Imagética

Viviane Mosé costuma dizer que “quem escreve escava o que o silêncio palavra”. Eu acho que eu escrevo para escavar o que a “imagem” palavra.

Isso desde pequenininha.

Me lembro na infância de ser surpreendida por alguma imagem e precisar ir buscar um lápis desesperada para não perder aquilo que tinha me tomado por completo. Nem que fosse o encontro com um bicho-pau. Eu precisava registrar. E tinha que ser por escrito.

Essa mania de querer traduzir o mundo.

Mas com o tempo fui crescendo e descobrindo que o meu negócio era porque meu cérebro não só absorvia o que via como produzia algum desdobramento do que eu tava vendo.

Explico.

Se eu visse um bicho-pau… Aquele bicho na mesma hora tinha criado vida e tinha ganhado um nome. E na minha cabeça já tinha virado um personagem cheio de questões existenciais porque tinha me contado que não queria ser um bicho-pau, mas sim um maestro de música clássica. E a história seguia.

Outro exemplo que é minha cara. To parada no ponto do ônibus. Olho pro céu azul. Imagino que aquele céu é azul há mais de cem mil anos. Pronto. Quando baixo a cabeça, já estava no planeta Terra na época dos dinossauros, tentando imaginar onde é no planeta que estaria localizado aquele ponto de ônibus.

Olha. Parece legal mas é bem enlouquecedor as vezes. Porque a mente não para de criar. E produzir imagens. Fui buscar no dicionário o que significa ser imagético e é isso mesmo: aquele que revela imaginação. No meu caso: excesso de imaginação.

Deve ser por isso que acabei me apaixonando pelas metáforas. Deve ser o desdobramento do desdobramento.

Mas claro que como tudo, essa coisa de ser imagética também tem seu lado sombra.

Muitas vezes, sem querer, produzo cenas sombrias na minha mente em menos de dois segundos. Como acidentes por exemplo. Minha mente é especialista em produzir acidentes de carro. Durante um tempo da minha vida tive medo de ser premonição. Mas não era. Graças a Deus. Ou eu morri assim em outra vida ou eu sou muito doida mesmo.

Mas enfim.

Tudo também pode ter sido pela educação cinematográfica que eu tive. Já contei para vocês que não tinha nem 10 anos minha mãe me levou para ver KOYAANISQATSI – um documentário do Coppola sem atores, nem diálogo nenhum, só com uma trilha sonora inacreditável, mostrando o ser humano, o planeta e essa convivência desequilibrada que a gente sempre teve.

Imagina gente! 10 anos!

Bem que eu tentei fazer faculdade de cinema, mas como quase tudo que fiz na vida, não terminei. Comecei mas não terminei. Minha biografia tem muitos casos como esse. Um milhão de planos e projetos não finalizados. Acho que só terminei as minhas filhas porque a Mãe Natureza ajudou. Presas nove meses na minha barriga, não tinha como não concluir o projeto. Mas enfim. Me acolho com todas as minhas estranhezas.

Mas que essa de entender hoje que escrevo para escavar o que a imagem quer palavrar… essa foi demais. Valeu a segunda-feira.

Alguém na escada

Não sei quem vai acreditar nessa minha história, mas eu vou contar mesmo assim.

Aconteceu comigo há uns meses atrás e eu tenho certeza de que não foi sonho.  

Estávamos na sala, eu a as meninas, numa dessas noites de verão de calor insuportável, amontoadas entre colchões e edredons, no único ar-condicionado bom da casa.

Já era bem de madrugada. Na sala, só a luzinha fraca de um abajur estava acesa.

Eu acordei num estalo – tenho sono leve desde que as meninas nasceram – e na mesma hora que abri os olhos, olhei para a escada (onde fica meu quarto no segundo andar) e vi dois pés estranhos, escuros, se encolhendo.

Congelei.

Sabe quando uma coisa muito chocante te acontece e você fica simplesmente paralisado, com o pensamento a mil, tentando entender o que acaba de acontecer?

A primeira coisa que fiz foi olhar para os lados, para entender onde estava, em que dia estava e que horas deveriam ser. Mas sobretudo, para me certificar que não estava dormindo.

