Nos tempos que a gente saia para dançar

Dizem que os cronistas são profundamente nostálgicos.

Não sei quem inventou essa teoria, mas está coberto de razão.

É um complexo “Meia-noite em Paris” incontrolável.

Um desejo constante de voltar no tempo para viver certas coisas que nunca mais se ouviu falar.

Como sair para dançar, por exemplo.

Outro dia me peguei tentando explicar para as meninas o que significava “sair para dançar” na minha juventude.

(acho que chamar o passado de juventude já é uma dica do meu jeitão saudosista, mas tudo bem)

Elas simplesmente não conseguiram imaginar o que seria esse programa.

Há muito tempo, quando o mundo ainda parecia normal – outro dia mesmo – e a gente queria sair para se divertir, quais eram as opções? Um restaurante, um barzinho com música ao vivo? Com sorte uma festinha de amigos?

Nos meus tempos de gatinha, o programa era sair para dançar. 

A gente até parava antes em algum barzinho para tomar umas biritas, mas o maior objetivo da noite era ir para uma boate para dançar. Arrasar nos passinhos ou “abrir as asas para cair na gandaia”. Ah gente. Que maravilha que foram os anos 80 e 90. Parece que tudo aquilo aconteceu há um século. Eram outros tempos, eu sei. Mas a impressão que me dá é que em três décadas o mundo mudou completamente.

Comecei a vida indo a matinês. Circus. Help. Depois cresci e comecei a frequentar os lugares mais descolados da noite carioca. Numa época que não existia celular, ir ao Wells Fargo e poder paquerar com a mesa ao lado através de um telefone instalado na mesa era uma coisa extraordinária. Quem lembra do banho de espuma que rolava no fim da noite na Zoom em São Conrado? Gente, a boate derramava um banho de espuma na pista de dança para encerrar a noite. Vocês entenderam? Depois teve a fase de dançar lambada no Hipopotamus. Ser expulso duas da manhã da boate do Piraquê. Correr atrás dos shows da Rio Sound Machine onde eles estivessem tocando: Ballroom, Jazzmania, Mostarda, Mistura Fina. Nossa Senhora. Showzinho da Rio Sound era o auge naquela época. Ainda teve a fase de ir dançar Black Music na Public. e Co na Pacheco Leão, numa noite surreal comandada pelo Gustavo Corsi, guitarrista da Rio Sound, que fazia tremer o Jardim Botânico. A gente voltava para casa amanhecendo sem sapato, com a alma lavada, de tanto dançar. 

Isso não existe mais. A galerinha que quer dançar hoje só tem duas opções: ou eles vão para o baile funk. Ou para alguma boate dançar… funk. 

Tá, eu sei que de vez em quando rolam umas festinhas com um ar de “anos 80”, tipo festa PLOC ou festa do Flashback, mas não é a mesma coisa. Minha irmã diz que tem uns bailinhos de charme na zona norte do Rio maravilhosos, mas eu nunca fui. Um pouco de preguicinha talvez. Ou eu estou ficando velha mesmo.

A última vez que me acabei de dançar foi na minha festa de 45 anos. Os amiguinhos das meninas ficaram chocados como eu não saia da pista. Meus amigos também se acabaram. No dia seguinte eu não conseguia levantar. Só depois de dois Dorflex e muita bolsa de água quente na lombar e um escalda pés nas bolhas do joanete.

É pessoal, acho que eu estou mesmo com saudades de me sentir jovem. Jovem não, porque não troco minha vida de hoje nem por 15 minutos da juventude. Mas a alegria e a descontração de alma que a gente tinha naqueles tempos, não tinha igual.

É ou não é verdade?

Eu só sei sentir

Acho essa frase um soco na boca do estômago, mas ela me faz pensar.

