Sobre calor e vagalumes

Há dias não consigo dormir. É quando a madrugada chega que a vida não digerida volta ao meu estômago e se contorce de incompreensão.

Me sinto tão privilegiada por ter uma cama limpa, alimento, água e um ar-condicionado que quase não me dou o direito de sofrer.

Mas eu sofro. Sofro silenciosamente há noites seguidas percebendo sutilmente o que essa onda de calor apocalíptico quer dizer: que aqueles tempos que temíamos estão batendo à nossa porta.

Faz calor e eu fico quieta.
Todo o tempo que posso, me refúgio nesse oásis que virou meu quartinho em Pendotiba. Mas fico aqui nesse ar-condicionado, sempre culpada por quem não pode estar. Culpada pelo valor da conta de luz. Culpada por sentir que não faço nada pelo planeta.
Que inferno.

Meus tataravós chegaram da Alemanha nas primeiras embarcações que colonizaram Joinville. Mas há histórias desses mesmos antepassados que morreram de tristeza pela calor que fazia no Brasil. Mas isso aconteceu há muito tempo.
Hoje o calor que faz parece esfregar na nossa cara o abandono com a Terra. Que tempos estranhos vivemos…

De repente aquelas previsões de fim do mundo estão entrando pelas nossas janelas como um bafo quente de terror. E é agora. Não mais num futuro distópico e distante de Blade Runner.

Outro dia li que somos a última geração que vai conhecer os vagalumes. Chorei de tristeza.

E lembrei da minha infância em Teresópolis quando eu saia para dançar com os vagalumes a noite e sentia que a vida era tão mágica que eu mal conseguia segurar a emoção que aquilo me trazia.

Acho que minhas noites de insônia falam essencialmente sobre essa vontade desesperada de partir.

Fugir para mata. Pra floresta. Para viver o que ainda tenho de vida num lugar onde as coisas ainda façam algum sentido. Fugir para natureza, onde haja pouca civilização e nenhuma inteligência artificial. Onde haja verde e nenhum cinza. Onde haja flores, frutos e paz para existir. Onde a gente ainda tenha alguma chance de aprender com aquela que tem tanto a nos ensinar.

Eu não preciso de nada além de uma casinha, um riacho e um pedacinho de terra para plantar. E uns vagalumes para brincar.

Alguém aí quer vir comigo?

Romance para Existir

Ano passado fiz uma consultoria com uma moça que trabalhou a vida toda em editoras e hoje ajuda os escritores a se colocarem no mercado editorial, sem precisar de uma editora.

O curso tem 450 aulas online e eu confesso que só fiz 1/3 do processo. Aquilo não é bem um curso, é uma estratégia de guerra. Mas é bonito ver alguém querendo ajudar os sonhadores a terem asas próprias. Eu gostei muito dela.

Num encontro individual ela pareceu gostar muito do meu projeto, mas deixou bem claro que eu jamais o chamasse de biografia. Só pessoas famosas escrevem biografias, disse ela. Outras, de tão famosas que são, acabam tendo outras pessoas escrevendo sobre elas biografias não autorizadas.

Que mundo esquisito, pensei.

Respirei fundo e segui a consultoria fingindo achar tudo muito normal.
– E como eu devo chamar meu livro então? – perguntei.
– De romance. Um romance te dará toda a liberdade de escrever o que quiser. Ficção ou não.

Fiquei com aquela palavra dançando dentro de mim e no final das contas, achei muito chique escrever um romance. Coisa de gente famosa.

Foi então que decidi escrever um romance para existir.

A história de uma menina que não sentia parte do mundo e que por ter ficado tanto tempo, acabou construindo pontes para esse mesmo mundo.

Filhas. Amores. Amigos.

Dom Helder Câmara já dizia:
“Feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver.”

Minha biografia vai ser sobre isso. Sobre as razões que me fizeram e me fazem ficar viva.

Um romance biográfico. Afinal, eu sou muito famosa para quem me ama.

Tenho certeza disso.

A Corrente do Bem

E a vida as vezes pode ser assim.

Simples como uma florzinha que nasce no meio do nada, fluida como um rio sossegado, mágica como um arco-íris que surge majestoso num céu cinzento que acabou de chover.
A gente não tem mesmo nenhum controle sobre nada. Mesmo achando que tem, a vida segue provando que não. E que as coisas são como devem ser.

Depois que publiquei a história sobre o meu querido “enfermeiro das bananadas”, entreguei a coisa ao universo e segui. Devagarinho fui acompanhando no Instagram que as pessoas tinham gostado da história e que algumas estavam até ajudando. Mas emocionada mesmo eu fiquei quando o próprio Thomaz respondeu nos meus comentários. Para mim ele já é um cara famoso que, imagina, falou comigo na minha própria página. Que delícia.

Ele foi um fofo dizendo que tinha se emocionado com o que escrevi, mas o que eu queria mesmo é que ele nunca deixasse de acreditar nessa força cósmica que ele tem.

Mas o Universo, ou Deus, ou o Grande Espírito como eu gosto de chamar, já estava arquitetando mais coisas para gente viver.

Então no domingo seguinte recebi uma mensagem pelo WhatsApp. Era a minha amiga Janine, dizendo que tinha ficado muito tocada com a minha história e tinha resolvido mandar no privado para alguns amigos que ela achava que poderiam ajudar o Thomaz.

Qual não foi a minha emoção quando ela me contou que uma de suas melhores amigas que mora no Canadá tinha sentido um impulso de ligar para o Thomaz e saber mais sobre a história dele. E que pelo telefone, encantada com sua energia e forma de falar, resolveu junto ao marido, pagar todo o restante do curso de enfermagem do Thomaz até que ele se forme.

Gente. Para tudo. Para tudo que eu tive um treco de emoção quando soube disso. E fiquei tentando imaginar o que o Thomaz tinha sentido também.

No dia seguinte liguei para Bianca no Canadá e ficamos horas no telefone. Ela me contou do que sentiu ao falar com ele e que algo de muito humano e simples vinha daquele ser. Ela me contou que quando ofereceu de depositar a quantia inteira na conta dele, ele se negou.

– Será que eu posso mandar os boletos para senhora? Eu prefiro.

Ela respondeu que sim, que não teria problema algum.

Thomaz foi honesto com ele mesmo. Sabia que poderia precisar daquele dinheiro para trezentas outras coisas, resolveu não arriscar.

Honestidade. Inteireza. Verdade. Tudo que o nosso Brasil precisa.

Ontem descobri que ele trocou o nome dele no Instagram de Thomaz para “Enfermeiro das Bananadas”. O apelido que eu dei para ele gente! Tem coisa mais linda?

Thomaz, agora só falta você aparecer no Caldeirão do Huck! Você me leva junto? Também tô precisando de ajuda para encontrar uma editora que publique meus livros! Hahahaha
Agradeço tanto isso que estamos vivendo.

À vida que por vezes pode ser tão generosa. Ao Thomaz por me ajudar a resgatar a fé no invisível, aos meus amigos que ajudaram, à Janine, à Bianca e o marido, ao mundo.

A vida as vezes pode ser assim.

Simples e divina como o amor que a gente aos pouquinhos vê se multiplicar em pequenas e definitivas ações.

Viagem no Tempo

Ontem aconteceu uma coisa extraordinária aqui em casa: acabou a luz.

Não sei se porque choveu, ou ventou. Só sei que umas sete horas a luz se foi e não voltou mais. A princípio todo mundo reclamou. Eu estava fazendo jantar, as meninas estavam cada uma em seu universo. Catarina no computador, Clara no Instagram, Edu vendo TV e João jogando no celular.

Acendemos algumas velas pela casa. Tentando ambientar os olhos e o corpo para aquela escuridão repentina, vi o pessoal perambulando pelos cômodos meio perdido. Um silêncio tranquilo se instalou pela casa. Pela rua. Pelo bairro.

Aos pouquinhos fui percebendo que aquelas velas me faziam viajar no tempo. Num tempo não muito distante do nosso, mas numa configuração de cotidiano completamente diferente pelo simples fato de não existir luz elétrica. A sensação era muito boa. De uma serenidade estranha, incomum.

As meninas foram chegando na cozinha, oferecendo ajuda com a comida. João e Edu resolveram colocar a mesa. Começamos a conversar sobre como devia ser o mundo antes da tecnologia. Alguma coisa começou a acontecer com a gente. Como se de repente, naquela luz tão calma, nossa alma pudesse se acalmar também.

Nos sentamos para comer numa mesa cheia de velinhas – como é linda a luz da vela – que nem parecia a mesma casa barulhenta de antes.

Depois do jantar lavamos a louça, arrumamos a cozinha e fomos para sala. Uma chuvinha caia lá fora. Clara resolveu pintar. Catarina começou a ler. Edu, João e eu ficamos conversando, rindo de coisas que tinham acontecido durante o dia.

Fui deitar impressionada com o que tinha acontecido com a gente. Tínhamos ficado juntos, como há muito tempo não ficávamos. Juntos de verdade, não somente coabitando o mesmo espaço.  

