O lindo vazio que nos habita

“A arte é o vazio que a gente entendeu.”
Clarice Lispector

Há muito tempo, uma amiga querida me emprestou um livro e disse assim:

– Essa história é incrível, Tati. Leia para as meninas. Elas vão amar!

O livro chamava-se “O Coração de Corali”.

Cheguei em casa e antes de dormir nos acomodamos entre os travesseiros, cobertinhas e abajur e comecei a leitura. Sempre amei esse ritual de ler para as meninas antes de dormir. Sentia que construía nele uma egrégora de segurança para enviá-las ao mundo dos sonhos. Uma mente inundada de boas histórias viaja para lugares maravilhosos durante o sono.

Pois bem. A história ia muito bem quando lá pela metade do livro comecei a sentir um aperto na garganta pela emoção do enredo. Segui. Dali a pouco, formou um nó. Mais uma página e a glote começou a fechar. A voz foi ficando embargada, embargada, quando vi estava aos prantos. Chorando alto, sem conseguir me controlar. As meninas, de olhos arregalados, perguntavam desesperadas:

– Mãe, o que está acontecendo? Tá tudo bem com você? Mãe!

Foi um fiasco. Eu chorava e ria porque não queria preocupá-las, mas sabia que precisava rir porque aquela cena era no mínimo tragicômica. Mas o sentimento era tão profundo, tão avassalador, que só o que consegui fazer foi tentar disfarçar a sensação de ter sido tragada para dentro do livro.

Tá. Deixa eu explicar. “O Coração de Corali” fala de uma menina que um dia descobre que tem um grande buraco em seu coração e que por mais que todos tentassem preenchê-lo, ela nunca deixava de sentir aquele buraco. Até que um dia ela descobre que a tia sentia o mesmo que ela. Que as duas sofriam da mesma coisa. E então a tia passa a ensinar Corali a preencher esse buraco.

Como explicar para as meninas que depois de trinta e tantos anos de vida, alguém finalmente tinha conseguido traduzir o que eu sentia num simples livro de poucas páginas e ilustrações?

Essa história ficou marcada em mim por muitos anos.

Qual não foi a minha surpresa quando dia desses entro na Livraria da Travessa aqui de Niterói e me deparo com um outro livro (infanto-juvenil) com uma menininha na capa com um enorme buraco no meio, escrito VAZIO.

Não, aquela menina não era a Corali. Era a Julia. Uma outra história de uma outra menina que também tinha descoberto um enorme buraco dentro dela, mas com uma enorme diferença. Depois de tentar colocar mil coisas lá dentro, lutar para tentar tapar o buraco, ela simplesmente entrou naquilo que não conseguia preencher. Nem compreender.

Ok. Imaginem a cena. Eu estava sozinha na livraria e de novo senti a garganta apertar. Pensei: “Pronto. Vou ter um treco aqui e agora.” Mas me controlei. Peguei o livro, sentei numa poltroninha e entrei lá dentro da história. Da história e dentro do buraco da menina Julia. E foi incrível.

A grande diferença dos dois livros, é que em “Corali” eu tomei consciência do buraco. Mas no “Vazio”, eu estava aprendendo a curar o buraco. Na história ela toma coragem de entrar nessa dimensão sombria dentro dela e descobre que lá dentro, havia um universo inteiro de possibilidades. E que a partir dele, um novo mundo podia ser construído. Inclusive novos laços, através dos buracos que os outros também tem.

Sim, eu chorei no meio da Livraria da Travessa. Mas chorei aquele choro bom de cura, de sentido. De repente, naquele momento eu tinha entendido um pouco mais da minha trajetória, da minha alma, dos meus buracos e vazios e tudo aquilo que eu a vida toda, intuitivamente, tinha construído para ser.

Lembrei de ainda ser pequena e perguntar para minha mãe:

– Mãe, que dor é essa que me aperta o peito e eu não consigo explicar?

Ela respondia:

– É a dor do vazio existencial.

Algo ali se concluía. Foi um dos momentos mais bonitos da minha vida.

Agradeço por tudo que vivi até hoje para chegar aonde estou. Agradeço minha trajetória, minhas cicatrizes, agradeço minha amiga Rogéria por me trazer Corali, agradeço Corali por me ajudar a entender uma parte dos meus buracos e finalmente, agradeço Anna Llenas por me trazer Julia e essa possibilidade de perceber o vazio que nos habita com essa linda expansão de consciência.

Eu vejo amor

Foi uma cena simples.

Um pai e uma filha se despediam no portão de embarque do aeroporto.

Ela chorava muito, ele tentava se segurar. A mãe ao lado se emocionava ao ver os dois abraçados.

Ela já era uma moça adulta, mas naquele instante, parecia uma menina pequenininha se despedindo de um grande herói. Quando finalmente conseguiram se desgrudar, a esposa o abraçou e eu percebi que ela também chorava.  Ele entregou seu cartão de embarque com o coração despedaçado, a mãe abraçou a filha e a acolheu da melhor forma que pôde.

