Sobre sonhos

Para Sidarta Ribeiro

Não me lembro direito a idade que tinha quando comecei a fazer um diário de sonhos. Mas acho que foi na adolescência. Naquela época eu já me impressionava com os enredos cinematográficos que eu produzia na mente durante a noite. Eram tão absurdos que eu achava que precisava guardar.

Sempre tive essa relação visceral com sonhos. Sonhar é como viver uma parte muito mágica e incontrolável da nossa existência, sem ter nenhuma ferramenta para lidar com aquilo. É porque a gente se acostuma, mas vamos combinar que se dormir é estranho – esse apagão que a gente vive diariamente – sonhar então é surreal. Por que quem nunca acordou com a certeza que estava vivendo no sonho o que vivemos na realidade? Qual não foi a minha surpresa quando descobri que os índios lidam com o mundo dos sonhos como se eles fossem mesmo, assumidamente, uma outra dimensão para onde vamos e vivemos uma “realidade” tão preciosa como essa que vivemos quando estamos espertos.

Caramba.

Trabalhei muito meus sonhos na terapia. Amava. E com os anos fui entendendo meus próprios símbolos, meus próprios mecanismos através desse código divino. Os sonhos são um presente do Grande Criador. Quase uma brincadeira que Ele faz com a gente. Se soubermos aproveitar, nossa! Meio caminho andado para a compreensão de muitas coisas dessa vida.

Pois bem.

Desde que tive Covid meus cabelos começaram a cair assustadoramente. Eram tufos e tufos. Dizem que um dos sintomas mais comuns. Mas como tenho um pouco de nojinho de cabelo, comecei a fazer umas bolinhas simpáticas para jogar no lixo. Só que as bolinhas eram tão fofinhas, que do nada resolvi começar a guardá-las. É, eu sei. Estranho. Mas quem não ficou estranho depois da pandemia, gente?

Quando me dei conta, a coleção já tinha começado. Guardei-as num pote de vidro bonito e assim segui a vida. O pessoal aqui em casa começou a estranhar o ritual. Achavam a coisa meio macabra. Engraçado como algumas coisas carregam em si uma história né. Mas eu nem liguei. Naquela altura do campeonato já estava apegava às minhas bolinhas ruivinhas. E pensando no que eu faria com elas. Quando finalmente decidi, o pessoal ficou em polvorosa.

Uma bonequinha com cabelo de bolinhas. É isso.

Edu arregalou os olhos. “Bonequinha? Isso definitivamente é coisa de vudu” falou o namorado macumbeiro. Minha mãe teve outra reação completamente diferente. “Entrega isso para Mãe Natureza, minha filha” falou minha Mulher Estrela-Guia do Clã das Tartarugas. Mas o melhor foi quando contei para o Kim, meu sobrinho estudante de cinema: “Titi, bora fazer um stop motion com essa bonequinha!” Hahahaha. Sensacional. Cada um com a sua interpretação pessoal e intransferível sobre o símbolo em questão.

Assim são os sonhos. Eles falam com a gente através dos símbolos. Mas o que o Jung ensinou para minha mãe que ensinou para mim, é que, apesar de haver muitas definições do que significam determinados símbolos, o que a gente precisa mesmo é afinar a nossa definição dos nossos símbolos pessoais. O que aquilo significa para nós. Nós, que fomos criados de determinada maneira, sob determinada cultura, determinada região do planeta e educado segundo as normas sociais do nosso mininúcleo familiar. Pronto, isso já vira um caldeirão totalmente subjetivo para qualquer coisa.

Então, se para o Edu esses cabelinhos são coisa de vudu, para minha mãe elemento para devolver a Grande Mãe e para o meu sobrinho um objeto de arte a ser filmado, essas bolinhas de cabelo para mim significam as anteninhas que eu andei perdendo.

Como escrever sem antenas para me guiar e captar informações do mundo?

Quando a boneca estiver pronta mostro para vocês. Inté!

O que achou?