Carta de Despedida

Queridos amigos e leitores do “Onde Habita”

Essa é uma carta de despedida.

Com a entrada do outono, tomei uma decisão importante que há muito tempo venho tomando coragem para tomar: vou me retirar e me recolher durante seis meses para a escrita do meu livro.

O outono, ou direção oeste – como chamamos do xamanismo – é a morada tradicional da Ursa dentro da Roda da Cura. As suas respostas provêm da caverna escura da Ursa, da capacidade de exercer a interiorização e a introspecção que fazem parte da energia mais receptiva. 

Para compreender melhor o Oeste, o lugar de olhar para dentro, precisamos compreender primeiro a nossa verdadeira natureza. A menos que estejamos em estreito contato com os seres nossos parentes – o Povo-em-Pé, o Povo de Pedra, as Criaturas, a Mãe Terra, o Pai Céu, o Avô Sol, a Avó Lua, os Quatro espíritos Chefes (ar, terra, água e fogo), os Rastejadores e todas as demais formas de vida, desde o átomo até a Grande Nação das estrelas – sentiremos que todas as respostas vivem fora de nós. Quando entendermos que o espírito de todas as outras formas de vida vivem dentro de nossos corpos, começaremos a compreender que podemos olhar para dentro, em busca de todas as respostas. As nossas células, dentro de nossos corpos terrenos, guardam a memória de tudo que já aconteceu. As respostas estão contidas no potencial de conhecimento de nosso espírito.

Minha jornada pela Caminho Vermelho tem sido uma caminhada frágil e difícil. Quem me conhece sabe o quanto tenho dificuldade de estar viva. Honro e agradeço minha existência. Mas não é fácil para mim. Esse ano faço 52 anos e sinto que escrever sobre minhas memórias, significa ressignificar o que foi experimentado até aqui.

Mas para isso, vou precisar cortar todas as inúmeras distrações que me tiram desse caminho. E tenho sentido ao longo dos últimos meses que as redes sociais me sugam uma enorme e potente energia. Tempos estranhos os nossos que usamos nosso precioso tempo observando a vida e os costumes dos outros.

Agradeço imensamente a todos que me acompanham e me ajudam tanto no ofício de escrever e seguir tentando traduzir o mundo.

Mas para escrever um livro de memórias, é preciso força e coragem.

Principalmente quando há traumas que precisam ser enfrentados e ressignificados.

A jornada começa agora.

Espero que em seis meses eu tenha conseguido mergulhar fundo o suficiente para trazer de dentro de mim tudo aquilo que precisa sair.

Peço a benção do Grande Espírito, do Grande Mistério, dos meus mentores espirituais e todos os seres invisíveis. Que eles possam me ajudar e me acompanhar no labirinto das minhas lembranças.

Rezo para que ao retornar, eu possa trazer algo precioso para o mundo.

Afinal, esse é o meu maior propósito de vida: escrever para traduzir o invisível.

Um abraço apertado em cada um que me lê.

O amor e a gratidão que sinto por vocês é maior do que posso explicar.

Até a primavera
Com amor,
Tatiana – Mulher Névoa Cintilante do Clã dos Cervos

Oração às Estrelas

um dia
os sofrimentos humanos terminarão
e a nossa energia
nossa alma e nosso espírito
aquilo que fomos como nossa última encarnação
irá viajar conosco
de volta às estrelas
de volta à nossa casa.

carregaremos conosco somente
o amor vivido.
o amor amado
e o amor recebido.

um dia
voaremos de volta
ao nosso berço celestial
ao nosso mágico e infinito
povo das estrelas
de volta ao ventre
do Grande Mistério
e finalmente
estaremos em paz novamente.

Minha menina

Ontem, depois de tanto tempo, reencontrei você numa dança linda. Eu não sabia que você viria, na verdade eu dançava de olhos fechados as dores que meu corpo carrega. Era uma sessão emocionante de biodança.

Mas de repente, do nada, senti sua mão pequeninha entrelaçando a minha e senti uma emoção tão forte que comecei a chorar. Te abracei com força e saudade. Todas as vezes que eu te reencontrei nos últimos anos, só estive preocupada em te cuidar, te banhar em águas quentes, encher de afeto esse corpo pequeno que passou por tantas dores e traumas.