Outro dia, desesperada com as contas para pagar, eu subi no terraço e fui olhar o céu para ver se me acalmava. Naquele exato momento, o sol estava se pondo e as cores do céu estavam explodindo nuns laranjas misturados com uns violetas. Tinha umas nuvens carregadas de branco e um cinza chumbo, porque estava armando uma chuva daquelas de fim de tarde. Tudo aquilo parecia uma enorme e deslumbrante tela abstrata que Deus tinha acabado de pintar. Fui tomada por uma emoção indescritível. Tive vontade de chorar, de gritar, de chamar as meninas, de tirar uma foto ou me sentar ali mesmo com um bloquinho e uma caneta para ver se eu conseguia traduzir em palavras o que eu estava vendo.

Dinheiro para pagar as contas eu não tinha.

Mas tinha um céu inteiro explodindo em cores na minha frente. Só para mim.

Depois que a coisa passou eu pensei:

“Como é que pode um pôr-do-sol me fazer sentir tantas coisas?”

Foi quando um pensamento me invadiu: porque eu só sei sentir. Aliás, sentir é o que sei fazer de melhor nessa vida. Sentir e eternamente tentar traduzir aquilo que sinto. Ia ser bem legal se um dia alguém me oferecesse um emprego só para sentir.

Porque se eu não valho pelo que sou nem pelo que tenho e sim para o que sirvo, eu sirvo para sentir. Isso devia existir no mundo!

Já imaginaram? Eu preenchendo uma ficha de cadastro? Profissão: SENTIR.

Tem um provérbio xamânico muito lindo que diz:

Sinto, logo compreendo.

Esse é o meu lance com a vida.

Talvez por isso não seja considerada pelo mundo como uma pessoa de sucesso. Não sou conhecida, não sou bem-sucedida profissionalmente, quase não consigo pagar minhas contas, não tenho casa própria, não acumulei propriedades nem bens.

Mas sei sentir as coisas mais extraordinárias e inexplicáveis que um ser humano já sentiu. Isso deve ter seu valor, não?

Em algum mundo deve ter. Só não descobri qual.

Borbulhei

Tudo começou na necessidade desesperada de expressão. Essa que me habita desde que me reconheci como escritora. Que borbulha, borbulha, mas nunca têm onde derramar.

Aí veio a cria, que fez dezoito, virou mulher e me chamou na chincha:

– Mãe, se escrever é a tua vida, tá na hora de buscar um lugar para se mostrar para o mundo. O seu site é lindo, mas se não tiver uma ponte para as pessoas atravessarem, elas não vão encontrar o caminho.

“Meudeusdoceu” eu pensei, a gente coloca as criaturas no mundo e elas que nos criam.

“Tá bem” concordei. Mas eu não sabia muito como fazer. Ela continuou.

– Abre um espaço para você escrever todos os dias. Não só para os seus amigos. Mas para o mundo. Pensa num jeito que só você faria. Com a tua letra. Tua energia.

Aí eu mergulhei lá no fundo e descobri que queria criar uma página que pudesse nadar nas palavras, nas cores, nas miudezas e em tudo aquilo de poesia que eu via no mundo.

Então, lá fui eu. Começando mergulhada no vermelho do meu sangue, na paixão por escrever e nessa alma esquisita e deliciosa que Deus me deu. Sejam bem-vindos ao universo de ONDE HABITA MINHA ALMA, agora também no Instagram!

Chico

Quando ele chegou nas nossas vidas, era só um bola de pelo dourada. Um protótipo perfeito da perfeição canina.

Ele chegou e deixou a gente naquele estado letárgico que nos deixam qualquer filhote, de qualquer espécie de animal. Quando ficamos por horas observando as cambalhotas, os puns e os latidinhos, querendo desmaiar de amor com tudo que fazem. Filhote é um artifício que a natureza inventou para preservação da espécie. Só pode ser. Como eles são insuportavelmente lindos, a gente faz qualquer coisa por eles.

