Das coisas que a gente não vive sem

“As melhores coisas da vida não são coisas”
Autor desconhecido

Ontem assisti o documentário da Netflix sobre minimalismo e fiquei muito mexida. Não pelo filme em si que não é lá essas coisas, mas pelo conceito que ele traz de essência que é um assunto muito estrutural para mim.

Eu sempre fui uma pessoa desapegada. Sou capaz de tirar uma roupa do corpo se alguém me disser que se apaixonou por ela. Não sou de guardar cacarecos ou coisas quebradas. Não tenho gavetas com coisas que nem sei que estão lá. Em todas as mudanças que fiz na vida, sempre me desfiz de mais coisas do que adquiri. Até porque nunca tive dinheiro para comprar muitas coisas. Quase tudo que tenho na minha casa herdei ou ganhei de presente. Ainda assim, vivo constantemente tentando passar para frente o que não me serve mais. Aprendi que quando deixamos as coisas velhas irem, damos espaço para coisas novas chegarem. Mesmo que não sejam 100% novas.

Quando conheci Marie Kondo (aquela especialista em organização pessoal) e sua filosofia de como devemos nos colocar diante do que temos, entendi meu jeito de ver o mundo. Em seus livros, ela nos aconselha a nos desapegar das coisas que não servem mais ou aquelas que nos causam algum tipo de sofrimento. Na hora de se desfazer de alguma coisa, você precisa olhar para o objeto e perguntar: “Esse objeto me deixa feliz”?

Gosto muito desse conceito. Ela também fala sobre como nossa casa reflete nosso estado de espírito. Quantas vezes não me sinto bagunçada por dentro e a casa está notoriamente de pernas para o ar? Ou ao contrário: quando estou em paz e consigo calmamente arrumar qualquer caos na maior fluidez do universo? Muitas. Muitas vezes.

Mas ontem entendi que o minimalismo vai além. Ele fala de uma postura perante a vida. Um posicionamento político nosso diante do acúmulo e peso que as coisas nos trazem. Ser minimalista é estar sempre em busca do que é essencial para você. Em todos os sentidos, em todos os campos. Uma busca incessante pelo supra sumo da vida. Isso não é muito potente?

Ah! E tem mais uma coisa importante. Quanto mais coisas você tem, mais bagunça você faz. Não sei como é aí na sua casa leitor, mas aqui na minha vivo de cabelo em pé para tentar manter as coisas em ordem. Não quero viver numa Casa Cláudia, mas viver numa casa onde as coisas morem em seus devidos lugares é o mínimo para me sentir em equilíbrio. Eu já tive TOC e sei o quanto uma arrumação pode se tornar uma obsessão. Foram anos de terapia trabalhando nisso. Ainda hoje preciso me controlar muito quando vejo uma pilha de livros toda bagunçada. Me lembro como se fosse hoje as lições que eu tinha da terapeuta de olhar uma pilha assimétrica de livros e dizer para mim mesma: “Respira Tati, respira na desordem que a ordem é só o seu desejo de controle.”

Eu já aprendi muitas coisas nessa minha vida, e eu agradeço muito por isso. Mas o minimalismo é mais um passo para essa caminhada de desapego que eu quero exercer. Fazer o exercício de se perguntar quais coisas nesse mundo a gente não pode viver sem, pode ser uma ótima oportunidade de se olhar para existência de uma forma bem profunda.

No meu caso, quero que fiquem os livros e os objetos que trazem nele um pouco do que foi a minha história. Minha avó já dizia que quando a gente morre, não leva pro outro lado nem a roupa do corpo. Isso eu já entendi. Mas para as minhas filhas eu prefiro dizer que quando a gente morre, não leva a roupa do corpo mas leva uma coisa muito mais importante: todo o amor que a gente pôde amar. Pôde e teve coragem de amar. Isso sim é bagagem para se levar pro além.

Nos tempos que a gente saia para dançar

Dizem que os cronistas são pessoas profundamente nostálgicas.

Não sei quem inventou essa teoria, mas está coberto de razão.

É um complexo “Meia-noite em Paris” incontrolável.

Um desejo constante de voltar no tempo para viver certas coisas que nunca mais se ouviu falar.

Como sair para dançar, por exemplo.

Outro dia me peguei tentando explicar para as meninas o que significava “sair para dançar” na minha juventude.

(acho que chamar o passado de juventude já é uma dica do meu jeitão saudosista, mas tudo bem)

Elas simplesmente não conseguiram imaginar o que seria esse programa.

Agora estamos numa pandemia, mas quando o mundo era normal – outro dia mesmo – e a gente queria sair para se divertir, quais eram as opções? Um restaurante, um barzinho com música ao vivo? Com sorte uma festinha de amigos?

Nos meus tempos de gatinha, o programa era sair para dançar. 

A gente até parava antes em algum barzinho para tomar umas biritas, mas o maior objetivo da noite era ir para uma boate para dançar. Arrasar nos passinhos ou “abrir as asas para cair na gandaia”. Ah gente. Que maravilha que foram os anos 80 e 90. Parece que tudo aquilo aconteceu há um século atrás. Eram outros tempos, eu sei. Mas a impressão que me dá é que em três décadas o mundo mudou completamente.

