Minha menina

Ontem, depois de tanto tempo, reencontrei você numa dança linda. Eu não sabia que você viria, na verdade eu dançava de olhos fechados as dores que meu corpo carrega. Era uma sessão emocionante de biodança.

Mas de repente, do nada, senti sua mão pequeninha entrelaçando a minha e senti uma emoção tão forte que comecei a chorar. Te abracei com força e saudade. Todas as vezes que eu te reencontrei nos últimos anos, só estive preocupada em te cuidar, te banhar em águas quentes, encher de afeto esse corpo pequeno que passou por tantas dores e traumas.

Sempre me senti culpada por não ter podido te proteger como protegi minhas filhas. Mas hoje já consigo entender com o espírito, a alma e o coração que não podia ter feito nada por nós aos sete anos. E que somente hoje aos cinquenta é que posso cuidar de você, de nós duas.

E é por tudo que passamos que sei que preciso contar ao mundo o que vivemos. Muitas mulheres passam pela mesma coisa que passamos. Mas muitas não têm coragem de falar. Nem de lembrar. Nem sequer imaginam que pode existir uma forma que cure algo tão insuportável de carregar.

Eu descobri que as palavras são meu maior e mais potente remédio. E peço a sua permissão para falar de nós. Sei que a maioria das nossas memórias foram apagadas por nosso inconsciente. Ele sempre tentou nos poupar, tentou estancar o sangue das feridas para que elas parassem de sangrar. Mas agora também peço permissão a ele para que me faça recordar o suficiente para falar daquilo que não posso mais calar. Chegou a hora de quebrar a casca de sangue pisado que a vida toda nos protegeu.

Eu te amo, minha joaninha. E te agradeço a alegria de te saber sempre dançando em mim. Estou aqui. Sempre estarei. Colocando toda a ternura que tenho em cada ferida nossa, para que nunca mais a gente precise sofrer pelo que passou.

Dance comigo a dança das palavras que curam. Estou aqui para nos amparar.

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