O Poder Avassalador de um Abracinho

Abraço mágico de Gisele Magalhães - minha irmã.

Abraço mágico de Gisele Magalhães – minha irmã.

Minhas filhas são criaturas estranhas. De vez em quando, elas parecem seres de outro mundo. Claro que elas são muito chatinhas também. Todos nós somos. Mas tenho assistido atitudes nelas surpreendentes nesses últimos anos. Esse tal desse amor incondicional que a gente ama os nossos filhos deve fazer alguma mágica. Pelo menos nas minhas, está fazendo.

Outro dia Clara me abraçou depois de um berro que eu dei com a Catarina. Foi uma das coisas mais bonitas que eu já vivi com ela. Eu gritei, ela veio na minha direção, olhou fundo nos meus olhos e me abraçou. E no abraço, ela ficou respirando fundo, como se quisesse que eu a acompanhasse na respiração. Foi inacreditável. Minha impaciência foi se dissipando, a raiva foi indo embora. Quando me dei conta, estava imersa num manto de amor que ela me cobriu.

Na mesma hora me lembrei do vídeo sobre o abraço que já tinha mostrado para elas no Youtube.

Puxa vida. Quanta coisa a gente aprende e esquece que aprendeu.

Mas essa coisa do abraço tem um poder muito esquisito mesmo. Depois daquele dia com a Clara resolvi experimentar a vivência com os meus alunos. E foi incrível também. Quando eles estão nervosos, ou impacientes, ou desestruturados com alguma coisa que tenha acontecido, eu pergunto com todo o carinho: “você quer um abracinho?”. A resposta é sempre a mesma: sim. E ali, naquele encontro de peitos, chacras e corações, as energias entram numa mesma vibração e tudo o que estava caótico, entra em harmonia. Eles se acalmam e voltam para um centro de alegria lindo de ver. É impressionante.

Bom, se o abraço não fosse mesmo uma forma mágica de tocar as pessoas, a Amma não teria tantos discípulos como tem hoje. Para quem não conhece, Amma é uma guru indiana que transforma multidões apenas com o poder de seu abraço. Minha mãe recebeu um abraço dela quando ela veio ao Brasil e disse que ele tem uma potência astronômica e que não dá para explicar o que é.

Minha mãe me ensinou a abraçar desde muito pequenininha. Ela dizia que duas coisas demonstravam muito sobre o caráter de uma pessoa: o aperto de mão e o abraço. O aperto de mão precisa ser firme. A firmeza nesse ato vai falar da sua firmeza na vida. Não tem nada que me dê mais nervoso do que apertar a mão de alguém e esse encaixe ser molinho porque a mão do outro já veio molenga para sua. Ai! Caramba. É horrível. A mesma coisa é o abraço. Tem muita gente que tem medo de abraçar. Medo de encostar o corpo. Medo de encostar os sexos eu acho. Mas quando a gente encontra uma pessoa que sabe abraçar, nossa. É um oásis. Um Sol na Terra.

Tem uns abraços que recarregam a nossa bateria em segundos. Como o abraço das minhas pequenas. Já ensinei para elas o lance do aperto de mão. E do abraço. Ainda bem. O que seria de mim se não tivesse as duas para me lembrar das coisas que insisto em esquecer?

 

Gratidão

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“Quanto menos eu preciso, melhor me sinto”
Charles Bukowski

Desde a entrada da primavera, um sentimento de gratidão tem me invadido o corpo, a mente e a alma.

Como algo que emerge de um lugar muito profundo e se instala na superfície possibilitando a instalação de uma nova lente no olhar e um novo filtro no coração.

É uma sensação sublime de plenitude. Um sentimento simples. Quase tão orgânico como respirar. Quase tão óbvio como existir.

É um estado de contentamento. Uma possibilidade de compreensão do quanto me sinto abençoada e sortuda com a vida que ganhei, conquistei e integrei.

Porque é isso. Tem uma parte que a gente ganha quando nasce. Alguns acreditam em sorte. Eu acredito em merecimento espiritual. Você ganha existência e é um girininho nadando num oceano de infinitas possibilidades. Mas é claro que tem girininhos que nascem abençoados, e outros nem tanto.

Depois tem a parte da conquista. Aquilo que você batalhou muito para conseguir depois que se transformou num ser adulto e consciente de toda a suas possibilidades. A conquista não fala de sorte, mas de todo o esforço e empenho que você tratou a vida.

Mas de todas, a parte que eu mais gosto é quando a gente chega num determinado pedaço da caminhada e entende que de nada adianta nascer bem ou conquistar um bocado de coisas se ao longo da vida você não aprende a integrar tudo que plantou, semeou e colheu.

Integrar conhecimentos e experiências para mim hoje é o grande pulo do gato nessa vida. Quando você consegue pegar toda a massaroca do que aprendeu e passou e transforma a coisa em sabedoria de vida. Porque simplesmente… Amadureceu.

Já dizia Cecília Meireles: “Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar inteira”.

Então é primavera. E eu estou aqui transbordando essa gratidão por tantas coisas.

Por ter tido a benção de trazer ao mundo não só uma como duas criaturas inacreditavelmente especiais.

Por ter uma família para lá de gostosa e amorosa que me apoia tanto em tantos momentos da vida.

Por ter uma saúde maravilhosa apesar  a minha hipocondria insistir em dores e doenças que nunca existem graças a Deus.

Por ter uma lista tão grande de amigos de verdade, amigos que me apoiam, me abraçam, me perdoam. Dividem bravamente suas existências comigo, contando comigo, me dando sempre de presente parte de seus corações.

Por ter um trabalho tão significativo, tão importante para o futuro e, sobretudo, por poder ter minhas filhas inseridas nele.

Por ter um namorado tão cuidadoso e amoroso, que luta para estar comigo como um guerreiro e me enxerga de um jeito doce e poético como nunca ninguém enxergou.

Por ter encontrado nas palavras uma arma para lutar, por ter sofrido tanto e ter tanto o que falar, por ter nascido quem eu sou, com essa alma exagerada e esse jeito desesperado de viver os dias como se eles fossem os últimos, todos os dias.

Eu agradeço meu Deus, eu agradeço.

E sei, aqui dentro de mim, que a qualquer momento eu posso morrer. E não tenho medo disso. Tudo que vivi e senti, já valeu essa encarnação.

 

 

Picasso e tudo aquilo que eu entendi

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“A arte é o vazio que a gente entendeu”
Clarice Lispector

Semana passada fui ver o Picasso. Sozinha. Ah! Tem coisas que eu a-do-ro fazer sozinha. Exposição é uma delas. Se cada um tem um tempo diferente para entender a vida, imagina uma obra de arte. A viagem precisa ser individual para que cada viajante possa vivenciar a experiência da forma que desejar. A arte é um mergulho profundo no vazio de cada um. Estar só nesse momento – pelo menos para mim – me ajuda muito no processo de entrega para a coisa.

Mas então. Picasso.

Me comove muito essa coisa do povo enfrentar uma, duas horas de fila só para ver uma exposição de arte. Gente! É demais. Esse tipo de coisa me devolve a esperança no mundo. Na humanidade. E me faz lembrar aquele livro da Celina Fioravanti “Os Curadores do Espírito” que fala dos artistas como principais agentes de cura e equilíbrio do mundo.

Bom, eu enfrentei uma hora de fila feliz. Li um pouco, observei as pessoas, ouvi conversa alheia, comi pipoca, liguei para uma amiga, lixei minhas unhas, arrumei minha carteira, tomei água com gás, masquei meia dúzia de chicletes. Na verdade nem terminei de fazer minhas tarefinhas de bolsa quando recebi a senha para entrar.

O Centro Cultural Banco do Brasil é um espetáculo por si só. Aquele lugar é uma viagem no tempo. Todas as vezes que entro naquele prédio e sinto aquele cheiro característico dele – uma mistura de café, cultura, refinamento e elegância – agradeço por existirem lugares no mundo como ele. Na verdade o espaço é uma garantia de prazer. Não importa que exposição esteja em cartaz. Nem que peças de teatro estejam passando. Ir ao CCBB é um programa barato e de satisfação garantida. Não sei o que é. Tem uma coisa na atmosfera daquele lugar que me fascina. A começar por aquela cúpula que fica no centro do prédio. Aquilo não é uma cúpula. É um portal para outra dimensão.

Mas voltando ao Picasso.

A fama do cara é uma coisa indiscutível. Picasso é considerado hoje um dos mais importantes artistas plásticos do século XX. Num leilão em maio desse ano, alguém pagou quase 180 milhões de dólares por um quadro dele. Pensa. É uma quantia astronômica por uma obra de arte. Mas eu entrei na sala e dei de cara com uma pintura dele. E naquele momento, não havia nada entre nós. Nem a fama, nem a história, nem o valor da obra, nem o tempo. Só eu e ela, a tela. E dentro dela, a alma dele, impressa na textura daquela tinta a óleo.

Uau.

Primeiro quase não consegui respirar. Como pode? Eu estava ali e podia sentir a presença dele. Não a presença do mito, mas do Pablo, o cara que tinha nascido na Espanha, que desenhava e pintava desde pequeno, que quase morreu de escarlatina, que sonhava em morar e trabalhar em Paris, que tinha amado e maltratado muitas mulheres e tinha revolucionado a arte com suas ideias. Minha fértil imaginação me capacita a coisas incríveis. Em alguns segundos, voltei no tempo. Ao dia, ao exato momento que ele pincelava naquela tela aquelas impressões que o mundo lhe causava. E pensei na brevidade do tempo diante de certos fenômenos da nossa existência. Essa é uma das razões da arte me fascinar tanto… Ela é imune ao tempo.

Mas voltando ao quadro.

