O último perfume dela

A memória é uma sinapse interessante.

Aqui guardando lençóis e fronhas nas caixas, para mais uma mudança na minha vida, dou de cara com um lençol azul, vindo recentemente da Gávea, do apartamento de Zelinha.

Abraço o lençol com uma saudade doída dela, e ao perceber o aroma que vem dele, desabo.

Lá dentro, guardado nas teias dos fios de algodão, estão as melhores lembranças que tenho da minha baixinha, a baixinha que mais amei em toda a minha vida.

Minha sogra, minha segunda mãe que partiu há mais de dois anos dessa dimensão e segue comigo em lembranças diárias. Todos os dias eu lembro de Zélia, ou por alguma referência dela no meu cotidiano, ou por saudade. Mas essa lembrança em especial, do cheiro desse lençol, parece doer mais do que as outras.

Explico.

O perfume dos lençóis da Gávea guardam um aroma de amor.

Quando íamos dormir lá, eu e as meninas, ela fazia questão de montar um acampamento aconchegante com muitos colchões, travesseiros e cobertinhas macias no quarto. Tudo tinha esse cheiro de lar, de afeto, de cuidado. Geralmente nessa hora já estávamos cansadas e era quando ela desandava a rir. Não existia nada mais prazeroso do que ver Zélia tendo um ataque de riso. Ela ficava molenga e dobrava o riso com qualquer besteira que a gente fizesse. Difícil descrever esse momento porque por mais que eu explique, só quem viveu sabe da potência do que eu estou falando.

Abraço o lençol de novo e penso: meu Deus, depois que eu lavar esse lençol, esse perfume vai embora para sempre. Como ela. Sinto vontade de chorar de novo, pensando de que forma eu poderia apreender algo tão sutil.

Esse é o último perfume que tenho dela. Porque é possível acessar os frascos de lavanda que ela usava. É possível repetir uma receita dos bolos que ela fazia, assar um cuscuz na cuscuzeira. Tentar um macarrão gratinado, ou cortar um coentro, tomar banho com sabonete líquido Granado ou me encher de talco Johnson depois do banho. Essas coisas sempre trarão Zelinha para perto de mim. Mas essa essência divina dos lençóis, essa… eu nunca mais vou conseguir replicar.

É muito difícil aprender a viver sem as pessoas que fizeram sentido na nossa existência. É como se a vida fosse soltando os laços que costuraram o nosso destino.

Ficar sem Zélia é algo que talvez eu nunca vá superar nessa encarnação. Tenho sonhado tanto com ela nos últimos meses! E em todos os sonhos eu sempre me abaixo para abraça-la, como sempre fazia. E ela sempre na pontinha dos pés.

Nunca mais vou lavar esse lençol. Nunca mais enquanto eu viver. Até que o último resquício desse bálsamo desapareça, eu vou guardar esse pedaço de pano azul como quem guarda a essência da própria vida.

O que achou?