não está escutando o que sua alma tem a dizer? Até chegar a um diagnóstico de câncer?

Minha terapeuta costumava dizer que a gente cura as nossas feridas em camadas. E que se voltamos ao que nos parece ser o mesmo ponto que partimos, é sinal que na espiral da vida, ao menos um véu já conseguimos tirar dos olhos. E muitos… muitos são os véus que nos cegam. Depois de passar semanas com dores insuportáveis nas costas, descobri que minha lombalgia tinha se transformado numa hérnia de disco. Hérnia de disco quer dizer: “abertura de uma ferida antiga; estar sob pressão em decorrência de problemas antigos, que já eram urgentes na época da lesão”.

Talvez eu precise voltar para terapia. Sinceramente não me vejo capaz nesse momento de conseguir decodificar tantos sinais. Me sinto perdida numa escuridão interna. Não estou sozinha. Sei que muitos seres invisíveis me ajudam e me apoiam na minha caminhada. Mas a jornada da alma é um caminho de muitas bifurcações e escolhas delicadas. Não quero me perder dentro de mim mesma. Não quero fazer o quadro de uma doença sem cura. Não quero e não pretendo morrer antes da hora.

A doença do labirinto

Lucca_labirinto

para Bia Albernaz

Há muito tempo entendi que a estrada da vida não é uma linha reta e sim uma espiral sagrada aonde vamos percorrendo a existência em profundo desejo de ascendência. O que eu não sabia é que em determinados momentos a espiral dá lugar a labirintos e que só saímos dele se entendermos em profundidade o seu significado.

Há três semanas cheguei à emergência do hospital passando muito mal. Tonta, enjoada e com dores de cabeça, o diagnóstico da médica foi certeiro: labirintite. Dizem que a labirintite é uma inflamação no ouvido. Mas isso não é verdade. Labirintite é uma inflamação na alma. De origem exclusivamente emocional, a doença do labirinto é coisa séria e dependendo do Teseu, pode ser tão trágica quanto as piores tragédias da mitologia grega. No meu labirinto não há somente um, mas diversos Minotauros soltos querendo me pegar e o pior, sem ter nem meio metro de fio de Ariadne para me ajudar.

Dizem que o labirinto é, essencialmente, um entrecruzamento de caminhos, dos quais alguns não têm saída e outros só nos levam a alguns impasses. Não há quem me faça desassociar a imagem do labirinto à minha labirintite. Perder o chão é como perder o caminho. Estar perdida dentro de mim mesma é como chegar a uma determinada parte da jornada e perceber que algo muito importante está errado.

No livro “A Doença como Símbolo” a definição de labirintite é devastadora: a doença vem como uma alerta do corpo à alma para que ela pare de se enganar. Como se de repente o indivíduo precisasse voltar a olhar de frente para tudo aquilo que construiu e rever os valores e crenças na qual baseou sua vida. Pancada não?

Debruçada sobre o significado do símbolo descobri que o labirinto foi construído pela primeira vez na intenção de ser um inteligente sistema de defesa. E que há dois tipos de labirintos: aqueles que tem a intenção de confundir os viajantes – e não tem saída – e aqueles que, como numa viagem iniciatória, não tem a intenção de aprisionar o viajante e sim transformá-lo através da experimentação – já que percorrer é mais importante do que sair – e geralmente guarda em seu centro um precioso e sagrado tesouro.

É muita riqueza num símbolo só! Mas tomar consciência da verdade não me livra da labirintite, nem tampouco do labirinto no qual estou perdida. Tenho tomado uma quantidade absurda de remédios alopáticos, florais de emergência, trabalhado minhas questões na terapia. Diminui café, mate, chocolate. Durmo sentada e não abaixo a cabeça para mais nada. Tenho estudado sobre o assunto. Tenho escrito – à mão já que fui proibida de ficar no computador – e meditado. A única coisa que não fiz que a médica mandou fazer foi caminhar. Ah, eu acho tão chato caminhar. Será que isso significa alguma coisa?