Ele atravessou o portão, voltou a olhar para trás e ao olhar para as duas, tentou brincar fazendo um gesto de tirar o coração do peito e jogar para elas. Elas de longe, seguraram o coração. Ele finalmente entrou e as duas se abraçaram.

Eu, que já tinha embarcado minhas duas pequenas para a casa do pai, desmontei ali mesmo com aquela cena linda de amor. Não sei se mais alguém acompanhou aquele momento, mas eu segui tomando meu café com o coração tomado de gratidão.

Eu vejo amor em quase todos os lugares.

Queria que a vida tivesse mais momentos assim. Esses fragmentos de tempo carregados de sentimentos genuínos e profundos. A humanidade, em sua melhor versão. Como é bonito testemunhar a vida assim. Bonito e verdadeiro.

Eu vejo amor em muitos lugares. Vejo amor nessa despedida. Vejo amor na moça que me serviu o café com um sorriso imenso e gratuito. Vejo amor no taxista que me levou de volta para casa contando do nascimento de sua filha. Vejo amor quando vejo alguém ajudando a senhorinha a atravessar na Praia de Icaraí. Vejo amor na dona do cachorro dando água para ele num potinho no calçadão. Vejo amor no rapaz que dá moedas para o artista de rua que soprou fogo nesse calor de 40º. Eu vejo amor na moça de patins, dançando de fone. Vejo amor no rapaz que acaba de piscar para ela.

Há amor em muitos lugares. A gente só precisa estar com os olhos da alma bem abertos para perceber.

Ânsia por natureza

Nos últimos anos eu tenho sofrido de um mal terrível.

Uma ânsia desesperada pela natureza. É um sentimento tão forte que chega a me dar uma dor no peito. Mas eu sei que essa sofreguidão pelo verde vem de lá dos recôncavos da minha infância.

Durante os meus primeiros anos de vida morei numa casa em Teresópolis cercada de mato por todos os lados. O Solar do Aveiro ficava bem no meio de um vale e parecia um pouco com o Condado dos Hobbits de Senhor dos Anéis. Aquele lugar perfeito onde a vida parecia ter sido feita só para as partes felizes de um filme bom.

Minha relação com a natureza era visceral. Eu e ela éramos um só organismo. Andava pelos morros e riachos como se tivesse nascido daquela própria terra. Não tinha medo dos bichos, vivia entre vagalumes e borboletas e sapos como se eles fossem meus melhores amigos. Colecionava flores, frutinhas e folhas como se elas fossem um tesouro perdido. Sempre fui louca pela infinidade de verdes e texturas que as folhas escondem. Até hoje isso me emociona. Adorava fazer arte com elas! Era minha brincadeira preferida. No final, jogava tudo nas panelinhas e fazia uma sopa nutritiva e colorida para as bonecas. Tive uma infância mágica. Nada do que possa ter acontecido de ruim naqueles anos, pode apagar as lembranças do que fui naqueles tempos. Minha potência estava toda ali. Misturada a uma poesia que eu nem sabia que existia, mas já fazia parte do mais profundo do meu ser. 

Se eu pudesse resumir minha existência num único instante, voltaria à varanda da minha casa no Vale São Fernando, nos finais de tarde que caiam as tempestades mais lindas de verão. E eu ficava por horas a fio, ouvindo minha avó Luzia tocar piano, enquanto via a chuva e os trovões caírem nas colinas do Vale. Se minha vida tivesse terminado ali, eu teria sido imensamente feliz.

Mas a verdade é que eu cresci e precisei me mudar para a cidade grande. Dessas coisas que acontecem nas nossas histórias e a gente não tem como escapar. Meu destino me levou para a cidade do Rio de Janeiro, depois me trouxe para Niterói e é aqui que tenho vivido desde então. Nesse centro urbano esquisitíssimo que abriga ruas, calçadas, bueiros, prédios, postes, fios, lixo. Pessoas andando de um lado para o outro, morrendo de pressa e angústia por não poder mais existir com nenhuma calma. Morando em seus apartamentos apertadíssimos sem nenhuma árvore ou a lembrança de qualquer coisa boa que um dia foi chamado de natureza. Nossa. Eu nunca me acostumei com a cidade. Não vejo nenhum sentido nos grandes centros urbanos. O gás carbônico, os ônibus, os carros, as buzinas, o trânsito, a poluição visual, a sujeira, a pressa mal educada das pessoas e seus compromissos importantíssimos que as tornam meio cegas, meio robôs. Alguém me diz se é possível encontrar equilíbrio num lugar que foi totalmente atropelado pelo cinza e pela urgência cosmopolita de existir?

É, eu preciso encontrar um jeito de voltar pro mato. Preciso parar de chorar quando ouço os passarinhos no Youtube. Ou quando passo por uma floricultura. Ou quando chove. Ou quando depois da chuva, um arco-íris aparece no céu.  Isso não tem mais sentido nenhum. Assim como virar essa velhinha rabugenta que só reclama das coisas. Isso também não tá nada bom.

