Adélia Prado tem uma frase que eu amo que diz assim:
“De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.”
Isso também acontece comigo e é muito estranho. Como se alma de repente se recolhesse e se negasse ao extraordinário. Tipo: cansei.
É bem assustador ser quem eu sou e não ver graça nas coisinhas miúdas do dia-a-dia. Porque eu não me reconheço. E me aguça ainda mais aquela velha sensação de que não sou daqui.
Dizem que é bom vez em quando recolher-se. Que a gente toma um fôlego desse mundo louco e se limpa um pouco de tanta informação, tanta história, tanta emoção.
Existir para mim não é fácil. Vejo as pessoas existindo por aí tão facilmente. Tirando a vida de letra. Adoraria ser assim. Mas eu não sou. Para mim viver é uma luta diária. De sumô. Porque eu amo existir mas acho tudo bem esquisito. As pessoas são esquisitas, o que eu sinto é esquisito, o nosso tempo é esquisito.
Talvez o maior problema de me recolher e ficar quietinha seja o fato d’eu parar de escrever quando me recolho. Isso é fatal. Porque as ideias – que estão lá dentro de mim vivas, loucas para serem escritas e elaboradas e sentidas – ficam presas e começam a fermentar.
Daí danou-se. É azia, é enxaqueca, é prisão de ventre. Ficar sem escrever é mofar por dentro.
Mas como escrever quando Deus me tira a poesia? Eu não sei não. Por isso vim aqui hoje. Na força do amor. Para ver se conseguia espremer alguma coisinha.
É inverno, mas eu saí para ver o sol. Agora é pôr as ideias para quarar no varal, bater um papo com o carinha lá de cima e ver o que acontece.
Hoje assinei o documento de transferência de venda do nosso carro. Não há mais volta. A Lady partiu para sempre. Uma sensação estranhíssima de vazio invadiu meu peito.
Como quem perde um amigo, um filme passou pela minha cabeça, desde a primeira vez que entrei naquele Ford Ká e resolvi comprá-lo de uma vizinha lá no Bosque.
Foi amor à primeira vista. Pelo vermelho do carro, pela potência do motor, pelos bancos de couro, pelo jeitão simpático da buzina, pela TVzinha que tinha no lugar do som.
A grande verdade é que a Lady foi muito mais do que um carro para mim. Ela foi uma amiga, uma companheira, uma babá, uma van escolar, um armário, uma sala de espera, um hotel, uma lanchonete. Um palco de infinitas gargalhadas, discussões, resoluções, trânsitos, experiências e vivências extraordinárias.
Se a Lady falasse, não contaria nenhum segredo nosso para ninguém. Porque ela foi fiel, foi honesta, foi guerreira. Mesmo sem dinheiro nenhum para cuidar dela, nunca me deixou na mão. Só andava no cheiro da gasolina e mesmo assim, resistia bravamente pelas ruas de Niterói. Pneu era só remold. Tudo bem. Meu namorado deve ter trocado uns 345 pneus que furaram nesses últimos anos, mas é a única coisa que eu poderia reclamar dela. Ah sim. Ela esquentava um pouco, mas quem não se esquenta com um trânsito dos infernos?
Eu já tive outros carros na minha vida. Tive dois Fiats 147 na época da juventude: a Chalana e o Osnar. Depois tive um Fusca Marrom quando casei. A Alcione. Um Palio cor de vinho, o Chili. E um Fiat Uno charmosíssimo. O Billy Ray. Mas nenhum desses carros deixou tanta saudade como a Lady hoje está deixando.
Vendi porque precisava vender. Porque tinha dívidas do carro, não tinha grana para manutenção, não tinha documento em dia, não tinha dinheiro para gasolina, não tinha seguro, enfim. Gente pobre não pode ter carro. Gente pobre anda de ônibus e de Uber no melhores dias do mês.
Mas eu não queria que esse dia passasse em branco sem homenagear minha brava e guerreira Lady.