Dizem que os cronistas são nostálgicos. Mas como não sofrer de nostalgia e saudade de um tempo em que a vida parecia tão mais simples e profunda? Uma época em que o excesso de estímulos não transformava as pessoas em zumbis, hipnotizadas pelos aparelhos elétricos, celulares, computadores, tablets e smarts tvs. Ai ai.

Estou ansiosa pela próxima falta de luz lá em casa. Ansiosa por viajar no tempo e exercer com a minha família a oportunidade única de estar inteira e presente para eles. Para mim mesma e para a história das nossas vidas.

As Crônicas de São Francisco

Sempre fui louca por São Francisco.

Quando vim morar em Niterói, há 15 anos, ele era o lugar de refúgio da minha alma. Bastava olhar para aquela praia que tudo se arrumava por dentro.

Tem 18 dias que eu estou morando nesse paraíso e já pude observar tantas curiosidades pitorescas sobre o bairro que resolvi escrever sobre isso.

Vocês sabem como eu sou. Quando a coisa transborda, preciso escrever, senão a alma entope.

A primeira coisa que tem me impressionado por aqui é a refinada e disparatada diferença entre as classes sociais. Eu sei que praticamente todos os lugares do Brasil vivem isso. Mas aqui tem alguma coisa diferente.

Explico.

Na calçada dos restaurantes a noite – todos caríssimos e chiquérrimos – tem o povo cheio da grana, cheiroso e feliz, degustando canapés da Paludo, chopinho de trigo da Noi e sushis maravilhosos do Sunsaki.

Mas se você atravessar a rua e for para o calçadão, vai ver uma infinidade de famílias, com nem um décimo da grana dos grã-finos, passeando felizes também, comendo cachorro quente, algodão doce e milho verde, como se aquele fosse o sábado mais importante do ano. Muitos casaizinhos com filhos pequenos, avós, tios, primos. Todos juntos. Em caravana.

Achei tão curiosa essa geografia social que não me impressionei quando comecei a fazer caminhadas pelas ruas de dentro do bairro, naquele delicioso labirinto de ruas com nomes indígenas.

Num mesmo quarteirão podemos admirar uma casa no estilo mansão do Morumbi, cheia de bromélias e mini Palmeiras no jardim, colunas de mármore na varanda e duas Landrovers estacionadas na garagem. E ao lado, literalmente ao lado, um casebre, habitado por quem um dia foi Barão e hoje não é nem pé-de-chinelo. São muitas as casas deslumbrantes que convivem lado a lado com casas que nitidamente são de famílias que faliram e nunca mais puderam fazer nenhum tipo de manutenção e estão caindo aos pedaços.

Que mundo bizarro.

É o Praia Clube São Francisco e o Morro do Preventório olhando para o mesmo paraíso. A mesma praia. Que cá entre nós, não tem preço, porque para a natureza não existe isso de desigualdade social. A beleza é gratuita.
Definitivamente não vai ser nessa vida que eu vou entender sobre dinheiro e o sistema que existe por trás dele.

Tudo bem. Quem sabe na próxima encarnação.

Nos tempos que a gente saia para dançar

Dizem que os cronistas são profundamente nostálgicos.

Não sei quem inventou essa teoria, mas está coberto de razão.

É um complexo “Meia-noite em Paris” incontrolável.

Um desejo constante de voltar no tempo para viver certas coisas que nunca mais se ouviu falar.

Como sair para dançar, por exemplo.

Outro dia me peguei tentando explicar para as meninas o que significava “sair para dançar” na minha juventude.

(acho que chamar o passado de juventude já é uma dica do meu jeitão saudosista, mas tudo bem)

Elas simplesmente não conseguiram imaginar o que seria esse programa.

Há muito tempo, quando o mundo ainda parecia normal – outro dia mesmo – e a gente queria sair para se divertir, quais eram as opções? Um restaurante, um barzinho com música ao vivo? Com sorte uma festinha de amigos?

Nos meus tempos de gatinha, o programa era sair para dançar. 

A gente até parava antes em algum barzinho para tomar umas biritas, mas o maior objetivo da noite era ir para uma boate para dançar. Arrasar nos passinhos ou “abrir as asas para cair na gandaia”. Ah gente. Que maravilha que foram os anos 80 e 90. Parece que tudo aquilo aconteceu há um século. Eram outros tempos, eu sei. Mas a impressão que me dá é que em três décadas o mundo mudou completamente.