Foi nessa armadilha que a gente caiu, quando Clara encontrou o Chico nos jardins da UFF, sozinho, perdido e tristinho. Ela me ligou de vídeo e claro, eu disse sim.

Desses momentos cruciais da vida, que um “sim” ou um “não” podem transformar toda uma existência.

Então.

Foi nesse sim, assim, que Chico chegou ao nosso apartamento em São Francisco em novembro de 2022. Enrolado num paninho sujo, com os olhinhos cheios de remela, precisando desesperadamente de um lar.

Eu já tinha tido três experiências com cachorros. A primeira foi com a Tatá. Uma vira-latinha da minha infância que por muito tempo foi chamado de Totó até que um dia percebemos que o que ele tinha entre as pernas não era um pinto, e sim uma perereca.

As outras duas experiências foram traumáticas, porque quisemos ter os cachorros e depois não demos conta de cuidá-los. O primeiro foi o Toddy, um boxer branco gigante que não conseguimos criar e foi doado para uma pessoa que morava num sítio. Certamente foi feliz. E o outro foi o Woody, um schnauzer com cara de lorde inglês que chegou no mesmo ano que a Clara começou a engatinhar. Não foi possível na época, coordenar minha loucura com limpeza junto de um cachorro que fazia xixi e coco por todos os cantinhos do apartamento. Mas tudo bem. Eu já me perdoei por isso.

Mas Chico tinha chegado para ficar.

Fizemos todos uma promessa de que ele ficaria conosco até velhinho. Que superaríamos todas as diversidades para ficar com ele. E no início tudo foi lindo. Claro que ele comeu umas meias, quebrou coisas importantes, mastigou outras tantas que eu amava. Mas ele era filhote e tudo valia a pena por aqueles olhinhos pidões.

Mas Chico foi crescendo, crescendo. E crescendo. E de repente eu me dei conta que aquela fofurinha tinha virado um Gigante Cão Caramelo. A primeira vez que ele tomou uma vacina, o rapaz falou:

– Esse daí tem cruza de Fila.

– Como é que é, meu senhor?

– É! Vira-lata mas tem Fila-Brasileiro no sangue.

Eu voltei para casa e fui pesquisar na internet. Cara de um, focinho do outro. De repente minha vida tinha virado um filme. Eu tinha um desses Caramelos que viraliza no Instagram, meio Scooby Doo, meio Marley. Que legal.

A verdade é que Chico veio para nos ensinar sobre muitas coisas. Paciência. Desapego. Resiliência. Mas, sobretudo, sobre o amor. Cachorros são os maiores professores de amor que existem na natureza. São seres de luz. Talvez até tenham vindo de outras galáxias nos primórdios da humanidade, como sugerem os antigos astronautas.

Porque ele me enlouquece, mas fala com os olhos. É um pentelho, mas me lambe de beijos. Não pára de pedir comida, mas eu também não. Late muito alto, mas entende tudo que a gente fala. De vez em quando faz mal criação. Mas vira a cabecinha de lado quando não entende. Pula na gente, arranha a gente, morde a gente. Mas nos defende de todo e qualquer perigo na rua. E é absolutamente feliz com a ração mediana que damos para ele, com o ossinho que a gente traz de vez em quando e com o potinho de sorvete dele que está sempre cheio de água fresquinha. Fora isso, sai para passear três vezes por dia.

Outro dia perguntei à veterinária dele, Julia Brasileiro, que é amiga de infância da Clara

(que aliás é uma indicação que quero deixar aqui registrada com estrelinhas piscando: obrigada Julia, pelo carinho e competência que cuida do nosso Chicote!)

…se mesmo morando num espaço tão pequeno, ele podia ser feliz. Ela respondeu sorrindo:

– Tia Tati, se o Chico estiver com vocês, ele vai estar feliz. Onde quer que seja.

