Minha menina

Ontem, depois de tanto tempo, reencontrei você numa dança linda. Eu não sabia que você viria, na verdade eu dançava de olhos fechados as dores que meu corpo carrega. Era uma sessão emocionante de biodança.

Mas de repente, do nada, senti sua mão pequeninha entrelaçando a minha e senti uma emoção tão forte que comecei a chorar. Te abracei com força e saudade. Todas as vezes que eu te reencontrei nos últimos anos, só estive preocupada em te cuidar, te banhar em águas quentes, encher de afeto esse corpo pequeno que passou por tantas dores e traumas.

Sempre me senti culpada por não ter podido te proteger como protegi minhas filhas. Mas hoje já consigo entender com o espírito, a alma e o coração que não podia ter feito nada por nós aos sete anos. E que somente hoje aos cinquenta é que posso cuidar de você, de nós duas.

E é por tudo que passamos que sei que preciso contar ao mundo o que vivemos. Muitas mulheres passam pela mesma coisa que passamos. Mas muitas não têm coragem de falar. Nem de lembrar. Nem sequer imaginam que pode existir uma forma que cure algo tão insuportável de carregar.

Eu descobri que as palavras são meu maior e mais potente remédio. E peço a sua permissão para falar de nós. Sei que a maioria das nossas memórias foram apagadas por nosso inconsciente. Ele sempre tentou nos poupar, tentou estancar o sangue das feridas para que elas parassem de sangrar. Mas agora também peço permissão a ele para que me faça recordar o suficiente para falar daquilo que não posso mais calar. Chegou a hora de quebrar a casca de sangue pisado que a vida toda nos protegeu.

Eu te amo, minha joaninha. E te agradeço a alegria de te saber sempre dançando em mim. Estou aqui. Sempre estarei. Colocando toda a ternura que tenho em cada ferida nossa, para que nunca mais a gente precise sofrer pelo que passou.

Dance comigo a dança das palavras que curam. Estou aqui para nos amparar.

O passaporte do amor

É uma coisa pequeninha.

Um gesto mínimo na imensidão do dia a dia. Mas para mim significou muito.

Entrei no ônibus toda esbaforida, cheia de sacolas, no fim de uma sexta-feira exaurida de todas as coisas que tinham acontecido na semana.

Coloco o RioCard na leitura lá do trem para pagar a passagem e pah! Saldo insuficiente.

Pensei comigo: “Caramba. Não carregou.”

Passo de novo. E de novo. Nada de validar o crédito. “Motorista, desculpe, vou precisar saltar. Meu RioCard não carregou.”

“Tudo bem, minha senhora. Aguarda o próximo ponto.”

Foi quando a moça se levantou lá de onde ela estava sentada e veio passar o RioCard dela para mim.

Ela encostou o cartão no leitor, a coisinha ficou verde, ela me olhou nos olhos, deu um sorriso e voltou a sentar.

Eu fiquei alguns segundos em choque. Olhando bem para aquela situação, me lembrando de todas as vezes que fui eu que tomei aquela atitude, de fazer o bem sem saber a quem.

Rodei a catraca e agradeci a ela num sorriso.

O melhor de todos os sorrisos que eu tinha. Mas não foi o suficiente para mim. A gratidão naquele momento estava me Transbordando.

Então eu sentei, arranquei uma folha do meu caderno, dei graças a Deus de estar cheia de canetinhas coloridas na bolsa e escrevi numa cartinha improvisada o seguinte bilhete:

“Não sei quem você é…
Mas tenho certeza que somos feitas da mesma matéria: amor!
Muito obrigada por me salvar. Beijos Tati”

Ela desceu num ponto antes do meu. Por isso eu tive a chance de entregar o bilhete em mãos.

Ela sorriu de novo e disse: vou pegar os óculos para ler! Desceu e eu me separei dela com os olhos e óculos grudados no meu bilhete.

Vou te contar: a vida as vezes é linda.

Perder-se

De vez em quando, eu perco o caminho.

Não só por tudo da vida que me atravessa.

Ou as tantas demandas de todo dia.

De vez em quando eu perco o caminho, porque a travessia é difícil mesmo.

A estrada não é uma linha reta, as placas nem sempre são claras e os atalhos são infinitos.

