Falta pouco, Chico.

Chico,

Não me olha com essa carinha não, pelo amor de Deus.

Eu sei que você não aguenta mais ficar preso nesse apartamento. Eu também não. Estamos presos entre paredes, presos às regras do condomínio, presos a um sistema, encarcerados num lugar que não nos cabe mais.

É duro quando o lugar onde estamos fica pequeno para o tamanho que nos transformamos.

Mas a verdade, é que desde que você chegou, a gente vem se expandindo juntos, de uma forma descomunal.

Você é o meu amigo. Meu guardião. Meu companheiro de todas as horas. Meu dengo. E desde que você chegou que eu venho sonhando um quintal com estrelas para você. Um quintal com terra batida, minhoca, florzinha. Galho, folha seca, árvore. Imagina a gente acordar entre árvores, meu caro amigo!

Eu sonho esse lugar para você, mas na verdade ele fala de um desejo muito profundo e antigo meu, de voltar a terra e a tudo que ela significa para mim. Há anos venho estado anestesiada pela vida. Pelas situações, pela falta de oportunidade, por essa cidade cinza que sem perceber vai nos enterrando.  

Mas agora meu Rei, agora falta pouco.

Estamos, você e eu, contando os dias no calendário para gente se mudar para casinha da mata.

A casa tão sonhada. Ela parece uma casinha de bruxa, escondidinha no meio de muitas árvores. Um lugar mágico que finalmente encontramos. Ou foi ela que nos achou. Eu sempre achei que o que eu buscava também estava à minha procura, e essa casa é prova disso.

A verdade é que algo está em profunda transmutação aqui dentro de mim.

Não sei se pela proximidade desse reencontro com a natureza. Não sei se pelo fato d’eu, pela primeira vez em muitos anos, sentir que estarei num lugar de silêncio, grilos, sapos coaxando, vento ventando, joaninhas me reencontrando.

Sinto que minha potência como ser humano se transforma completamente num lugar assim. E isso realmente pode significar uma mudança radical de vida.

Bom, para você vai ser um paraíso. Uma liberdade nunca experimentada. Uma expansão tão grande que eu espero que o seu coração aguente.

Quero estar ao seu lado quando avistarmos o primeiro vagalume. Quando encontrarmos o lugar ideal para a nossa fogueira. E a nossa horta, claro. Com tomates, cenouras, rúculas e manjericão. Tô sonhando com o nosso primeiro banho de chuva. E a nossa primeira tarde preguiçosa na varanda. Num dia bem delicioso de verão. E mosquitos.

É Chicote, não só de alegrias e glamour viveremos.

No Muriqui tem muito mosquito. Insetos. Bichos. Pode escrever que lá vai ter aranha armadeira, vai ter jararaca, vai ter escuridão.

Mas eu não tenho medo de nada se você estiver comigo.

Então meu Caramelo, fica tranquilo que falta pouco. Em menos de uma semana, a gente vai estar uivando para lua. Eu e você. Espera só para ver.

O último perfume dela

A memória é uma sinapse interessante.

Aqui guardando lençóis e fronhas nas caixas, para mais uma mudança na minha vida, dou de cara com um lençol azul, vindo recentemente da Gávea, do apartamento de Zelinha.

Abraço o lençol com uma saudade doída dela, e ao perceber o aroma que vem dele, desabo.

Lá dentro, guardado nas teias dos fios de algodão, estão as melhores lembranças que tenho da minha baixinha, a baixinha que mais amei em toda a minha vida.

Minha sogra, minha segunda mãe que partiu há mais de dois anos dessa dimensão e segue comigo em lembranças diárias. Todos os dias eu lembro de Zélia, ou por alguma referência dela no meu cotidiano, ou por saudade. Mas essa lembrança em especial, do cheiro desse lençol, parece doer mais do que as outras.

Explico.

O perfume dos lençóis da Gávea guardam um aroma de amor.