Eu sei que precisamos contratar um adestrador. Sei que ele não pode ficar tomando calmante para sempre, sei que precisa de um quintal. Mas sei, sobretudo, que estamos fazendo o nosso melhor por ele. Então, que Chico siga conosco, nos bons e maus momentos. Porque ele é um cão, mas a vida é como ela é.

Queria terminar minha crônica de hoje prestando minha profunda solidariedade ao João Fantazzini, tutor do Joca, que ainda está de luto pela perda irreparável que viveu. Minha solidariedade à Roseana Murray, que mesmo tendo sido atacada violentamente por aqueles cachorros da sua vizinhança, iluminou a todos com sua sabedoria de vida e poesia. E por fim, queria prestar minha solidariedade às alminhas daqueles mesmos cachorros que atacaram a poetisa.

Eles com certeza não foram criados com amor, nem com afeto e nem com cuidado nenhum. Que criatura viva que não teve amor, não pode tornar-se um perigo para sociedade?

Qualquer uma.

Manoel de Barros

Resolvi estudar Manoel de Barros.

Como quem escolhe uma universidade e faz o ENEM para BioMedicina ou Letras, resolvi pegar uma antologia do Manoel de Barros e estudar suas poesias como quem estuda a anatomia de uma alma.

Manoel se chamava de “serzinho mal resolvido, igual filhote de gafanhoto”. Venho sentindo que para estudá-lo é preciso bem mais do que um lápis e um dicionário. É preciso bem mais do que cultura e domínio da língua. Para estudar Manoel é preciso ter muito perto do coração, a criança que fomos um dia.

É preciso ser simples e ter a coragem de olhar o avesso. O inverso. O contrário.

É preciso ler frase a frase, fechar os olhos e repetir as palavras ao vento só para ver onde elas nos levam.

Nada é óbvio na poesia dele. Apesar da simplicidade. Nada é rebuscado. Apesar das palavras difíceis. Nada é o que parece ser. Apesar da transparência. E o melhor: não há nele uma nesguinha de metidez. Em sua obra mora um ingenuidade que dá na gente vontade de chorar.

Passo o tempo todo comigo mesma brincando de formar imagem com as poesias que ele cria. E acho que era isso mesmo que ele queria. Que a gente lesse e estranhasse. Só para ter o prazer de dar risada da gente.

Sinto Manoel assim: rindo de mim lá do outro lado do rio. Muito danado.

Eu acho que eu to apaixonada.

E me apaixono mais e mais a cada página estudada.

O segredo para ler Manoel de Barros está na subjetividade e na verdade da alma de cada um. E é isso que me fascina. Se a gente não souber criancês, não vai conseguir nunca acessar o menino das formigas, das árvores, do sol e do rio.

Esse menino também sou eu.

Eu que fui menina do mato, dos girinos, das joaninhas, das amoras selvagens, das chuvinhas tristes de Teresópolis.

O menino me atravessa.

E foi assim me atravessando, que eu descobri que somos feitos do mesmo barro, da mesma matéria. Crianças sempre em busca daquele lugar perdido onde se faz transfusão de natureza e onde tudo faz sentido.

Se eu quero virar PhD em Manoel de Barros? Quero não.

Mas quero que ele venha me buscar quando eu morrer. Nem que seja como gafanhoto.

Luz

Existem dois tipos de pessoas no mundo que por apenas uma ação já dizem quem são: as que usam lâmpada branca e as que usam lâmpada amarela.

Não sei como algo tão simples pode falar tão profundamente de alguém, mas isso é fato.

Caminhando esses dias pelas ruas do Ingá, me peguei observando as janelas dos apartamentos com a curiosidade de sempre que me assolam essas paisagens.

Mas ao observar as vidas vividas nas casas com luz branca, cheguei à conclusão que essas pessoas certamente têm um outro tipo de sangue correndo nas veias. Não é possível.