Depois olhei para cima de novo petrificada de medo, para refazer a cena que tinha acabado de ver e tentar entender o que eu tinha visto.  

Sim. Eu estava acordada.

Sim. Eu tinha acabado de ver dois pés se encolhendo na escada do meu apartamento.

Detalhe: em nenhum momento daquela noite eu achei por um segundo sequer, que tivesse sendo observada por alguma pessoa.

Dentro do mim, o mais bizarro, estranho e inesperado era que eu tinha certeza que os pés que eu vi sendo encolhidos, não eram pés humanos.

Ainda passei um bom tempo ali sentada, repassando a cena mil vezes na minha cabeça, até ter coragem de me levantar.

Finalmente acendi as luzes da casa, acendi a luz da escada e tomei coragem para subir lentamente, até conseguir acender as luzes do terraço e olhar tudo lá fora.

A noite estava quieta. Sem lua. Sem nuvens. Sem vento. Só estrelas e a sensação absurda de ter sido visitada por algum ET.

“Caramba” pensei comigo: “Nenhuma testemunha. Ninguém vai acreditar em mim”

O segundo evento aconteceu alguns dias depois.

Nesse dia eu estava na minha cama, lá no segundo andar. Edu dormia ao meu lado. Também era de madrugada. Eu acordei num estalo e vi em cima da minha cama uma coisa voando, como se fosse um mini drone cheio de luzinhas. Congelei de novo e comecei a cutucar o Edu. Estava tudo muito escuro. De repente a coisa sumiu. Quando ele acordou, achou que eu estava sonhando. Claro. Igual esses filmes que a gente vive uma coisa absurda e ninguém acredita.

Bem, depois disso nem preciso dizer que nunca mais consegui dormir 100% tranquila nesse apartamento né.

O sentimento é sempre um misto de medo, curiosidade e a mais completa paixão por esse assunto.

Não sei quem vai acreditar nessa minha história, mas eu precisava contar mesmo assim.

Alguém já viveu algo parecido?

Maria das Dores

Quando eu era pequena, minha mãe me chamava de “Das Dô Saramandaia”.

Referência a uma novela da época, mas acho que o que ela gostava mesmo era de me chamar de Maria das Dores. Consigo imaginar o porquê. Tudo me doía. Segundo ela, cada dia era uma coisa diferente. Uma novela.

Para um corpo hiper ultra mega sensível, tudo dói mesmo. Tudo é um exagero, porque tudo é sentido no nível máximo que a sensibilidade pode sentir.

Cresci nesse molde de hipersensibilidade corpórea e isso sempre foi uma questão na minha vida. Tenho pavor de sentir dor. Pavor de passar por qualquer dor que me faça sofrer. Conclusão: sou uma adulta hoje viciada em analgésicos.

Demorei muito tempo para assumir essa adicção. Qualquer vício é vergonhoso e nos gera muita culpa. Mas de uns tempos para cá, ando com uma vontade infinita de colocar minhas dores para fora, para ver se dividindo, a coisa pesa menos.

Fico imaginando se não tem um monte de gente por aí com esse mesmo vício. Se a vida já era difícil com todos os desafios contemporâneos, imagina agora que a gente está passando pela pior crise sanitária dos últimos tempos.

Bom, eu não sei vocês, mas eu sinto dores de cabeça todos os dias. Já desconfiei de estar com Covid umas 17 vezes desde que a pandemia começou. Já senti tonturas, calafrios, enjoos, dores de garganta, febrículas e muitas, muitas dores no corpo nesse último ano.

Tá. Eu sei que muito próximo da loucura do vício em remédios, mora a hipocondria. E já que eu me propus a falar a verdade, devo confessar que em algum lugar em mim mora um Woody Allen compulsivo. Acho até que eu já escrevi sobre isso. Todo hipocondríaco se automedica. Isso é fato. Então, um bicho alimenta o outro.

Mas eu tenho medo disso. Resolvi escrever sobre isso, porque tenho medo de no final das contas, morrer de intoxicação medicamentosa. Difícil essa dicotomia né? Vocês acham que é fácil ser eu?