Devo ter ficado alguns minutos em frente à primeira tela da exposição. Depois de passado o deslumbramento da viagem no tempo, voltei à sala do CCBB e fiquei tentando imaginar porque que aquela pintura era tão famosa. Lia e relia os resumos do curador da exposição e ria sozinha daquelas definições esdrúxulas que os entendidos em arte insistem em escrever, tentando definir o indefinível. Taí uma coisa que eu não entendo nas exposições. Para quê tanta explicação intelectual para algo que deve apenas ser sentido com o coração? Nada do que está escrito ali pode me ajudar a buscar uma emoção se ela não vem. Geralmente nas exposições que vou, elejo o quadro ou o objeto que mais me emocionou na sala e vou seguindo a jornada, os guardando na memória e no coração. Antes de ir embora, volto para me despedir de cada um, agradecendo silenciosamente sua existência, como se eles de alguma forma tivessem despertado algo mágico dentro de mim.

Na exposição do Picasso um único quadro me emocionou. E é o tipo da coisa que não dá para explicar por que. O pintor mesmo tem uma frase que gosto muito. Ele diz: “a qualidade de um pintor depende da quantidade de passado que traz consigo”. Talvez o mesmo possa ser dito do espectador. Gostar ou não de uma obra de arte também pode depender de tudo que o espectador tenha vivido. Como nos filmes. Dificilmente conseguimos explicar a alguém que odiou determinado filme, o porquê de termos gostado tanto dele. Nosso passado. O que vivemos. O que vimos do mundo. A forma que vimos. O quadro que amei da exposição era pequeno e sem destaque. Mas calou em mim alguma coisa que não sei explicar. E nem preciso. Sei o que senti e pronto.

A verdade é que essa exposição do Picasso – e todo estranhamento que ela me causou – me trouxe uma reflexão profunda em relação à arte. Um artista traz ao mundo sua criação. O que as pessoas vão fazer com o que sentiram em relação a ela só compete a elas. Tá. É engraçado estar parado em frente a um quadro e ouvir atrás de você uma pessoa tentando explicar o que está vendo. É difícil decodificar o que se está sentindo, principalmente quando o que se está sentindo é algo profundamente abstrato. Pérolas saem dessas situações. Mas surreal mesmo é ouvir um intelectual metido a entendedor de Picasso afirmar categoricamente o que aquele quadro quer dizer. Como assim? Como ele acha que pode afirmar o que estava se passando dentro do Pablo naquela hora que ele pintou um minotauro cego sendo guiado por uma menina que carregava uma pomba?

O surrealismo de Salvador Dali eu até alcanço. Mas o cubismo de Picasso! Poxa vida. Eu até tentei estudar o movimento, mas foi quase impossível para mim. O que entendi do processo – e por isso não importa se eu gostei ou não da exposição – é que ele criou um movimento por um profundo desejo de contravenção. E para isso eu bato muitas palmas para ele. O cara ficou exaurido de um sistema, foi lá e reinventou as perspectivas no que deu na telha dele. Pô. Isso é genial. E precisa ser respeitado. E admirado. Se as pinturas são estranhas, tortas e o cara parecia estrábico, definitivamente não importa. O que importa é celebrar a coragem que ele teve de ir lá e fazer.

Tenho recebido muitas críticas aos meus textos. Hora porque estou colocando vírgulas onde não devo, hora porque estou conjugando verbos de maneira errada, hora porque não me aprofundo, hora porque me aprofundo demais. Depois de ver Picasso pensei no quanto as pessoas que vão lá e fazem, mexem com as outras que apenas assistem. É preciso muita coragem para se expor e colocar para fora o que nos inquieta a alma. É preciso coragem para enfrentar o mundo de dentro, mas é preciso ainda mais coragem para enfrentar o mundo de fora.

Meu amor aos Musicais

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Para Henrique Band

Há certos sentimentos nessa vida que são complicadíssimos de se explicar. Ou as pessoas o sentem ou jamais entenderão aqueles que sentem.

É o caso dos filmes musicais. Outro dia um amigo meu – músico – me indagou atônito, como é que eu podia ser capaz de “amar de paixão” os filmes musicais. Eu respondi: é muito simples. É que a vida lá é exatamente como eu gostaria que fosse cá. Ele não entendeu nada. E seguiu reclamando da coisa ser muito nonsense. “É esquisito as pessoas estarem falando… e de repente! Saírem cantando”. Ué. Mas a própria vida não é esquisita? Esquisito é a gente se acostumar com as esquisitices da vida.

Dentro de mim é assim: os musicais me fazem estar num lugar onde tudo parece ser possível, onde tudo é celebrado, onde a vida consegue ser mais do que um videoclipe. É uma longa história celebrada com canções, lágrimas e gargalhadas. Eles mexem comigo porque muitos sentimentos me vêm à tona. E deixam meus cabelinhos em pé. Porque os sentimentos não são escondidos, são venerados. O sentir é celebrado com exagero. Se há tristeza, ela é cantada com drama. Se há alegria, ela é supervalorizada. Como se o mundo de repente pudesse se transformar num grande caldeirão de emoções. E nele eu pudesse me reconhecer sem medo ou vergonha.

Tá, eu sou um exagero. Eu sei. Mas ser um exagero na vida cotidiana tem seu preço. Experimenta ser assim na realidade massacrante do mundo? Destoa, gente. Fica chato. Por isso eu vivo disfarçando meu lado Piaf de ser. No musical eu me realizo. Porque me identifico. E me encontro. E me liberto, porque finalmente me aceito.  Ai que coisa mais prazerosa que é a gente se aceitar!

Em Mamma Mia – filme que a Meryl Streep canta as músicas do ABBA – há uma cena antológica em que as amigas a convencem a voltar a ser uma menina divertida e despudorada como na juventude e cantam juntas “Dancing Queen”. Elas saem do quarto e vão pela linda Grécia, contaminando todo o vilarejo com sua música e entusiasmo e terminam a cena num grande pulo na água do mar! Como que alguém em sã consciência pode não se contagiar com uma cena dessas?

Como não se contagiar com a “Noviça Rebelde” quando ela dá dicas de como enfrentar o medo da tempestade aos filhos do Capitão Von Trap? Ou com a música mais linda de amor que Nicole Kidman e Ewan McGregor cantam juntos em “Moulin Rouge”? Como não cair em prantos na cena em que Anne Hathaway canta seus sonhos perdidos em “Les Miserables”? Como não explodir de excitação na cena final de “Dirty Dancing” quando Patrick Swayze mostra para aquela burguesia nojenta que dançar com paixão pode ser a coisa mais linda e pura do universo?

Ah! Como eu queria conseguir explicar pra esse meu amigo esse sensação que eu tenho de que as músicas associadas a histórias de pessoas podem ir além da própria música! E que se a gente se permitir eles podem nos servir como verdadeiros divãs. Eu faço isso todas as vezes que a vida vem querendo me pesar. E como num despertar de consciência, lembro o quanto o mundo me espanta e o quanto preciso traduzir esse espanto para o mundo. Escrevo por vocação, porque se pudesse ter escolhido um talento, com certeza teria pedido a Deus um gogó de ouro para sair cantando por aí.

Terapia para quê gente! Vai estourar umas pipocas e assistir “Cantando na Chuva” para ver que tipo de milagre pode acontecer na vida de vocês!

A seguir, um mergulho em algumas cenas citadas no texto. Divirtam-se!

Mamma Mia
https://www.youtube.com/watch?v=juTRRspWUqM

Moulin Rouge
https://www.youtube.com/watch?v=fFtssl7u7lE

Les Miserables
https://www.youtube.com/watch?v=-M2mpgwFSQ0

Dirty Dancing
https://www.youtube.com/watch?v=l9BbUqHrWFI

Cantando na Chuva
https://www.youtube.com/watch?v=-yaxcdMDcrs

Trânsito: uma história de amor e fúria

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De todas as provações humanas talvez uma das mais perigosas e patéticas seja o trânsito.

Penso, penso e não consigo encontrar um lugar mais perfeito para radiografar a nossa alma do que esse covil de máquinas ambulantes. Bestas e santas criaturas se revelam e não podem esconder sua face porque a coisa está toda ali, na cara de todo mundo e não há disfarce que possa esconder quem você é.

Vejo por mim. Eu não sou nenhuma santa, mas estou trabalhando muito pela minha tentativa de evolução espiritual. E mesmo eu, que ouço mantra, medito, rezo e peço a Deus todos os dias por muita paciência já me peguei no trânsito com desejos compulsivos e assassinos.

Veja bem: se eu estou numa via rápida distraída, dirigindo lentamente e vem alguém e me dá uma piscadinha, eu acho chato, mas saio para pista do lado. Agora, se eu estou numa via rápida, dirigindo rapidamente e vem um carro, desde lá debaixo, piscando o farol freneticamente para eu sair da frente dele, o tempo fecha. Como é que essa pessoa se acha no direito de me mandar sair da frente dela se eu estou na velocidade adequada para a pista? Não, porque a mensagem subliminar desta infame piscadinha é: “sai da frente sua mosca, porque você está me atrapalhando”. E aí, o que acontece, é que toda a minha suposta elevação espiritual começa a ir por água abaixo. O meu sangue ferve e dele desperta o monstro negro que mora nas minhas entranhas. Ao invés de simplesmente sair, eu diminuo a velocidade e fico no retrovisor fazendo um gesto de “ué, fofinho, passa por cima.” Feio. Muito feio.

A pergunta é: por que uma coisa dessa tão simples me tira tanto do sério? Eu não sei responder. A verdade é que eu faço isso, mas morro de medo do apressadinho atrás ser um psicótico e se irritar com o meu sarcasmo e apontar uma arma para minha janela, gritando: “quer morrer, madame?” Às vezes os caras insistem. Se isso acontece, geralmente acabo engolindo a raiva e saio da pista por medo da loucura dos outros. O carro passa por mim e eu faço um esforço enorme para não mandar um dedo do meio para o desgraçado. Se estou num dia mais tranquilo, até consigo respirar fundo, contar até dez e desfiar meu rosário de frases feitas que me ajudam a me acalmar do tipo “apressado come cru hein” ou “vai tirar a mãe do puteiro vai!”. Mas essas frases ridículas nunca me isentam de sentir no fundo um peso enorme pela tristeza da mediocridade humana.