Clarice dizia que “perder-se também é caminho.” Mas o que me aflige é saber que todas as vezes que eu me perco, quem acaba sofrendo mais é a alma.

Porque eu deixo de escrever. Deixo de cuidar de mim. Da minha vida criativa. Daquilo que mais importa. Porque fico barata tonta. Porque perco o rumo. Porque amanheço e adormeço no automático. Porque vou vivendo os dias cumprindo tarefas, esquecendo os tantos deslumbramentos que a vida sempre me dá de presente.

Aí vem aquela frase da Adélia que eu amo, mas me dói tanto:

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Eu olho pedra e vejo pedra mesmo.”

É sobre isso.

Perder-se pode ser bem perigoso.

Porque fora do trilho, meu trem corre sem ver, sem sentir, sem registrar, sem traduzir.

E o que será da vida sem o espanto e a poesia?

Confie

Algum tempo atrás, não me lembro bem quando, eu fui tomada por uma coragem súbita, entrei num estúdio de tatuagem e disse pro moço: por favor, será que o senhor podia escrever aí no meu punho a palavra coragem? Tinha que ser o punho da mão direita, que é a mão que eu uso para escrever. Ele me olhou com uma cara de quem não entendeu nada, mas respondeu simpático: como a senhora quiser!

Ele não imaginava, mas aquele era um movimento de urgência máxima, uma estratégia quase desesperada de quem tinha muito a dizer, mas não conseguia colocar para fora palavra alguma. E agora, apesar da palavra já estar meio gasta na pele que vai envelhecendo, ela ainda me motiva muito quando a olho escrita no meu braço.

Mas de um ano para cá, ando encasquetada de precisar tatuar outra palavra: confiança.
Eu não sei de onde vem esse delírio que tatuando o que me falta, eu vou conseguir por osmose da tinta sagrada, adquirir aquilo que me escrevo. Mas prefiro acreditar nisso a não acreditar em nada.

A verdade é que ando oscilando muito na minha fé. Porque fico entre a realidade crua dos dias e dos conflitos da vida e o deslumbramento da magia que é a própria vida. Ok. Bem-vinda ao mundo dos encarnados, Tatiana. Mas caramba. Como eu queria ter uma fé inabalável como tinha Santo Agostinho quando dizia que “fé é crer no que não vemos. O prêmio da fé é ver o que cremos”. Esse homem pode ter vivido muitos conflitos, mas se tem uma coisa que ele teve certeza era sobre sua fé. Bom, isso a gente acha né. Não sei o que se passava nos recôncavos da alma de Santo Agostinho, mas que a frase dele é inspiradora, isso é.

Confiar é um ato de fé.

Mas confiar para mim é como se jogar num abismo de braços abertos e acreditar que no final, tudo vai dar certo. Minha terapeuta costumava dizer: faça sua parte do que sonha que o Cosmos vai fazer a dele. Essa frase me acompanha desde então, mas nunca tive coragem de tatuá-la. Essa frase é coisa séria.

2024 chegou todo novinho, todo carregado de esperança, mas trouxe com ele um monte de probleminhas velhos que eu amaria que tivessem ficado para trás.

Problemas de dinheiro, de moradia, de trabalho, de disciplina para conseguir fazer tudo que a minha alma precisa. Nunca vi tanto nó para desamarrar. Haja confiança para não sucumbir no primeiro mês do ano. Mas enfim…

Eu sinto que esteja fazendo minha parte, mas por que será que não consigo sentir profundamente a confiança necessária para acreditar que tudo vai dar certo no final? Onde será que mora em mim essa dúvida? Essa vírgula? Esse… mas?

Fecho os olhos. Respiro. Acendo a vela. O incenso. Me conecto ao silêncio mais profundo que possa existir dentro de mim. Respiro de novo. E de novo. Por uma fração de segundos, consigo compreender que estou no lugar certo, na hora certa, vivendo as coisas que preciso viver, para chegar onde desejo e preciso tanto chegar.

Esse segundo vivido, de incompreensível certeza, quem sabe… esse trocinho minúsculo que mora entre um sopro de vida e outro, possa ser chamado de fé.
É possível.
É muito possível.

Existe um lugar

Quero contar que existe um lugar que está cravado no coração da Serra de Itapety, no estado de São Paulo, no município de Mogi das Cruzes, mais precisamente na Estrada da Moralogia, número 20, que está lá – mas parece que está em outra dimensão desse planeta.