Mas voltando às dores, há uns anos fiquei sabendo de uma moça que foi internada com dores horríveis na barriga. Depois de examinar a paciente, o médico olhou para ela e disse: “não preciso fazer mais exames para descobrir o que você tem: seu problema é intoxicação com Neosaldina.”

Minha Nossa Senhora. Nem sei quantos anos passei tomando Neosaldina. No dia que soube disso parei. Passei a tomar Dorflex. Mas uma amiga falou que eu também preciso parar com o Dorflex porque o excesso de relaxante muscular faz mal para o corpo. Me indicou Doril DC.

Parece piada, eu sei. Mas eu não tô achando mais nenhuma graça.

Agradeço muito a sensibilidade que me habita. É através dela que absorvo o mundo e posso escrever. É através dela que apreendo coisas muito sutis que são difíceis de serem percebidas pelas pessoas. É pela sensibilidade que encontrei minha voz no mundo. Tudo isso faz parte da luz dessa qualidade. Mas na sombra dessa mesma característica que me representa, moram as dores na alma que me causam as injustiças. A crueldade do mundo me corta a pele e me faz sangrar como se o sangue saísse de mim de verdade. As maldades me torcem o estômago como um soco que a gente recebe sem se preparar. Sinto visceralmente as dores de tudo aquilo que está em desalinho do universo. Aqui. Nesse corpo que habito. Então, o que me dói não são as agruras que meu corpo tenta administrar do desequilíbrio de alguma coisa que comi de errado, ou as poucas horas que dormi, ou o mal jeito que dei na lombar. O que me dói são todas as coisas que sinto desse mundo que a gente está vivendo e que não tem analgésico que dê jeito.

Sim. Estou viciada em analgésicos. Em melatonina para dormir. Em sal de fruta para a queimação no estômago. Em Torsilax para o dor nas costas. Mas ainda não tomo calmantes nem antidepressivos. Sem absolutamente nenhum julgamento para quem precisa. Cada um sabe onde a vida lhe aperta. Mas quero buscar uma alternativa de cura para essa coisa que ficou tão clara de repente para mim.

A dor é um processo de alerta. Assim como a doença. Ela não é inimiga. Muito pelo contrário. É alguém que vem para te alertar que alguma coisa está muito errada com você. Quero olhar para isso de frente. Mesmo que me doa muito. Assumir o vício é o primeiro passo da cura.

A trilha sonora da alma

O que é que acontece quando a gente no meio do dia, no meio de um dia comum, encontra uma coisa sem querer que fala de um lugar muito, muito profundo da sua alma?

Fica em choque.

Foi isso que aconteceu comigo na semana passada, quando buscando uma música no Youtube, eu me deparei com um disco de um pianista italiano chamado Ludovico Einaudi.

Eu estava me preparando para escrever.

Quando “Seven Days Walking” apareceu como sugestão, eu reconheci o nome dele, de um presente que tinha ganhado há muito tempo do meu amigo querido – Jo, que só me dá presentes extraordinários. Presentes para alma. E eu já tinha amado o piano lindo que ele tocava. Mas naquele dia, quando eu dei play na primeira música do disco, o tempo parou.

Eu não sei se todo mundo sente assim, mas eu sinto que cada alma tem uma trilha sonora. Uma música que representa o que a gente é, no mais íntimo do nosso ser. Uma música que toca e fala por você. Por seus sentimentos, por seus silêncios, por sua voz que nem sempre tem palavra para descrever o que passa a sua existência. Uma música que te representa no universo. Aquela que pode ser tocada quando você desencarnar e finalmente encontra o Criador.

Eu cliquei na música “Low Mist Var.1 (Day 1)” eu parei de respirar. 

Fechei os olhos e senti uma emoção vindo de lá do centro do meu ser. Não sei dizer se a coisa vinha do peito, do coração, do imaginário que é imaginar a vastidão do que eu sou por dentro. Sei que ela vinha de um lugar muito fundo, muito íntimo. E conforme a música foi tocando, meus olhos foram transbordando a emoção de me reconhecer em algo que estava do lado de fora. Como se uma sinapse tivesse sido feita. Igual aquele rabinho mágico cheio de fiozinhos que as criaturas azuis de “Avatar” conectavam com a Árvore da Vida.