Claro que onde há sombra, há luz. E da mesma forma que me irrito profundamente com a falta de educação das criaturas humanas no trânsito, também me emociono e tenho vontade de chorar quando as pessoas mostram o lado mais bonito delas em gestos simples e generosos. É a mesma piscadinha do carro da frente que me faz sorrir, quando estou para entrar numa rua que não tem sinal e o carro pára o fluxo do trânsito para educadamente me ceder a vez, para que eu entre antes de todos. Poxa, isso é lindo demais.

Mas voltando ao lado negro da força, o trânsito já enlouqueceu muita gente. Às vezes uma fechada, uma vaga roubada ou apenas uma buzinadinha pode trazer a tona uma fúria cega que mora dentro da gente. Outro dia recebi um texto muito bom sobre isso (dizem que é do Arnaldo Jabor, mas texto de internet sempre é uma incógnita) Chama-se “A Lei do Caminhão de Lixo”. Ele fala que as pessoas são como caminhões de lixo, que acumulam um monte de raiva e frustrações dentro delas e que na primeira oportunidade, querem despejar toda a porcaria em cima de quem topar. Deus me livre um lixão desses.

Tudo é mesmo uma questão de como a gente se coloca na vida. Outro dia um velhinho me deu uma fechada daquelas de doer. Minhas filhas já me conhecem, não me aborreço com velhinhos dirigindo porque acho que eles têm licença poética de fazer umas besteirinhas no trânsito. Mas esse dia a fechada foi feia. Eu já ia reclamar quando passo pelo velhinho e ele está fazendo um gesto de desculpas… E em seguida me manda um beijo. Fala sério! Morri de amor com aquele velhinho!

Desses retratos de quem somos nós, nunca vou esquecer o enjoo de estômago que saí do cinema, no dia em que vi “Ensaio sobre a Cegueira”. O mundo perde a visão e com ela toda a dignidade humana. Saramago costumava dizer “Não é que eu seja pessimista. O mundo é que está péssimo”. Essas visões sobre nós são assustadoras. Mas nós somos assustadores mesmo. Somos complexos e de uma potencialidade absurda. Para o bem ou para o mal. Podemos ser arrogantes, prepotentes e egoístas. Assim como podemos ser generosos, solidários e profundamente amorosos.

Seja como for, o lema é sempre o mesmo: a vida da gente será o que alimentarmos dela. Se aquele velhinho beijoqueiro me emocionou tanto, é aquele sentimento que eu preciso regar. E não a fúria diabólica que eu senti por aquele Emerson Fittipaldi de araque, piscando alucinadamente para mim, no fundo desejando me transformar em pó. Afinal, de todas as superações humanas talvez uma das mais bonitas e emocionantes seja o perdão.

A vida, como ela pode ser

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Vinha andando distraída pela rua, paquerando de longe a barraquinha de milho verde, quando dou de cara com um bando de mímicos, em plena Praça General Osório às seis horas da tarde. Eles pulavam de um lado para o outro, abordando as pessoas com um simples cartaz que dizia:

ABRAÇOS GRÁTIS

O pessoal que vinha na minha frente começou a resmungar. Uma senhora correu para atravessar a rua mesmo com o sinal aberto. Um homem com raiva deu meio volta e pegou a direção contrária do que ia.

Eu abri logo um sorriso. Essa eu não podia perder. De longe, abri os braços para uma moça magrinha que tinha um sorriso gorducho. Ela de longe, fez o mesmo movimento que o meu. Quando nos encontramos, ali no meio da rua, nos abraçamos como se fossemos velhas conhecidas. Ficamos assim um tempão. Foi quando ela me disse baixinho no ouvido:

Ô minha filha, Deus te abençoe.

E eu pensei comigo: está acabando de abençoar!

Adeus, Zizi

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Vó,

Se eu agora fechar os olhos posso me transportar para um fim de tarde de chuva na sua casa em Teresópolis, onde eu pequenininha deitava na rede da varanda e ouvia por horas e horas a fio você tocar seu amado piano. Me lembro como se fosse hoje a sensação de plenitude que eu sentia naqueles momentos mágicos ao teu lado. Me lembro do som da chuva se misturando às notas melódicas das suas canções, me lembro do cheiro da terra que brotava daquela imensidão verde de mato molhado, me lembro da emoção que me causava aquele conjunto perfeito de impressões do mundo… onde tudo, tudo fazia sentido e eu me sentia tão perto de Deus.

Minha avó querida,

Você ontem conseguiu partir, depois de longos nove meses de sofrimento no hospital. Finalmente pode iniciar sua jornada pelo caminho azul, como dizemos no xamanismo. Depois de noventa e três anos de luta pelo caminho vermelho – o caminho da vida – ontem você conseguiu finalmente fazer sua passagem e atravessar para o outro lado do rio. Estou feliz por você, querida. Estamos todos aliviados por saber que não vai mais precisar sofrer.

Hoje estou aqui mergulhada em memórias e não consigo parar de pensar na saudade que sinto de você, Negucha. Saudade que sinto há mais de vinte anos, vó. Mais de vinte anos. Nós morremos uma para a outra no dia que olhou nos meus olhos e não me reconheceu mais. Há mais de vinte anos que estamos todos te perdendo um pouco a cada dia. Te perdendo para essa doença injusta e ingrata. Te perdendo na névoa das tuas próprias lembranças. Não há nada mais doloroso do que perder uma pessoa em vida. Foram anos duros. De muito sofrimento, provações, perdas e saudade, muita saudade.

Mas hoje, hoje eu só conseguia lembrar de você e da sua elegância, do seu perfume, dos kaftans que usava com aqueles chinelinhos de salto. Você foi a pessoa mais elegante que já conheci, vó. Elegante e prafrentex. Me orgulhava em dizer para os amigos na escola que minha vó tinha se divorciado numa época que ninguém se divorciava e tinha sido o braço direito do advogado mais poderoso de São Paulo! Pensar que hoje ele é considerado o maior escritório de advocacia da América Latina e que vocês começaram juntos, na época da guerra, quando ele te contratou como datilógrafa aos dezoito anos de idade… A vida é estranha e maravilhosa, não é querida? Posso apostar de que foi ele que te recebeu no céu. Estou certa?

Perdi a conta da quantidade de vezes que fomos te visitar no Vale São Fernando, mamãe, Manô e eu, naquele possante Fiat 147 amarelo. Lembra disso? Eram finais de semana de muita comilança, filmes, sol na piscina no verão e histórias deliciosas no inverno, pertinho da lareira. A mesma que guardava pendurada as minhas preciosas meias de natal. Não havia nada mais extraordinário em dezembro do que descer as escadas correndo de manhã para ver que tipo de doces tinha deixado o Papai Noel na madrugada anterior.

Mas eu cresci e me tornei uma adolescente solitária e muitas vezes preferi passar o fim de semana com você do que com qualquer outra pessoa. Eu pegava o ônibus na rodoviária do Rio e você me buscava na rodoviária de Terê. Lembra? Eu entrava no carro, te dava um abraço apertado e seguíamos caladas os longos quilômetros que separavam a cidade do Vale. Nós nos entediamos em silêncio. Nos amávamos em silêncio. Você me ensinou tantas coisas sobre a vida. Sobre música, sobre arte, sobre a solidão.

Hoje passei o dia contigo, vó. Celebrando aqui dentro da minha alma todos os momentos maravilhosos que vivemos juntas. E o que fica é um enorme sentimento de gratidão por ter podido durante alguns anos da minha existência, partilhar contigo, a tua luminosa existência.

Que minhas palavras possam voar com o vento e chegar até o céu. Onde quer que você esteja tenha certeza do quanto foi amada.

E quando for o dia da minha partida, por favor Zizi, venha me buscar.

Com todo o amor,
para sempre
da sua neta
Tati

Cabelos brancos

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Tenho fascinação por gente idosa. Uma admiração mesclada com respeito tão forte, que quando cruzo com algum velhinho na rua, a vontade que sinto é de lhe fazer uma reverência. Olho impressionada para aquele ser que passa e me pergunto há quanto tempo estará ele caminhando. Quanta vida não viveu, quantos problemas enfrentou, em quantas encruzilhadas não deve ter sofrido a dura tarefa da escolha. Não estou falando de meses nem anos. Falo de décadas. Experiências profissionais. Emocionais. Casamentos. Filhos. Viagens. Perdas. Frustrações. Meu Deus! Eu tenho 33 anos e as vezes me sinto tão cansada. Imagine se eu viver até os 99? É toda a minha vida, mais o dobro de tudo que vivi. Considerando que os primeiros anos foram só diversão, 66 anos pela frente me parecem uma história sem fim.

Outro dia cruzei na rua com um senhor que já devia ter seus oitenta e tantos anos. Vinha de bengala e caminhava com calma e elegância. Tinha a cabeça toda branca e estava muito bem vestido. Olhou para mim, abriu um enorme sorriso, me cumprimentou com um educadíssimo “boa tarde” e seguiu em frente – se tivesse um chapéu certamente o teria tirado da cabeça. Fiquei com tanta vontade de convidá-lo para tomarmos um chá… Imagina quantas histórias maravilhosas não terá esse homem para contar? Que diferencial tem esses cavalheiros… Meu feminismo vai por água abaixo quando um homem me abre a porta do elevador ou me cede o lugar para sentar. Me sinto uma dama. E me derreto com essa gentileza que os homens da minha geração perderam.

A questão é que não posso ver um ancião sem considerá-lo um verdadeiro herói. Um guerreiro espiritual. Um coração batendo, ininterruptamente, durante toda a existência! Já imaginou o que é isso? Deve ser muito difícil para um pessoa que nasceu com os bondes ver o mundo do jeito que está. Eles foram espectadores de muita degradação e não puderam fazer nada. É claro que a modernidade trouxe muitos benefícios para a humanidade. Mas imaginemos como deve ser estranho aos olhos de quem já viveu quase um século, toda essa espantosa transformação da realidade. O caos se instalou muito rapidamente. O universo dos meus avós era completamente diferente do que vivemos no presente. É como se eu vivesse hoje e velhinha estivesse no cenário de Blade Runner. Nada simples.

A proximidade da morte também não deve ser fácil. Não ter todo um futuro pela frente. Estar na tal fase de descida da vida. Não gosto dessa imagem de subida e descida. Prefiro pensar na metáfora de uma escada que se sobe a vida toda e que quando acabam-se os degraus, é sinal de que chegamos. Seja lá onde for. Chegamos.

Eu vou gostar de ser velhinha. Ter uma vida toda de histórias para contar. Filhos e netos para amar. Amigos de toda uma vida que também estarão velhinhos como eu. Não quero fazer plástica a não ser que minhas pálpebras estejam me impedindo de continuar a ver o mundo. Idealizo minha velhice como um tempo de calmaria interior. Uma serenidade que tomou o lugar da ansiedade que quase me matou na juventude. Um tempo de ter mais tempo. Ou ao menos, uma relação diferente com o tempo. Curtir o sabor divino da sabedoria. Olhar no espelho minhas rugas e ter a certeza de que tudo que fiz, fiz da melhor maneira que pude.

 

Caravana urbana

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Transportes coletivos são uma experiência antropológica fascinante.

Um laboratório perfeito para observação e tentativa de compreensão dos costumes humanos. Tem muita gente que detesta pegar ônibus e metrô. Eu adoro. É o único lugar onde a gente tem a chance de viver determinadas situações. É claro que eu prefiro metrô. Os ônibus no Rio de Janeiro são calorentos, barulhentos e fedorentos. Muitos “entos” para uma coisa só. Já metrô é outra história. Tem ar condicionado, é mais seguro, confortável e ainda por cima tem aquela musiquinha ambiente nas estações. E a pinta de trem europeu. Acho chique. É o meu favorito.

Já vivi de tudo no metrô.

Outro dia peguei o trem na Carioca para ir à terapia. Faço uma jornada para ir até lá – já que moro em Niterói e a terapia é na Tijuca – e por isso tenho que pegar ônibus, barca e metrô. Faz parte do processo. A estação da Carioca geralmente está cheia, a qualquer hora do dia. Só que nesse dia, não sei por que, a coisa tinha colapsado. Gente saindo pelo ladrão. Para sair e para entrar. O que eu acho curioso é a postura das pessoas diante da epopéia para se entrar no vagão. Não, porque elas não estavam entrando. Estavam se encaixando, como sardinha em lata, espremidas umas pelas outras, desesperadas em não perder a viagem. E o pior… agindo normalmente diante daquela situação medieval. Gente, o que é isso?

Eu fui, mas fui porque estava muito atrasada. Só que na hora de entrar, fui imprensada entre vários corpos. Pronto, bastou a porta fechar para me dar uma vontade desesperada de rir. Vejam bem: na minha frente, grudado no meu nariz, estavam os peitos gigantescos de uma negona, trabalhados num decote sensual e abundante. À minha direita, a catinga inebriante de um sovaco cabeludo de um ser com camiseta cavada. À minha esquerda, um executivo seríssimo de paletó e gravata e atrás, bem atrás de mim – grudado na minha bunda – um velhinho desdentado para lá de safado que não parava de me sarrar. Não dá para se levar a sério uma situação dessas.

Tá, eu sei que a ocasião faz o ladrão e que 90% das pessoas ali não tem escolha. Mas o que me choca é como que as pessoas reagem àquela situação. É surreal. De repente, se cria entre elas uma intimidade forçada. Elas estão grudadas umas nas outras, cafungando o pescoço de um, encostando suas partes íntimas no outro, num amasso grupal sufocante, onde não há como fugir. É uma catarse comportamental. Um apogeu sensorial. E todo mundo vivendo isso com cara de pudim. Como é que pode?

Já vivi coisas extraordinárias no metrô.

Uma vez uma moça começou a explicar para a vizinha ao lado, sua amiga, como se fazia um ensopadinho de frango com ervas. Nos mínimos detalhes. Só que eram seis horas da tarde e provavelmente 99% das pessoas ali estavam famintas. Eu reparei. As pessoas começaram a olhar para ela e imaginar cada um daqueles sabores… e a sentir o cheiro da cebola que você frita no azeite, depois coloca o frango… nossa senhora! O povo ficou desesperado com o relato. Teve gente até babando.

Em metrô se ouve de tudo. Não é só receita não. Há discussões filosóficas, políticas, religiosas. Casal discutindo relação. Gente contando segredo achando que não tem ninguém ouvindo. E a diversidade de cheiros? Sentar do lado de alguém cheiroso para mim é quase como ver arco-íris depois da chuva, uma loteria. Adoro. Fico lá curtindo aquela paraíso e por dentro agradecendo o bom gosto do vizinho. Mas nem sempre tenho essa sorte.

Com o olfato apurado que tenho, faço viagens que são um verdadeiro tormento. Sinto de longe os sovacos vencidos, os bafos matinais, a calça jeans do menino que não secou direito, a naftalina no casaco da velhinha. Mas é claro que não há nada, absolutamente nada pior, do que quando alguém solta um pum.

Eu vivi uma catástrofe dessas outro dia.

Estava presa entre quatro corpos quando senti um ventinho nefasto vindo debaixo. No primeiro momento me deu uma onda de enjôo. Depois quis olhar bem para cada um dos suspeitos do crime. Mas não adiantou. Depois do pum, cada um olhou para um lado. Tipo “não estou sentindo nada”. O bom é que do enjôo e da raiva, eu pulei logo pro estágio divertido que é a vontade incontrolável de rir. Quem sabe um dia, eu ainda consigo ter a cara de pau de perguntar bem alto para todo mundo ouvir: “Pessoal, fala sério, quem peidou?”

Mas o melhor que se pode viver dentro de um metrô é uma paquera. Uma paquera inesquecível.

Ele tinha o braço todo tatuado, mas o que me chamou a atenção no desenho era o Buda, colorido e sorridente, perto do cotovelo. Estávamos todos em pé, segurando aquela barra de metal entre as saídas do vagão. Eu, ele e mais umas quatro pessoas. Nossos braços, esticados, formavam uma flor humana perfeita. Eu olhei para ele. Ele me olhou. E como nas frações de segundo mágicas que acontecem às vezes, naquele instante, nos encantamos um pelo outro. Só pelo olhar. Só por todo o universo existente em cada um de nós que trocamos naquele olhar. Essas coisas difíceis de explicar.

Ele não era bonito. Meio baixinho. Provavelmente, tinha acabado de sair do banho, porque os cabelos – bem pretos, encaracolados – ainda estavam molhados. Aquela primeira olhada tinha me gelado por dentro. Isso é curioso numa paquera. Milhões de pessoas trocam olhares por dia em todas as estações de metrô do mundo. Porque às vezes a gente olha para uma única pessoa e sente um troço esquisito por dentro? Tomamos coragem e nos olhamos de novo. Dessa vez por uns segundos a mais. Pronto. Foi o que bastou para eu ficar mole. Meu coração agüenta pouco esse tipo de emoção. Fora que eu fico meio envergonhada com a platéia. A flor de braços já tinha sacado nossos olhares. Óbvio! Tava saindo faísca. Peguei o celular para disfarçar. Ele fez o mesmo. Pensei comigo: que pena que não existe um bluetooth automático para se captar o telefone do vizinho… Ele deve ter lido meu pensamento, porque sorriu na mesma hora. Um sorriso Colgate, cheio de dentes lindos e brancos. Olhamos para o chão. Depois para o céu, para todas aquelas estrelas que tinham surgido ali sobre nós dois. Mais uma estação se passou. De repente, ele me olhou sério como se quisesse me dizer qualquer coisa. O trem parou e ele foi se distanciando de mim. Quando eu vi, já estava do lado de fora do trem. A porta fechou e a gente continuou se olhando. Se despedindo pelos olhos, como se fossemos um casal apaixonado que está se separando pela primeira vez.

Foi quando eu ouvi a voz de um senhor que estava na minha frente dizer: deu bobeira menina, devia ter saltado com ele e trocado telefone. Olhei bem para cara do sujeito sem acreditar no que ouvia. Será que eu tava sonhando? Nunca esqueci aquele dia. E se ele fosse o amor da minha vida?

Surreal? Não. Isso é coisa de quem freqüenta caravana urbana.

Lóbulos

vangogh

Eu tenho paixão por lóbulos.

Não sei de onde vem esse amor, mas é uma coisa muito esquisita. Pessoas reparam em dentes, olhos, peitos, bundas. Eu reparo em lóbulos.

Nunca me esqueço do lóbulo de um senhor que vi uma vez no metrô. Dizem que na velhice nossas orelhas crescem. Mas na verdade o que acontece é uma flacidez da pele que acaba causando um alongamento do tecido. Eu pesquisei sobre isso. Justamente naquele dia que fiquei hipnotizada com o maior lóbulo que vi na vida. O velhinho era do tipo Papai Noel: gordinho e fofinho. Tinha os cabelos brancos, um sorriso largo e umas orelhas grandes. Mas os lóbulos… os lóbulos eram como almofadas penduradas nas orelhas. Uma imperfeição extraordinária. Macios, vermelhos e gordotes. Tive que me controlar. Afinal de contas, minha paixão não se limita a admirar, o que eu quero mesmo é morder. Se aquele velhinho fosse meu amigo eu certamente teria lhe pedido para dar uma mordida.

Ainda bem que tenho filhas que me deixam morder seus lobulinhos. Todas as noites elas rolam de rir desse estranho hábito da mamãe. E adoram. Tomara que me deixem fazer isso até ficarem velhinhas.