Sempre me senti culpada por não ter podido te proteger como protegi minhas filhas. Mas hoje já consigo entender com o espírito, a alma e o coração que não podia ter feito nada por nós aos sete anos. E que somente hoje aos cinquenta é que posso cuidar de você, de nós duas.

E é por tudo que passamos que sei que preciso contar ao mundo o que vivemos. Muitas mulheres passam pela mesma coisa que passamos. Mas muitas não têm coragem de falar. Nem de lembrar. Nem sequer imaginam que pode existir uma forma que cure algo tão insuportável de carregar.

Eu descobri que as palavras são meu maior e mais potente remédio. E peço a sua permissão para falar de nós. Sei que a maioria das nossas memórias foram apagadas por nosso inconsciente. Ele sempre tentou nos poupar, tentou estancar o sangue das feridas para que elas parassem de sangrar. Mas agora também peço permissão a ele para que me faça recordar o suficiente para falar daquilo que não posso mais calar. Chegou a hora de quebrar a casca de sangue pisado que a vida toda nos protegeu.

Eu te amo, minha joaninha. E te agradeço a alegria de te saber sempre dançando em mim. Estou aqui. Sempre estarei. Colocando toda a ternura que tenho em cada ferida nossa, para que nunca mais a gente precise sofrer pelo que passou.

Dance comigo a dança das palavras que curam. Estou aqui para nos amparar.

Perder-se

De vez em quando, eu perco o caminho.

Não só por tudo da vida que me atravessa.

Ou as tantas demandas de todo dia.

De vez em quando eu perco o caminho, porque a travessia é difícil mesmo.

A estrada não é uma linha reta, as placas nem sempre são claras e os atalhos são infinitos.

Clarice dizia que “perder-se também é caminho.” Mas o que me aflige é saber que todas as vezes que eu me perco, quem acaba sofrendo mais é a alma.

Porque eu deixo de escrever. Deixo de cuidar de mim. Da minha vida criativa. Daquilo que mais importa. Porque fico barata tonta. Porque perco o rumo. Porque amanheço e adormeço no automático. Porque vou vivendo os dias cumprindo tarefas, esquecendo os tantos deslumbramentos que a vida sempre me dá de presente.

Aí vem aquela frase da Adélia que eu amo, mas me dói tanto:

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Eu olho pedra e vejo pedra mesmo.”

É sobre isso.

Perder-se pode ser bem perigoso.

Porque fora do trilho, meu trem corre sem ver, sem sentir, sem registrar, sem traduzir.

E o que será da vida sem o espanto e a poesia?

Verbos essenciais

Para lembrar da imensidão da existência,
olhar o mar.

Para buscar sentido,
ressignificar.

Para lembrar que somos espíritos,
ativar o altar.

Para encontrar propósito,
se ouvir.

Para ter forças para seguir,
dormir.

Para querer seguir,
sonhar.

Para seguir lutando,
confiar.

Para realizar projetos,
focar.

Para lembrar de não levar a vida tão a sério,
gargalhar.

Para aproveitar a vida,
relaxar.

Para sair da sombra,
iluminar.

Para resistir,
tentar ser aquilo que se é.

Quando eu partir

Quando eu atravessar o rio
e finalmente partir
Vou desejar um último desejo
antes de ir
Juntar todas as pessoas que amei num só lugar
E vê-los trocar e celebrar o meu existir

Vou querer que acendam incensos  e velas perfumadas
Que tragam flores e muitas cores
Quero que bebam cervejas geladas e comam
as comidas mais gostosas que puderem servir

Quando eu partir
Não quero ver águas de tristeza saindo dos olhos de quem amei
Só desejo que rolem águas de saudade
Pois estarei bem
Finalmente voltando para casa

Quero que leiam algumas crônicas que escrevi
e relembrem de algumas maluquices que vivi
Quero ouvir ressoar minhas músicas preferidas
Presenciar risadas
Batucadas
E a celebração do que fui para cada um que estiver por ali

Quando eu partir
Quero sentir vibrar o que fui se multiplicar
E ouvir algum amigo poeta falar
Que eu nunca vou deixar de existir

O dia que eu partir daqui
Quando eu finalmente atravessar o rio e virar pó de estrela
só peço uma coisa a quem ficar

Que lembrem de mim
Em meu melhor sorriso
No meu gesto mais afetuoso
No abraço mais cheiroso
E em todo o amor que pude amar

Semente

Eu quero voltar para a terra
Voltar a ser bulbo
Voltar às origens
Buscar de novo minhas raízes
Minhas veias subterrâneas
Buscar o sumo perdido
Da seiva nutridora
Que tenho perdido
Com tudo que a vida tem sido.