O Sítio Essencial é um lugar que você pode se hospedar pelo Airbnd, você pode curar sua alma de dores invisíveis,  pode curar o corpo de dores visíveis, pode fazer yoga, mil terapias alternativas, comer uma comida extraordinária vegetariana, mas sobretudo… pode simplesmente encontrar a paz que seu espírito merece.

Eu estive lá esses dias visitando minha irmã Catita que mora e trabalha nesse lugar como Terapeuta Integrativa e me convidou a passar uma noite de descanso e deleite enquanto eu estava a caminho do Sul.

Foram menos de 24 horas que restauraram minha alma como se estivesse estado lá por uma semana. Eu não sei o que foi.

Se foi o abraço acolhedor de quem estava lá, se foi a água, o chá de capim limão, os sorrisos, o pão feito de grãos, o afeto, o café com cardamomo, a calma, as plantas, as flores coloridas comestíveis na salada, as conversas, a farofa de casca de banana, o arroz de figo, o kibe de abóbora. Ou se foi o cheiro de terra molhada, as plantas mágicas, as conversas cósmicas, o sono reparador de uma noite sem medo nem angústia, o tempo contemplado no lago, a visita das borboletas, o silêncio.

Eu não sei o que foi.

Sei que todos os cantinhos e lugares são cuidados e restaurados com arte. Cada vasinho de planta tem um toque, cada plaquinha tem uma frase, cada pedaço tem uma poesia.
Saí de lá com a alma lavada e a certeza de que existem lugares no mundo que certamente estão a serviço de algo maior e mais profundo para nos ajudar a viver.

Passei como um vagalume apressado por esse lugar tão especial. Mas estou louca para voltar. Não há nada mais precioso do que encontrar lugares onde nossas almas cabem sem esforço.

Sobre sonhos

Para Sidarta Ribeiro

Não me lembro direito a idade que tinha quando comecei a fazer um diário de sonhos. Mas acho que foi na adolescência. Naquela época eu já me impressionava com os enredos cinematográficos que eu produzia na mente durante a noite. Eram tão absurdos que eu achava que precisava guardar.

Sempre tive essa relação visceral com sonhos. Sonhar é como viver uma parte muito mágica e incontrolável da nossa existência, sem ter nenhuma ferramenta para lidar com aquilo. É porque a gente se acostuma, mas vamos combinar que se dormir é estranho – esse apagão que a gente vive diariamente – sonhar então é surreal. Por que quem nunca acordou com a certeza que estava vivendo no sonho o que vivemos na realidade? Qual não foi a minha surpresa quando descobri que os índios lidam com o mundo dos sonhos como se eles fossem mesmo, assumidamente, uma outra dimensão para onde vamos e vivemos uma “realidade” tão preciosa como essa que vivemos quando estamos espertos.

Caramba.

Trabalhei muito meus sonhos na terapia. Amava. E com os anos fui entendendo meus próprios símbolos, meus próprios mecanismos através desse código divino. Os sonhos são um presente do Grande Criador. Quase uma brincadeira que Ele faz com a gente. Se soubermos aproveitar, nossa! Meio caminho andado para a compreensão de muitas coisas dessa vida.

Pois bem.

Desde que tive Covid meus cabelos começaram a cair assustadoramente. Eram tufos e tufos. Dizem que um dos sintomas mais comuns. Mas como tenho um pouco de nojinho de cabelo, comecei a fazer umas bolinhas simpáticas para jogar no lixo. Só que as bolinhas eram tão fofinhas, que do nada resolvi começar a guardá-las. É, eu sei. Estranho. Mas quem não ficou estranho depois da pandemia, gente?

Quando me dei conta, a coleção já tinha começado. Guardei-as num pote de vidro bonito e assim segui a vida. O pessoal aqui em casa começou a estranhar o ritual. Achavam a coisa meio macabra. Engraçado como algumas coisas carregam em si uma história né. Mas eu nem liguei. Naquela altura do campeonato já estava apegava às minhas bolinhas ruivinhas. E pensando no que eu faria com elas. Quando finalmente decidi, o pessoal ficou em polvorosa.

Uma bonequinha com cabelo de bolinhas. É isso.