Se alguém entra numa loja e faz a escolha consciente de comprar uma lâmpada branca para colocar na sala de sua casa, isso significa que ela é feita de um outro material completamente diferente do meu. E claro, das pessoas que moram nas janelinhas aconchegantes do prédio do Ingá também.

Escolher o tipo de luz que vai nos iluminar quando o sol se põe, fala muito de nós.

Lá nos primórdios da humanidade, quando anoitecia, a única coisa que nos trazia alguma luz era a Lua. Depois, uma santa criatura descobriu o fogo e daí surgiram as fogueiras que devem ter mudado radicalmente a convivência humana.

Muito tempo depois vieram os lampiões, movidos à luz de velas de sebo e gordura. Que cá para nós, devia dar um toque cinematográfico à existência.

Um belo dia, numa tarde provavelmente inspiradíssima, Thomas inventou a lâmpada elétrica. Mais precisamente no dia 21 de outubro de 1879. Gente! Imagina só a revolução que deve ter sido esse dia na vida das pessoas!

Mas voltando ao meu espanto, de 1879 até hoje, um milhão de possibilidades de iluminação surgiram com a modernidade. E mesmo assim, alguém entra numa loja e resolve escolher uma luz branca para iluminar as noites em seu lar?

Será que as pessoas não percebem o tipo de luz onde estão? Será que incomoda, mas não tanto ao ponto de trocar? Será que elas sentem calor com a luz amarela e acham a luz branca mais fresquinha? Pesquisei sobre isso e não existe tá. É só uma questão psicológica “o frio e o quente” das lâmpadas. Pelo menos essas que a gente usa de LED e que são bem mais econômicas. Mas enfim. Esse não é um texto-denúncia. É só um texto-reflexão. Não quero ninguém chateado por amar luz branca. Só quero entender o que vocês sentem.

Porque tudo bem usar uma luz branca num hospital. É um lugar que precisa estar muito iluminado, te dar uma sensação de assepsia, foco, percepção. Mas em casa? Em casa a gente quer aconchego, abraço. Descanso para os olhos. Descanso para a alma. Não? Uma luzinha de abajur ligado no fim da noite faz a gente esquecer o mundo.

Tem coisas que eu vou morrer sem entender. Essa da luz é uma delas.

Meu Novo Corpo

O corpo é a máquina que nos acompanha desde o primeiro momento em que somos cuspidos para fora do corpo da nossa mãe, até o dia em que voltamos para terra – no caso – a Mãe Terra. Um mesmo coração batendo ininterruptamente nesse mesmo corpo, uma vida inteira. Do girino até o último suspiro. Não é um troço incrível?

O corpo é um universo inteiro dentro dele, mas eu nunca tinha pensado muito nisso, antes de começar a envelhecer.

Quando a gente é jovem não pensa muito no próprio corpo: só usufrui dele. Tem muita energia, não usa protetor solar, não se cuida, sobrecarrega o fígado, não dorme, vira a noite, faz loucuras e sempre fica tudo bem.

Aí chega a hora de reproduzir. Pã! Hora de ter filhos.
As barrigas que trazem o milagre da nossa existência também serão as que mais vão nos cansar. Imaginem só: gestar, parir e depois criar a criançada toda? Não é brincadeira não. Tive duas e sei bem como foi.

Pois bem.

Ano passado eu fiz 50 anos. E achei um luxo fazer 50. Nunca me preocupei com pé de galinha nem com cabelo branco porque sempre achei rugas um charme e desde os 16 pinto meu cabelo de vermelho. Mas de repente, tudo começou a mudar. Sentimentos, sintomas e características físicas começaram a mudar meu corpinho da água pro vinho. E por mais que eu tenha consciência da efemeridade da vida, a ficha está demorando um pouco a cair.