Obrigada minha Charanga, por todo o transporte e apoio e chão que você nos deu nesses últimos anos. Que você seja e faça muito feliz a sua nova família. Te amamos.
A Covid chegou na minha casa exatamente 2 anos e 2 meses depois do início da pandemia.
Foram muitos meses sentindo um medo profundo e ao mesmo tempo essa benção dos Deuses por ter sido poupada da visita desse fantasma demoníaco do século XXI.
Mas ele chegou fraco e raquítico em nossos corpos, onde já habitavam fortes e ferozes, os nossos guerreiros Astra e Pfizer, protegendo firmemente nossas células e plaquetas.
Mas ainda assim ele chegou. Trazendo sua identidade e o peso de uma tragédia mundial nas costas.
Foram 10 dias de um mal estar esquisito, uma espécie de gripe com gosto amargo de morte. Eu cheguei a sentir uma falta de ar no peito que me levou à emergência do Niterói D’Or. Mas a falta de ar não era falta de ar: era o tal do motoqueiro fantasma que tinha levado meus amigos e amigos de tantos amigos. O vilão que destroçou um milhão de famílias pelo mundo, que exauriu nossos médicos, que nos fez envelhecer 20 anos em 2.
Já conto mais de 15 dias desde o meu primeiro sintoma e agora o que mais me impressiona são as tais das sequelas que esse desgraçado me deixou.
Não perdi o paladar nem o olfato e dou graças a Deus por isso, sendo a taurina que sou. Mas ficou no corpo um cansaço absurdo, ancestral, pesado e confuso. E o que eu achei que era uma dor muscular de uma velhinha de 95 anos com artrite e artrose, ontem descobri que era o início de uma herpes zoster na perna. Meu Deus.
Parece que tem sido comum essa catapora evoluída se desenvolver no pós-covid, mas vamos combinar, que provação divina esse outro vírus agora atacando meus nervos. Literalmente.
Sei que estou com a imunidade baixa. Exausta. E que as coisas da vida não andam nada coloridas. Mas caramba, fui no dicionário buscar o significado da palavra “sequela” e descobri que ela é a própria metáfora da vida.
“Uma alteração anatômica e funcional permanente sendo causada por uma doença ou um acidente”. Ou, a vida, como ela é.
Sequelas são cicatrizes. Aquilo que nos deixam marcas profundas. No fundo no fundo, a vida nada mais é do que uma coleção pitoresca de sequelas.
Porque viver deixa sequelas. Arriscar-se deixa sequelas. Amar deixa sequelas. Escolhas – acertadas ou não – deixam sequelas. Envelhecer deixa sequelas.
E eu confesso que estou exausta dessa luta da vida que parece não dar trégua desde aquele fatídico março de 2020.
Nunca deixei de ter esperança de que dias melhores viriam. Mas caramba. O que é que falta para gente viver esse ano?
Eleições?
Ah é.
Então… câmbio final, desligo. Volto em 2023. Se alguém perguntar por mim, diz que fui atrás do conselho de Manoel de Barros:
“Quando meus olhos estão sujos de civilização, cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves”
Demorei 48 anos para jogar a minha primeira partida de War.
Desde os tempos de jogadora inveterada de jogos de tabuleiro, War nunca foi minha escolha. Não via sentido nenhum no tal jogo malévolo e estrategista de conquista de territórios a qualquer preço.
Mas a galerinha estava aqui em casa num domingo de preguiça e o War foi o mais votado. Então me rendi. Literalmente.
Mas ontem, com essa invasão na Ucrânia, foi impossível não fazer uma analogia com todas as coisas que senti e pensei durante a partida.
Sempre gostei de história e geografia. Na época da escola, eram as únicas matérias que eu suportava assistir nas manhãs sonolentas da minha adolescência. Elas e literatura, claro.
Mas ontem, quando acordei com a notícia da invasão na Ucrânia, passei o resto do dia grudada com os olhos na Globo News, tentando desesperadamente entender o que se passava naquele lugar tão distante e tão próximo ao meu coração. Que parte das aulas eu perdi para não conseguir entender isso tudo que anda acontecendo no mundo?