Eu preciso voltar para a terra
Voltar a ser musgo
Voltar a ser semente
Me recolher no silêncio
No útero dessa mãe que me alimenta
Devolver pro núcleo
Toda a dor e todo o vazio
E toda essa tristeza
Que a vida tem me impregnado.

Eu hei de conseguir voltar para a terra
Para me semear na escuridão
Do solo mais fértil
Da terra mais fecunda
Para que meus sonhos mais profundos
Possam renascer
No calor e no tempo
Do mais fundo do meu ser.

Aprender a viver sem você

Zelinha, meu amor

Ontem acendi uma vela, coloquei uma música bem linda para tocar e fiquei por horas observando a chama do fogo se consumir, pensando em você. Venho repetindo esse ritual desde a sua partida, na esperança de aquietar meu coração e conseguir acreditar que simplesmente você não está mais aqui entre nós.

Você me conhece muito bem e sabe o quanto lido bem com a morte. Não tenho medo de morrer e quando penso sobre isso, sinto de verdade que cada um tem um caminho a percorrer e assim como chegamos, um dia temos que partir. Uma coisa não existe sem a outra. Não há merecimento, apego ou ilusão que nos segure nessa dimensão quando chegou nossa hora de atravessar o rio.

Mas há poucos dias, quando nos falamos pelo telefone, você estava bem. Confiante de sua recuperação, fazendo planos, rindo como sempre de alguma coisa que tinha te acontecido no dia. E de repente, de repente mesmo, recebemos a notícia de sua partida.

Acho que esse ritual de olhar para a vela e aceitar o inaceitável é um profundo pedido que minha alma anda fazendo a Deus, para tentar acreditar que você se foi.

Sabe qual foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando soube da sua morte?

Que eu não ia saber viver sem você. Que eu ia precisar com urgência reaprender a existir sem seu amor diário, sem sua preocupação e afeto, sem seus telefonemas de domingo que me davam tanto chão. Não sei viver sem seu perfume de lavanda, sem suas orações, sua fé, suas piadas, suas histórias. Sem sua forma de ver a vida com tanta graça e sua voz atendendo o celular dizendo: Zélia Meira falando!

E seu macarrão gratinado, seu cozido, seu bobó de camarão, seu bolo de chocolate com côco, seu cuscuz, sua gelatina rosa. Seu chá preto com leite. Ah Zelinha… ainda bem que você me apresentou o coentro. Eu não teria tido a mesma existência sem ter experimentado coentro no feijão.

Sabe que nesses últimos dias de tanta dor, vem acontecendo uma coisa estranha comigo: eu falo com você em pensamento o tempo todo. Converso mesmo, tipo doida. Esses dias, quando fui pela primeira vez à sua casa sem você, pensei em fritar uns cogumelos Paris no shoyu para a Clarinha almoçar. E eu estava sozinha na cozinha, meio perdida, sem saber onde estavam as panelas. Então, eu perguntei: Zélia, onde estão as frigideiras? Na mesma hora ouvi você dizer: “nessa gaveta ô doidinha, esqueceu?” Ah é. Posso pegar essa?  – era a mais linda de todas – você demorou para responder mas disse: “pode”. Deus me livre de pegar a panela errada. Ou o pano de prato errado, ou a colher de pau errada. Com você, cada coisinha na cozinha tinha uma função específica e eu aprendi a respeitar isso como lei divina. De repente, Flavinha chegou na cozinha e falou: “xiiii, essa frigideira? Toma cuidado, hein? Era a frigideira que a mamãe mais amava. Não deixava ninguém usar”. Daí eu entendi porque você tinha demorado para responder. Danada. Mas eu respondi com propriedade: “Olha Vinha, eu perguntei antes e ela me autorizou!”

Choramos e rimos. Como cada coisa que fizemos nesses últimos dez dias. Tudo nos faz chorar e rir. Chorar pela saudade insuportável que já sentimos de você. Rir pela gratidão que sentimos por termos feito parte da sua história.