Olha, é muito difícil descrever o que senti naquele dia. Só sei que fui tomada por algo tão forte que chorei por algum tempo agradecendo para alguém ou alguma coisa que eu nem sabia quem era.

Experiências sensoriais assim, são para mim, a confirmação do divino em nós.

Algo que vivemos e ninguém mais pode mensurar a magnitude da vivência, a não ser você mesmo.

Fui pesquisar, claro, sobre essa obra de Einaudi e qual não foi a minha emoção quando descobri que em janeiro de 2018 ele estava recolhido nos Alpes (olha isso) e quase todos os dias ia caminhar, sempre seguindo mais ou menos a mesma trilha. Num dia, em meio a uma forte nevasca, “seus pensamentos foram vagando livres tempestade adentro, onde todas as formas, despidas pelo frio, perdiam seus contornos e cores”, e isso permitiu que ele construísse um “labirinto musical” presente nas músicas.

Uau…

“Seven Days Walking” é um conjunto de sete álbuns que foram lançados num intervalo de sete meses a começar pelo primeiro volume, “Day One”. Em toda a obra, Ludovico Einaudi está ao piano, Frederico Mecozzi no violino e viola e Redi Hasa no violoncelo.  

Se alguém desejar passar por essa experiência sensorial extraordinária, é só entrar nesse link:

Para fechar esse texto só queria dizer que o mar, as ondas que quebram na areia, o vento, as folhas que dançam com o vento e tudo que habita a natureza também fazem parte da trilha sonora da minha alma. E que um dia, eu hei de encontrar uma forma de caminhar pelos labirintos da minha mente e escrever o livro que minha alma tanto anseia.

Quem sabe uns dias recolhida nos Alpes pode ajudar. Não custa sonhar. : )

Aqui mais um link para o trailer que explica um pouco mais sobre o projeto “Seven Days Walking” e seu processo criativo. Emocionante e belíssimo. Aproveitem!

Para onde eu quero ir

Ah… falar sobre onde eu ainda quero ir nessa vida é fácil.

É quase como fechar os olhos e fazer planos com o prêmio de uma loteria. Vivo fazendo isso, mesmo sem nunca jogar.

Numa das cenas que eu mais amo de “Comer, Rezar e Amar”, a personagem do filme conta a história de um homem que vivia na igreja pedindo ao santo para ganhar na loteria. Todos os dias ele fazia o mesmo pedido pro santo: “me ajuda a ganhar na loteria, me ajuda a ganhar na loteria”. Um dia o santo se irritou, abriu os olhos e disse para ele: “te ajudo, mas compra um bilhete, compra um bilhete.”

Essa história me toca muito porque não adianta você sonhar desesperadamente com alguma coisa se não faz por onde essa coisa chegar até você.

Passei boa parte da minha vida vivendo no modo pipa.

Modo pipa é aquela pessoa que vive voando, dispersa e solta como uma pipa, com os pensamentos lá longe. Sonha com a vida, tem um milhão de ideias e projetos e não realiza nenhum porquê não tem nada de concreto que a faça realizar nenhuma das coisas que vive sonhando. É alguém que não tem pé no chão, nem raiz que nutra seus sonhos.

Foi preciso muito tempo de terapia para eu conseguir enxergar que esse modo de ser, apesar de romântico e poético, não me servia para nada no mundo real. Claro que também tinha a questão da minha enorme dificuldade com o mundo real. Até porque realidade, convenhamos, é algo bem subjetivo. Difícil colocar todo mundo numa mesma camada de compreensão do todo, até porque isso envolve infinitas perspectivas. Mas simplificando, a verdade é que eu entendi muito bem entendido que para realizar os sonhos, eu precisava fazer minha parte.

Então hoje, quando eu sonho com todas as coisas que ainda quero fazer, todas elas partem do pressuposto que eu vou ter ralado para caramba para chegar lá. Mas enfim.

Depois do sonho de ser mãe, o maior sonho da minha vida ainda é conhecer o mundo. Eu já tive a sorte de sair do Brasil algumas vezes na minha juventude, mas agora o sonho é ver o mundo da perspectiva dessa Tatiana mais velha. Mais cascuda. É uma gana por conhecer pessoas, lugares e culturas que me façam apreender o mundo da forma mais expandida possível. É o desejo profundo de viver experiências que só vou poder viver se atravessar fronteiras.