É possível entender as motivações da guerra sem julgar as criaturas que estão no poder?
Como pode a humanidade, depois de dois anos de uma pandemia surreal, agora ter que passar por isso?
Onde é, na nossa mais profunda consciência de existência, que habita essa ânsia por poder?
Desde que o mundo é mundo essa insanidade assola as mentes humanas. Dê poder a alguém e você saberá quem é essa criatura de verdade.
Durante a partida, observava meus companheiros de jogo, mas só conseguia pensar em Hitler, Mussolini, Napoleão Bonaparte. Até em Pink e o Cérebro eu lembrei com aquele fatídico final de cada episódio:
– Cérebro, o que vamos fazer amanhã?
– O que fazemos todos os dias: tentar conquistar o mundo.
Ah gente, esse mundo não é o meu. Eu já tinha entrado numa crise existencial jogando Banco Imobiliário. Essa coisa de mensurar o sucesso por tudo que você conquistou “comprando” ou “adquirindo” não é para mim. Mas enquanto o pessoal se digladiava pelos territórios do mundo, eu seguia refletindo sobre a vida.
Quando eu era pequena, amava jogar na Janteca da minha Vó (Janteca = cômodo da casa de Terê onde ficava a sala de jantar junto à biblioteca) o jogo “Ladrões no Bosque”. Eram simples fazendeiros tentando levar as economias de suas fazendas ao banco da cidade. Mas a jornada era perigosa já que existiam ladrões por todo o bosque. Também amava jogar Detetive, me sentindo a Senhorita Rosa, suspeita de matar no Salão de Jogos, mas no fundo apaixonada pelo Coronel Mostarda, sonhando intrigas e crimes na cozinha, entre facas e candelabros.
Jogos de tabuleiro na minha adolescência eram um campo de imaginação absoluta. Não só pelo jogo ou para tentar ganhar, mas para viver a experiência na nossa imaginação. Por isso nunca joguei War. Qual a graça da guerra?
A equipe da Globo News é danada. Aprendi muito ontem sobre as questões geopolíticas em relação à Ucrânia e Rússia e OTAN. Mas Clara também me explicou um monte de coisas que eu não sabia. Ela tenta me explicar que toda a história tem dois lados. E que não é possível julgar sem conhecer profundamente a história de um povo. Que filha mais esperta! E assim, passei o dia tentando entender essa loucura que tá acontecendo desde ontem. Um quebra-cabeça complexo e muito mais sério que a gente aqui pode supor. As guerras sempre judiaram do mundo. Mas agora, uma terceira guerra mundial não maltrataria a humanidade. Aniquilaria com ela.
Fico com a reflexão de Mujica, ex-presidente do Uruguai, que recebi ontem pelo WhatsApp, que me emocionou muito:
“Não será possível, de alguma forma, melhorar um pouco o termo medieval da nossa humanidade? Será possível que a humanidade do futuro nos permita abandonar os orçamentos militares, a loucura da guerra? Será possível que não possamos diminuir um pouco a parcela do egoísmo? Não será possível recriar uma humanidade um pouco melhor? Porque afinal qual o sentido do avanço tecnológico se do ponto de vista dos conteúdos da vida humana, permanecemos estagnados, polidos pelo egoísmo, com uma enorme falta de empatia por quem nos acompanha na vida, onde seguimos prisioneiros de uma civilização que eternamente confunde ser com ter? Qual o sentido do engasgamento que estamos sentindo, com o que pode ou não pode passar na Ucrânia?”
Engasgamento. Essa foi uma metáfora perfeita definida por Mujica do que senti na manhã de ontem quando liguei a TV.
Mas com toda sinceridade que habita meu coração: se o que passamos na pandemia não transformou nossa forma de pensar, isso significa que ainda estamos muito longe de sairmos da pré-história. Com a desvantagem que hoje não lutamos mais com lanças e pedras, mas sim, com armas nucleares devastadoras que destruiria toda a humanidade em segundos.