Comecei a vida indo a matinês. Circus. Help. Depois cresci e comecei a frequentar os lugares mais descolados da noite carioca. Numa época que não existia celular, ir ao Wells Fargo e poder paquerar com a mesa ao lado através de um telefone instalado na mesa era uma coisa extraordinária. Quem lembra do banho de espuma que rolava no fim da noite na Zoom em São Conrado? Gente, a boate derramava um banho de espuma na pista de dança para encerrar a noite. Vocês entenderam? Depois teve a fase de dançar lambada no Hippopotamus. Ser expulso duas da manhã da boate do Piraquê. Correr atrás dos shows da Rio Sound Machine onde eles estivessem tocando: Ballroom, Jazzmania, Mostarda, Mistura Fina. Nossa Senhora. Showzinho da Rio Sound era o auge naquela época. Ainda teve a fase de ir dançar Black Music na Public. e Co na Pacheco Leão, numa noite surreal comandada pelo Gustavo Corsi, guitarrista da Rio Sound, que fazia tremer o Jardim Botânico. A gente voltava para casa amanhecendo sem sapato, com a alma lavada, de tanto dançar. 

Isso não existe mais. A galerinha que quer dançar hoje só tem duas opções: ou eles vão para o baile funk. Ou para alguma boate dançar… funk. 

Tá, eu sei que de vez em quando rolam umas festinhas com um ar de “anos 80”, tipo festa PLOC ou festa do Flashback, mas não é a mesma coisa. Minha irmã diz que tem uns bailinhos de charme na zona norte do Rio maravilhosos, mas eu nunca fui. Um pouco de preguicinha talvez. Ou eu tô ficando velha mesmo.

A última vez que me acabei de dançar foi na minha festa de 45 anos. Os amiguinhos das meninas ficaram chocados como eu não saia da pista. Meus amigos também se acabaram. No dia seguinte eu não conseguia levantar. Só depois de dois Dorflex e muita bolsa de água quente na lombar e um escalda pés nas bolhas do joanete.

É pessoal, acho que eu tô mesmo é com saudade de fazer qualquer aglomeração, para me sentir viva de novo. Jovem não, porque não troco minha vida de hoje nem por 15 minutos da juventude. Mas a alegria e a descontração de alma que a gente tinha naqueles tempos, não tinha igual.

E o que temos para hoje? Dançar bumbum tantan para a vacina. Ah gente? Não dá para ser com  I WILL SURVIVE?

Presença e morte

Destacado

Quase tudo se falou sobre a pandemia no ano passado. Muito foi dito. Pouco foi compreendido. A verdade é que passamos o ano desesperados por respostas. 

Os poetas tentaram nos trazer alguma leveza. Os especialistas, alguma explicação e clareza. Os médicos, o cuidado que fosse possível. Os otimistas, a esperança. Os bolsonaristas nos trouxeram sua intolerância. Os egoístas, sua inconsciência. Os espiritualistas, a capacidade do olhar mais ampliado sobre todas as coisas. E os artistas, a dura missão de tentar transmutar a dor do mundo.

As viúvas, filhos e netos, avós, tios e irmãos de quem partiu, não disseram nada. Só choraram por seus mortos, a dor aguda e seca de quem perdeu seus amores com a estranha sensação de terem partido mais cedo do que se esperava. 

Para mim, sobre 2020 e a pandemia só ficaram três cicatrizes profundas que eu não consigo parar de sentir: o desejo de agradecer, o novo olhar sobre o presente e a coragem de pensar sobre a morte.

A gratidão é uma prática espiritual muito poderosa. Porque tem a capacidade de virar as coisas do avesso. De encontrar na sombra, uma luz. No vazio, uma imensidão. Agradecer pelo que se tem é uma forma muito bonita de passar pela vida. Reverter o pouco em muito e reconhecer nas pequenas coisas, a grandeza de toda uma existência. Eu já tinha o hábito de agradecer pelas coisas que a vida me deu. Já escrevi várias vezes sobre isso. Mas no fim do ano, quando me vi embaralhada nas reclamações do mundo pelo ano terrível que vivíamos, resolvi fazer uma lista das coisas boas e ruins que tinham me acontecido. E foi uma surpresa. A lista de acontecimentos positivos e superações era infinitamente maior às perdas e danos que a minha alma tinha sofrido. Naquele momento alguma coisa destravou no meu peito e desatei um monte de nós que o ano tinha feito.  

Sobre a presença. O aprendizado foi tão fundo que tenho pensado em tatuar a palavra para ver se ela vira parte integrante do meu corpo. Presença. Já tem anos que eu penso sobre isso, mas em 2020 a ideia de me voltar ao presente todos os dias se transformou numa peça-chave para eu não pirar o cabeção. A gente que se projeta nesse futuro hipotético o tempo todo, que tá sempre lá na frente, na ânsia do que virá, sofreu muito ao ver as estatísticas irem matando um a um dos nossos amigos numa doença de filme de ficção científica. Víamos a coisa perplexos, sem nenhuma certeza de como seria se o vírus entrasse dentro de nós. Foi então que eu aprendi a duras penas que o controle é só mais uma ilusão dessas que a gente coleciona. E que exercitar estar presente no presente era a única arma que eu tinha para não enlouquecer de verdade. Foi um exercício. Que continua aqui dentro de mim como um desafio diário. Viver sem controlar o que vai acontecer. Mais nada a fazer a não ser confiar. E seguir. Vivendo um dia de cada vez.   