Tudo significa algo na simbologia da existência humana. Mas a verdade é que não consigo ficar boa. Não consigo me sentir bem de novo. Não consigo achar uma saída nem achar nada de precioso no centro de coisa alguma. Na vertical já voltei a ter alguma controle. Sigo trabalhando, dirigindo, cuidando das meninas. Mas se abaixo, levanto ou me deito depressa, o mundo continua vibrando na sensação estranha de ter tomado um porre sem ter ingerido uma única gota de álcool.

Os espíritas tem uma explicação para o meu caso. Vários já vieram falar comigo. E o diagnóstico é sempre o mesmo: mediunidade não trabalhada. Dizem que minha tontura e mal estar nada mais é do que um chamado sério da alma para a necessidade de um desenvolvimento espiritual.

Pode ser. Não estou fechada para nada. Já estou em busca de mim mesma, buscar um centro espírita vai ser moleza. Mas que fique registrado no livro cósmico da vida: se a intenção é que eu expanda minha consciência ajudando ao próximo, de uma coisa tenho certeza; isso eu já venho fazendo ao longo dos meus quarenta anos. Tenho um respeito profundo pelo mundo e pelas pessoas. Sou amorosa e isso se multiplica a partir do meu coração em todas as minhas ações cotidianas. Descobri que posso curar alguns espíritos com aquilo que escrevo e isso tudo, de alguma forma, já é trabalhar minha mediunidade, não?

Mas se preciso fazer mais, farei. Se preciso ir mais fundo, eu irei.

Diz o “Dicionário de Símbolos” de Jean Chevalier:

“O labirinto conduz o homem ao interior de si mesmo, a uma espécie de santuário escondido, no qual reside o mais misterioso da pessoa humana. A transformação do eu, que se opera no centro do labirinto, e que se afirmará à luz do dia no fim da viagem de retorno, no término dessa passagem das trevas à luz, marcará a vitória do espiritual ao material e, ao mesmo, tempo, do eterno sobre o perecível, da inteligência sobre o instinto, do saber sobre a violência cega.”

Que o meu saber possa conter essa violência que tenho feito sofrer meu corpo. Que o meu amor vença todos os medos que surgirem em forma de Minotauros. E que a minha fé me faça encontrar a Ariadne que habita em mim e ela possa me alertar, através de sua coragem e inteligência, que não há verdade que doa mais do que a ilusão daquilo que construímos nos labirintos de nós mesmos.

Ausência

trilho

Há sempre algo de ausente que me atormenta
Um avião que parte no céu
A saudade de um amor que nunca voltou
Um trilho de trem nunca mais percorrido
Fotografias de pessoas que já partiram
Navio escondido no fundo do mar
Móveis cobertos com lençol branco
Garrafa de vinho vazia
Flores secas
Perfume que carrega sentimento esquecido
Quadro antigo de lugar que não existe mais

Há sempre algo de ausente que me atormenta
Sentimento que não se explica
Só aperta o coração e faz suspirar
Para tentar arrumar o que não pode ser arrumado
Nem na alma
Nem em nenhum outro lugar

 

 

 

Predador

Neblina_do_Douro

De vez em quando eu sou capturada por um predador que me leva para um lugar horrível.

Clarissa Pínkola Estés, autora do maravilhoso “Mulheres que Correm com os Lobos” chama esse bicho de predador. É um cara chato, inconveniente, que mora dentro da gente e que não serve para nada a não ser detonar a nossa autoestima e criatividade.

Esse bicho me pega quase todas às vezes que começo a escrever.

Escrever, mas escrever para quê?” ele pergunta.

Desgraçado.

Já li muitos textos de autores incríveis que se debruçam sobre essa mesma questão. Por que escrever? Para quem? Será que algum dia eles também foram apanhados pelo predador?