Zélia Cardoso Meira, talvez a melhor pessoa que eu já tenha conhecido nesta vida.

Ontem depois de acender a vela tive uma idéia genial: vou fazer um livro sobre você. Vamos! A família toda! Passar a limpo aquelas anotações que você vinha rabiscando desde a pandemia sobre sua família. Reunir fotos, receitas, causos. Tudo que possa ficar registrado para que as próximas gerações saibam quem foi você minha querida.  Promete me ajudar daí?

Sobre sequelas

A Covid chegou na minha casa exatamente 2 anos e 2 meses depois do início da pandemia.

Foram muitos meses sentindo um medo profundo e ao mesmo tempo essa benção dos Deuses por ter sido poupada da visita desse fantasma demoníaco do século XXI.

Mas ele chegou fraco e raquítico em nossos corpos, onde já habitavam fortes e ferozes, os nossos guerreiros Astra e Pfizer, protegendo firmemente nossas células e plaquetas.

Mas ainda assim ele chegou. Trazendo sua identidade e o peso de uma tragédia mundial nas costas.

Foram 10 dias de um mal estar esquisito, uma espécie de gripe com gosto amargo de morte. Eu cheguei a sentir uma falta de ar no peito que me levou à emergência do Niterói D’Or. Mas a falta de ar não era falta de ar: era o tal do motoqueiro fantasma que tinha levado meus amigos e amigos de tantos amigos. O vilão que destroçou um milhão de famílias pelo mundo, que exauriu nossos médicos, que nos fez envelhecer 20 anos em 2.

Já conto mais de 15 dias desde o meu primeiro sintoma e agora o que mais me impressiona são as tais das sequelas que esse desgraçado me deixou.

Não perdi o paladar nem o olfato e dou graças a Deus por isso, sendo a taurina que sou. Mas ficou no corpo um cansaço absurdo, ancestral, pesado e confuso. E o que eu achei que era uma dor muscular de uma velhinha de 95 anos com artrite e artrose, ontem descobri que era o início de uma herpes zoster na perna. Meu Deus.

Parece que tem sido comum essa catapora evoluída se desenvolver no pós-covid, mas vamos combinar, que provação divina esse outro vírus agora atacando meus nervos. Literalmente.

Sei que estou com a imunidade baixa. Exausta. E que as coisas da vida não andam nada coloridas. Mas caramba, fui no dicionário buscar o significado da palavra “sequela” e descobri que ela é a própria metáfora da vida. 

“Uma alteração anatômica e funcional permanente sendo causada por uma doença ou um acidente”. Ou, a vida, como ela é.

Sequelas são cicatrizes. Aquilo que nos deixam marcas profundas. No fundo no fundo, a vida nada mais é do que uma coleção pitoresca de sequelas.

Porque viver deixa sequelas.
Arriscar-se deixa sequelas.
Amar deixa sequelas.
Escolhas – acertadas ou não – deixam sequelas.
Envelhecer deixa sequelas.

E eu confesso que estou exausta dessa luta da vida que parece não dar trégua desde aquele fatídico março de 2020.

Nunca deixei de ter esperança de que dias melhores viriam. Mas caramba. O que é que falta para gente viver esse ano?

Eleições?

Ah é.

Então… câmbio final, desligo. Volto em 2023. Se alguém perguntar por mim, diz que fui atrás do conselho de Manoel de Barros:

“Quando meus olhos estão sujos de civilização, cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves”

WAR

Demorei 48 anos para jogar a minha primeira partida de War.

Desde os tempos de jogadora inveterada de jogos de tabuleiro, War nunca foi minha escolha. Não via sentido nenhum no tal jogo malévolo e estrategista de conquista de territórios a qualquer preço.

Mas a galerinha estava aqui em casa num domingo de preguiça e o War foi o mais votado. Então me rendi. Literalmente.

Mas ontem, com essa invasão na Ucrânia, foi impossível não fazer uma analogia com todas as coisas que senti e pensei durante a partida.

Sempre gostei de história e geografia. Na época da escola, eram as únicas matérias que eu suportava assistir nas manhãs sonolentas da minha adolescência. Elas e literatura, claro.

