Quando eu atravessar o rio e finalmente partir Vou desejar um último desejo antes de ir Juntar todas as pessoas que amei num só lugar E vê-los trocar e celebrar o meu existir
Vou querer que acendam incensos e velas perfumadas Que tragam flores e muitas cores Quero que bebam cervejas geladas e comam as comidas mais gostosas que puderem servir
Quando eu partir Não quero ver águas de tristeza saindo dos olhos de quem amei Só desejo que rolem águas de saudade Pois estarei bem Finalmente voltando para casa
Quero que leiam algumas crônicas que escrevi e relembrem de algumas maluquices que vivi Quero ouvir ressoar minhas músicas preferidas Presenciar risadas Batucadas E a celebração do que fui para cada um que estiver por ali
Quando eu partir Quero sentir vibrar o que fui se multiplicar E ouvir algum amigo poeta falar Que eu nunca vou deixar de existir
O dia que eu partir daqui Quando eu finalmente atravessar o rio e virar pó de estrela só peço uma coisa a quem ficar
Que lembrem de mim Em meu melhor sorriso No meu gesto mais afetuoso No abraço mais cheiroso E em todo o amor que pude amar
Quando vim morar em Niterói, há 15 anos, ele era o lugar de refúgio da minha alma. Bastava olhar para aquela praia que tudo se arrumava por dentro.
Tem 18 dias que eu estou morando nesse paraíso e já pude observar tantas curiosidades pitorescas sobre o bairro que resolvi escrever sobre isso.
Vocês sabem como eu sou. Quando a coisa transborda, preciso escrever, senão a alma entope.
A primeira coisa que tem me impressionado por aqui é a refinada e disparatada diferença entre as classes sociais. Eu sei que praticamente todos os lugares do Brasil vivem isso. Mas aqui tem alguma coisa diferente.
Explico.
Na calçada dos restaurantes a noite – todos caríssimos e chiquérrimos – tem o povo cheio da grana, cheiroso e feliz, degustando canapés da Paludo, chopinho de trigo da Noi e sushis maravilhosos do Sunsaki.
Mas se você atravessar a rua e for para o calçadão, vai ver uma infinidade de famílias, com nem um décimo da grana dos grã-finos, passeando felizes também, comendo cachorro quente, algodão doce e milho verde, como se aquele fosse o sábado mais importante do ano. Muitos casaizinhos com filhos pequenos, avós, tios, primos. Todos juntos. Em caravana.
Achei tão curiosa essa geografia social que não me impressionei quando comecei a fazer caminhadas pelas ruas de dentro do bairro, naquele delicioso labirinto de ruas com nomes indígenas.
Num mesmo quarteirão podemos admirar uma casa no estilo mansão do Morumbi, cheia de bromélias e mini Palmeiras no jardim, colunas de mármore na varanda e duas Landrovers estacionadas na garagem. E ao lado, literalmente ao lado, um casebre, habitado por quem um dia foi Barão e hoje não é nem pé-de-chinelo. São muitas as casas deslumbrantes que convivem lado a lado com casas que nitidamente são de famílias que faliram e nunca mais puderam fazer nenhum tipo de manutenção e estão caindo aos pedaços.
Que mundo bizarro.
É o Praia Clube São Francisco e o Morro do Preventório olhando para o mesmo paraíso. A mesma praia. Que cá entre nós, não tem preço, porque para a natureza não existe isso de desigualdade social. A beleza é gratuita. Definitivamente não vai ser nessa vida que eu vou entender sobre dinheiro e o sistema que existe por trás dele.
Não pedi nada, não fiz promessa, nem fiquei pensando em todas as listinhas que faço sempre das mudanças que preciso fazer.
Entrei simplesmente agradecendo a vida e a sorte de estar bem. Agradecendo essa coisa de Airbnb que nos possibilitou estar numa casinha fofa em Teresópolis, na paz que eu sonhei o ano todo.
Esses últimos dois anos me ensinaram profundamente que não temos controle nenhum sobre nada e que quanto mais planos fazemos, mais nos frustramos.
Foi tão bom! Estive presente (quase) o tempo todo e vibrando cada minutinho da noite.
Comi comidas deliciosas, bebi uma cerveja gelada e dancei até fazer calinho no pé.
Assim eu desejo viver esse ano.
Cravada no presente.
Deixando para trás a melancolia do passado e sem dar pelota nenhuma para a ansiedade que me dá pensar no futuro.