É. Talvez fosse o caso de começar tudo de novo. Para ver se dessa vez a gente consegue ser um pouco menos medíocre.
Tenho pensado em tantos projetos incríveis que rondam minha cabeça.
Mas o máximo que tenho conseguido fazer é um arroz com feijão com um legume e uma farofa, tirar o lixo e passar uma vassoura na casa.
Tenho planejado escrever pelo menos metade do meu livro até o fim do ano. Minha biografia. O livro tão sonhado.
Mas o máximo que tenho conseguido fazer é rabiscar umas frases no caderninho da cabeceira, dar conta da roupa suja e ir ao supermercado.
Está na lista o curso de meditação, começar a yoga, caminhar no condomínio. Até voltar a pensar na minha tão amada dança de salão.
Mas o máximo que tenho conseguido fazer é acender um incenso no fim do dia, tomar um Torsilax para a lombar e me alongar um pouco no chuveiro.
Tenho idealizado muito as viagens e as aventuras que quero fazer antes dos 50 anos. São tantos lugares para ir. Tantas coisas diferentes para viver!
Mas o máximo que tenho conseguido fazer é almoçar na Barra da Tijuca no fim de semana, caminhar no Muriqui e tomar um sorvete em São Francisco.
Tenho sonhado muito em encontrar equilíbrio. Achar o sentido da vida, o propósito da minha existência e o porquê de estarmos aqui.
Mas o máximo que tenho conseguido fazer é olhar o céu com devoção todos os dias, agradecer por estar viva e sobreviver. Ah! E escrever umas crônicas de vez em quando. Como essa aqui.
No poste em frente a varanda, tinham feito sua casinha de barro lá no alto, para poder ter a melhor vista do Bosque.
Eu dava bom dia para eles todos os dias. Era um casalzinho simpático. Estavam sempre atarefados e costumavam cantar alto durante as manhãs de sol.
Fomos criando um vínculo, desses elos estranhos que a gente vai fazendo ao longo da vida com algumas criaturas desse mundo.
João e Maria pareciam um casal feliz. Dizem que é uma espécie monogâmica e que podem ficar juntos até quase quinze anos de vida. Isso que é um casamento bem-sucedido. Existe uma lenda de que o macho prende a fêmea na casinha se ela faz algo de errado, mas acho muito improvável. Esses julgamentos de certo e errado são demasiadamente humanos para as leis da natureza. Enfim, pesquisei e não tinha nada de concreto sobre isso na internet.
Pois bem.
Hoje de manhã acordei e fui para varanda ver o tempo. Costumo fazer isso quando acordo, para agradecer a benção de mais um dia e ver se está sol, nublado ou chovendo. Cada tipo de tempo requer uma energia da gente. Não dá para ficar triste num dia explosivamente ensolarado. Já um dia chuvoso, há menos exigência de felicidade e expansão. Mas voltando aos passarinhos. Quando olhei para o canto esquerdo da varanda, para dar bom dia aos meus amigos, estranhei ver alguma coisa pendurada na casinha de barro. Olhei de um lado, olhei do outro e pensei:
– Ué, por que o João está pendurado na porta de casa?
Corri para o quarto da Clara, de onde temos uma visão melhor da casinha de barro.
Qual não foi o meu choque quando me deparei com uma das cenas mais tristes que já vi.
João morto, pendurado por uma das asas em uns galhos e umas poeiras, que saiam da porta da casa e Maria ao seu lado, imóvel, cantando.
Não consegui acreditar.
O que será que poderia ter acontecido com aquela pobre criatura durante a madrugada?
Teria ele levado um choque nos fios de alta tensão? Ou um predador o teria atacado no meio da noite? Teria Maria assistido a cena dramática da morte de seu companheiro?
Impossível saber.
A verdade é que uma tristeza sem fim nos invadiu aqui em casa e a sensação é de estarmos de luto.
Estou só aguardando um vento mais forte soltar o corpinho do meu compadre para ir buscá-lo lá embaixo e dar-lhe um enterro digno e poético. O enterro que merecem esses seres mágicos.
Queria poder dizer a Maria que sinto muito por sua perda, mas ela parece perdida. Vai e volta para porta de casa, olha João ali e sai voando de novo, como quem não sabe o que fazer sem seu companheiro de vida.
Que a vida é efêmera eu já sabia.
Só não sabia que podia amar um bichinho assim como amei esse João de Barro.
Que ele siga em paz pelo Caminho Azul e voe livre pelo céu dos passarinhos.
Ontem encontrei no computador um arquivo de fotos antigas das meninas. Um que eu não via há muitos anos. Foi um choque. Chorei tão sentida que fui dormir estragada.
A experiência de ser mãe nessa vida para mim, tem sido um desafio indescritível. Em todos os níveis, em todos os sentidos, em todas as camadas do meu ser.
Quando Clara chegou há 18 anos atrás, aconteceu uma coisa estranhíssima. Eu achei que ia morrer. Eu olhava aquele bebê e achava que não ia suportar o amor que tinha invadido meu peito. Que ia explodir de tanto amor. Engraçado né, mas eu lembro dessa sensação avassaladora como se fosse hoje.
Quando Catarina chegou, quatro anos depois, eu já sabia que não ia morrer. Sabia que aquele amor cabia dentro de mim. Mas mesmo assim, eu morri. E de novo não acreditava o que aquele serzinho gorduchinho podia fazer com o meu coração.
Foram anos completamente entregues a aquele amor. Tive a sorte de poder cuidar das minhas pequenas de perto. Acompanhar cada passo, cada mudança, cada transformação que acontecia no corpo e na alminha delas.
Mas ontem, quando encontrei aquelas fotos e aqueles vídeos delas pequenininhas, me dei conta de uma coisa muito estranha: nossos filhos vão crescendo, amadurecendo, se transformando e isso é maravilhoso.
Mas ao longo desse processo a gente vai perdendo os filhos das idades que vão passando. Eu sei que a Clarinha de 5 anos habita na Clara de 18. Mas aquela criança de maria-chiquinha, de pijaminha de urso, maquiada de gatinha, dançando Saltimbancos Trapalhões, não existe mais. Pelo menos não fisicamente.
Quando eu descobri isso, chorei um luto estranhíssimo.
Eu sei que é uma loucura isso que eu tô falando. Que parece uma bobagem que não tem tamanho. Mas a constatação disso ontem me deixou muito triste. E com certeza deve ter umas mãezinhas por aí que já devem ter sentido isso.
Achei um vídeo da Catarina dela de cabelinho Chanel, franjinha e sem os dentes da frente que eu fiquei quase louca. Nessa época ela fazia muitos vídeos no celular. Tipo uns vlogs. Onde ela começava o vídeo dizendo: “Oi gente. Meu nome é Catarina e eu tenho 6 anos. Bem-vindos a mais um Coisas da Vida.” E ela fazia uns closes na cara engraçadíssimos e andava pela casa da avó mostrando os cômodos e as coisas que estavam acontecendo por lá.
Olho para minha Catita de hoje, de 14 anos e vejo uma menina linda, doce, companheira, maravilhosa, adolescendo lindamente. Sei que aquela banguela está lá dentro dela… eu sei que está. Mas aquela menininha, com aquele tamaninho, eu não posso mais abraçar. Nem colocar no colo. E isso me dá uma saudade que dói.
Clara está virando uma mulher. Linda, engajada, militante, artista. Quer fazer cinema na UFF e mudar o mundo com isso. É uma grande amiga. Aliás as duas são. O que construímos juntas não tem preço.
Filho é amor que dói. É o nosso coração batendo em outros peitos. É um pedaço da gente que se foi em outro corpo.
Eu jamais poderia ter passado por essa vida sem ter vivido a experiência de ser mãe. Mesmo que não pudesse ter tido filhos do ventre, eu certamente teria adotado. Maternidade é uma coisa que a gente nasce com. Ou não. É uma coisa instintiva que você tem ou não tem. E tudo certo. Mas no meu caso especialmente… caramba… esse instinto veio atropelando. Acho que eu poderia ter tido mais uns cinco filhos que a cada um, eu ia sempre achar que ia morrer de amor.
Essa fase agora da adolescência é um desafio. A gente ouve falar, mas não imagina o que vai enfrentar. Cada dia é uma luta. Cada dia um aprendizado diferente. Horas amando incondicionalmente, horas querendo esganar. É preciso muita paciência. Paciência e muita conversa.
Eu tenho saudade de trocar fraldinha. De sentir aquele cheiro delicioso do cocô amarelinho de leite. De dar banho na banheira com água morninha e sabonete Granado. Secar o corpinho macio e cheiroso nas toalhas felpudas com gorro. Dar de mamar. Dar papinha de maçã. Ouvir a gargalhada das minhas gorduchinhas enquanto eu secava os dedinhos do pé. Eu tenho muita saudade de quando elas cabiam nos meus braços. E a gente adormecia junto na cama de tarde.
Que elas não me ouçam pelo amor de Deus, mas acho que eu não vejo a hora de virar vovó.
Quando minha irmã morou em Teresópolis uns anos atrás, a coisa que eu mais lembro era de passar o fim de semana toda empanturrada.
Os cafés da manhã eram fartos, lindos e cheirosos. Comíamos com a mesma satisfação de quem come café da manhã de hotel. Uma alegria! Depois, ainda tirando a mesa do café já começava a função do almoço. Era um acontecimento a família toda reunida para cozinhar. Tinha música, cervejinha gelada, amendoim, gargalhada. Depois do almoço uma soneca na rede, uma biribinha, uma pausa daquelas incríveis que os finais de semana nos permitem sem culpa. O fim da tarde vinha chegando e com ele, claro, a hora do café. Um bolinho, um biscoitinho, uma torradinha talvez. Eu nem tinha digerido o almoço direito e já tava me enchendo de pão com geléia.
Durante o café da tarde se discutia qual seria o lanche: wafflles, pizza ou uma sopinha mais leve? Mesmo que fosse a sopinha, ela não vinha sem pães de queijo, pastinhas, broas e croissants. Era uma orgia gastronômica.
Lembrei disso essa semana porque nos últimos meses eu tenho me sentido assim empanturrada. Não de comida. Mas de vida.
São tantas vivências, notícias, preocupações que a impressão que me dá é que num dia de 24 horas eu nunca consigo digerir nem metade das coisas que coloquei para dentro. Tipo aquela sensação de quem acabou de sair de uma churrascaria.
Drummond já dizia que “a vida necessita de pausas”. Mas com a vida apressada que a gente tem levado quem tem tempo para dar um tempo? Ninguém.
E aí vem a sensação de empanzinamento. Caramba. Até a palavra é indigesta. Não sei se você se sente assim, leitor. Mas de uns tempos para cá, eu venho desejando um sal de fruta mágico para dar conta da vida pós-pandemia. A gente coloca coisas demais para dentro e não tem nenhuma estrutura emocional para dar conta de absorver tanta coisa.
Minha terapeuta costumava dizer que as vivências precisam de tempo para ser integradas. Qualquer que seja a experiência, a gente não consegue assimilar nada de uma hora para outra. E mesmo as noites, que dividem os dias, não são tempo suficiente para nenhuma digestão. Claro né. Com a cabeça cheia, quem consegue ter uma noite restauradora de sono? Ninguém.
Outro dia uma amiga tentou salvar um passarinho-bebê de ser atropelado. Parou o trânsito, fez mil manobras numa rua super agitada, mobilizou toda sua energia para no final, ter que assistir uma pessoa louca de pressa, furar todos os bloqueios e esmigalhar o pobre bichinho bem na sua frente. Ela ficou destruída. Estragada para o resto do dia, que estava apenas começando. Uma vivência assim, como tantas outras que a gente tem vivido, precisa de um tempo para assentar na alma.
Eu ando suspirando muito. Acho que é essa tentativa de colocar a alma no lugar. Trazer ar para um corpo que anda sufocado. Um corpo que anda amedrontado que falte ar. Que falte sorte. Que falte leito. Que falte vacina. Que falte compaixão. Que falte vergonha na cara desses governantes. Que falte dinheiro. Que falte esperança. Que falte, sobretudo, força e coragem para a gente enfrentar tudo que precisa enfrentar, todos os dias, quando abre os olhos de manhã.
Alguém aí conhece uma solução para isso? Algum Sonrisal milagroso que ajude o corpo e a alma a dar conta de tanto sapo engolido? Sapo, tristeza e dureza?
Eu passei praticamente a vida toda resistindo a eles.
Na adolescência não sabia que eles existiam. Mas se soubesse com certeza teria me rendido. Naquela época eu não fazia ideia do que tinha, mas o que tinha, era bem sofrido.
No período da faculdade, presenciei um assalto a um carro-forte, onde todos os policiais foram metralhados na minha frente. Daquele dia em diante, não só sofri de ansiedade como desenvolvi uma síndrome de pânico dificílima.
Depois veio a gravidez, que apesar de ter sido a mais esplêndida experiência da minha existência, me levou diretamente à uma depressão pós-parto.
Aí veio a separação, quando eu me vi sozinha no mundo com duas meninas para criar. Era uma menina cuidando de duas meninas.
Mas a vida foi correndo. Como um rio que corre depressa, apesar das pedras e galhos que encontra pela frente. E com muito amor da família e dos amigos, eu acabei conseguindo vencer um a um dos desafios que a vida me trouxe.
Até chegar a pandemia.
Quando a gente celebrou o ano novo de 2019 para 2020 não fazia ideia do que nos esperava pela frente. Mas a verdade é que um trator passou na vida de cada um. E apesar de me achar bem forte durante todo o processo, 2021 chegou me trazendo outro presente de grego: pressão alta.
E é aquela coisa de sempre: a alma a gente até consegue enganar, mas o corpo não. E como uma panela de pressão prestes a explodir, meu corpo foi dando indício que ia pifar.
Procurei um cardiologista. Fiz um monte de exames. Por incrível que pareça, o coração e as artérias estavam bem. Mas algo dentro de mim pulsava como uma bomba relógio. Foi quando ele falou: você não vai morrer de infarto, mas eu queria te alertar que ansiedade também mata.
E me prescreveu aquilo que eu tinha passado a vida fugindo: antidepressivos.
Titubeei.
Poxa. Passei a vida sobrevivendo a todos os tsunamis que a vida tinha me trazido! Será possível que agora eu não ia conseguir segurar a onda?
Mas essa dúvida encobria um medo enorme. E se eu começar a tomar esse troço e nunca mais conseguir me livrar disso?
Luto tão bravamente contra tantas adicções. Dizer sim a essa coisinha milagrosa nessa altura do campeonato, me parecia jogar a toalha antes da hora.
Conversei com algumas pessoas, pesquisei um monte na internet. Meditei sobre o assunto e o veredicto final foi me render. E já que eu ia começar o tratamento, passei a ver a coisinha como um amigo que estava entrando na minha vida para me dar o colo que eu precisava. Sem dinheiro para fazer terapia, sem perspectiva de mudança de governo, sem conseguir controlar o sangue que fervia de nervoso, eu realmente não tinha escolha.
E agora, passados dois meses de medicação, uma coisa estranhíssima está acontecendo. Não é ruim nem bom. É só estranho. Tenho sentido a vida como se tivesse sido anestesiada. As coisas me afetam, mas não profundamente. Eu choro, mas sem me despedaçar. Eu sofro, mas sem querer cortar os pulsos. Eu sinto, mas não me desespero.
Será que isso é bom?
A imagem que me vem à cabeça é de me ver sentada, num trem em movimento, olhando a vida passar pela janela. E eu não sei se eu tô gostando disso, gente. Tá esquisito.
Se essa anestesia me poupar de sofrimento, tudo bem. Mas e se ela me poupar de mim mesma? Me poupar de ser eu, com todas as esquisitices que me habitam? E se eu não conseguir mais sentir como sentia? E se eu não conseguir mais escrever?
Entre aí pela musculatura do meu braço gordinho e fique à vontade de se espalhar por todas as veias e vielas do meu corpo! Eu te recebo com imensa gratidão. Nem acredito que finalmente estamos nos conhecendo.
Sei que por onde a senhora entrou vai ficar dolorido, mas não se preocupe que já tenho aqui arnica ou o velho e bom Vick Vaporub para massagear o local.
Pensar que veio de tão longe, não é? Oxford se não me engano. Acho chiquérrimo. Depois passou uma temporada com o pessoal da Fiocruz para dar uma garibada no visual que eu estou sabendo. Ô povo mais esforçado para nos salvar Dona AstraZeneca. Emocionante de ver… nem sei como agradecer. A eles e a todos os laboratórios do mundo que correram contra o tempo e a ciência para tentar encontrar uma solução para essa pandemia louca que nos enfiamos.
Mas é isso aí.
Espalhe esse coitado do Coronavírus por todos os cantos do meu corpo que o esquadrão antibomba já está a postos para treinar o pessoal.
Diga a ele que eu sinto muitíssimo por sua triste existência, mas não que não há como perdoá-lo depois de tudo que ele fez. Imagino que ele não tenha feito por mal. Dizem os espiritualistas que essa doença chegou para nós para uma expansão de consciência da humanidade. Mas fica difícil de explicar isso para as milhões de famílias do mundo que perderam seus amores. É uma situação muito delicada, a senhora entende.
Mas siga aí sua digna tarefa de espalhar esses bichinhos pelo meu corpo que eu sei que a guerra entre eles e os meus anticorpos não será fácil. Mas estou aqui a postos para toda e qualquer luta.
Estou preparada para as reações que eu sei que a senhora vai provocar. Eu não ligo. Acolho com alegria a dor de cabeça, a febre, os calafrios e a dor no corpo que virá. Para cada uma delas tenho um remedinho de prontidão. Só não há remédio para morte Dona AstraZeneca. Para a morte e para o medo que invadiu nossas vidas há exatos 15 meses. Por isso a senhora e as outras vacinas que estão sendo produzidas pelo mundo são tão importantes nesse momento. Porque são nossa única defesa.
Eu não sei se a senhora está acompanhando a situação do Brasil, mas a coisa por aqui está gravíssima. Nosso governante é um homem completamente louco e traçou para o Brasil uma necropolitica assustadora. Ele acha mesmo que pode decidir quem vive e quem morre por aqui. Ele, a senhora sabe quem, é um lunático e está sendo chamado por muitos de genocida. Faz ideia da gravidade disso? Parece coisa de filme da Marvel. Ele, a Capitã Cloroquina e outros personagens sinistros são no momento nossos arquinimigos. Se a pandemia já era assustadora para o planeta, aqui no Brasil o que temos vivido é um verdadeiro pesadelo. Ele foi contra a compra de vacinas até muito pouco tempo e só Deus sabe como estamos fazendo para sobreviver a esse Voldemort brasileiro. Temos tanto horror ao capiroto que nem gostamos de mencionar o nome dele.
Mas enfim, não quero mais atrapalhar seu trabalho. Cuide bem aí da minha patrulha e me ajude a ficar bem forte para caso do Coronga me aparecer de algum espirro alheio. Sabe que aqui o povo ainda resiste à máscara e ao distanciamento. É um povo que precisa ser estudado Dona AstraZeneca. A senhora nem imagina.
Mas é com imensa gratidão que me despeço. Desde já agradeço por todo o trabalho que está desenvolvendo.
Lembranças ao pessoal de Oxford.
Abraços calorosos,
Tatiana Monteiro – do distante e bucólico Condado de Pendotiba