Tenho muitas aflições. A primeira delas é uma preocupação altruísta de que meus textos sejam sempre sobre o meu “eu”. O que sinto, o que penso, o que vejo. Tudo bem que escolhi a crônica como veículo e ela geralmente é assim, o olhar do autor sobre alguma coisa. Mas será que não é cansativo para o leitor essa coisa de eu, eu, eu? Bom, tai um detalhe que Clarice Lispector nunca deve ter se preocupado. Ela não estava nem aí para isso. Falava de si como quem fala do melhor assunto sempre. Tive um amigo que vivia me dando conselhos sobre isso. Ele era de opinião que eu deveria escrever ficção ao invés de crônica porque através dela eu poderia colocar todas as minhas opiniões na boca de alguém inventado. E que isso de alguma forma disfarçava as minhas próprias sombras.

Mas não foi o que Carpinejar disse. Há alguns anos fiz um curso de crônica com ele em São Paulo que mudou minha vida. Tipo divisor de águas. E ele era categórico no quesito “falar sobre si próprio”. Ele dizia com todas as palavras que o verdadeiro cronista não pode ter medo de se expor e que é isso que o leitor precisa para se identificar. E que ele tem que ter muito senso de humor porque no fundo a gente tem mesmo vergonha de ser o que é. “O papel da crônica é humanizar as relações”. Foi uma viagem inesquecível. Foi depois dela que eu resolvi tatuar a palavra coragem no meu pulso direito. Na mão que escrevo. Não basta ter pulso. É preciso coragem para se viver por inteiro.

Lygia Fagundes Telles também me ajuda a viver. É dela uma frase que tenho presa na porta do meu armário: “O escritor pode ser louco, mas não enlouquece seu leitor. Ao contrário: o escritor pode afastá-lo da loucura. A função do escritor é produzir sentido e só o sentido se opõe à loucura. Por isso não consigo parar de escrever. Se você para de escrever, se torna infeliz, pois está desfazendo uma vocação. Está tapando os ouvidos para um chamado. Você está traindo esse chamado e, assim, traindo a si mesmo”.

Talvez textos que fluam devam fazer parte de um propósito maior. Deepak Chopra fala sobre isso em “As Sete Leis Espirituais do Sucesso”. A lei do darma ou do propósito de vida diz que todos nós temos um talento e uma maneira única de expressá-lo. “Existe alguma coisa que você consegue fazer melhor do que todo mundo. E para cada talento singular, em sua forma única de se expressar, existem necessidades específicas. Quando essas necessidades se combinam com a expressão criativa de seu talento, surge a fagulha que cria riqueza.” Opa, essa fagulha aí eu ainda desconheço. Mas isso são outros quinhentos.

Outra aflição que tenho é sobre estilo. Leio meus textos e não consigo detectar estilo algum. Quase como se só ele pudesse definir minha identidade e sem identidade eu não pudesse me reconhecer em texto algum. A única coisa da qual tenho certeza é que ou eu estou com alma poética e fico tentando extrair metáforas profundas do caminhar de uma joaninha – o que me dá muito trabalho – ou estou com a alma inflamada e saio escrevendo feito uma máquina compressora, numa enxurrada de ideias de fazer batucar o teclado, com uma propriedade assustadora. Tipo agora. Tipo esse texto. Ele flui. Transborda de mim. Como se cada ideia, cada palavra, estivesse sendo psicografada por alguém que está aqui encostadinho em mim.

Mas nunca me esqueço da mãe de santo que cruzou meu caminho certa vez e me afirmou, com todas as letras, que meu escrever vinha dos meus humores. Aqueles líquidos que correm em nós e falam de tudo aquilo que sentimos. Aquilo sim foi o maior presente que o além poderia ter me dado. Eckhart Tolle, do “Poder do Agora” diz uma coisa genial: “uma emoção é uma reação do corpo à mente”. Se eu for mesmo essa coisa transbordante de emoções, tudo que preciso é construir pontes cognitivas para traduzir o que sinto.