É uma dor no joelho aqui, uma travada na lombar acolá. Os dez quilos que surgiram do nada (mentira: tudo cerveja, azeitona e amendoim) que acabaram virando umas curvinhas e dobrinhas que eu não reconheço no espelho. São os calores do climatério, as pintas brancas e marrons iguaizinhas da minha avó alemã, uma barriguinha desgraçada que nem com cinta se disfarça, as teias azuladas das varizes, o cansaço absurdo que eu sinto quando levanto da cama às seis da manhã. A preguicinha de sair no fim de semana, a melancolia sem explicação, as desculpas para não ir nadar, a disposição extraordinária que se precisa ter para uma noite de amor.

Outro dia passei na frente de uma vitrine, me olhei de longe e levei um susto. “Meu Deus! Será que aquela senhora ali sou eu?” E era.

Envelhecer…


Irene Ravache deu uma entrevista dizendo que não fez nenhuma plástica porque estava muito curiosa para saber como ia ficar enrugada. Achei genial. É assustador o que anda acontecendo com as jovens senhoras que estão com medo do tempo: estão todas ficando muito parecidas. Com a mesma bocona de Angelina Jolie e sem nenhuma expressão por terem se esticado. Será que elas não percebem que tirar as linhas de expressão vai justamente impedi-las de expressar-se? De ser quem são? E que as rugas são o registro físico de tudo aquilo que vivemos?


Ainda assim, estou aqui no meu processo de aprender a amar o meu novo corpo. Porque não sou mais a Tatiana gatinha, magrinha de 20 anos, que usava calça Saint-Tropez e dançava descalça nas festas até o amanhecer, mas também não sou a vovó fofinha e gordinha que serei aos oitenta. Que vai fazer muitos bolos, usar xale de tricô e contar histórias deliciosas para os meus netos. Me sinto agora como se estivesse num vácuo do tempo. Nem gatinha, nem vovozinha. Então, quem sou eu? Balzac escreveu sobre as mulheres de 30. Roberto Carlos fez música para as de 40. E as de 50? Ninguém vai homenagear não?


Meu novo corpo continua macio e cheiroso. Continua saudável e faminto. De amor e de vida. Talvez isso seja o suficiente para viver mais uns 30 anos. Mais 30 anos com o meu coração batendo sem parar. Nessa máquina mágica que abriga minhas histórias e minhas memórias. Não há nada mais lindo e digno do que envelhecer amando quem se é.

Aprender a viver sem você

Zelinha, meu amor

Ontem acendi uma vela, coloquei uma música bem linda para tocar e fiquei por horas observando a chama do fogo se consumir, pensando em você. Venho repetindo esse ritual desde a sua partida, na esperança de aquietar meu coração e conseguir acreditar que simplesmente você não está mais aqui entre nós.

Você me conhece muito bem e sabe o quanto lido bem com a morte. Não tenho medo de morrer e quando penso sobre isso, sinto de verdade que cada um tem um caminho a percorrer e assim como chegamos, um dia temos que partir. Uma coisa não existe sem a outra. Não há merecimento, apego ou ilusão que nos segure nessa dimensão quando chegou nossa hora de atravessar o rio.

Mas há poucos dias, quando nos falamos pelo telefone, você estava bem. Confiante de sua recuperação, fazendo planos, rindo como sempre de alguma coisa que tinha te acontecido no dia. E de repente, de repente mesmo, recebemos a notícia de sua partida.

Acho que esse ritual de olhar para a vela e aceitar o inaceitável é um profundo pedido que minha alma anda fazendo a Deus, para tentar acreditar que você se foi.

Sabe qual foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando soube da sua morte?

Que eu não ia saber viver sem você. Que eu ia precisar com urgência reaprender a existir sem seu amor diário, sem sua preocupação e afeto, sem seus telefonemas de domingo que me davam tanto chão. Não sei viver sem seu perfume de lavanda, sem suas orações, sua fé, suas piadas, suas histórias. Sem sua forma de ver a vida com tanta graça e sua voz atendendo o celular dizendo: Zélia Meira falando!

E seu macarrão gratinado, seu cozido, seu bobó de camarão, seu bolo de chocolate com côco, seu cuscuz, sua gelatina rosa. Seu chá preto com leite. Ah Zelinha… ainda bem que você me apresentou o coentro. Eu não teria tido a mesma existência sem ter experimentado coentro no feijão.

Sabe que nesses últimos dias de tanta dor, vem acontecendo uma coisa estranha comigo: eu falo com você em pensamento o tempo todo. Converso mesmo, tipo doida. Esses dias, quando fui pela primeira vez à sua casa sem você, pensei em fritar uns cogumelos Paris no shoyu para a Clarinha almoçar. E eu estava sozinha na cozinha, meio perdida, sem saber onde estavam as panelas. Então, eu perguntei: Zélia, onde estão as frigideiras? Na mesma hora ouvi você dizer: “nessa gaveta ô doidinha, esqueceu?” Ah é. Posso pegar essa?  – era a mais linda de todas – você demorou para responder mas disse: “pode”. Deus me livre de pegar a panela errada. Ou o pano de prato errado, ou a colher de pau errada. Com você, cada coisinha na cozinha tinha uma função específica e eu aprendi a respeitar isso como lei divina. De repente, Flavinha chegou na cozinha e falou: “xiiii, essa frigideira? Toma cuidado, hein? Era a frigideira que a mamãe mais amava. Não deixava ninguém usar”. Daí eu entendi porque você tinha demorado para responder. Danada. Mas eu respondi com propriedade: “Olha Vinha, eu perguntei antes e ela me autorizou!”

Choramos e rimos. Como cada coisa que fizemos nesses últimos dez dias. Tudo nos faz chorar e rir. Chorar pela saudade insuportável que já sentimos de você. Rir pela gratidão que sentimos por termos feito parte da sua história.

Zélia Cardoso Meira, talvez a melhor pessoa que eu já tenha conhecido nesta vida.

Ontem depois de acender a vela tive uma idéia genial: vou fazer um livro sobre você. Vamos! A família toda! Passar a limpo aquelas anotações que você vinha rabiscando desde a pandemia sobre sua família. Reunir fotos, receitas, causos. Tudo que possa ficar registrado para que as próximas gerações saibam quem foi você minha querida.  Promete me ajudar daí?

Férias

Ah! Férias…

Como uma palavrinha tão pequena pode contemplar algo tão grandioso?

Quantos sonhos e projeções de felicidade podem morar dentro de uma mesma palavra?

A gente passa o ano inteiro sonhando com as férias. Sonhando com tempo para descansar, tempo para se divertir, tempo para fazer nada, tempo para fazer tudo. Mas quando ela finalmente chega… a gente se dá conta de que o tempo das férias é obviamente um outro tempo daquele que vivemos na rotina maluca do dia a dia. O tempo passa diferente. Aliás, o mundo fica diferente. E o que era para durar um mês, parece que só duram dez dias. Mas tudo bem. Até aí tudo bem.

Mas nessas férias eu tive a sorte de passar uns dias viajando. E a constatação que fiz nesse período foi estarrecedora.

Se puder, nunca passe férias em casa.

Viaje. Mesmo que seja logo ali para Guapimirim. Viaje. Faça uma malinha. Saia de casa. As férias só significarão “férias” se você viajar.

O que aconteceu comigo?

Esse ano eu precisei ir ao Sul para fazer um procedimento no dente. Uma amiga querida que é dentista me ofereceu a cirurgia de presente e ainda ganhei um plus a mais, porque antes passamos uns dias na casa de praia que ela tem em Itapoá, litoral de Joinville. A única coisa que eu precisava era chegar lá.

Foram dias inacreditáveis. Poucos dias que me nutriram, me descansaram, me bronzearam, me fizeram gargalhar de novo depois do fim do ano puxadíssimo que tinha tido. Mas precisamente nove dias.