Outro dia fui ver o mar. Taí uma coisa que tem sido bem terapêutica para mim. Passar um tempo conversando com a minha Avó Oceano tem me feito muito bem. Ela tem aconselhado a buscar de volta um lugar no mato para morar. Uma casinha de madeira onde eu possa escrever e existir sem pressa. Um lugar que eu possa plantar umas coisas para comer, ouvir os grilos a noite, um galo cantar no nascer do dia. Um lugar onde eu possa voltar a conversar com sapos e vagalumes. Onde o ar seja fresco e as coisas do mundo não me maltratem tanto mais. Um lugar onde o tempo volte a correr no tempo que as coisas têm. Eu preciso fazer isso por mim e por essa lembrança doce do que já fui um dia. A “Tatianinha” que mora em mim vai adorar. É dentro dela que eu quero envelhecer. Dentro dela, integrada à natureza, como um musguinho verde que cresceu num tronco de árvore e vai permanecer ali até o fim dos tempos. Que o Grande Espírito me permita partir assim…

Das coisas que a gente não vive sem

“As melhores coisas da vida não são coisas”
Autor desconhecido

Ontem assisti o documentário da Netflix sobre minimalismo e fiquei muito mexida. Não pelo filme em si que não é lá essas coisas, mas pelo conceito que ele traz de essência que é um assunto muito estrutural para mim.

Eu sempre fui uma pessoa desapegada. Sou capaz de tirar uma roupa do corpo se alguém me disser que se apaixonou por ela. Não sou de guardar cacarecos ou coisas quebradas. Não tenho gavetas com coisas que nem sei que estão lá. Em todas as mudanças que fiz na vida, sempre me desfiz de mais coisas do que adquiri. Até porque nunca tive dinheiro para comprar muitas coisas. Quase tudo que tenho na minha casa herdei ou ganhei de presente. Ainda assim, vivo constantemente tentando passar para frente o que não me serve mais. Aprendi que quando deixamos as coisas velhas irem, damos espaço para coisas novas chegarem. Mesmo que não sejam 100% novas.

Quando conheci Marie Kondo (aquela especialista em organização pessoal) e sua filosofia de como devemos nos colocar diante do que temos, entendi meu jeito de ver o mundo. Em seus livros, ela nos aconselha a nos desapegar das coisas que não servem mais ou aquelas que nos causam algum tipo de sofrimento. Na hora de se desfazer de alguma coisa, você precisa olhar para o objeto e perguntar: “Esse objeto me deixa feliz”?

Gosto muito desse conceito. Ela também fala sobre como nossa casa reflete nosso estado de espírito. Quantas vezes não me sinto bagunçada por dentro e a casa está notoriamente de pernas para o ar? Ou ao contrário: quando estou em paz e consigo calmamente arrumar qualquer caos na maior fluidez do universo? Muitas. Muitas vezes.

Mas ontem entendi que o minimalismo vai além. Ele fala de uma postura perante a vida. Um posicionamento político nosso diante do acúmulo e peso que as coisas nos trazem. Ser minimalista é estar sempre em busca do que é essencial para você. Em todos os sentidos, em todos os campos. Uma busca incessante pelo supra sumo da vida. Isso não é muito potente?

Ah! E tem mais uma coisa importante. Quanto mais coisas você tem, mais bagunça você faz. Não sei como é aí na sua casa leitor, mas aqui na minha vivo de cabelo em pé para tentar manter as coisas em ordem. Não quero viver numa Casa Cláudia, mas viver numa casa onde as coisas morem em seus devidos lugares é o mínimo para me sentir em equilíbrio. Eu já tive TOC e sei o quanto uma arrumação pode se tornar uma obsessão. Foram anos de terapia trabalhando nisso. Ainda hoje preciso me controlar muito quando vejo uma pilha de livros toda bagunçada. Me lembro como se fosse hoje as lições que eu tinha da terapeuta de olhar uma pilha assimétrica de livros e dizer para mim mesma: “Respira Tati, respira na desordem que a ordem é só o seu desejo de controle.”

Eu já aprendi muitas coisas nessa minha vida, e eu agradeço muito por isso. Mas o minimalismo é mais um passo para essa caminhada de desapego que eu quero exercer. Fazer o exercício de se perguntar quais coisas nesse mundo a gente não pode viver sem, pode ser uma ótima oportunidade de se olhar para existência de uma forma bem profunda.

No meu caso, quero que fiquem os livros e os objetos que trazem nele um pouco do que foi a minha história. Minha avó já dizia que quando a gente morre, não leva pro outro lado nem a roupa do corpo. Isso eu já entendi. Mas para as minhas filhas eu prefiro dizer que quando a gente morre, não leva a roupa do corpo mas leva uma coisa muito mais importante: todo o amor que a gente pôde amar. Pôde e teve coragem de amar. Isso sim é bagagem para se levar pro além.

Linha da Vida

Viver no presente tem sido uma das melhores estratégias de salvação para se viver o momento. Tenho escrito incansavelmente sobre isso. Mas outro dia fiz uma coisa extraordinária que me deu uma sensação de passar a vida a limpo.

Era um dever de casa da terapia, uma coisa simples, mas que acabou se transformando numa catarse para mim, tamanha foi a emoção que a coisa me tomou. Nunca imaginei que uma coisa tão sistemática pudesse me libertar e curar tanto, como da forma que aconteceu.

A tarefa era fazer uma linha da vida. Relembrar um punhado de vivências num papel, onde eu pudesse relembrar alguns trechos que eu considerasse importante da minha história. Mas eu achei que essa linha da vida merecia uma coisa mais teatral, então pendurei um barbante de ponta a ponta na minha sala e sai cortando uns quadradinhos de papel colorido para escrever o que eu lembrasse da minha jornada.

A coisa começou fácil. O primeiro papel é a data e o local do seu nascimento. Mas ao escrever esse primeiro papel, eu entrei como se fosse num túnel do tempo e renasci. Dali em diante, não consegui mais sair do looping de imaginar minha primeira casa, minhas primeiras experiências e tudo aquilo que eu lembrava como minha primeira infância. Me vi sentadinha na beira do rio em Teresópolis observando os girinos, me lembrei da minha paixão pelos vagalumes, meu jeito de estar na natureza como se ela fosse a minha casa. Fui escolhendo as cores do que ia escrever, de acordo com a emoção que aquela memória me trazia. Depois lembrei de uns medos e escrevi com a caneta branca num papel preto, para nunca mais esquecer que aquilo tudo que um dia tinha sido uma ferida profunda, tinha enfim cicatrizado dentro de mim.

Depois veio a adolescência, a lembrança de muitos amores, histórias impagáveis, coisas que estavam guardadas há anos em gavetas esquecidas, mas que eu me orgulhava demais de ter vivido. Perguntei para terapeuta se tinha limite de papeizinhos. Ela disse que não. Que eu registrasse tudo aquilo que achasse importante. Foi demais escrever sobre o primeiro beijo, a primeira transa, a primeira peça de teatro. Sobre os tropeços, as quedas vertiginosas, as tantas voltas que dei por cima. Fui tecendo minha vida naqueles papéis e quanto mais registrava, mais ia me orgulhando de tudo que já tinha passado. O nascimento das meninas, as onze mudanças em sete anos de casada. A perda de pessoas tão queridas. As crises existenciais, as descobertas de como sobreviver tantas vezes numa mesma vida.

Minha linha da vida ficou pronta e parecia uma obra de arte. Uma instalação digna de Bienal. Um varal lotado de cores, de vida, de papéis com buracos, papéis desenhados, papéis rasgados. Uns papéis pareciam tão felizes, outros tão tristes. Uma representação perfeita da própria vida. Sinto que um bocado de coisas sobre minha estrada eu só integrei depois de concluir essa tarefa. Que orgulho que eu fiquei daquela coisinha colorida! Fiquei semanas namorando aquele arco-íris existencial até ter coragem de guardar de novo numa caixa.

Queria muito que todo mundo pudesse ter a oportunidade (e a coragem) de viver isso uma vez que fosse. Uma chance de olhar para a própria vida como se ela fosse uma história de amor e fúria, de luta e glória, como os melhores roteiros dos melhores filmes, ou os livros mais extraordinários que um dia a gente já leu.

Viver no presente é sem dúvida um desafio diário. Mas olhar para o passado com acolhimento e amor e fazer disso poesia, pode ressignificar uma existência. Acreditem em mim.

Planner da Alma

Janeiro a gente tem uma energia bárbara para recomeçar.
Por mais que a gente tenha aprendido que não dá para fazer mil promessas de mudança no ano novo, não dá para negar que tem uma força cósmica de abertura para novos propósitos e acertos do que ainda sonhamos fazer.

Aí a gente corre para comprar uma agenda nova, daquelas cheirosas e em branco que vê na prateleira da papelaria e se apaixona, como se aquele objeto pudesse conter todas as nossas chances de recomeçar do zero e sonhar com a nova vida que mora dentro dela.

Faço agendas desde os meus 10 anos de idade. Naquela época contava com detalhes meus dias vividos como se a vida fosse um filme a ser compartilhado com o mundo. Tenho até hoje as agendas que tive até parir as meninas. Um verdadeiro tesouro para minha futura biografia.

Agora existem os planners. Agendas ainda mais estilosas e feitas sob encomenda para nos dar ainda mais esperança de conseguirmos nos organizar com os planos da vida. Uma coisa.

Pois bem.

Mas não era exatamente sobre isso que eu queria falar.

Ontem, olhando um tempão para um fila de formigas extraordinária que atravessava meu terraço, eu pensei no quanto não nos planejamos, ou abrimos espaço, para os compromissos da alma. Sim, porque as agendas e os planners da vida guardam todos os encontros importantes, compromissos de trabalho, reuniões, lembretes de consultas de médicos, listas das infinitas tarefas que precisamos dar conta no nosso dia-a-dia, mas não contempla um único espaço para a demanda do que anseiam fazer nossas almas.

A gente precisa lembrar do oftalmologista? Claro que precisa. Mas e parar para ver o pôr-do-sol? Não deveria ser tão importante quanto?

John Lennon dizia uma frase perfeita sobre isso: “a vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos”.

Talvez a gente pudesse pensar a partir de agora em fazer um Planner da Alma também em janeiro. O que vocês acham?

Abrir uma agenda para as demandas da alma. Compromissos que a gente pudesse honrar com tudo aquilo que a nossa alma deseja, mas nunca encontra tempo para fazer. Por exemplo: dar um mergulho no mar. Ir a praia e escutar o vento. Ir tomar um sorvete com um amigo e pedir para ele escolher um sabor surpresa. Planejar um banho de cachoeira por semana. Marcar hora para um banho bem relaxante e cheiroso. Rever o filme que mais amamos nos últimos tempos, só para curtir de novo o sentimento maravilhoso que ele nos deixou. Meditar olhando a chama de uma vela. Comer um milho verde na barraquinha da esquina. Dançar uma música bem alta em casa sozinha. Tocar tambor. Assoviar na janela. Ir em busca de um pomar para colher uma fruta do pé. Tomar banho de chuva. Tirar uma soneca sem culpa de tarde. Bater um bolinho só pelo cheiro que vai deixar na casa. Nossa… minha lista não tem fim.

Cada alma sabe exatamente o que anseia fazer. Elas vivem nos dando dicas do que desejam, mas a gente quase nunca tem tempo para elas.

Algo muito profundo em nós vai agradecer. Disso eu tenho certeza. Afinal, a vida não é feita só de compromissos. Muitas vezes, ganhamos vida quando perdemos tempo. E isso, só a alma sabe fazer direito. Mais ninguém.

Nos tempos que a gente saia para dançar

Dizem que os cronistas são pessoas profundamente nostálgicas.

Não sei quem inventou essa teoria, mas está coberto de razão.

É um complexo “Meia-noite em Paris” incontrolável.

Um desejo constante de voltar no tempo para viver certas coisas que nunca mais se ouviu falar.

Como sair para dançar, por exemplo.

Outro dia me peguei tentando explicar para as meninas o que significava “sair para dançar” na minha juventude.

(acho que chamar o passado de juventude já é uma dica do meu jeitão saudosista, mas tudo bem)

Elas simplesmente não conseguiram imaginar o que seria esse programa.

Agora estamos numa pandemia, mas quando o mundo era normal – outro dia mesmo – e a gente queria sair para se divertir, quais eram as opções? Um restaurante, um barzinho com música ao vivo? Com sorte uma festinha de amigos?

Nos meus tempos de gatinha, o programa era sair para dançar. 

A gente até parava antes em algum barzinho para tomar umas biritas, mas o maior objetivo da noite era ir para uma boate para dançar. Arrasar nos passinhos ou “abrir as asas para cair na gandaia”. Ah gente. Que maravilha que foram os anos 80 e 90. Parece que tudo aquilo aconteceu há um século atrás. Eram outros tempos, eu sei. Mas a impressão que me dá é que em três décadas o mundo mudou completamente.

Comecei a vida indo a matinês. Circus. Help. Depois cresci e comecei a frequentar os lugares mais descolados da noite carioca. Numa época que não existia celular, ir ao Wells Fargo e poder paquerar com a mesa ao lado através de um telefone instalado na mesa era uma coisa extraordinária. Quem lembra do banho de espuma que rolava no fim da noite na Zoom em São Conrado? Gente, a boate derramava um banho de espuma na pista de dança para encerrar a noite. Vocês entenderam? Depois teve a fase de dançar lambada no Hippopotamus. Ser expulso duas da manhã da boate do Piraquê. Correr atrás dos shows da Rio Sound Machine onde eles estivessem tocando: Ballroom, Jazzmania, Mostarda, Mistura Fina. Nossa Senhora. Showzinho da Rio Sound era o auge naquela época. Ainda teve a fase de ir dançar Black Music na Public. e Co na Pacheco Leão, numa noite surreal comandada pelo Gustavo Corsi, guitarrista da Rio Sound, que fazia tremer o Jardim Botânico. A gente voltava para casa amanhecendo sem sapato, com a alma lavada, de tanto dançar. 

Isso não existe mais. A galerinha que quer dançar hoje só tem duas opções: ou eles vão para o baile funk. Ou para alguma boate dançar… funk. 

Tá, eu sei que de vez em quando rolam umas festinhas com um ar de “anos 80”, tipo festa PLOC ou festa do Flashback, mas não é a mesma coisa. Minha irmã diz que tem uns bailinhos de charme na zona norte do Rio maravilhosos, mas eu nunca fui. Um pouco de preguicinha talvez. Ou eu tô ficando velha mesmo.

A última vez que me acabei de dançar foi na minha festa de 45 anos. Os amiguinhos das meninas ficaram chocados como eu não saia da pista. Meus amigos também se acabaram. No dia seguinte eu não conseguia levantar. Só depois de dois Dorflex e muita bolsa de água quente na lombar e um escalda pés nas bolhas do joanete.

É pessoal, acho que eu tô mesmo é com saudade de fazer qualquer aglomeração, para me sentir viva de novo. Jovem não, porque não troco minha vida de hoje nem por 15 minutos da juventude. Mas a alegria e a descontração de alma que a gente tinha naqueles tempos, não tinha igual.

E o que temos para hoje? Dançar bumbum tantan para a vacina. Ah gente? Não dá para ser com  I WILL SURVIVE?

Eu só sei sentir

Dizem que o homem não vale pelo que é nem pelo que tem. Mas sim para o que serve.

Acho essa frase um soco na boca do estômago, mas ela me faz pensar.

Outro dia, desesperada com as contas para pagar, eu subi no terraço e fui olhar o céu para ver se me acalmava. Naquele exato momento, o sol estava se pondo e as cores do céu estavam explodindo nuns laranjas misturados com uns violetas. Tinha umas nuvens carregadas de branco e um cinza chumbo, porque estava armando uma chuva daquelas de fim de tarde. Tudo aquilo parecia uma enorme e deslumbrante tela abstrata que Deus tinha acabado de pintar. Fui tomada por uma emoção indescritível. Tive vontade de chorar, de gritar, de chamar as meninas, de tirar uma foto ou sentar ali mesmo com um bloquinho e uma caneta para ver se eu conseguia traduzir em palavras o que eu tava vendo.

Dinheiro para pagar as contas eu não tinha.

Mas tinha um céu inteiro explodindo em cores na minha frente. Só para mim.

Depois que a coisa passou eu pensei:

“Como é que pode um pôr-do-sol me fazer sentir tantas coisas?”

Foi quando um pensamento me invadiu: porque eu só sei sentir. Aliás, sentir é o que sei fazer de melhor nessa vida. Sentir e eternamente tentar traduzir aquilo que sinto. Ia ser bem legal se um dia alguém me oferecesse um emprego só para sentir.

Porque se eu não valho pelo que sou nem pelo que tenho e sim para o que sirvo, eu sirvo para sentir. Isso devia existir no mundo!

Já imaginaram? Eu preenchendo uma ficha de cadastro? Profissão: SENTIR.

Tem um provérbio xamânico muito lindo que diz:

Sinto, logo compreendo.

Esse é o meu lance com a vida.

Talvez por isso não seja considerada pelo mundo como uma pessoa de sucesso. Quase não consigo pagar minhas contas, não tenho casa própria, não acumulei propriedades nem bens.

Mas sei sentir as coisas mais extraordinárias e esdrúxulas e inexplicáveis que um ser humano já sentiu. Isso deve ter seu valor, não?

Em algum mundo deve ter. Só não descobri qual.

Presença e morte

Destacado

Quase tudo se falou sobre a pandemia no ano passado. Muito foi dito. Pouco foi compreendido. A verdade é que passamos o ano desesperados por respostas. 

Os poetas tentaram nos trazer alguma leveza. Os especialistas, alguma explicação e clareza. Os médicos, o cuidado que fosse possível. Os otimistas, a esperança. Os bolsonaristas nos trouxeram sua intolerância. Os egoístas, sua inconsciência. Os espiritualistas, a capacidade do olhar mais ampliado sobre todas as coisas. E os artistas, a dura missão de tentar transmutar a dor do mundo.

As viúvas, filhos e netos, avós, tios e irmãos de quem partiu, não disseram nada. Só choraram por seus mortos, a dor aguda e seca de quem perdeu seus amores com a estranha sensação de terem partido mais cedo do que se esperava. 

Para mim, sobre 2020 e a pandemia só ficaram três cicatrizes profundas que eu não consigo parar de sentir: o desejo de agradecer, o novo olhar sobre o presente e a coragem de pensar sobre a morte.

A gratidão é uma prática espiritual muito poderosa. Porque tem a capacidade de virar as coisas do avesso. De encontrar na sombra, uma luz. No vazio, uma imensidão. Agradecer pelo que se tem é uma forma muito bonita de passar pela vida. Reverter o pouco em muito e reconhecer nas pequenas coisas, a grandeza de toda uma existência. Eu já tinha o hábito de agradecer pelas coisas que a vida me deu. Já escrevi várias vezes sobre isso. Mas no fim do ano, quando me vi embaralhada nas reclamações do mundo pelo ano terrível que vivíamos, resolvi fazer uma lista das coisas boas e ruins que tinham me acontecido. E foi uma surpresa. A lista de acontecimentos positivos e superações era infinitamente maior às perdas e danos que a minha alma tinha sofrido. Naquele momento alguma coisa destravou no meu peito e desatei um monte de nós que o ano tinha feito.  

Sobre a presença. O aprendizado foi tão fundo que tenho pensado em tatuar a palavra para ver se ela vira parte integrante do meu corpo. Presença. Já tem anos que eu penso sobre isso, mas em 2020 a ideia de me voltar ao presente todos os dias se transformou numa peça-chave para eu não pirar o cabeção. A gente que se projeta nesse futuro hipotético o tempo todo, que tá sempre lá na frente, na ânsia do que virá, sofreu muito ao ver as estatísticas irem matando um a um dos nossos amigos numa doença de filme de ficção científica. Víamos a coisa perplexos, sem nenhuma certeza de como seria se o vírus entrasse dentro de nós. Foi então que eu aprendi a duras penas que o controle é só mais uma ilusão dessas que a gente coleciona. E que exercitar estar presente no presente era a única arma que eu tinha para não enlouquecer de verdade. Foi um exercício. Que continua aqui dentro de mim como um desafio diário. Viver sem controlar o que vai acontecer. Mais nada a fazer a não ser confiar. E seguir. Vivendo um dia de cada vez.   

E por fim, a morte. 

A morte é um assunto tão delicado, tão difícil de ser abordado, tão nevrálgico, que é até complicado trocar ideia com os outros sobre isso. A não ser os espíritas, que falam de tudo com muita desenvoltura porque sabem exatamente o que vai acontecer quando a gente morrer, mesmo sem terem morrido antes. Eu não tô implicando, gosto de conversar com eles, mas ficando mais velha tenho tido um pouco de dificuldade de conversar com pessoas que tem tantas certezas sobre tudo. A morte é um assunto que congela um pouco a gente. Porque para quem está vivo, pensar nela é colocar um ponto final em alguma coisa que não parece ter chegado ao fim. A não ser em pessoas centenárias. Mas para quem ainda sente que tem tempo e faz planos, pensar na morte é algo petrificante. Inconcebível. Mas a pandemia me fez ficar de frente para essa ideia da morte tantas vezes, que eu acabei passando da fase do pavor para a fase da aceitação. Ao exercer presença, eu já tinha aprendido a abrir mão do controle. E aí foi só juntar uma coisa na outra para sentir um mínimo de libertação. O coronavírus é uma loteria biológica. O que tiver que acontecer vai acontecer. Antes dela, também era assim. Mas a ficha não tinha caído.  

Por isso termino meu texto com Belchior que anda na boca do povo, pedindo a ele uma licença poética para reescrever:

Ano passado eu não morri, talvez esse ano eu não morra. Vamos ver. Tô torcendo. Tanto para fazer! 

A gratidão nos tempos do Corona

Ontem Clarinha perguntou:

– Mãe, você não vai escrever sobre isso tudo que tá acontecendo, não?

Engoli em seco. Sabia que essa pergunta ia surgir mais dia menos dia. Fiquei olhando bem firme na imensidão daqueles olhos que eu mesma coloquei no mundo e respondi sem titubear.

– Eu não sei o que tá acontecendo, filha. Não tenho como escrever sobre alguma coisa que eu não consigo explicar.

Ela me abraçou em silêncio. E aquele abraço me derreteu por dentro. E apesar da suavidade do gesto, foi como um soco na boca do estômago. Ela sabia como fazer para me destampar. Minhas filhas sempre tiveram esse dom. Como se soubessem intuitivamente o remédio para desentupir as veias da própria mãe.

Saiu devagar do abraço e mesmo vendo que meus olhos estavam cheios d’água, foi firme como um general:

– Tá na hora, mãe.

Na verdade tinha passado da hora. Desde o início da quarentena e de todas as primeiras notícias da pandemia, eu tive uma vontade desesperada de escrever. Como se eu pudesse de alguma forma ir registrando num diário de bordo essa viagem louca que a gente começou a fazer do dia para noite. Mas tudo foi ficando tão surreal, tão doloroso, tão apocalíptico, que as palavras não pareciam mais servir para traduzir a dimensão que a coisa tava tomando. Como se o mundo de repente tivesse virado do avesso e a gente não coubesse mais nele. E atordoada, fechei meu caderno e passei a viver os dias, ancorada no presente, planejando só o que era possível: o almoço e o jantar.

Mas ontem eu ouvi o chamado. E entendi que parte dessa revolução que o mundo inteiro tá vivendo, vem de uma transformação muito profunda de cada um de nós. É uma guerra biológica que a gente não tem nenhum controle? É. É um vírus avassalador que transformou o mundo em meses? É também. Mas como tudo nessa vida a gente pode escolher de que forma vai viver a coisa.

Então sentei no computador e estou aqui.