Quando íamos dormir lá, eu e as meninas, ela fazia questão de montar um acampamento aconchegante com muitos colchões, travesseiros e cobertinhas macias no quarto. Tudo tinha esse cheiro de lar, de afeto, de cuidado. Geralmente nessa hora já estávamos cansadas e era quando ela desandava a rir. Não existia nada mais prazeroso do que ver Zélia tendo um ataque de riso. Ela ficava molenga e dobrava o riso com qualquer besteira que a gente fizesse. Difícil descrever esse momento porque por mais que eu explique, só quem viveu sabe da potência do que eu estou falando.

Abraço o lençol de novo e penso: meu Deus, depois que eu lavar esse lençol, esse perfume vai embora para sempre. Como ela. Sinto vontade de chorar de novo, pensando de que forma eu poderia apreender algo tão sutil.

Esse é o último perfume que tenho dela. Porque é possível acessar os frascos de lavanda que ela usava. É possível repetir uma receita dos bolos que ela fazia, assar um cuscuz na cuscuzeira. Tentar um macarrão gratinado, ou cortar um coentro, tomar banho com sabonete líquido Granado ou me encher de talco Johnson depois do banho. Essas coisas sempre trarão Zelinha para perto de mim. Mas essa essência divina dos lençóis, essa… eu nunca mais vou conseguir replicar.

É muito difícil aprender a viver sem as pessoas que fizeram sentido na nossa existência. É como se a vida fosse soltando os laços que costuraram o nosso destino.

Ficar sem Zélia é algo que talvez eu nunca vá superar nessa encarnação. Tenho sonhado tanto com ela nos últimos meses! E em todos os sonhos eu sempre me abaixo para abraça-la, como sempre fazia. E ela sempre na pontinha dos pés.

Nunca mais vou lavar esse lençol. Nunca mais enquanto eu viver. Até que o último resquício desse bálsamo desapareça, eu vou guardar esse pedaço de pano azul como quem guarda a essência da própria vida.

O ano da delicadeza

Entrei esse ano vibrando um propósito simples, mas que pudesse mudar meu jeito de ver as coisas: que fosse um ano de delicadezas.

Não fiz nenhuma promessa. Estabeleci algumas metas, fiz poucas listas. Mas esse combinado comigo mesma foi profundo: 2025 vai ser um ano gentil.

Saí do ano que passou abatida. Cansada. Parecia que tinha chegado de uma guerra. E tinha mesmo. 2024 foram muitos aprendizados na dor, pouquíssimos no amor. Foi o que precisava ter sido. Mas esse ano eu preciso que seja mais leve. Cada passinho.

Eu sei que cada dia é um dia. E que a gente não controla nada. Mas mesmo aquela filosofia que tanto me representa

“a vida não é o que te acontece, mas o que você faz com aquilo que te acontece”

não precisa ser levada a ferro e fogo. Ela pode ser levada com carinho, calma e compreensão.

Então, mesmo os dias que sejam um atropelo, um nó de marinheiro, uma encruzilhada esquisita ou um soco forte no peito, eu quero lidar com cada um desses desafios com mais cuidado.

Essa é uma decisão. Uma escolha. Quero acolher as vivências difíceis com um abraço. Os aprendizados com uma palavra de afeto. As adversidades com ternura. Respirando. Deixando que elas me atravessem sem medo. Recebendo cada coisa dentro de mim sem pressa nem urgência. Para entender cada uma delas que chega, com mais serenidade. Mais poesia. Quem sabe.

Ano passado eu corri demais. Fiquei nervosa demais. Desesperada demais. Para que? Adiantou alguma coisa toda aquela angústia?

Nada. Só envelheci. Fiquei esvaziada. Oca. Perdi a leveza. A graça da vida. A beleza.

Então está decidido e já começou.

Como?

Recebi agora a pouco a confirmação.

Quando uma joaninha veio voando pela minha janela e pousou em cima da minha escrivaninha.

Isso é o Grande Espírito sorrindo para mim.

Eu sorrio de volta, emocionada. Os olhos enchem d’água. É assim quando a vida flui. Lágrimas são o símbolo perfeito da delicadeza. Amor em forma líquida.