Como a felicidade anônima, quero celebrar a vitória de só por hoje, estar bem e feliz. O resto é ilusão.
Aqui entre caixas de papelão, paredes meio pintadas e malas prontas, tropeço em mim sem conseguir me encontrar direito.
Ô troço forte que é mudança, ainda mais quando a gente ficou no mesmo lugar durante tanto tempo.
Doze anos morando num Bosque. Doze anos lutando contra mosquitos. Doze anos me sentindo segura. Doze anos é muito tempo de uma vida.
Quando vim para cá, Catarina tinha três anos de idade. Celebramos os oito anos da Clara na primeira festinha em casa. Depois teve os 10 no Salão com direito a show dos primos. Depois 15 anos dela mesma na festa fosforescente. Os 10 da Cata na festa de Unicórnio. Parece que uma vida inteira passou nesses 12 anos.
Me lembro como se fosse hoje os primeiros amigos que vieram beber cerveja comigo na recém-inaugurada varanda e eu aflita pedindo silêncio, já que parecia tão tarde.
Foi Mari, minha amiga-irmã que disse: – Tatoca, cê acha que vai conseguir enganar seus vizinhos por quanto tempo sobre quem é você?
Nunca esqueci disso.
Depois relaxei porque é assim mesmo. A gente não consegue esconder quem se é por muito tempo. E eu sempre fui festeira. Alegre. Falante.
Aqui vivi grandes amores, grandes crises, fiz grandes amigos, tudo grande.
Obrigada Rê, minha vizinha de quintal, por sua amizade extraordinária, seus cafés com Madeleine, nossas conversas tão profundas. Obrigada Nilce por sua prontidão e afeto de sempre. Obrigada Simone, amiga querida. Maína que chegou depois. Obrigada Tia Karla que já se foi do Bosque. Vânia que voltou! Obrigada Erivelto e Wagner que fazem desse lugar um luxo para se morar.
Obrigada por fim a todas as minhas crianças amadas que me abraçam quando eu passo pela pracinha, depois que virei a Tia Tati, professora de teatro! E obrigada Marcella querida, por ter me trazido esse universo infinito de amor, depois de insistir para que eu desse as aulas aqui. Não quero perder vocês nunca! Ano que vem tem mais!
Foram 12 anos fazendo o mesmo trajeto Largo da Batalha/Maria Paula 18 vezes por dia. Tendo o privilégio de viver e trabalhar a 6 minutos da minha casa. Acordar com maritacas, beija-flores, águias e um milhão de passarinhos cantantes.
Amar e sofrer por morar num pequeno condomínio que mais parece uma minicidade, com todos os benefícios e sofrimentos que essa realidade traz.
Foram três casas, em três blocos diferentes. Mas a última moradia me deu um céu e isso eu nunca vou esquecer. Ter tido um céu durante a pandemia foi a forma de não enlouquecer esses últimos dois anos. Uma grande bênção. Agora vou trocar o céu de Pendotiba pelo mar de São Francisco. Em 15 anos de Niterói, estou indo morar no lugar onde sempre mais amei aqui nessa cidade que adotei como minha. Um sonho realizado. Um predinho velhinho, sem portaria nem elevador, mas há uma quadra do mar. Do mar! Minha amada Avó Oceano há um passinho de mim. Isso é incrível.
E podendo finalmente, depois de mais de uma década, poder comprar um pãozinho a pé. Imagina! Ter uma vida de bairro. Conhecer o jornaleiro. Cumprimentar o padeiro. Explorar os cantinhos dos arredores. Vender o carro. Não me preocupar mais com longas distâncias desertas na madrugada.
Tudo nessa vida são escolhas. Vou sentir muita saudade desse lugar mágico que me abrigou tantos anos e cuidou de mim e das minhas pequenas com tanto carinho. Mas também estou em paz com a possibilidade de estar mais perto da civilização. Estar há 10 minutos da Livraria da Travessa para um cafezinho. Isso não tem preço. Finalmente me sinto pronta para partir. Para uma nova etapa da vida. Ano novo, bairro novo, vida nova.
Que as nossas histórias possam ser sempre assim, um baú de histórias incríveis que pudemos viver, a cada lugar que deixamos um pouco de nós.
Que coisa chata essa sua insistência em ficar me apressando e me apertando!
Você não sabe que não adianta me pressionar que eu não vou viver aprisionada na sua ampulheta?