E por fim, a morte. 

A morte é um assunto tão delicado, tão difícil de ser abordado, tão nevrálgico, que é até complicado trocar ideia com os outros sobre isso. A não ser os espíritas, que falam de tudo com muita desenvoltura porque sabem exatamente o que vai acontecer quando a gente morrer, mesmo sem terem morrido antes. Eu não tô implicando, gosto de conversar com eles, mas ficando mais velha tenho tido um pouco de dificuldade de conversar com pessoas que tem tantas certezas sobre tudo. A morte é um assunto que congela um pouco a gente. Porque para quem está vivo, pensar nela é colocar um ponto final em alguma coisa que não parece ter chegado ao fim. A não ser em pessoas centenárias. Mas para quem ainda sente que tem tempo e faz planos, pensar na morte é algo petrificante. Inconcebível. Mas a pandemia me fez ficar de frente para essa ideia da morte tantas vezes, que eu acabei passando da fase do pavor para a fase da aceitação. Ao exercer presença, eu já tinha aprendido a abrir mão do controle. E aí foi só juntar uma coisa na outra para sentir um mínimo de libertação. O coronavírus é uma loteria biológica. O que tiver que acontecer vai acontecer. Antes dela, também era assim. Mas a ficha não tinha caído.  

Por isso termino meu texto com Belchior que anda na boca do povo, pedindo a ele uma licença poética para reescrever:

Ano passado eu não morri, talvez esse ano eu não morra. Vamos ver. Tô torcendo. Tanto para fazer! 

Viagem ao fundo de mim

“Se você quer pegar um peixinho,
pode ficar em águas rasas.
Mas se quer um peixe grande,
terá que pescar em águas profundas”
David Lynch

E aí, eu resolvi escrever um livro.

Porque não dava mais para ficar calada, não dava mais para ficar parada.

Não dava mais para sentir e não registrar. Mas também não dava para registrar só as coisas que eu sentia na superfície. Era preciso ir mais fundo, era preciso ter coragem, era preciso tomar uma decisão.

Foi preciso dar um salto na escuridão.

E foi assim que a ideia do livro nasceu. Do desespero. Do choro vazio das coisas que se perdem sem sentido. Da falta absoluta de outra escolha que não fosse escrever. A ideia do livro nasceu da aflição da existência. Essas coisas que vem de um lugar muito estranho nos artistas. Das vísceras. De um profundo tão difícil de explicar quanto a própria existência.

E o salto na escuridão aconteceu. Não como quem se mata. Mas como quem renasce.

E desde então, escrevo sem parar. Há meses me sinto voando. Tentando não reler nada, não criticar nada. Tentando segurar a língua ferina do ego que pode silenciosamente me plantar a dúvida. Às vezes choro enquanto escrevo. Às vezes rio. Às vezes sinto uma clareza absoluta. Muitas vezes me perco. Mas lembro de Clarice quando ela diz: “perder-se também é caminho”.

Escrevo à mão. Jamais no computador.

E por vezes, me vejo como uma médium espírita incorporada, psicografando algo do além. Porque escrevo depressa, com os olhos semicerrados. Uma mão na caneta e outra segurando a cabeça, que pesa com tantas ideias e sentimentos. Numa urgência estranha, dessas que faz a gente achar que não tem mais tempo, porque talvez vá partir. Não para a morte. Mas para o parto. De algo que precisa desesperadamente nascer.

Esses últimos meses tem sido maravilhosos e sofridos. Na mesma proporção. Porque o meu escrever é simples, mas a tradução não é. Ela requer entrega. Verdade. Coragem. Ela requer uma escuta muito, muito apurada de um mundo invisível. O mundo paralelo das memórias. Tenho visitado lembranças de tempos remotos. Coisas da infância, da juventude, da luz e da sombra que já habitei. Da alegria e da dor. Do fácil e do terrivelmente difícil de ser visto. Mas é isso. Não consigo fazer diferente. Minha escrita é o que é e isso está posto.

Talvez eu nunca tenha me sentido tão feliz. E tão confusa. E eufórica. Mas eu agradeço.

Estou livre.

Sou um pássaro voando alto no céu de muitas nuvens. Me sinto o próprio vento, ventando ventanias. A chuva que chove abundante para encharcar a terra de tudo aquilo que ela precisa.

Estou livre. Porque pela primeira vez escrevo livremente.

Não sei se chegarei a algum lugar. Não sei se esse livro poderá ser compreendido. Não sei nem se algum dia conseguirei organizar tantos manuscritos. Não posso pensar nisso agora.

Se eu rezo para que esse livro termine?

Sim.

Eu rezo para que esse livro termine. Assim como rezo para ver minhas filhas crescidas e criadas para que possam voar sem mim. Assim como rezo para envelhecer lúcida, para que possa contar aos meus netos tudo que vivi. Rezo por saúde e a mínima compreensão do mundo antes de partir.

É.

Eu resolvi escrever um livro.

E isso está mudando tudo, dentro e fora de mim.

Que assim seja. E assim é.

Um Certo Doutor Rodrigo

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Para Rodrigo Vianna

Há pessoas e pessoas nesse mundo de meu Deus.

Se eu pudesse classificar meu ginecologista e obstetra Dr. Rodrigo, diria que ele é uma das pessoas mais incríveis que eu conheço.

Antigamente, lá nos tempos onde tudo era tão diferente, existiam médicos que eram considerados verdadeiros curandeiros. Eram médicos de família e conheciam profundamente a história de seus pacientes. Não só a história de suas enfermidades e órgãos, mas a história de suas almas.

Dr. Rodrigo é um médico de antigamente.

Nos conhecemos na época que eu estava grávida da Catarina. Na época estava tentando um parto mais humanizado e tinha escolhido ter meu neném em casa, com uma parteira. Ele era o médico que estaria de plantão caso alguma coisa acontecesse. Como de fato aconteceu.

Antigamente, lá nos tempos onde tudo era tão diferente, talvez nossa situação pudesse ter ficado mais séria. Eu tinha o cordão tão curto, tão curto, que a bichinha fazia força para sair, mas a placenta – como um ioiô – fazia força para ela voltar. Apesar de ser um grande entusiasta do parto normal, Dr. Rodrigo acabou sendo meu herói naquele dia. Fez uma cesariana emergencial super bem sucedida e no final da história, acabou salvando a minha vida e a vida da minha pequena.

Nunca me esqueço do dia que ele foi me visitar em casa depois da cirurgia. Com seu sorriso de sempre, entrou no meu quarto, mediu minha pressão, examinou meu corte, fez algumas perguntas, sorriu, brincou com a Catarina, indagou como andava meu coração depois de todo aquele susto, receitou alguns remédios e foi embora levando com ele minha profunda gratidão por aquele instante. Eu nunca tinha sido visitada por um médico em casa. Nunca tinha sido cuidada dessa forma por um profissional da saúde. Fiquei me achando importante. Única. E isso faz a maior diferença. Não só para uma mãe frágil no pós-parto, mas para qualquer pessoa que precisa de cuidado.

Depois daquele dia, nunca mais pude me imaginar consultando outro médico.

Dr. Rodrigo deve ser o obstetra mais amado de Niterói. Seu consultório vive abarrotado de barrigas-luz e ele atende todo mundo como se não existisse mais ninguém na sala de espera, esperando. E não é só de grávidas não. Moças, mulheres e senhoras esperam o quanto for para serem atendidas porque sabem que poucos médicos tem um respeito tão profundo pelo sagrado feminino como ele. E isso para gente, faz uma diferença enorme na hora H.

Com sua voz serena e uma calma hipnotizante para falar, ele cuida da gente como quem cuida de um jardim. Tem umas mãos de nuvem que fazem do Papanicolau parecer um suspirinho de três segundos. E conversa sobre o tempo, explica questões médicas sérias com leveza, troca experiências, reclama do Fluminense, conta histórias e ri da vida como quem já entendeu quase tudo.

É por essas e outras que eu digo: há pessoas e pessoas nesse mundo. Mas algumas fazem a gente ainda ter um monte de esperança na humanidade. Dr. Rodrigo é uma delas.

ComCiência

 

Em tempos de luta e combate aos preconceitos explícitos e implícitos que moram na gente, a exposição de Patrícia Piccinini “Comciência”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, é uma oportunidade imperdível para uma profunda e emocionante reflexão sobre o tema.

Eu já tinha ouvido falar da exposição. Já tinha lido sobre ela. Mas nada que pudesse me preparar de fato para tudo aquilo que me esperava. Fiz questão de levar minhas filhas. Já que o buraco era mais embaixo, achei uma oportunidade riquíssima da gente vivenciar junto, o que quer que fosse.

É impressionante como a gente caminha, caminha, mas está sempre precisando reeducar o nosso olhar. E como a arte é generosa para isso. Porque ela sempre nos leva por um caminho sensorial inexplicável que vai nos mudar para sempre. A gente querendo ou não.

Entramos na exposição e ao caminhar pelas primeiras salas, tivemos todas a mesma sensação de termos entrado num mundo paralelo ao nosso. Numa outra dimensão.

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O lugar era habitado por criaturas bizarras, esdrúxulas e esquisitíssimas. Senti nas meninas e na minha alma uma inquietação engraçada. Uma curiosidade picante daquelas que a gente só sente quando viaja pela primeira vez para um lugar bem exótico e diferente.

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A maioria das obras é de um realismo impressionante. Me lembrou um pouco as esculturas hiper-realistas de Ron Mueck, aquele australiano que faz umas pessoas gigantes em cenas do cotidiano. Talvez pela textura da pele, pelos cabelos de verdade ou pelas expressões que nos parecem tão humanas. Patrícia Piccinini também é australiana. Fui pesquisar um pouco sobre eles depois e descobri que fazem parte de uma patota de artistas plásticos que são considerados “artistas realistas” e que estão fazendo o maior sucesso no mundo.

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Mas seguindo o barco, depois de passado o primeiro estranhamento da coisa, percebi que aos poucos, estávamos nos apaixonando pelas criaturas. E eu sabia o porquê. Todas, absolutamente todas as criaturas estavam imersas numa amorosidade indescritível. Todas tinham uma fragilidade e um carinho no olhar, na expressão, no gesto, na forma de ser e se apresentar ao público. Pareciam tão vivas e querendo nos dizer algo tão importante. Eram tão diferentes e tão parecidas conosco.