Minha viagem com Chihiro

Quantos presentes que a vida pode dar para gente?

Assim, de repente, sem que a gente perceba?

Dia desses, estava eu mergulhada nas palavras buscando dar voz às questões da minha infância – a parte mais difícil de um romance para existir – quando dou de cara com esse vídeo, de um pequeno trecho da “A Viagem de Chihiro” quando ela entra naquele trem sem fim e o personagem do Sem Rosto senta ao lado dela.

A música, o som da chuva, a trepidar do trem sobre os trilhos que atravessam aquela água infinita.

Aquela mistura de coisas de repente me pegou de surpresa.

Parei os olhos naquela cena e fui inundada por uma emoção que eu não conseguia explicar. Como um nó que aperta a garganta e faz a gente entender tantas coisas num único instante. De repente, a Chihiro era eu e o Sem Rosto era a dor que eu carregava a vida toda por tudo que passei. E lá estávamos nós. Eu e ela. Em silêncio. Lado a lado.

Como companheiras de uma vida inteira.

Ver minha dor naquela imagem me fez amá-la. Pela primeira vez. Me fez aceitá-la e enxergá-la de uma perspectiva que eu nunca tinha experimentado antes.

Uma clássica projeção aonde a cura veio através da melhor forma para curar-se: através da arte.

Foi uma dia para nunca esquecer.

Minha vida é recheada de símbolos. E todos eles são como um presente para minha existência. Mas esse, realmente, foi especial.

Ah se eu pudesse mandar uma mensagem para o Miyazaki para agradecer…

O passaporte do amor

É uma coisa pequeninha.

Um gesto mínimo na imensidão do dia a dia. Mas para mim significou muito.

Entrei no ônibus toda esbaforida, cheia de sacolas, no fim de uma sexta-feira exaurida de todas as coisas que tinham acontecido na semana.

Coloco o RioCard na leitura lá do trem para pagar a passagem e pah! Saldo insuficiente.

Pensei comigo: “Caramba. Não carregou.”

Passo de novo. E de novo. Nada de validar o crédito. “Motorista, desculpe, vou precisar saltar. Meu RioCard não carregou.”

“Tudo bem, minha senhora. Aguarda o próximo ponto.”

Foi quando a moça se levantou lá de onde ela estava sentada e veio passar o RioCard dela para mim.

Ela encostou o cartão no leitor, a coisinha ficou verde, ela me olhou nos olhos, deu um sorriso e voltou a sentar.

Eu fiquei alguns segundos em choque. Olhando bem para aquela situação, me lembrando de todas as vezes que fui eu que tomei aquela atitude, de fazer o bem sem saber a quem.

Rodei a catraca e agradeci a ela num sorriso.

O melhor de todos os sorrisos que eu tinha. Mas não foi o suficiente para mim. A gratidão naquele momento estava me Transbordando.

Então eu sentei, arranquei uma folha do meu caderno, dei graças a Deus de estar cheia de canetinhas coloridas na bolsa e escrevi numa cartinha improvisada o seguinte bilhete:

“Não sei quem você é…
Mas tenho certeza que somos feitas da mesma matéria: amor!
Muito obrigada por me salvar. Beijos Tati”

Ela desceu num ponto antes do meu. Por isso eu tive a chance de entregar o bilhete em mãos.

Ela sorriu de novo e disse: vou pegar os óculos para ler! Desceu e eu me separei dela com os olhos e óculos grudados no meu bilhete.

Vou te contar: a vida as vezes é linda.

Existe um lugar

Quero contar que existe um lugar que está cravado no coração da Serra de Itapety, no estado de São Paulo, no município de Mogi das Cruzes, mais precisamente na Estrada da Moralogia, número 20, que está lá – mas parece que está em outra dimensão desse planeta.

O Sítio Essencial é um lugar que você pode se hospedar pelo Airbnd, você pode curar sua alma de dores invisíveis,  pode curar o corpo de dores visíveis, pode fazer yoga, mil terapias alternativas, comer uma comida extraordinária vegetariana, mas sobretudo… pode simplesmente encontrar a paz que seu espírito merece.