Mas ontem, quando acordei com a notícia da invasão na Ucrânia, passei o resto do dia grudada com os olhos na Globo News, tentando desesperadamente entender o que se passava naquele lugar tão distante e tão próximo ao meu coração. Que parte das aulas eu perdi para não conseguir entender isso tudo que anda acontecendo no mundo?

É possível entender as motivações da guerra sem julgar as criaturas que estão no poder?

Como pode a humanidade, depois de dois anos de uma pandemia surreal, agora ter que passar por isso?

Onde é, na nossa mais profunda consciência de existência, que habita essa ânsia por poder?

Desde que o mundo é mundo essa insanidade assola as mentes humanas. Dê poder a alguém e você saberá quem é essa criatura de verdade.

Durante a partida, observava meus companheiros de jogo, mas só conseguia pensar em Hitler, Mussolini, Napoleão Bonaparte. Até em Pink e o Cérebro eu lembrei com aquele fatídico final de cada episódio:

– Cérebro, o que vamos fazer amanhã?

– O que fazemos todos os dias: tentar conquistar o mundo.

Ah gente, esse mundo não é o meu. Eu já tinha entrado numa crise existencial jogando Banco Imobiliário. Essa coisa de mensurar o sucesso por tudo que você conquistou “comprando” ou “adquirindo” não é para mim. Mas enquanto o pessoal se digladiava pelos territórios do mundo, eu seguia refletindo sobre a vida.  

Quando eu era pequena, amava jogar na Janteca da minha Vó (Janteca = cômodo da casa de Terê onde ficava a sala de jantar junto à biblioteca) o jogo “Ladrões no Bosque”. Eram simples fazendeiros tentando levar as economias de suas fazendas ao banco da cidade. Mas a jornada era perigosa já que existiam ladrões por todo o bosque. Também amava jogar Detetive, me sentindo a Senhorita Rosa, suspeita de matar no Salão de Jogos, mas no fundo apaixonada pelo Coronel Mostarda, sonhando intrigas e crimes na cozinha, entre facas e candelabros.

Jogos de tabuleiro na minha adolescência eram um campo de imaginação absoluta.  Não só pelo jogo ou para tentar ganhar, mas para viver a experiência na nossa imaginação. Por isso nunca joguei War. Qual a graça da guerra?

A equipe da Globo News é danada. Aprendi muito ontem sobre as questões geopolíticas em relação à Ucrânia e Rússia e OTAN. Mas Clara também me explicou um monte de coisas que eu não sabia. Ela tenta me explicar que toda a história tem dois lados. E que não é possível julgar sem conhecer profundamente a história de um povo. Que filha mais esperta! E assim, passei o dia tentando entender essa loucura que tá acontecendo desde ontem. Um quebra-cabeça complexo e muito mais sério que a gente aqui pode supor. As guerras sempre judiaram do mundo. Mas agora, uma terceira guerra mundial não maltrataria a humanidade. Aniquilaria com ela.

Fico com a reflexão de Mujica, ex-presidente do Uruguai, que recebi ontem pelo WhatsApp, que me emocionou muito:

“Não será possível, de alguma forma, melhorar um pouco o termo medieval da nossa humanidade? Será possível que a humanidade do futuro nos permita abandonar os orçamentos militares, a loucura da guerra? Será possível que não possamos diminuir um pouco a parcela do egoísmo? Não será possível recriar uma humanidade um pouco melhor? Porque afinal qual o sentido do avanço tecnológico se do ponto de vista dos conteúdos da vida humana, permanecemos estagnados, polidos pelo egoísmo, com uma enorme falta de empatia por quem nos acompanha na vida, onde seguimos prisioneiros de uma civilização que eternamente confunde ser com ter? Qual o sentido do engasgamento que estamos sentindo, com o que pode ou não pode passar na Ucrânia?”

Engasgamento. Essa foi uma metáfora perfeita definida por Mujica do que senti na manhã de ontem quando liguei a TV.

Mas com toda sinceridade que habita meu coração: se o que passamos na pandemia não transformou nossa forma de pensar, isso significa que ainda estamos muito longe de sairmos da pré-história. Com a desvantagem que hoje não lutamos mais com lanças e pedras, mas sim, com armas nucleares devastadoras que destruiria toda a humanidade em segundos.

É. Talvez fosse o caso de começar tudo de novo.  Para ver se dessa vez a gente consegue ser um pouco menos medíocre.