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Estranho. Estranho e maravilhoso. Estranho e profundo. A experiência foi me tomando de uma forma intensa e definitiva. E percebi que o mesmo acontecia com as meninas. Primeiro o estranhamento. Depois a admiração. Depois a paixão. Por fim, um respeito profundo por aqueles seres.

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Para quem ainda não viu, aqui está uma grande e fabulosa oportunidade de rever conceitos, valores e impressões sobre o mundo. O mundo de fora e o mundo de dentro.

Sobre os artistas realistas, aqui está o link:

http://www.guiadasemana.com.br/artes-e-teatro/noticia/alem-de-patricia-paccinini-e-ron-mueck-conheca-5-artistas-realistas

 

Redes Surreais

Para Clara Meira

A discussão toda começou por causa de um texto que eu tinha postado e resolvido tirar do ar. Um texto que ela tinha amado. Mas que eu não tinha ficado nem um pouco satisfeita.

– Mas mãe, por que você fez isso?

– Porque eu não gostei do texto, filha. O site é quase um retrato da minha alma. Uma extensão do meu coração. Se escrevo alguma coisa da qual me arrependo, eu tenho todo o direito e licença poética para ir lá e tirar.

– Aff mãe, você se preocupa demais com umas coisas e de menos com outras. Com quantas curtidas está sua página no Facebook?

Ali percebi que a discussão ia esquentar.

– Minha filha, sinceramente, você acha que eu sei essa resposta assim, na ponta da língua?

– Mãe, você parou de abastecer sua página, não dialoga com o seu público, como quer que a página cresça se não investe nela? Nem Twitter você tem!

– Ah não Clara, não me vem com essa história de Twitter de novo…

– Mãe, o Twitter tem um poder muito maior de divulgação que o Facebook. E o seu Instagram, há quanto tempo você não coloca nada lá? Assim não dá mãe…

– Mas filha, para mim é tudo a mesma porcaria. Eu não consigo entender para que tanta diversidade de rede social. Pensa bem: é Whatsapp, Facebook, LinkedIn, Twitter, YouTube, Instagram, Skype, Vimeo, Snapchat, Tumblr. Caramba! Todo mundo tem tanta coisa pra falar, mas quantas se escutam? Eu conto nos dedos os amigos que eu realmente troco alguma coisa de verdade.

Ela fez aquela cara que ela faz quando tá arquitetando uma resposta inteligente para me desarmar.

E de repente, me deu um aperto no peito. Uma angústia, misturada com frustração, com desânimo. Meus olhos se encheram d’água e eu não sabia mais o que falar.

Ela desarmou a cara de briga e me olhou com aquele olhar doce de quem entendeu tudo. E veio me abraçar com todo o carinho.

– Mãezinha, por que você tá chorando?

Eu queria tentar explicar para ela que os poucos anos que dividem as nossas gerações, transformou tudo rápido demais e o que parecia tão simples e óbvio para ela, não fazia quase nenhum sentido para mim.

– Clarinha, eu sou de um tempo muito diferente do seu. Quando eu tinha a sua idade ninguém tinha acesso a computador. Não existia essa tecnologia toda que existe hoje. Imagina que só tinha aparelho para tocar CD quem fosse muito rico. O máximo que eu tive em casa foi um telefone com fax e isso era assim uma coisa muito extraordinária. Eu tinha aparelhos eletrônicos sim, mas era um toca-fitas, uma vitrola e um aparelho de videocassete para ver filmes alugados. Você sabia que se a gente não rebobinasse a fita pagava uma multa na locadora? Você entende agora a diferença dos nossos tempos?

– Entendo mãe, claro que entendo. Mas hoje você tá muito bem adaptada às modernidades desse novo tempo, só resiste um pouco a elas.

– Eu to, claro que eu to. Eu tenho um laptop meio calhambeque, mas tenho. Tenho um site oficial de crônicas e isso eu agradeço muito porque foi a chance que eu tive de mostrar para muita gente aquilo que escrevo. Eu tenho um celular moderno, com android – mesmo sem saber direito o que isso significa – e eu tenho conta em algumas redes sociais, mas no fundo, lá no fundinho de mim, eu sempre fico com a impressão de que esses lugares mais me sugam energia do que me nutrem…

– Como assim, mãe?

– Ah Clara, tem muita gente postando coisas interessantes nas redes sociais, mas na grande maioria o que vejo é o retrato de uma geração solitária e esvaziada de sentido. Por exemplo: as pessoas amam tirar selfie. Tudo bem. Mas para quê tanto selfie? Ninguém mais tá vivendo o momento, porque só se preocupa em registrar o momento.

– Mãezinha, não precisa levar tudo tão a sério… Posso te falar uma coisa?

– Pode.

– Você não quer ser uma escritora famosa e poder viver do que escreve?

– Sim.

– Você não sabe que o caminho para publicar um livro através de uma editora é bem complicado?

– Sei.

– Então, a internet mãe é uma ferramenta poderosa porque atinge muitas pessoas em segundos. Eu sei que isso te assusta um pouco, mas respira e segue em frente.

– Eu não sei se eu consigo dar conta desse mundo, filha.

– Presta atenção. Foca nas três redes mais importantes para você agora. O Facebook, o Instagram e o Twitter são redes diferentes, mas você precisa de todas para formar uma grande rede de pessoas. No Facebook você pode trocar coisas interessantes com os seus amigos, divulgar seus textos e ideias. O Instagram é um registro mais pessoal de você como pessoa e o Twitter é aquela rede social mais rapidinha, que tudo acontece em segundos, mas que por causa da possibilidade dos retweets, você vai atingir muito mais gente…

– Mas como que eu vou dar conta de tanta coisa num dia só? Abastecer todas as minhas redes sociais, escrever, ler, cuidar de vocês, de mim, da casa, do trabalho e do espírito? Eu não vou dormir né?

Dessa vez ela abriu um sorriso tentando buscar paciência.

– Mãe, é só se organizar que você vai conseguir. Quer que eu te ajude?

– Quero.

– Quer perguntar alguma coisa?

– Quero. O que é retweet pelo amor de Deus?

 

Ladies and Gentlemen

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Ele estava sozinho numa sala toda branca, gelada e silenciosa. Enorme, imponente, colorido. Ocupava quase toda a parede de um extremo ao outro numa das salas da exposição de Andy Warhol no Centro Cultural Banco do Brasil. Entrei sozinha e fiquei ali, em estado de choque, ao me deparar com a imagem que via. Era um retrato duplicado de duas mulheres, carregado de muita tinta, que delineava formas e texturas e enchia de sombras um simples retrato.

Para falar a verdade, até aquele momento, a exposição não tinha me emocionado muito. Eu conhecia um pouco da história de Warhol e da importância de tudo que ele tinha feito – e pensado – sobre arte no mundo contemporâneo. Gostava da releitura com a imagem da Marilyn Monroe e da reflexão que ele sugeria ao imaginar que até as celebridades, ao serem retratadas de forma mecânica e em série, podiam se transformar em figuras impessoais e vazias. Mas daí a me emocionar com que ele tinha feito eram outros quinhentos.

Eu fui porque precisava ir. Porque não perdia uma única exposição no CCBB. E porque queria entender e ver de perto o que o mundo chamava de “pop art”. Mas na hora que eu entrei naquela sala e deu de cara com aquele quadro, meu coração congelou.

A tela eram dois retratos idênticos, um acima do outro, numa mesma tela gigantesca. Duas mulheres, duas faces de mulheres, uma mais à frente e a outra recuada para trás, como se abraçasse a primeira pelas costas. Bom, para falar a verdade as duas eram meio andrógenas, mas eu as vi como mulheres. Estavam sérias.  E o que diferenciava os retratos eram as cores que predominavam em cada imagem: laranja, rosa e azul na de cima. Verde, roxo e um outro tom de laranja, na de baixo. Pois bem. Tudo teria sido igual se a mulher que estava mais à frente no retrato não tivesse uma estarrecedora semelhança comigo.

Fui olhar o nome do quadro: chamava-se Ladies and Gentlemen e tinha sido pintado no ano de 1975. Rapidamente fiz as contas de quantos anos eu teria na época. Em seguida me senti ridícula por ter feito isso. Voltei a olhar a imagem. Eu olhava para ela e ela olhava para mim e eu comecei a sentir um desconforto esquisitíssimo. A boca pequena, o lábio fino, o nariz, o formato do rosto, o olhar sério, o cabelo, o jeito. Eu sabia que era uma loucura pensar isso, mas eu pensei. E num fração de segundos eu imaginei que aquela mulher talvez pudesse ser eu. Numa outra vida, numa outra época, numa outra geração, num outro nome, numa outra dimensão.

Na mesma hora me lembrei de um dos meus filmes favoritos do Krzysztof Kieslowski: A Dupla Vida de Veronique. Numa das cenas do filme, o personagem de Irene Jacob se vê de longe numa praça. Ela está dentro do ônibus e por um instante a “outra ela” a vê também dentro do ônibus e elas se reconhecem. Essa foi uma das cenas mais emocionantes que eu já vi no cinema e agora eu estava ali, com a mesma impressão e pavor por estar me reconhecendo num quadro de Andy Warhol.

Ah, esse dia foi muito surreal. Eu demorei horas para conseguir sair daquela sala. Fui à livraria, comprei o catálogo da exposição e fiquei sentada o resto da tarde naquela escada que tem no vão central do CCBB com o livro no colo e um café na mão, com o olhar perdido e uma sensação esquizofrênica de ter perdido algum capitulo da minha vida.

Eu sabia que nada nem ninguém poderia me explicar aquela sensação de dejavú que eu estava sentindo. Mas vamos combinar que não é todo dia que uma coisa dessas acontece na vida de uma pessoa. Qualquer um teria ficado esquisito. E como eu definitivamente não me sinto qualquer um, até hoje essa história me arrepia os cabelinhos.

De tempos em tempos eu tiro esse livro da estante e abro na página 91 e fico olhando para essa Tatiana. E penso que não seria tão mal assim um dia encontrar comigo mesma, quem sabe, tomando um café nas escadarias do CCBB. Nas minhas viagens quânticas, seria mais uma chance de reinventar minha existência.

Quem sabe.

A Coragem do Herói

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A vida tem seus mistérios.

E quando a gente menos espera, recebe um chamado da alma para transformar todas as coisas que pareciam sólidas e imutáveis como uma grande rocha.

Depois de muito relutar, hoje parto para uma grande aventura. Um profundo encontro comigo mesma. Passarei oito dias imersa num retiro espiritual chamado “A Jornada do Herói”. Longe de todas as tecnologias, mergulhada na natureza, longe de tudo aquilo que estou acostumada, mergulhada dentro de mim mesma. As malas estão prontas.

O convite surgiu no ano passado. De uma amiga muito querida, num almoço despretensioso de domingo. Na primeira vez que ouvi falar do curso, meus olhos brilharam como se fosse uma coisa impossível de vivenciar. Milhões de obstáculos pareciam se transpor àquele sonho de estar imersa em mim mesma. Mas a vida é mágica. E quando o chamado da alma é verdadeiro, ela dá um jeito de desatar todos os nós.

Eu sei que a coisa não vai ser fácil. Que todo mundo que já passou pelo processo diz que a coisa não é simples. Que o encontro com a nossa sombra às vezes pode ser assustador. Que o processo de sair da zona de conforto é desesperador para o ego. Mas eu me sinto pronta para partir. Pronta para enfrentar os meus demônios, sejam eles quais forem.

Na verdade o que sinto aqui no fundo do meu coração é uma profunda saudade de mim. De uma Tatiana que eu não encontro há muito tempo. Seja onde for que eu vá encontrá-la, eu tenho certeza que o encontro será de amor. E paz. E renascimento.

Até a volta, queridos leitores.

Carta ao Dinheiro

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Eu queria muito entender por que tem certos assuntos que são tão difíceis de serem compreendidos. Eu sei, por exemplo, que cada um de nós está num estágio na escala de evolução espiritual e que isso certamente nos dá mais ou menos condição de compreender qualquer coisa. Sei também que para compreender determinados assuntos, precisamos levar em consideração não só as ações que cometemos nessa vida como também as ações que cometemos em outras vidas e isso é um pouco de sacanagem, já que definitivamente não temos como mensurar as coisas que fizemos lá para trás. Mas enfim, na totalidade do que é possível nesse momento da minha caminhada, me debruço com um pouco mais de coragem para escrever sobre dinheiro para ver se alguma forma eu desfaço esse nó de marinheiro que é esse assunto dentro de mim.

Tenho 42 anos e dentro dos parâmetros de uma sociedade capitalista, acho que não posso ser considerada uma pessoa bem-sucedida financeiramente. Sou atriz por formação, professora por vocação e nunca, nunca chego ao fim do mês com todas as contas pagas. Tenho um monte de dívidas, o nome mais sujo que pau de galinheiro, nenhuma poupança, nenhuma herança em vista e nenhuma perspectiva de mudança morando num país onde a crise financeira é absurda. Mas de todas essas afirmações talvez a mais grave e complexa seja a que vou dizer agora: tudo que se refere a dinheiro para mim tem uma névoa sombria e esquisita que não me faz conseguir ter clareza sobre o real valor que ele possui.

Vivo numa gangorra de sentimentos antagônicos em relação ao dinheiro. E por mais que trabalhe muito isso na terapia, não há São Francisco de Assis que me faça compreender o que há por baixo de tanta dificuldade em lidar com algo. No quebra-cabeça da vida, vejo todas as peças que se referem a ele espalhadas e nunca consigo encaixá-las, porque no fundo, no mais profundo da minha alma, não consigo encontrar muito sentido no desequilíbrio que ele causa no mundo.

Voltando no tempo, cresci numa atmosfera lúdica maravilhosa. Não fui uma criança rica, mas tive tudo do bom e do melhor. Morei em casas confortáveis e felizes, estudei em boas escolas e só não ganhava presente no Dia das Crianças porque meus pais não concordavam com o golpe comercial da coisa. Aos sete anos, meus pais faliram. Falir significa não ter mais como cumprir com as obrigações financeiras. Eles se separaram e eu fui morar com minha mãe e minha irmã num apartamentinho pequenininho que era da minha avó, no Jardim Botânico. Sinceramente, nada cruel. Saí de uma mega escola alternativa em Santa Tereza para estudar numa escola pública lá perto de casa. Foram os melhores anos escolares da minha vida. Me lembro como se fosse hoje a angústia que me causava estudar no CEAT e não suportar a arrogância das minhas amigas ricas. Todas elas já tinham ido à Disney milhões de vezes, tinham motorista e moravam em mansões. E me humilhavam por minha mísera e pobre coleção de papéis de carta. Quando cheguei ao Camilo Castelo Branco, a tal escola pública, eu era a menina rica que tinha uma linda coleção de papéis de carta. Nunca vou esquecer a sensação de sentido que tive no dia que decidi dividir minha coleção com as minhas novas amigas. Foi um dos momentos mais incríveis que já vivi. O brilho nos olhos de cada uma, a gratidão pelo meu gesto. Foi assim que comecei a minha formação interna de valor.