Eu estive lá esses dias visitando minha irmã Catita que mora e trabalha nesse lugar como Terapeuta Integrativa e me convidou a passar uma noite de descanso e deleite enquanto eu estava a caminho do Sul.

Foram menos de 24 horas que restauraram minha alma como se estivesse estado lá por uma semana. Eu não sei o que foi.

Se foi o abraço acolhedor de quem estava lá, se foi a água, o chá de capim limão, os sorrisos, o pão feito de grãos, o afeto, o café com cardamomo, a calma, as plantas, as flores coloridas comestíveis na salada, as conversas, a farofa de casca de banana, o arroz de figo, o kibe de abóbora. Ou se foi o cheiro de terra molhada, as plantas mágicas, as conversas cósmicas, o sono reparador de uma noite sem medo nem angústia, o tempo contemplado no lago, a visita das borboletas, o silêncio.

Eu não sei o que foi.

Sei que todos os cantinhos e lugares são cuidados e restaurados com arte. Cada vasinho de planta tem um toque, cada plaquinha tem uma frase, cada pedaço tem uma poesia.
Saí de lá com a alma lavada e a certeza de que existem lugares no mundo que certamente estão a serviço de algo maior e mais profundo para nos ajudar a viver.

Passei como um vagalume apressado por esse lugar tão especial. Mas estou louca para voltar. Não há nada mais precioso do que encontrar lugares onde nossas almas cabem sem esforço.

Tempo de alma

Sim, eu sei que o mundo enlouqueceu nessa coisa de tempo.

Que a gente não tem mais tempo para nada. Nem tempo para pensar um pouco sobre o tempo. Sei inclusive que a gente nem mais aguenta falar sobre isso.

Tenho para mim que o tempo andou mudando nesses últimos anos porque antigamente era possível viver e realizar coisas em 24 horas. Hoje não dá mais.

Mas mesmo sabendo disso tudo, eu hoje roubei um tempinho da tarde para olhar minha agenda da semana.

Tudo porque não tenho tido tempo para escrever.

Primeiro coloquei os compromissos com hora marcada. Esses não têm discussão. Calculei o tempo de ida e volta de deslocamento para as tarefas porque só Deus sabe o que é o trânsito de Niterói. E agora, a falta de ônibus circulando.

Depois coloquei o tempo de dormir, o tempo de comer – de fazer a comida – de arrumar a casa, de lavar a roupa, de recolher depois, de guardar. Tempo de fazer faxina, de fazer supermercado, de realizar todas as obrigações que a gente não previa e que são infinitos: médicos, exames, bancos, pulinho na farmácia, pulinho na loja de ferragens, pulinho no mercado porque faltou aquele manjericão para o molho de tomate de hoje à noite…

Descobri que esses tempos sem hora marcada são praticamente impossíveis de serem calculados. Porque os imprevistos no nosso dia a dia são como um monstro que te traga para o Lago Ness. Eles não têm nem dó nem piedade e te arrastam o dia inteiro se você deixar.

Então entendi que a única coisa que poderia fazer para ter tempo para escrever seria roubar o tempo dos tempos incalculáveis. Mas tempos roubados não são tempos de qualidade. São tempos picadinhos, chatinhos, tempos apressadinhos.

E eu não quero esse tempo para escrever.

Para escrever é preciso um tempo de alma.

O tempo de alma é um tempo totalmente diferente do tempo do mundo. É um tempo muito individual, subjetivo e atemporal. Precisa acontecer dentro de nós com uma margem mínima de conforto. É um tempo calmo. Um tempo tranquilo. Para começar que é um tempo que não pode ser medido. Apenas sentido. O tempo de alma respira fundo. Ele medita. Ele é lento e sereno. Espaçoso e confortável.

É o tempo que usamos para tomar uma deliciosa xícara de café no fim da tarde olhando o entardecer na janela. É o tempo do banho quentinho e amoroso antes de dormir. O tempo de leitura de um livro bom numa poltrona macia. O tempo de um cafuné. O tempo de espreguiçar na cama depois do cochilo de domingo.