Depois disso tudo, o que fica é uma tremenda vontade de dar um soco na cara desse bicho. E não me preocupar tanto em falar de mim. Falar de mim é falar de toda gente, que assim como eu, sente, sofre e absorve o mundo do jeito que pode. Se eu puder ajudar alguém com as minhas tentativas de tradução simultânea do mundo, pronto, já valeu a viagem.

E o estilo? Ô meu Deus… será que isso realmente importa? Meu estilo deve ser esse aqui: coração aberto, escancarado. Coração sem vergonha de dizer o que sente. Escrevo com o amor que me habita. E é com esse amor que um dia eu ainda acabo transformando esse bicho, numa pulguinha insignificante. Só para ter o prazer de matá-la espremidinha entre as unhas.

Que maldade.

Em busca do sentido perdido

Foto Gisele Magalhães

Foto Gisele Magalhães

Talvez exista algo mais denso do que o nosso próprio sangue. Algo mais profundo que a nossa humanidade. Algo mais vital do que o ar que a gente respira. É ter consciência para o que se vive. Que sentido encontramos para existir. Para estarmos aqui.

A vida é estranha e maravilhosa. Sempre costumo dizer isso. Mas têm momentos da minha caminhada, que nem mesmo com toda a paixão e gratidão por estar viva, eu não encontro direito o sentido para estar aqui. Existir com consciência é um desafio incomensurável.  Muitas vezes invejo os animais simplesmente por não poderem pensar. Eles são livres. Livres nesse mesmo planeta que habitamos e coexistimos. Nascemos, vivemos e morremos. Mas temos absoluta consciência de todo o processo e isso muda tudo. Apesar de tanta evolução, ainda acho muito estranho que tenhamos nos acostumado com isso. Basta olhar a coisa por uma perspectiva um pouco mais distanciada que vai ver que viver é uma coisa muito doida. Desde que o mundo é mundo. Imagina que vivemos nos tempos da caverna como primitivos há milhões e milhões de anos atrás?  Depois vivemos eras e eras de um tempo que nem sequer lembramos mais. Nos digladiamos na Idade Média, vivemos tempos sombrios em todas as guerras que nos enfiamos. E hoje?

Hoje vivemos um tempo onde a tecnologia e a globalização colocam uma lente de aumento no planeta e nos fazem sofrer barbaramente com a consciência de tudo que acontece ao redor da Terra. Não há coração que suporte assistir de perto toda a dor que o mundo passa. O mundo inteiro não cabe dentro de nós. Não deve caber. De vez em quando paro para pensar no futuro e acho ainda mais triste nos imaginar naquele mundinho hostil, úmido e em curto circuito de Blade Runner. Sei lá. O mundo parece ter se acostumado com tanto delírio. Se não fossem os loucos, os deprimidos e os artistas, eu poderia apostar que o mundo entrou num colapso de anestesia coletiva.

De tempos em tempos eu me perco. Aliás, eu passo mais tempo perdida do que achada. Mas a sensação da falta de sentido na vida é uma das coisas mais apavorantes que eu já senti. Hoje em dia existem muitos diagnósticos para esse vazio: depressão, pânico, ansiedade. No fundo é sempre a mesma coisa. O homem desconectado da sua essência mais profunda. Desconectado de si mesmo e seu propósito. Desconectado da divindade que habita dentro dele. Já li muito sobre isso, mas a teoria é sempre muito diferente da realidade e eu acredito que ninguém escolha por livre e espontânea vontade estar desconectado de si mesmo. Cara, isso foi acontecendo aos poucos com a humanidade por tudo que ela tem passado desde que o mundo é mundo, não? Sim. Mas e daí?

Daí que no ano passado – num dos surtos que tive quando perdi o mapa de onde estava – resolvi levar a sério essa coisa de vazio e entrei o mais fundo que pude no meu buraco. Escrevi, escrevi, escrevi. Num único caderno. Sem pensar em publicar. Sem mostrar para ninguém. Sem mentir, sem florear. Escrevia e me colava. Escrevia e me jogava fora. Escrevia e me passava a limpo. Foi um processo dolorido, esquisito, maravilhoso. Eu tinha descoberto um jeito de construir uma ponte do meu mundo interno para o mundo externo. Estava fazendo a coisa mais sincera e simples e profunda que já tinha feito. Quando terminei o caderno, tinha nas mãos uma fotografia da minha alma. E muitas pistas para descobrir finalmente, o que fazia e que não fazia sentido para mim. Foi uma catarse, mas valeu a pena.

Tenho pra mim que esse pode ser um bom mecanismo de salvação. Pesquisar e montar o próprio kit-sentido. Uma maletinha de primeiros socorros para quando a gente se perde. O meu não tá pronto, mas eu sigo construindo, dia a dia, os tijolinhos que sustentam a minha existência. Cada vez que eu descubro algo novo que faça sentido, um novo tijolo aparece. No lugar daquele vazio que fazia eco, agora tem um monte de Tatianas trabalhando muito para me transformar de geleca embrionária num ser cada vez mais forte, consistente e bonitão.

Talvez agora eu não me perca mais.

Porque todos os dias olho pro meu kit e reconheço de uma forma profunda e inexplicável o valor de cada uma daquelas coisas que estão ali: a maternidade, que me deu de presente duas filhas e a possibilidade de amar esse amor infinito que há dentro de mim e essa capacidade inata que temos de cuidar daqueles que fazem parte de nós. A natureza, que me ensina com sua beleza e força porque as árvores fazem sentido, e os prédios não. O xamanismo e seu fascinante caminho vermelho, que me fez entender com beleza e coerência que não existe um caminho para a espiritualidade, mas que a espiritualidade é o caminho. E por fim, a arte, que de alguma forma sempre me salvou nos momentos mais sombrios e que me mostra sempre a vida sob a lente mais generosa, ampliada e despretensiosa que pode existir.

Sentido. O dicionário Houaiss tem mais de vinte significados para a palavra sentido, mas nenhuma delas explica melhor o sentido da palavra do que o antigo provérbio xamânico que diz: “sinto, logo compreendo”.

Sinto a vida nas entranhas. Escrevo para compreendê-la. Que o Grande Espírito possa sempre me ajudar com essa missão. Hoje e todos os dias que restem da minha jornada por aqui. Aho!

Emplastro de vinagre com sal

arame

Eu era pequenininha quando resolvi cruzar uma cerca de arame farpado. Me arrastei feito uma cobra no chão de terra batida para chegar depressa do outro lado. Desde pequena eu tenho pressa. Mas calculei mal o espaço para entrar. Voltei para casa carregada pela minha irmã, aos prantos, com três sulcos de pele rasgada nas costas. Foi quando eu entrei em casa que eu vi, refletido nos olhos da minha mãe, a gravidade do ferimento. O hospital ficava longe, a viagem era por uma estrada esburacada num jipe desconfortável e naquela hora, já anoitecia. Ela não teve dúvida. Foi na cozinha e voltou com um pote fundo cheio de vinagre com sal. Olhou sério para mim e disse:

– Filha, se prepara porque vai doer.

O emplastro de vinagre com sal da minha mãe era como um santo remédio. Ardia como fogo, mas me curava toda e qualquer ferida. Nunca precisei tomar antibiótico nem antitetânico na infância. Porque nada inflamava depois daquele emplastro. Naquele dia, a dor que eu senti para me livrar da dor, era como se uma faca tivesse cortando o próprio corte do arame.

Minha mãe tinha um compromisso com a verdade a respeito de dor. Quantas vezes fui tomar vacina e a enfermeira tentando ser simpática, sorria para gente dizendo: Olha fofinha, não vai doer nada tá? Vai ser bem rapidinho. E ela enfurecida saia atropelando a mulher, para ajoelhar na minha frente e dizer: Isso não é verdade, filha. Isso é uma injeção e vai doer sim. Mas é pro seu bem, você precisa passar por isso. Depois fulminava a enfermeira com o olhar e mandava na lata: Não se mente para uma criança. Se eu lhe disser que não vai doer e depois ela sentir dor… como é que vai confiar em mim de novo?

Tenho pouquíssima tolerância à dor. Sou como a personagem de Michelle Pfeiffer em “As Bruxas de Eastwick”. Meu maior medo nessa vida é de sentir dor. E mesmo assim, já fiquei 18 horas em trabalho de parto, passei por duas cesarianas e fiz outras cirurgias ainda piores. Mas isso tudo porque sei que sempre vai existir um espécie de emplastro de vinagre com sal para me curar as feridas do corpo.

Mas e as feridas da alma? Com que tipo de emplastro a gente cura as feridas de dentro da gente? Tive um namorado que me ensinou que o coração é como um orgão perdido porque jamais se regenera. Cada amor que começa e termina, leva consigo um pedaço. Ele contou que seu coração já tinha levado três mordidas. E que eu ali, terminando nossa história, estava dando a quarta mordida. Sim, era eu que partia. Mas partia com o coração menor também, e por causa dele.

Nesses últimos anos tenho pensado muito de que forma posso amenizar a dor dos machucados que tenho feito tentando atravessar as cercas da vida. Mas não conheço nenhuma espécie de emplastro para as feridas da alma. Como se faz para cicatrizar uma mágoa, se ela só existe no centro de um peito imaginário? Dizem que o tempo é o melhor remédio. Não creio. Tempo não é curativo, é substantivo. Ele pode até apaziguar um sofrimento, mas não cura, não soluciona, não restabelece a saúde de um sentimento moribundo.

Outro dia aprendi com uma amiga que a cada mil lágrimas sai um milagre. Será que é na lágrima que mora a essência do meu emplastro existencial? Será que é no pranto que se desinfetam as lesões provocadas pelo desamor, pelas decepções, pela raiva contida, pelo ciúme doentio, pela decepção velada, pelo ressentimento corrosivo, pela amargura do desencanto? Se for, que esse líquido salgado e sagrado me lave as entranhas sem ardor. E que eu possa ter coragem de continuar me aventurando a atravessar todas as cercas de arame farpado, até as mais perigosas e enferrujadas. Porque de chorar… bom… de chorar eu não tenho medo não.

Ensaio sobre a sangueira

tpm

TPM só pode ter sido um mecanismo diabólico inventado por Deus. Um plano maquiavélico que Ele tinha em mente, para fazer a gente virar o mundo do avesso todo mês. Ele sabia que o mundo precisava disso. Que geralmente é no avesso que está o direito. E obviamente que Ele sabia também que só a mulher podia dar conta desse serviço.

Desde a adolescência até a velhice, nós mulheres somos induzidas mensalmente a fazermos um pequeno mergulho no abismo de nós mesmas. Somos violentamente conduzidas por uma orquestra afinada de hormônios que nos fazem viver a seu bel-prazer. Quando é o estrogênio que manda, ficamos poderosas. Lindas, exalando sensualidade, com a libido à flor da pele, felizes e bem dispostas. Uma beleza. A natureza quer que a gente procrie. E faz a gente arrepiar no calçadão. Depois que passa o período da ovulação e a natureza se dá conta de que não houve nada de novo no front, traz de presente o período das trevas. A progesterona manda e a gente chora. O tempo todo, por qualquer motivo. De divas passamos à categoria de trapinho velho.  Ficamos tristes, sombrias e inchadas.

É real. A coisa toda é muito real. E o pior é que o assunto está para lá de batido. Todo mundo já falou sobre. Já discutiu sobre. E mesmo assim, a gente continua passando pela mesma história todo mês, sem descanso, sem pausa, se sentindo no mínimo injustiçada. Porque nada do que foi dito, nada do que foi escrito, aplaca a dor da incompreensão do nosso processo. Pelo menos, nos dias de hoje, nessa sociedade em que vivemos.

No tempo em que o homem vivia mais próximo da natureza e dos seus ciclos, a menstruação nas mulheres era coisa respeitada e reverenciada. Pela tradição indígena, por exemplo, uma mulher em seu ciclo lunar era considerada pela tribo, uma mulher em estado absoluto de graça. Ela tinha permissão de se recolher à Tenda da Lua e se isentar de todas as tarefas domésticas, como cozinhar e cuidar de seus filhos. O Tempo da Lua era considerado um tempo sagrado da mulher, quando ela recebia as honras por ser a Mãe da Energia Criativa. Durante esse ciclo ela deveria se libertar das energias antigas que seu corpo vinha carregando e se preparar para a religação com a fertilidade da Mãe Terra, aquela que ela seria portadora no próximo mês. Nossos ancestrais sabiam o quanto era importante dar espaço para que cada mulher pudesse se aprofundar em si mesma em seu espaço sagrado durante esse período. Afinal, eram elas as mães da tribo. Eram elas que davam continuidade à nação. Eram elas que abrigavam em seus ventres os sonhos de toda uma geração. Por isso, nada mais justo que em seu período de Lua, elas apenas descansassem.

Agora me digam, onde é que cabe essa coisa linda e respeitosa às mulheres hoje em dia? Se elas próprias estão tão distantes de sua sabedoria feminina? Hoje o que a mulher vive em seu período da Lua é um verdadeiro massacre da serra elétrica. Porque passa pelo processo tendo que disfarçar tudo o que sente. É um achatamento da sua natureza. Ela quer se recolher e não pode. Quer ficar quieta e não pode. É daí que nasce sua tristeza. Aquela que se transforma em melancolia. Até ultrapassar todos os limites e ver sua melancolia se transformar numa irritação profunda. Que não precisa de nada para virar uma raiva colossal do mundo e de todas as coisas vivas sobre ele. É complicado. Mas é verdade.

Nada do que vivemos é inventado. O que acontece é físico. Eu mesma vivi uma prova concreta disso no mês passado. Estava trabalhando num texto complexo e a coisa ia toda muito bem. De repente, um dia eu acordei e sentei para escrever. As palavras não se encaixavam. As idéias, que antes se concatenavam com tanta facilidade, agora tinham virado um grande mar de pensamentos confusos. Eu pensei: meu deus, o que é que tá acontecendo comigo? Olhei no calendário e batata. Tinha acabado de entrar no meu período pré-menstrual.

E os transtornos físicos que o corpo passa? A gente sofre e não reclama porque senão é chamada de fresca. Dor de cabeça. Indisposição. Inchaço. Cólica? Ah, isso é besteira! Toma um antiespasmódico e pára de reclamar! É igual gripe, todo mundo tem, é um horror mas ninguém respeita o mal-estar que se passa. Afinal de contas, é só uma gripe. Como assim é só uma gripe? Como assim é só uma TPM?

O Tempo da Lua é um desafio para a mulher. Todo mês ela entra em contato com o seu mundo interno porque os hormônios forçam esse contato. Eles manipulam essa necessidade para que a mulher, ao não fecundar nenhuma vida, possa ter a oportunidade de renovar a sua própria vida e regenerar seu corpo. É um rito de amadurecimento. Uma passagem que ela faz, todos os meses, pelo mais sombrio e profundo dela mesma. E é por isso que eu não entendo, mesmo com toda a dificuldade, o que faz uma mulher, um dia, resolver ir contra a sua natureza e não menstruar mais. Geralmente os motivos são sempre os mesmos: falta de paciência com o mal estar provocado pelo ciclo e nojo de seu próprio sangue. As mulheres que fazem isso assinam o divórcio com o seu feminino. E isso é uma pena. Porque ao se desconectarem de quem são, imediatamente condenam o mundo a um desequilíbrio energético colossal.