Morei com a minha mãe até os 28 anos. Até então nunca tinha me preocupado em pagar nenhuma conta. Ela fazia das tripas coração para sustentar o meu sonho de ser atriz. Investia em mim como quem investe no próprio sonho. E eu, trabalhava muito, mas amava tanto o que fazia que não me importava saber o quanto eu ia ganhar em cada trabalho. Essa era a minha última preocupação. Geralmente eu ganhava uma merreca por peça. Só conseguia pagar minhas passagens de ônibus e tomar um suquinho na esquina. Mas eu estava tão feliz que me conformava com a dura realidade de uma jovem atriz brasileira. Minha única opção mais concreta de receber um bom salário era me render a trabalhar na Rede Globo de Televisão e essa era a última coisa que eu queria fazer.

Os anos foram passando. Um belo dia resolvi casar com um belo rapaz que era o meu vizinho. Marcelo era trabalhador e tinha uma carreira promissora dentro da área que trabalhava. Tinha uma facilidade incrível de fazer dinheiro e era muito competente. Casei e três meses depois engravidei. Larguei o teatro e passei a me dedicar inteiramente à maternidade. No fundo, tinha pulado dos braços de sustentação da minha mãe para os braços de sustentação do marido. E assim, seguia alheia à compreensão e ao contato real com o mundo do dinheiro.

Meu casamento durou sete anos, depois de cinco de namoro. Em 2009, com exatamente 36 anos, pela primeira vez na vida, me vi precisando enfrentar o mundo real das contas e a necessidade de trabalhar para me sustentar. Foi um desastre. Passei anos me descabelando. Porque apesar de ter uma pensão generosa do meu ex-marido, eu não sabia lidar com o dinheiro.

E até não sei direito. Hoje tenho minha planilha de gastos no computador, uma pasta toda organizada com as contas da casa, faço mil cambalhotas para puxar daqui, puxar de lá. Mas nem com todas as acrobacias, não consigo me livrar das dívidas. Deve ser porque ainda estou engatinhando no meu aprendizado de vida real. Não sei. Alguns me acusam de ser perdulária. Olha que palavra horrível que é essa. No início eu me ofendia muito. E por isso fui estudar a fundo o significado do palavrão. Ser perdulária significa ser esbanjadora. Gastadora. Mas também significa ter desapego ao dinheiro. Ser pródiga. E ser pródiga possui um outro belo e muito precioso significado para mim: ser aquele que distribui algo com generosidade e liberdade. Uau.

Por isso é o que eu digo: as coisas precisam ser contextualizadas para serem compreendidas. Depois de toda essa história aí, até dá para entender porque eu ainda não sou uma pessoa de pleno sucesso financeiro. A terapia me trouxe a consciência do fato. Tá. Mas e aí?

E aí que Deus é testemunha que eu tenho tentado transformar essa relação. Já fiz curso de prosperidade, ho’oponopono pedindo perdão pelas falhas passadas com o mau uso do dinheiro, reprogramação neurolinguística, mas sinceramente que nada parece adiantar muito. E o pior: todos, absolutamente todos os mapas astrais que já fiz na minha vida, dizem que eu tenho uma conjuntura mágica para fazer dinheiro através das minhas mãos. Como assim? Então tá faltando alguma peça nesse quebra-cabeça.

A grande verdade é que esse conceito de prosperidade e abundância é muito relativo. Porque no fundo no fundo eu me sinto uma pessoa muito privilegiada. Imagina: eu tenho uma saúde abundante, duas filhas perfeitas e também 100% saudáveis. Uma família que me apoia incondicionalmente, um emprego divertido e que me dá liberdade de sonhar. Moro num apartamento pequeno, mas delicioso num condomínio aconchegante num dos bairros mais verdes de Niterói. Trabalho a cinco minutos da minha casa. Tenho um carro vermelho, dois gatos de revista, uma mente criativa e já viajei cinco vezes para o exterior sem nunca ter planejado nenhuma dessas viagens. Será que isso não é ser próspera?

Sei lá. Gosto muito daquela frase do Bukowski que diz: “quanto menos preciso melhor me sinto.” Eu queria ter um espírito 100% franciscano e não precisar mesmo de nada para viver nem ser feliz. Mas essa coisa de ser taurina é que me lascou a vida. A pessoa não tem um centavo na conta, mas ama tomar um bom vinho com gorgonzola, adora almoçar fora no domingo, ama ver peças de teatro, frequentar cinemas, livrarias, papelarias, museus, comprar umas batas indianas, uns perfumes exóticos, cremes da Victoria’s Secret. Gosta mais do que tudo de conhecer lugares novos e por isso sonha com um cartão de crédito sem limites para um dia colocar uma mochila nas costas e ir conhecer o mundo antes de voltar para as estrelas. Taí. Eu queria ter dinheiro só para realizar esse sonho. Conhecer o mundo. Se eu conseguir isso um dia, essa minha encarnação terá sido perfeita.

Posso escrever muitas e muitas páginas sobre esse assunto que a coisa parece que não se esgota. E o pior: aquela peça chave que faltava para entender o que está faltando na minha vida para que o dinheiro entre de forma abundante, eu ainda não descobri qual é. Vou seguir caminhando. Talvez não seja nessa vida que eu vá entender o dinheiro. Talvez não seja nessa vida que eu vá andar de balão na Capadócia. Tudo bem. Numa outra encarnação eu chego lá.