Você não sabe que não faz sentido para mim viver assim no automático, como um robô, só cumprindo tarefas?
Eu não quero ficar encarcerada nessa jaula sem grade que é viver a vida em contagem regressiva.
Eu não uso relógio. Sabe por quê?
Porque não quero que você me controle. Controle minha mente, meu pulso, minhas mãos.
Eu quero viver sentindo. Percebendo o mundo. Apreendendo as experiências. E não tem hora certa para se sentir a vida. Ela acontece.
Eu quero estar no presente. Já aprendi que o futuro só me traz ansiedade e o passado, melancolia. Eles quase sempre são armadilhas perversas da mente. E desculpe se eu te ofendo falando isso, mas você geralmente compactua com eles nessas armadilhas.
Tá, eu sei que você foi uma coisa inventada pelo homem e que não tem culpa de ter nascido. E entendo também que em determinado momento da história, foi necessário organizar os ciclos, por uma demanda da sociedade. Não se podia mais viver só calculando dia e noite, primavera, verão, outono e inverno.
Mas convenha comigo, nesse momento, você anda enlouquecendo todo mundo.
Eu sei que a responsabilidade não é só sua. Que muita coisa aconteceu e desgovernou o mundo. Essa coisa de internet, redes sociais, mundo globalizado, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Na época dos bondes, a gente não sabia de tudo que estava acontecendo no mundo, em tempo real. E isso é muito opressor.
Mas essa criação diabólica do homem teve ajuda sua, sim senhor.
Ah tem gente que não liga para isso?
É, pode até ser. Mas esse surto de ansiedade mundial você acha que vem de onde? De contemplar o pôr-do-sol? Claro que não né. É dessa pressa desesperada que todo mundo está de cumprir suas milhões de demandas diárias.
Eu tenho muita dificuldade com essa urgência maluca que o mundo impôs para gente. E se você não é o único vilão da história, eu sinto muito. Grande parte da loucura leva seu nome e não há nada que possa ser feito.
Eu posso assumir menos coisas para o ano que vem?
É, até que essa não é uma má ideia.
Nisso você tem razão. A gente assume coisas demais na vida. Compromissos demais, responsabilidades demais. Depois não sabe por que tem que tomar ansiolítico e antidepressivo.
Eu vou pensar nas mudanças que quero fazer para o ano que vem. Adoro anos pares! Vou ver o quanto de carga horária posso diminuir, o quanto de tempo posso reduzir para as coisas sem significado. Preciso arranjar umas brechas para o nada.
Drummond falava disso: “a vida necessita de pausas”.
E se a gente vive a vida sobrevivendo, apagando incêndios, quase se afogando na turbulência das horas, não sobra tempo para as pausas.
É na pausa que a gente vê o sol nascer. É na pausa que a gente sente o vento. É na pausa que mora a chance da gente meditar. Silenciar. Serenar. Sentir.
Eu sei que é a sua função organizar o mundo. Mas pega mais leve com a gente, Tempo. Por favor.
Tá difícil de aguentar essa pressão. Ninguém aguenta ser sugado e vampirizado desse jeito que você tem feito. A existência fica muito insignificante e medíocre se a gente vive só para cumprir compromissos, agendas e horários.
Por que você não tira umas férias? Talvez até você esteja precisando de um tempo para descansar.
Não é? Você tá chorando, Tempo? Só porque eu falei de férias? Ô meu Deus, você também está estressado. Vem cá, deixa eu te dar um abraço.
Eu quero voltar para a terra Voltar a ser bulbo Voltar às origens Buscar de novo minhas raízes Minhas veias subterrâneas Buscar o sumo perdido Da seiva nutridora Que tenho perdido Com tudo que a vida tem sido.
Eu preciso voltar para a terra Voltar a ser musgo Voltar a ser semente Me recolher no silêncio No útero dessa mãe que me alimenta Devolver pro núcleo Toda a dor e todo o vazio E toda essa tristeza Que a vida tem me impregnado.
Eu hei de conseguir voltar para a terra Para me semear na escuridão Do solo mais fértil Da terra mais fecunda Para que meus sonhos mais profundos Possam renascer No calor e no tempo Do mais fundo do meu ser.
É que a gente se acostuma. Mas se a gente olhar mesmo, com aquele olhar de olhar de novo, vai ver que a gente é uma máquina bem esquisitinha.