Pois bem.

Quando voltei, sabia que ainda tinha quinze dias de férias pela frente. Que delícia.

#soquenão

Gente, férias em casa não existe.

Férias em casa é uma pseudoférias. Uma enganação sem fim que a vida apronta para gente.

E esse ano eu entendi o porquê. Não é só porque as funções domésticas não acabam, nem porque as demandas não sabem que você está de férias e nem porque já estamos sem grana no meio do mês: mas porque nossos fantasmas moram na nossa casa!

Quando viajei, quando sai de casa, respirei novos ares, novos lugares, em nenhum momento fui assombrada por nenhum dos problemas da vida cotidiana. Nem um único fantasminha teve a chance de me assombrar com tanta novidade acontecendo.

Mas bastou eu pisar em casa, para voltar toda a tormenta. Claro! Em casa está toda a sua projeção de mundo. Nossas alegrias, nossos sonhos, nossas frustrações, nossa exaustão, nossa esperança. Todo mundo fica ali no sofá sentadinho esperando que você tome todas as providências que precisa tomar de tudo, sem te dar nem um minuto de trégua.

Exaustivo.

Bom, pelo menos comigo é assim que acontece. Mas esse ano ter tido essa percepção me ajudou a entender que é isso mesmo. Ou a gente entra de férias e encontra um espaço neutro para descansar a alma, ou vai passar as férias tentando fugir daquilo que você não agüenta mais olhar. As lutas existem, mas pelo amor de Deus, até “da luta” a gente precisa tirar férias.

Se não, como volta abastecido e forte para começar a luta toda de novo?

Jack

São esses presentes que a vida me dá. Um dia eu morei numa cobertura e ganhei um céu. Hoje moro em São Francisco e ganhei um Jacarandá.

Me mudei para esse apartamento onde estamos no ano passado e desde o primeiro dia que cheguei aqui me apaixonei pela árvore que tinha bem em frente à minha janela. Em pouco tempo descobrimos que a árvore era um Jacarandá.

Ela é uma árvore generosa, grande, alta, bonita. Parece um bonsai gigante. A folhagem é bem delicadinha. De um verde vibrante desses que eu amo. Mas o interessante é que ela tem uma copa enorme, frondosa, que se espalha por quase todo o quarteirão e é parque de diversão para um monte de passarinhos, maritacas e outras aves estranhas que nunca vi.

Na primavera surgiram umas flores amarelas deslumbrantes. Foi emocionante acordar e dar de cara com aquela floricultura na minha janela. No verão surgiram umas formas de algo que pareciam borboletas. Mas foi no outono que descobri que eram sementes. No inverno elas secaram e caíram no chão. A diversão passou a ser observar o povo passando na rua e ouvir o “croc-croc” de todo mundo pisando nas sementes secas. Um barulhão.

E foi assim, observando e admirando, que surgiu minha amizade com o Jack. Abrindo a janela e agradecendo sua existência bem ali, ao meu ladinho, todos os dias.

Mas de todas as características que contei, nenhuma se compara ao que Jack me oferece de noite.

A luz da minha rua é curiosamente uma lâmpada bem amarelada, bonita, que de noite faz uma iluminação especial na casa quando está tudo apagado. Todas as janelas têm essa luminosidade. Mas na minha janela, com a presença do Jack, algo mágico acontece na minha parede. São sombras que parecem pinturas surrealistas. Difícil explicar.

Na realidade é apenas o reflexo do balançar que as folhas fazem. Mas aos meus olhos é algo tão poético, tão lúdico, que parece cena de cinema. Outro dia eu coloquei uma música e fiquei horas observando o movimento daquelas folhas na sombra da minha parede branca. Juro, meus olhos encheram d’água. Porque a impressão que eu tive é que aquilo era um espetáculo que estava sendo feito só para mim.

Que presentes a vida me dá… O mínimo que preciso fazer é compartilhar.