O tempo de alma foi criado por Deus para que pudéssemos manifestar na vida o que a alma deseja. O tempo de alma não gera produtos. Ele não calcula ganhos. Ele não aspira ser bem-sucedido. O tempo de alma é vivencial. É processo.

Esse é o tempo que eu preciso para escrever. Mas ainda não sei onde encontrá-lo. Porque essa crônica eu acabei de escrever ao invés de fazer o almoço. E agora está todo mundo com fome reclamando. Deixa eu ir lá correndo…

O Enfermeiro das Bananadas

Ele só ficou alguns minutos falando comigo. Poucos mesmo, acho que menos de cinco minutos. Mas a energia que ele carregava dentro do peito era tão preciosa e verdadeira que eu passei o resto da viagem da barca pensando nele.

Thomaz é estudante de enfermagem e está vendendo bananadas nos transportes públicos para ajudar a pagar a faculdade e os materiais que vai precisar no estágio.

Disse ele que quer mudar a história da família já que seu pai está preso por ter tirado a vida de tantas pessoas.

“Ele tirou e eu quero devolver.”

Menino de ouro, não media esforços de falar com cada um como se fosse o primeiro. Disse que aceitava qualquer contribuição, inclusive um sorriso.

“Eu só tenho pix” disse eu. “Mas não tenho muito”

Ele respondeu simpático que não precisava de muito. Que qualquer ajuda era bem-vinda. Que eu não precisava mostrar o valor, nem provar a transferência. “Agora pode se servir à vontade das bananadas.”

“Quanto é cada uma?” perguntei. “Não tem preço não. A senhora pega quantas desejar.”

Fiquei olhando aquele rosto pensando nessa economia solidária que ele tava exercendo, me perguntando o que seria do mundo se todos fossem assim.

Depois ele contou que estava muito grato a Deus por dois motivos: porque tinha arranjado uma namorada linda na faculdade e tinha sido entrevistado pelo RJ TV.

“Isso tá mudando minha vida, moça.”

Na mesma hora pensei: também quero te ajudar Thomaz. Vou escrever sobre você na minha página. Tenho 617 seguidores muito queridos no Instagram. Se metade deles te ajudar com alguma coisa, nosso encontro de almas já vai ter valido a pena.

Saí das barcas com o coração inundado de gratidão por esbarrar nesse menino. Por alguns instantes, ele me fez acreditar que o mundo tem jeito, que a  gente pode ter esperança na humanidade e que um dia, ele vai se realizar profissionalmente porque simplesmente é merecedor de vencer essa luta que é ser brasileiro e não desistir nunca.

Para quem quiser ajudar esse anjo, segue aqui sua página no Instagram
thomaz_junior19
E seu número de pix!
Rogério Thomaz da Silva Junior
Celular 21 98288-8841

Thomaz, seja muito feliz meu querido! Qualquer dia desses nos encontramos por aí!

E lá vamos nós

Esse ano resolvi entrar diferente.

Não pedi nada, não fiz promessa, nem fiquei pensando em todas as listinhas que faço sempre das mudanças que preciso fazer.

Entrei simplesmente agradecendo a vida e a sorte de estar bem. Agradecendo essa coisa de Airbnb que nos possibilitou estar numa casinha fofa em Teresópolis, na paz que eu sonhei o ano todo.

Esses últimos dois anos me ensinaram profundamente que não temos controle nenhum sobre nada e que quanto mais planos fazemos, mais nos frustramos.

Foi tão bom! Estive presente (quase) o tempo todo e vibrando cada minutinho da noite.

Comi comidas deliciosas, bebi uma cerveja gelada e dancei até fazer calinho no pé.

Assim eu desejo viver esse ano.

Cravada no presente.

Deixando para trás a melancolia do passado e sem dar pelota nenhuma para a ansiedade que me dá pensar no futuro.

Como a felicidade anônima, quero celebrar a vitória de só por hoje, estar bem e feliz. O resto é ilusão.

Adeus, Bosque

Aqui entre caixas de papelão, paredes meio pintadas e malas prontas, tropeço em mim sem conseguir me encontrar direito.

