
Sim, eu sei que o mundo enlouqueceu nessa coisa de tempo.
Que a gente não tem mais tempo para nada. Nem tempo para pensar um pouco sobre o tempo. Sei inclusive que a gente nem mais aguenta falar sobre isso.
Tenho para mim que o tempo andou mudando nesses últimos anos porque antigamente era possível viver e realizar coisas em 24 horas. Hoje não dá mais.
Mas mesmo sabendo disso tudo, eu hoje roubei um tempinho da tarde para olhar minha agenda da semana.
Tudo porque não tenho tido tempo para escrever.
Primeiro coloquei os compromissos com hora marcada. Esses não têm discussão. Calculei o tempo de ida e volta de deslocamento para as tarefas porque só Deus sabe o que é o trânsito de Niterói. E agora, a falta de ônibus circulando.
Depois coloquei o tempo de dormir, o tempo de comer – de fazer a comida – de arrumar a casa, de lavar a roupa, de recolher depois, de guardar. Tempo de fazer faxina, de fazer supermercado, de realizar todas as obrigações que a gente não previa e que são infinitos: médicos, exames, bancos, pulinho na farmácia, pulinho na loja de ferragens, pulinho no mercado porque faltou aquele manjericão para o molho de tomate de hoje à noite…
Descobri que esses tempos sem hora marcada são praticamente impossíveis de serem calculados. Porque os imprevistos no nosso dia a dia são como um monstro que te traga para o Lago Ness. Eles não têm nem dó nem piedade e te arrastam o dia inteiro se você deixar.
Então entendi que a única coisa que poderia fazer para ter tempo para escrever seria roubar o tempo dos tempos incalculáveis. Mas tempos roubados não são tempos de qualidade. São tempos picadinhos, chatinhos, tempos apressadinhos.
E eu não quero esse tempo para escrever.
Para escrever é preciso um tempo de alma.
O tempo de alma é um tempo totalmente diferente do tempo do mundo. É um tempo muito individual, subjetivo e atemporal. Precisa acontecer dentro de nós com uma margem mínima de conforto. É um tempo calmo. Um tempo tranquilo. Para começar que é um tempo que não pode ser medido. Apenas sentido. O tempo de alma respira fundo. Ele medita. Ele é lento e sereno. Espaçoso e confortável.
É o tempo que usamos para tomar uma deliciosa xícara de café no fim da tarde olhando o entardecer na janela. É o tempo do banho quentinho e amoroso antes de dormir. O tempo de leitura de um livro bom numa poltrona macia. O tempo de um cafuné. O tempo de espreguiçar na cama depois do cochilo de domingo.
O tempo de alma foi criado por Deus para que pudéssemos manifestar na vida o que a alma deseja. O tempo de alma não gera produtos. Ele não calcula ganhos. Ele não aspira ser bem-sucedido. O tempo de alma é vivencial. É processo.
Esse é o tempo que eu preciso para escrever. Mas ainda não sei onde encontrá-lo. Porque essa crônica eu acabei de escrever ao invés de fazer o almoço. E agora está todo mundo com fome reclamando. Deixa eu ir lá correndo…