Para começar tem esses membros, finos e compridos, que saem desse corpo central. Depois, na ponta desses membros, saem cinco membrozinhos compridinhos de cada um. No topo do corpo central tem presa uma bola e dessa bola saem um milhão de fiozinhos. Nessa mesma bola, imaginem, tem um orifício com ossinhos lá dentro e uma carninha presa que se movimenta quando a gente fala. Também têm duas bolinhas para ver, dois buraquinhos para cheirar, outros dois para ouvir e isso sem falar no universo inteiro que tem lá dentro.
Mas não era sobre essa esquisitice externa que eu queria falar. É sobre umas dores que eu sinto. Umas dores tão estranhas que eu duvido que alguém mais sinta. Como dor de pé seco por exemplo.
Meu namorado diz que nunca tinha ouvido falar dessa dor. E que ela é uma das coisas mais fofas em mim. Mas eu não vejo fofura nenhuma. Só agonia.
Dor de pé seco é literalmente o que a coisa quer dizer. Sinto ela todas as noites, antes de dormir. Geralmente já estou de banho tomado, de pijama, cheirosa e fresquinha. Mas bastou deitar na cama que ela aparece. Em poucos segundos me dou conta que a pele do pé está super seca para imediatamente a dor surgir.
É por isso que hidratar os pés antes de dormir virou um dos rituais mais prazerosos da minha existência.
O corpo nos dá infinitos prazeres.
Em diferentes níveis, proporções e possibilidades é claro. Mas eles são uma das coisas mais geniais que a natureza fez por nós.
Os prazeres escatológicos, por exemplo. São simples e fabulosos. Basta dar ao corpo o que o corpo quer. Fazer xixi quando se está muito apertado. Cocô. Tem coisa mais prazerosa do que fazer cocô quando a gente estava louco para ir ao banheiro, minha gente? Arrotar, soltar pum. Ah! Somos uma fábrica de mini prazeres. Espirrar, coçar, tossir. Rir, chorar, estalar os dedos. E comer? E beber? Pode no mundo existir coisa melhor? Pior que tem.
Os prazeres sexuais!
Deus devia estar inspiradíssimo quando criou o orgasmo. Também, para incentivar o povo a continuar popular a Terra, só transformando o exercício num parque de diversões.
Mas voltando às dores, essas são péssimas. Acho muito doido quem sente prazer na dor. Sem nenhum julgamento, cada um sabe de si. Mas acho que essa é uma coisa que eu nunca vou entender. Dor é dor e ela é um mecanismo de alerta para o corpo, mas que troço ruim de sentir. Tem gente que é forte para dor. Acho incrível. Minha sogra por exemplo faz tratamento de canal sem anestesia. Como é que pode, gente? Não sei. Mas certamente ela é feita de um outro material que o meu. Duvido que ela tenha dor de pé seco. Doida para saber.
Às oito horas já tinha armado a barraca, as meninas já pulavam de alegria na água e eu já estava em frente ao mar, em estado hipnótico, olhando o horizonte.
Essa coisa da gente achar que precisa dormir muito no fim de semana nos impede de viver coisas extraordinárias. Como essa que eu estava vivendo naquela hora mágica da manhã.
Durante muitos anos da minha vida vivi mergulhada na imensidão da madrugada. O silêncio da noite me ajudava a escrever. A companhia da lua e das estrelas me inspirava, a brisa me trazia o frescor de palavras novas e eu me sentia abençoada por conseguir entender o que a coruja dizia. Mas com tantas horas roubadas da noite, as manhãs sempre eram esquecidas. E por mais que eu soubesse de toda a magia que acontece no amanhecer, eu nunca estava lá para assistir.
Mas hoje eu fui à praia bem cedinho. E de repente, entendi aquilo com um enorme e benevolente presente de Deus. Afinal de contas, o dia estava acabando de chegar e trazia com ele toda a esperança que carrega o recomeçar. Observei com vagar – sim, de manhã tudo acontece devagarinho – o despertar de cada detalhe daquela paisagem.
A maré silenciosa acordando a areia com ondas mansas, as gaivotas tomando seu café, pescadores chegando, boêmios indo embora. A névoa se dissipando no horizonte, o sol iluminando cada alma. Que espetáculo da natureza! Mas eu preciso confessar que o melhor detalhe não fui eu que vi, foi a minha pequena. Ela viu o sol batendo na água e gritou lá de dentro espantada com tanto brilho: