
Quantos presentes que a vida pode dar para gente?
Assim, de repente, sem que a gente perceba?
Dia desses, estava eu mergulhada nas palavras buscando dar voz às questões da minha infância – a parte mais difícil de um romance para existir – quando dou de cara com esse vídeo, de um pequeno trecho da “A Viagem de Chihiro” quando ela entra naquele trem sem fim e o personagem do Sem Rosto senta ao lado dela.
A música, o som da chuva, a trepidar do trem sobre os trilhos que atravessam aquela água infinita.
Aquela mistura de coisas de repente me pegou de surpresa.
Parei os olhos naquela cena e fui inundada por uma emoção que eu não conseguia explicar. Como um nó que aperta a garganta e faz a gente entender tantas coisas num único instante. De repente, a Chihiro era eu e o Sem Rosto era a dor que eu carregava a vida toda por tudo que passei. E lá estávamos nós. Eu e ela. Em silêncio. Lado a lado.
Como companheiras de uma vida inteira.
Ver minha dor naquela imagem me fez amá-la. Pela primeira vez. Me fez aceitá-la e enxergá-la de uma perspectiva que eu nunca tinha experimentado antes.
Uma clássica projeção aonde a cura veio através da melhor forma para curar-se: através da arte.
Foi uma dia para nunca esquecer.
Minha vida é recheada de símbolos. E todos eles são como um presente para minha existência. Mas esse, realmente, foi especial.
Ah se eu pudesse mandar uma mensagem para o Miyazaki para agradecer…