Edu arregalou os olhos. “Bonequinha? Isso definitivamente é coisa de vudu” falou o namorado macumbeiro. Minha mãe teve outra reação completamente diferente. “Entrega isso para Mãe Natureza, minha filha” falou minha Mulher Estrela-Guia do Clã das Tartarugas. Mas o melhor foi quando contei para o Kim, meu sobrinho estudante de cinema: “Titi, bora fazer um stop motion com essa bonequinha!” Hahahaha. Sensacional. Cada um com a sua interpretação pessoal e intransferível sobre o símbolo em questão.

Assim são os sonhos. Eles falam com a gente através dos símbolos. Mas o que o Jung ensinou para minha mãe que ensinou para mim, é que, apesar de haver muitas definições do que significam determinados símbolos, o que a gente precisa mesmo é afinar a nossa definição dos nossos símbolos pessoais. O que aquilo significa para nós. Nós, que fomos criados de determinada maneira, sob determinada cultura, determinada região do planeta e educado segundo as normas sociais do nosso mininúcleo familiar. Pronto, isso já vira um caldeirão totalmente subjetivo para qualquer coisa.

Então, se para o Edu esses cabelinhos são coisa de vudu, para minha mãe elemento para devolver a Grande Mãe e para o meu sobrinho um objeto de arte a ser filmado, essas bolinhas de cabelo para mim significam as anteninhas que eu andei perdendo.

Como escrever sem antenas para me guiar e captar informações do mundo?

Quando a boneca estiver pronta mostro para vocês. Inté!

Tempo de alma

Sim, eu sei que o mundo enlouqueceu nessa coisa de tempo.

Que a gente não tem mais tempo para nada. Nem tempo para pensar um pouco sobre o tempo. Sei inclusive que a gente nem mais aguenta falar sobre isso.

Tenho para mim que o tempo andou mudando nesses últimos anos porque antigamente era possível viver e realizar coisas em 24 horas. Hoje não dá mais.

Mas mesmo sabendo disso tudo, eu hoje roubei um tempinho da tarde para olhar minha agenda da semana.

Tudo porque não tenho tido tempo para escrever.

Primeiro coloquei os compromissos com hora marcada. Esses não têm discussão. Calculei o tempo de ida e volta de deslocamento para as tarefas porque só Deus sabe o que é o trânsito de Niterói. E agora, a falta de ônibus circulando.

Depois coloquei o tempo de dormir, o tempo de comer – de fazer a comida – de arrumar a casa, de lavar a roupa, de recolher depois, de guardar. Tempo de fazer faxina, de fazer supermercado, de realizar todas as obrigações que a gente não previa e que são infinitos: médicos, exames, bancos, pulinho na farmácia, pulinho na loja de ferragens, pulinho no mercado porque faltou aquele manjericão para o molho de tomate de hoje à noite…

Descobri que esses tempos sem hora marcada são praticamente impossíveis de serem calculados. Porque os imprevistos no nosso dia a dia são como um monstro que te traga para o Lago Ness. Eles não têm nem dó nem piedade e te arrastam o dia inteiro se você deixar.

Então entendi que a única coisa que poderia fazer para ter tempo para escrever seria roubar o tempo dos tempos incalculáveis. Mas tempos roubados não são tempos de qualidade. São tempos picadinhos, chatinhos, tempos apressadinhos.

E eu não quero esse tempo para escrever.

Para escrever é preciso um tempo de alma.

O tempo de alma é um tempo totalmente diferente do tempo do mundo. É um tempo muito individual, subjetivo e atemporal. Precisa acontecer dentro de nós com uma margem mínima de conforto. É um tempo calmo. Um tempo tranquilo. Para começar que é um tempo que não pode ser medido. Apenas sentido. O tempo de alma respira fundo. Ele medita. Ele é lento e sereno. Espaçoso e confortável.

É o tempo que usamos para tomar uma deliciosa xícara de café no fim da tarde olhando o entardecer na janela. É o tempo do banho quentinho e amoroso antes de dormir. O tempo de leitura de um livro bom numa poltrona macia. O tempo de um cafuné. O tempo de espreguiçar na cama depois do cochilo de domingo.