Então, o plano é um dia desses conseguir o emprego dos sonhos: conseguir alguém que me pague para escrever sobre as viagens que vou fazer. Gente! Isso existe! Tem gente que ganha dinheiro com coisas inacreditáveis. Essa gente deve ter feito coisas muito boas em outras vidas para merecer esse trabalho não? Por exemplo: gente que ganha para experimentar as comidas do mundo. Sério, que pessoa é essa que tem esse emprego? A reencarnação de alguém muito especial, com certeza.

Mas meu plano é comprar um motorhome e sair pelo mundo vivendo, observando, integrando e escrevendo. Olha para isso, gente! Não é um sonho incrível?

Para qualquer lugar que eu vá no meu futuro, eu só peço uma coisa pro meu santo: que seja sempre com meu caderno, minha caneta e essa curiosidade infinita que me provoca a vida. Quero ficar velhinha e sentir que o mundo ainda me espanta. E deixar alguns livros para os meus netos saberem quem eu fui e como senti a existência. Não é pedir muito, é?

Onde estou

Se alguém me perguntasse “onde estou” há mais ou menos um ano atrás, eu saberia responder perfeitamente. Contaria da minha aventura de morar em Niterói há mais de 15 anos e ter me mudado para uma casa com céu no Bosque de Pendotiba. Falaria da missão de ser educadora e professora de teatro na Escola Nossa, do desafio e da alegria de ser mãe de duas meninas incríveis que transformaram completamente minha vida desde que chegaram. Contaria desse meu namorado companheiro com quem divido a vida há oito anos, e do filho dele que surgiu para mim como um presente. Falaria do meu sonho de ser escritora e da gratidão que sinto pela família que ganhei e os amigos que conquistei ao longo da estrada. Enfim!

Há um ano atrás eu sabia exatamente onde estava.

Mas hoje, um ano depois que as nossas vidas foram tomadas por essa pandemia e essa doença que ninguém conseguiu decodificar ainda, eu confesso que estou mais perdida do que jamais estive.

A sensação que eu tenho é que essa doença veio para virar a gente do avesso e colocar à prova tudo o que somos desde que nascemos.  

Então, responder “onde estou” hoje significa assumir que acordo de manhã e a primeira coisa que faço é recalcular a rota diante das notícias, para que o fim do dia chegue ao mínimo planejado.

Nunca fomos tão desafiados. Testados. Beliscados pelo destino.

Nunca tivemos tanta certeza de como não dá para ter certeza de nada.

Então, seu eu me pergunto “onde estou” hoje, posso responder pelas próximas 24 horas no máximo.

Estou aqui na minha casa, agradecendo quando acordo saudável e com a notícia que minha família e amigos também acordaram saudáveis. O resto do dia eu sigo tentando fazer tudo. Tentando dar a melhor aula online possível, tentando fazer um almoço nutritivo para gente, tentando dar conta das infinitas atividades domésticas que eu não tenho cabeça nenhuma para fazer. A tarde sigo tentando fazer alguma coisa de útil pela minha saúde emocional, depois tento dar uma boa aula presencial para os alunos que, como eu, estão se aventurando a estar na escola presencialmente. Depois passo no supermercado, tento pensar num lanche divertido, depois chego em casa, tento tomar um banho para tentar relaxar, depois tento escrever um pouco para tentar colocar para fora tudo que estou sentindo e depois vou para cama, tentar dormir. Mas essa tentativa tem sido a mais frustrada de todas.

Nunca tive tanta insônia como agora.

Então, é isso. No meu texto de hoje sobre “onde estou” o resumo é que estou tentando desesperadamente sobreviver a esse tsunami que virou nossa existência.

Alguns dias com sucesso nas tentativas, outros muito frustrada por só ter conseguido acordar/viver e voltar a dormir, sem nenhum acontecimento mais emocionante ou louvável para compartilhar. Mas é isso, pessoal. Tempos de guerra.