No início da quarentena eu via todos os jornais e acompanhava todas as notícias. Minha irmã veio para cá com os meus sobrinhos e vivemos umas semanas de férias forçadas, felizes por estarmos juntos, mas ainda assim, chocados com tudo que tava acontecendo. Mas o tempo foi passando e eles acabaram voltando para casa, porque cada um precisava reaprender essa nova configuração de vida. Foi então que as meninas foram para São Paulo passar uns dias com o pai e na primeira noite, recebemos a notícia da morte da Érika, professora de teatro da Clara, por Covid-19.

Aquela foi a primeira grande perda de alguém muito próximo. Uma pessoa maravilhosa, cheia de vida e alegria, tinha sido levada pelo vírus em menos de cinco dias. Ali naquele momento eu senti uma ruptura muito profunda com o mundo que existia antes. Como se a partir dali eu realmente fosse viver o luto não só da Érika, mas de um mundo que eu nunca mais veria igual.

Desde então a gente vem recebendo uma bomba atômica de informações, vídeos emocionantes, revelações sobre curvas, lives intermináveis, textos transformadores, instruções médicas e as estarrecedoras notícias diárias de milhões de mortes pelo mundo. Se alguém achava que o mundo ia acabar em 2012, não imaginava o que nos esperava 2020.

O mundo como estava posto morreu e nem sequer teve direito a um funeral. Nesse momento vivemos a entressafra de algo que não podemos dimensionar. Ninguém faz ideia do tempo que isso tudo ainda vai durar. Sem contar o medo paralisante que sentimos. Uns com mais, outros com menos. Mas certamente a vibração de medo que paira no inconsciente coletivo da humanidade é bem maior do que a gente tem coragem de confessar.

Numa dessas últimas semanas, tive uma crise de alergia muito forte. Passei uma noite péssima e de manhãzinha, acordei febril e com uns calafrios. Pronto. Era tudo que eu precisava para detonar o demônio do medo dentro de mim. Sintomas físicos para me desesperar e acessar todas as informações e estatísticas que tinham ficado impregnadas em mim com todos os Jornais Nacionais que eu tinha assistido.

O medo é sem dúvida, o mais corrosivo de todos os sentimentos humanos. Naquela manhã eu estava apenas com os sintomas de uma alergia muito forte, mas na minha mente, tinha contraído o Coronavírus, tinha piorado vertiginosamente em poucos dias, tinha sido internada, entubada, e sofria porque morria com falta de ar, sem conseguir me despedir de ninguém.

Agora parece hipocondriacamente engraçado. Mas na hora que eu tava vivendo a coisa, foi bem doloroso. Tenho conversado com muitos amigos e isso tem sido recorrente em muitas casas: o medo paralisante da morte.

Eu não tenho medo de morrer. Já escrevi isso em várias crônicas minhas. Mas essa doença me traz outra coisa a ser contemplada e que é quase tão difícil de pensar quanto à própria finitude: a nossa absoluta falta de controle sobre tudo. E isso é bem enlouquecedor.

Quando o mundo era outro mundo, o meu maior medo era sair de casa e sofrer algum tipo de violência na rua. Sabia que não tinha como controlar o destino e que se uma bala perdida tivesse que me encontrar, eu não tinha como escapar dela.  Sinto que essa doença vem falar da mesma coisa, só que de outra forma. Nem com toda prevenção, isolamento, água, sabão, álcool gel e máscaras, se eu tiver que contrair a doença e passar por todo o processo que ela me trará, eu simplesmente, não tenho como escapar disso. Porque no fundo no fundo todo ser humano acha que pode ter algum controle sobre a vida. E não tem. Não tem e ponto.

Minha alergia melhorou e eu passei a cuidar da minha saúde da melhor forma que eu posso. Tomando geleia real em jejum, própolis com mel e limão, vitamina, homeopatia e floral. Me alimentando bem, tomando sol no meu terraço e tentando meditar todos os dias. Parei de ver o Jornal Nacional e só dou uma passada de olho nas notícias de manhã para ver se um milagre acontece e o nosso panorama político muda. Porque no Brasil, não só precisamos lidar com a pandemia como também com a psicopatia do nosso atual governante. E sinceramente, isso tem me feito adoecer mais que o próprio medo da Covid-19.

Mas enfim, quero terminar esse texto dizendo para Clarinha que, mesmo sem entender em profundidade tudo que está acontecendo no universo, aqui na minha pequena e divina existência, eu hoje já tenho condições de escolher por vibrar na gratidão das coisas essenciais que tenho a sorte de ter: minha saúde, a saúde daqueles que amo, meu alimento e essa casa que me acolhe e me permite estar protegida. A “gratidão” é o melhor lugar que podemos estar agora. Agradecendo aos médicos que cuidam dos doentes e a todos que estão fazendo a máquina do mundo funcionar.

Obrigada filha. Escrever me fez muito bem. Estou me sentindo mais viva do que nunca!

Que possamos todos juntos gestar com amor esse novo mundo que virá.

Sigamos fortes e com esperança.

Nada será como antes e isso é maravilhoso.