Ô troço forte que é mudança, ainda mais quando a gente ficou no mesmo lugar durante tanto tempo.

Doze anos morando num Bosque. Doze anos lutando contra mosquitos. Doze anos me sentindo segura. Doze anos é muito tempo de uma vida.

Quando vim para cá, Catarina tinha três anos de idade. Celebramos os oito anos da Clara na primeira festinha em casa. Depois teve os 10 no Salão com direito a show dos primos. Depois 15 anos dela mesma na festa fosforescente. Os 10 da Cata na festa de Unicórnio. Parece que uma vida inteira passou nesses 12 anos.

Me lembro como se fosse hoje os primeiros amigos que vieram beber cerveja comigo na recém-inaugurada varanda e eu aflita pedindo silêncio, já que parecia tão tarde.

Foi Mari, minha amiga-irmã que disse:
– Tatoca, cê acha que vai conseguir enganar seus vizinhos por quanto tempo sobre quem é você?

Nunca esqueci disso.

Depois relaxei porque é assim mesmo. A gente não consegue esconder quem se é por muito tempo. E eu sempre fui festeira. Alegre. Falante.

Aqui vivi grandes amores, grandes crises, fiz grandes amigos, tudo grande.

Obrigada Rê, minha vizinha de quintal, por sua amizade extraordinária, seus cafés com Madeleine, nossas conversas tão profundas. Obrigada Nilce por sua prontidão e afeto de sempre. Obrigada Simone, amiga querida. Maína que chegou depois. Obrigada Tia Karla que já se foi do Bosque. Vânia que voltou! Obrigada Erivelto e Wagner que fazem desse lugar um luxo para se morar.

Obrigada por fim a todas as minhas crianças amadas que me abraçam quando eu passo pela pracinha, depois que virei a Tia Tati, professora de teatro! E obrigada Marcella querida, por ter me trazido esse universo infinito de amor, depois de insistir para que eu desse as aulas aqui. Não quero perder vocês nunca! Ano que vem tem mais!

Foram 12 anos fazendo o mesmo trajeto Largo da Batalha/Maria Paula 18 vezes por dia. Tendo o privilégio de viver e trabalhar a 6 minutos da minha casa. Acordar com maritacas, beija-flores, águias e um milhão de passarinhos cantantes.

Amar e sofrer por morar num pequeno condomínio que mais parece uma minicidade, com todos os benefícios e sofrimentos que essa realidade traz.

Foram três casas, em três blocos diferentes. Mas a última moradia me deu um céu e isso eu nunca vou esquecer. Ter tido um céu durante a pandemia foi a forma de não enlouquecer esses últimos dois anos. Uma grande bênção.
Agora vou trocar o céu de Pendotiba pelo mar de São Francisco. Em 15 anos de Niterói, estou indo morar no lugar onde sempre mais amei aqui nessa cidade que adotei como minha. Um sonho realizado. Um predinho velhinho, sem portaria nem elevador, mas há uma quadra do mar. Do mar! Minha amada Avó Oceano há um passinho de mim. Isso é incrível.


E podendo finalmente, depois de mais de uma década, poder comprar um pãozinho a pé. Imagina! Ter uma vida de bairro. Conhecer o jornaleiro. Cumprimentar o padeiro. Explorar os cantinhos dos arredores. Vender o carro. Não me preocupar mais com longas distâncias desertas na madrugada.

Tudo nessa vida são escolhas. Vou sentir muita saudade desse lugar mágico que me abrigou tantos anos e cuidou de mim e das minhas pequenas com tanto carinho. Mas também estou em paz com a possibilidade de estar mais perto da civilização. Estar há 10 minutos da Livraria da Travessa para um cafezinho. Isso não tem preço.
Finalmente me sinto pronta para partir. Para uma nova etapa da vida. Ano novo, bairro novo, vida nova.

Que as nossas histórias possam ser sempre assim, um baú de histórias incríveis que pudemos viver, a cada lugar que deixamos um pouco de nós.