Amanhã é um novo dia. Eu vou seguir tentando. Quem sabe nas minhas próximas 24 horas tudo pode mudar. Sigamos… fortes! Não há nada que possa nos ajudar mais do que a esperança de acreditar que dias melhores virão.

Tô me agarrando nisso, gente. Aho!

De onde eu vim

Há um tempo atrás um senhor veio fazer um serviço elétrico aqui em casa. Era muito simpático e falante. Conversamos sobre muitas coisas e ele era tão querido, que lhe ofereci um cafezinho com pão e manteiga. Era fim da tarde. Os finais de tarde pedem um café com pão quentinho. Quando terminou, disse assim:

– Me desculpe perguntar, mas a senhora é mineira?

Eu respondi surpresa:

– Sim! Como é que o senhor adivinhou?

– A senhora tem todo jeitinho de mineira. Inda mais depois desse cafézim com pão que a senhora me serviu, isso é coisa de mineiro.

Eu sorri. E pensei comigo como voltar a Minas era um dos sonhos que eu ainda não tinha realizado nessa vida.

Eu nasci em Belo Horizonte. Mas saí de lá pequenininha, com três meses de idade. Mas pelo visto, Minas continuava a existir em mim de um jeito ou de outro.

Minha infância passei quase toda em Teresópolis no meio do mato e isso deve ter sido outra coisa que formou meu jeito de ser.

Crescer na terra faz a gente ser de um jeito bem diferente de quem cresceu na cidade grande.

Mas a grande verdade mesmo da minha história, da minha origem, é que essa sensação de inadequação no mundo sempre me acompanhou. Desde que me entendo por gente. Foi preciso muito tempo de terapia e uma compreensão maior da espiritualidade, para eu finalmente entender que tinha vindo lá de cima, lá do povo das estrelas e que por isso o mundo me parecia tão incompreensível. Isso existe sabia gente? Tem muita gente que anda por aí que não é daqui.

Bom, isso explicou muita coisa sobre a minha trajetória de vida. Uma delas é essa busca frenética e apaixonada por decodificar o ser humano e esse lugar esdrúxulo que coabitamos chamado Planeta Terra. Passei a vida flertando com a arte, mas foi na escrita que eu encontrei meu caminho, minha melhor e mais afiada ferramenta para estar aqui.

De onde eu vim não existe maldade. Não existe dinheiro, nem ganância, nem esse monte de sombra que esse mundo aqui tem. Mas tá beleza. Eu já entendi que estou encarnada e que ainda tenho um monte de coisa para fazer. Uma delas é voltar a Minas. Qualquer hora eu chego lá…

DesEsperança

Hoje acordei muito triste pelas notícias que correm nesse nosso Brasil.

Não há como estar bem com a situação desesperadora que vivemos.

Por mais que eu tente, não estou conseguindo trazer leveza ou poesia para um momento tão crítico e chocante.

Tento, tento, mas não consigo entender de que são feitas essas outras pessoas que coabitam o mesmo espaço e tempo que eu.

Se há dois anos eu me choquei com a ruptura que vivia o país que nos dividiu nas urnas, hoje tenho a mesma sensação quando saio nas ruas e vejo pessoas sem máscaras, lotando barzinhos e vivendo suas vidas como se nada fosse, como se não estivéssemos na pior fase da pior pandemia que a nossa geração já viveu.

Eu não consigo me conformar, não consigo entender. Não consigo aceitar que falte tanta empatia e compaixão à tantas pessoas.

Me lembro que quando fiz a formação em Constelação Familiar (prática terapêutica que busca resolver conflitos familiares através de gerações) uma das coisas que mais me marcou foi uma fala do Bert Hellinger (criador da técnica) sobre o Brasil. Ele costumava dizer que para sermos um país próspero e saudável, precisaríamos constelar infinitamente tudo que fizemos de mal aos nossos antepassados. Que sem essa ação de “limpeza” e cura sistêmica, o Brasil nunca iria para frente. Tudo que fizemos aos nossos indígenas, tudo que fizemos aos negros escravizados ao longo de séculos… será que hoje vivemos essa cegueira coletiva por um retrocesso energético de todo mal que já derramamos em nossa terra?

Quando nosso atual presidente foi eleito, meu susto foi tão grande que eu fiquei em choque por semanas. Liguei para minha terapeuta e pedi se peloamordedeus ela tinha como me dar uma explicação simplificada sobre essa loucura que estávamos vivendo. Foi quando ela disse com sua tradicional calma e clareza: “O Brasil merece esse presidente. O povo vai precisar passar por essa provação para entender quem é e o que fez.”

Uau.

Depois disso eu fui tentando sobreviver. Fui fazendo o meu melhor aqui no micro da minha existência. Mas quando a pandemia chegou dividindo de novo o nosso país em dois tipos de brasileiros, volto a me perguntar por que diabos eu tinha que encarnar aqui. Caramba. Por que não nasci na Nova Zelândia?

Tá. Eu já sei a resposta. Porque nós temos trabalho a fazer aqui… Mas que loucura.

Eu sei.

Eu já sei o que a minha consciência vai falar: agradece. Agradece Tatiana. Agradece sua saúde, a sua consciência. Agradece sua casa, seu alimento e sua chance de lutar todos os dias. Agradece não ter perdido ninguém da sua família para essa doença. Agradece estar viva e poder lutar.

Já tenho a palavra Coragem tatuada em mim.

Acho que tá na hora de tatuar a palavra Esperança.

Um voto de silêncio

Querido leitor,

Gostaria muito que esse texto pudesse começar com uma lenta e profunda respiração.

Que a gente pudesse parar por um segundo e encher o pulmão de ar.

Juntos.

(…)

Tenho pensado muito no silêncio.

Desejado o silêncio como jamais desejei.

Um bocadinho de quietude, assim, só um bocadinho.

Drummond dizia que “a vida necessita de pausas”.

Hoje eu acordei querendo muito dar um abraço no Drummond.

Um longo e silencioso abraço.

(…)

Eu não sei se estou envelhecendo,

ou se é o mundo mesmo que anda desesperadamente barulhento.

Não sei se sou só eu que sinto isso,

mas sei que tem dias que não paro de pensar em como seria fazer um voto de silêncio,

desses que a gente faz em retiros espirituais

e ganha o direito de simplesmente não dizer nada.

(…)

Eu não sei se é esse mundo de hoje lotado de informações.

Se são os celulares, as redes sociais, a internet.

Ou essa enxurrada de barulhos e imagens que vem de todos os lados.

Ou se é essa nossa ansiedade que grita com a gente o tempo todo.

Ou se é a TV, os multicanais do mundo inteiro nas nossas salas, os noticiários.

Ou a dor no coração que nos causam os noticiários.

(…)

Eu sei que nunca desejei tanto o silêncio.

Ficar ouvindo só as coisas orgânicas do mundo:

A chuva, o vento, as ondas do mar, a conversinha dos passarinhos de manhã.

As cigarras no fim do dia. Ô meu Deus.

Como seria bom ter a chance de só escutar essa orquestra da Terra por um tempo.

Sem dizer nada.

(…)

Dizem que a meditação me ajudaria muito nesse sentido.

Mas a meditação é uma outra luta na minha vida ocidental cheia de ruídos.

Eu a desejo profundamente, mas raramente consigo me encontrar com ela.

Dessas coisas que a gente faz contra a gente mesmo e passa a vida tentando mudar.

Mas enfim. Isso é assunto para um outro texto.

(…)

Agradeço esse espaço de palavras que me permitem falar sem falar.

Sem essa expressão, com certeza, já teria enlouquecido.

Deve ser por isso que amo tanto as palavras escritas.

Porque elas falam por mim, em silêncio.

Eu não sei se você me entende leitor…

Mas o desejo do silêncio

é só um grito desesperado por paz.

Minha alma Golfinho

Sugestão sensorial: ler ouvindo essa canção…

Foi numa jornada com tambor que eu conheci meu Golfinho pela primeira vez.

Eu ainda era uma novata no xamanismo, mas já tinha bagagem suficiente para ir em busca do meu animal de poder. Os animais de poder são como um alter ego. Nosso duplo numa outra dimensão de existência. Eles são como animais guardiões que nos trazem seus talentos, sua medicina e sabedoria.

É bem difícil de explicar a magnitude dessa experiência, mas eu queria muito tentar. Porque no dia que eu conheci o meu Golfinho, senti uma mudança muito intensa acontecer dentro de mim. Como um divisor das minhas águas internas. Literalmente.

A jornada em si é bem simples. Primeiro buscamos uma posição confortável para deitar, depois colocamos uma venda nos olhos, algum pano que possa bloquear a luz do dia. Isso facilita muito a conexão com a jornada, porque nos separa de alguma forma do mundo externo. Em seguida nos conectamos com a respiração, relaxando o corpo, tentando “nos desligar” dos problemas cotidianos. E assim que o tambor começa a tocar, como as batidas do coração, entramos no processo.

Um tempo depois o tambor acelera, então procuramos um lugar da natureza internamente. Estando nesse lugar, saímos em busca de um portal. Uma fenda, uma caverna, um buraco na terra, ou numa árvore, ou mergulhamos num oceano ou num lago tranquilo. Tudo vai depender da experiência de cada um. O objetivo é entrar nesse lugar, para sair em outro. Como se de fato atravessássemos um portal. Então, chegando a essa nova dimensão, chamamos por nossos mestres e guias espirituais. E nos permitimos viver o que tiver que acontecer.

Eu costumava dizer nas partilhas que não acreditava que coisas tão incríveis pudessem acontecer nas jornadas para mim. Que o enredo era tão perfeito que parecia um filme. E sempre duvidava da veracidade da coisa. “Eu estou inventando, não é possível”. Demorei muito para aceitar que por mais que estivesse inventando, a invenção era minha e de mais ninguém. E que o vivido tinha significados simbólicos tão transformadores, que eu demorava mesmo para compreender e assimilar.

Uma viagem absolutamente curativa, regenerante e mágica.

No dia que conheci meu Golfinho estava em busca do meu animal de poder e o nosso encontro foi tão forte que eu mal pude acreditar. Mergulhei num oceano profundo e quando vi, ele se apresentou numa nitidez impressionante. Perguntei se ele era o meu animal de poder. Ele confirmou numa dança alegre e comunicativa. Em seguida fez um gesto como se estivesse me chamando. Então colei meu corpo junto ao dele e por muito tempo, nadamos por águas quietas em silêncio. Talvez tenha sido uma das coisas mais belas que já vivi. E desde então, quando preciso, o acesso. Algumas vezes levo questões, perguntas. Que são respondidas de diferentes formas. Outras vezes, o encontro acontece para simplesmente descansar a alma.

Só vivenciando para conseguir compreender a profundidade da vivência. Como eu queria que as pessoas pudessem passar por isso um dia. Acessar mundos internos nunca desvendados e entrar em contato com sua mais profunda essência.

Mas é isso. A jornada termina quando o tambor passa a ser tocado num ritmo diferente. Primeiro mais lento, depois um toque rápido para que cada pessoa possa entender que é hora de finalizar sua história. E ainda ter tempo de agradecer a todos os seres que se manifestaram (sim, muitos animais e seres podem surgir) e retornar a um estado mais consciente, fechando os portais que foram abertos.

Uau.

Pensando bem, não tenho certeza de que essa vivência seja para qualquer um. É preciso se desvencilhar de preconceitos e julgamentos. Transformar as dúvidas em curiosidade. E parar de se questionar demais sobre o que é certo ou errado. Caminhos como esse precisam de entrega para serem vividos por inteiro. Entrega e coragem. Hoje não consigo mais me imaginar vivendo sem essa dimensão. Não posso e nem quero estar encarnada nesse mundo doido, sem estes lugares de cura e autoconhecimento.

Ao longo da minha existência, ganhei muitos presentes da vida que não consigo mensurar o valor. Descobrir esse Golfinho em mim, foi um deles. Um encontro de almas. Umas das coisas mais incríveis que vivi até agora. Mas para completar a benção, ando de novo sonhando com uma coisa que quando acontecer, vou ter um treco: nadar com um golfinho de verdade. Lá em Fernando de Noronha. Já pensaram? Não ia ser nada mal hein?

Um dia eu ainda chego lá.