Por mais triste, confusa, inchada e irritada que eu fique, eu não abro mão de ser quem eu sou. Não abro mão de entrar em contato com essa força. E entender que é nesse período que eu vou ter a chance de ouro de ouvir o que meu corpo tem a dizer, o que as minhas sensações podem traduzir de mim mesma. É justamente nesse caldo de sangue que a minha sabedoria vai transmutar tudo aquilo que a minha consciência não conseguiu entender ao longo do mês.

Deus tinha mesmo um plano diabólico para nós mulheres, quando inventou a menstruação. Era justamente nos lembrar, mês a mês, que a força do mundo não está nas mãos de ninguém. Está no ventre das mulheres. Toda as vezes que ela decide ou não, fecundar o mundo. Ave Eva!

 

Luz no fim da sombra

lagrima

“É melhor ser inteiro do que ser bom”
Carl Gustav Jung

E então, de repente, tudo escurece.

E onde havia luz, clareza e leveza, se transforma num quarto escuro, abafado e aflito. A vida é assim, eu sei. Dia e noite. Noite e dia. Luz e sombra. Mas a questão é que quando anoitece dentro da gente é assustador. Já passei por algumas crises de tristeza e depressão. Até de pânico já tive que me tratar. Porque a vida é assim, para quem está vivo. Uma montanha russa nada divertida de controvérsias emocionais. A gente vive porque respira. Porque acorda no dia seguinte mesmo que tenha tomado um calmante. Porque a realidade do lado de fora não respeita nosso sofrimento interno. Porque o sol nasce e não espera a esperança acordar. O mundo gira freneticamente e por mais que em algum momento a gente peça desesperadamente para o mundo parar, ele não pára.

Há uma linha muito tênue que divide a luz da escuridão. Mas para quem já atravessou essa divisa, sabe que do outro lado, há um lugar desconhecido e aterrorizante. Porque este lugar está, exatamente, dentro de cada um de nós. E é nessa sombra que mora tudo aquilo que desejamos guardar, esconder, fingir que não existe. Segundo Jung, a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser. E por mais que tentemos usar de todos os subterfúgios externos possíveis, um dia, sem mais nem menos, tudo escurece. E o que havia estado escondido, aparece para nós como um bicho feroz, cheio de dentes afiados e um olhar demoníaco. E passamos a viver um pesadelo mesmo estando acordados. Dizem que quanto mais tentamos conter nossa sombra, mais negra e densa ela se torna.

Durante muito tempo da minha vida tentei driblar meus demônios. Quando a escuridão vinha, eu me escondia de mim mesma sem que ninguém percebesse, num lugar bem quieto e esperava de olhos fechados, o bicho cabeludo passar. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de acender uma vela sobre nenhuma característica nefasta minha que surgisse por ali. Fazer isso como? Com que armas? Com meu otimismo ridículo? Com essa minha fé desconfiada? É preciso coragem para viver. Mas é preciso muito mais do que coragem para enfrentar o que somos. E o pior, enfrentar o que há de mais vergonhoso em nós.

Na minha sombra habitam Tatianas imorais, Tatianas suicídas, Tatianas sem esperança, inflamadas de um rancor dolorido com a vida e com Deus. E a cada vez que anoitece e essas Tatianas surgem, eu choro sem parar, porque tenho muito medo de que um dia, elas tomem conta do que há de melhor e mais puro em mim.

Talvez tenha chegado a hora de acender as tais velas no subterrâneo da minha alma. Acender velas ou tecer palavras incandescentes que possam iluminar meu caminho. Essa coisa de escrever tem me enchido de uma coragem samuraica. Não sei de onde isso vem, mas é gigantesco. Draconiano. Estupendo. É com as palavras que quero enfrentar minha escuridão. Porque é com elas que posso sair inteira dessa caverna sombria que, tantas vezes, me obrigo involuntariamente a entrar. Porque por mais esclarecedor que seja o enfrentamento da sombra, é na luz que geramos vida. É na luz que se vive plenamente. É na luz que se amanhece por dentro.