O tempo de alma foi criado por Deus para que pudéssemos manifestar na vida o que a alma deseja. O tempo de alma não gera produtos. Ele não calcula ganhos. Ele não aspira ser bem-sucedido. O tempo de alma é vivencial. É processo.

Esse é o tempo que eu preciso para escrever. Mas ainda não sei onde encontrá-lo. Porque essa crônica eu acabei de escrever ao invés de fazer o almoço. E agora está todo mundo com fome reclamando. Deixa eu ir lá correndo…

A Corrente do Bem

E a vida as vezes pode ser assim.

Simples como uma florzinha que nasce no meio do nada, fluida como um rio sossegado, mágica como um arco-íris que surge majestoso num céu cinzento que acabou de chover.
A gente não tem mesmo nenhum controle sobre nada. Mesmo achando que tem, a vida segue provando que não. E que as coisas são como devem ser.

Depois que publiquei a história sobre o meu querido “enfermeiro das bananadas”, entreguei a coisa ao universo e segui. Devagarinho fui acompanhando no Instagram que as pessoas tinham gostado da história e que algumas estavam até ajudando. Mas emocionada mesmo eu fiquei quando o próprio Thomaz respondeu nos meus comentários. Para mim ele já é um cara famoso que, imagina, falou comigo na minha própria página. Que delícia.

Ele foi um fofo dizendo que tinha se emocionado com o que escrevi, mas o que eu queria mesmo é que ele nunca deixasse de acreditar nessa força cósmica que ele tem.

Mas o Universo, ou Deus, ou o Grande Espírito como eu gosto de chamar, já estava arquitetando mais coisas para gente viver.

Então no domingo seguinte recebi uma mensagem pelo WhatsApp. Era a minha amiga Janine, dizendo que tinha ficado muito tocada com a minha história e tinha resolvido mandar no privado para alguns amigos que ela achava que poderiam ajudar o Thomaz.

Qual não foi a minha emoção quando ela me contou que uma de suas melhores amigas que mora no Canadá tinha sentido um impulso de ligar para o Thomaz e saber mais sobre a história dele. E que pelo telefone, encantada com sua energia e forma de falar, resolveu junto ao marido, pagar todo o restante do curso de enfermagem do Thomaz até que ele se forme.

Gente. Para tudo. Para tudo que eu tive um treco de emoção quando soube disso. E fiquei tentando imaginar o que o Thomaz tinha sentido também.

No dia seguinte liguei para Bianca no Canadá e ficamos horas no telefone. Ela me contou do que sentiu ao falar com ele e que algo de muito humano e simples vinha daquele ser. Ela me contou que quando ofereceu de depositar a quantia inteira na conta dele, ele se negou.

– Será que eu posso mandar os boletos para senhora? Eu prefiro.

Ela respondeu que sim, que não teria problema algum.

Thomaz foi honesto com ele mesmo. Sabia que poderia precisar daquele dinheiro para trezentas outras coisas, resolveu não arriscar.

Honestidade. Inteireza. Verdade. Tudo que o nosso Brasil precisa.

Ontem descobri que ele trocou o nome dele no Instagram de Thomaz para “Enfermeiro das Bananadas”. O apelido que eu dei para ele gente! Tem coisa mais linda?

Thomaz, agora só falta você aparecer no Caldeirão do Huck! Você me leva junto? Também tô precisando de ajuda para encontrar uma editora que publique meus livros! Hahahaha
Agradeço tanto isso que estamos vivendo.

À vida que por vezes pode ser tão generosa. Ao Thomaz por me ajudar a resgatar a fé no invisível, aos meus amigos que ajudaram, à Janine, à Bianca e o marido, ao mundo.

A vida as vezes pode ser assim.

Simples e divina como o amor que a gente aos pouquinhos vê se multiplicar em pequenas e definitivas ações.

O Enfermeiro das Bananadas

Ele só ficou alguns minutos falando comigo. Poucos mesmo, acho que menos de cinco minutos. Mas a energia que ele carregava dentro do peito era tão preciosa e verdadeira que eu passei o resto da viagem da barca pensando nele.

Thomaz é estudante de enfermagem e está vendendo bananadas nos transportes públicos para ajudar a pagar a faculdade e os materiais que vai precisar no estágio.

Disse ele que quer mudar a história da família já que seu pai está preso por ter tirado a vida de tantas pessoas.

“Ele tirou e eu quero devolver.”

Menino de ouro, não media esforços de falar com cada um como se fosse o primeiro. Disse que aceitava qualquer contribuição, inclusive um sorriso.

“Eu só tenho pix” disse eu. “Mas não tenho muito”

Ele respondeu simpático que não precisava de muito. Que qualquer ajuda era bem-vinda. Que eu não precisava mostrar o valor, nem provar a transferência. “Agora pode se servir à vontade das bananadas.”

“Quanto é cada uma?” perguntei. “Não tem preço não. A senhora pega quantas desejar.”

Fiquei olhando aquele rosto pensando nessa economia solidária que ele tava exercendo, me perguntando o que seria do mundo se todos fossem assim.

Depois ele contou que estava muito grato a Deus por dois motivos: porque tinha arranjado uma namorada linda na faculdade e tinha sido entrevistado pelo RJ TV.

“Isso tá mudando minha vida, moça.”

Na mesma hora pensei: também quero te ajudar Thomaz. Vou escrever sobre você na minha página. Tenho 617 seguidores muito queridos no Instagram. Se metade deles te ajudar com alguma coisa, nosso encontro de almas já vai ter valido a pena.

Saí das barcas com o coração inundado de gratidão por esbarrar nesse menino. Por alguns instantes, ele me fez acreditar que o mundo tem jeito, que a  gente pode ter esperança na humanidade e que um dia, ele vai se realizar profissionalmente porque simplesmente é merecedor de vencer essa luta que é ser brasileiro e não desistir nunca.

Para quem quiser ajudar esse anjo, segue aqui sua página no Instagram
thomaz_junior19
E seu número de pix!
Rogério Thomaz da Silva Junior
Celular 21 98288-8841

Thomaz, seja muito feliz meu querido! Qualquer dia desses nos encontramos por aí!

Viagem no Tempo

Ontem aconteceu uma coisa extraordinária aqui em casa: acabou a luz.

Não sei se porque choveu, ou ventou. Só sei que umas sete horas a luz se foi e não voltou mais. A princípio todo mundo reclamou. Eu estava fazendo jantar, as meninas estavam cada uma em seu universo. Catarina no computador, Clara no Instagram, Edu vendo TV e João jogando no celular.

Acendemos algumas velas pela casa. Tentando ambientar os olhos e o corpo para aquela escuridão repentina, vi o pessoal perambulando pelos cômodos meio perdido. Um silêncio tranquilo se instalou pela casa. Pela rua. Pelo bairro.

Aos pouquinhos fui percebendo que aquelas velas me faziam viajar no tempo. Num tempo não muito distante do nosso, mas numa configuração de cotidiano completamente diferente pelo simples fato de não existir luz elétrica. A sensação era muito boa. De uma serenidade estranha, incomum.

As meninas foram chegando na cozinha, oferecendo ajuda com a comida. João e Edu resolveram colocar a mesa. Começamos a conversar sobre como devia ser o mundo antes da tecnologia. Alguma coisa começou a acontecer com a gente. Como se de repente, naquela luz tão calma, nossa alma pudesse se acalmar também.

Nos sentamos para comer numa mesa cheia de velinhas – como é linda a luz da vela – que nem parecia a mesma casa barulhenta de antes.

Depois do jantar lavamos a louça, arrumamos a cozinha e fomos para sala. Uma chuvinha caia lá fora. Clara resolveu pintar. Catarina começou a ler. Edu, João e eu ficamos conversando, rindo de coisas que tinham acontecido durante o dia.

Fui deitar impressionada com o que tinha acontecido com a gente. Tínhamos ficado juntos, como há muito tempo não ficávamos. Juntos de verdade, não somente coabitando o mesmo espaço.  

Dizem que os cronistas são nostálgicos. Mas como não sofrer de nostalgia e saudade de um tempo em que a vida parecia tão mais simples e profunda? Uma época em que o excesso de estímulos não transformava as pessoas em zumbis, hipnotizadas pelos aparelhos elétricos, celulares, computadores, tablets e smarts tvs. Ai ai.

Estou ansiosa pela próxima falta de luz lá em casa. Ansiosa por viajar no tempo e exercer com a minha família a oportunidade única de estar inteira e presente para eles. Para mim mesma e para a história das nossas vidas.