Comecei a vida indo a matinês. Circus. Help. Depois cresci e comecei a frequentar os lugares mais descolados da noite carioca. Numa época que não existia celular, ir ao Wells Fargo e poder paquerar com a mesa ao lado através de um telefone instalado na mesa era uma coisa extraordinária. Quem lembra do banho de espuma que rolava no fim da noite na Zoom em São Conrado? Gente, a boate derramava um banho de espuma na pista de dança para encerrar a noite. Vocês entenderam? Depois teve a fase de dançar lambada no Hipopotamus. Ser expulso duas da manhã da boate do Piraquê. Correr atrás dos shows da Rio Sound Machine onde eles estivessem tocando: Ballroom, Jazzmania, Mostarda, Mistura Fina. Nossa Senhora. Showzinho da Rio Sound era o auge naquela época. Ainda teve a fase de ir dançar Black Music na Public. e Co na Pacheco Leão, numa noite surreal comandada pelo Gustavo Corsi, guitarrista da Rio Sound, que fazia tremer o Jardim Botânico. A gente voltava para casa amanhecendo sem sapato, com a alma lavada, de tanto dançar. 

Isso não existe mais. A galerinha que quer dançar hoje só tem duas opções: ou eles vão para o baile funk. Ou para alguma boate dançar… funk. 

Tá, eu sei que de vez em quando rolam umas festinhas com um ar de “anos 80”, tipo festa PLOC ou festa do Flashback, mas não é a mesma coisa. Minha irmã diz que tem uns bailinhos de charme na zona norte do Rio maravilhosos, mas eu nunca fui. Um pouco de preguicinha talvez. Ou eu estou ficando velha mesmo.

A última vez que me acabei de dançar foi na minha festa de 45 anos. Os amiguinhos das meninas ficaram chocados como eu não saia da pista. Meus amigos também se acabaram. No dia seguinte eu não conseguia levantar. Só depois de dois Dorflex e muita bolsa de água quente na lombar e um escalda pés nas bolhas do joanete.

É pessoal, acho que eu estou mesmo com saudades de me sentir jovem. Jovem não, porque não troco minha vida de hoje nem por 15 minutos da juventude. Mas a alegria e a descontração de alma que a gente tinha naqueles tempos, não tinha igual.

É ou não é verdade?

Luz

Existem dois tipos de pessoas no mundo que por apenas uma ação já dizem quem são: as que usam lâmpada branca e as que usam lâmpada amarela.

Não sei como algo tão simples pode falar tão profundamente de alguém, mas isso é fato.

Caminhando esses dias pelas ruas do Ingá, me peguei observando as janelas dos apartamentos com a curiosidade de sempre que me assolam essas paisagens.

Mas ao observar as vidas vividas nas casas com luz branca, cheguei à conclusão que essas pessoas certamente têm um outro tipo de sangue correndo nas veias. Não é possível.

Se alguém entra numa loja e faz a escolha consciente de comprar uma lâmpada branca para colocar na sala de sua casa, isso significa que ela é feita de um outro material completamente diferente do meu. E claro, das pessoas que moram nas janelinhas aconchegantes do prédio do Ingá também.

Escolher o tipo de luz que vai nos iluminar quando o sol se põe, fala muito de nós.

Lá nos primórdios da humanidade, quando anoitecia, a única coisa que nos trazia alguma luz era a Lua. Depois, uma santa criatura descobriu o fogo e daí surgiram as fogueiras que devem ter mudado radicalmente a convivência humana.

Muito tempo depois vieram os lampiões, movidos à luz de velas de sebo e gordura. Que cá para nós, devia dar um toque cinematográfico à existência.

Um belo dia, numa tarde provavelmente inspiradíssima, Thomas inventou a lâmpada elétrica. Mais precisamente no dia 21 de outubro de 1879. Gente! Imagina só a revolução que deve ter sido esse dia na vida das pessoas!

Mas voltando ao meu espanto, de 1879 até hoje, um milhão de possibilidades de iluminação surgiram com a modernidade. E mesmo assim, alguém entra numa loja e resolve escolher uma luz branca para iluminar as noites em seu lar?

Será que as pessoas não percebem o tipo de luz onde estão? Será que incomoda, mas não tanto ao ponto de trocar? Será que elas sentem calor com a luz amarela e acham a luz branca mais fresquinha? Pesquisei sobre isso e não existe tá. É só uma questão psicológica “o frio e o quente” das lâmpadas. Pelo menos essas que a gente usa de LED e que são bem mais econômicas. Mas enfim. Esse não é um texto-denúncia. É só um texto-reflexão. Não quero ninguém chateado por amar luz branca. Só quero entender o que vocês sentem.

Porque tudo bem usar uma luz branca num hospital. É um lugar que precisa estar muito iluminado, te dar uma sensação de assepsia, foco, percepção. Mas em casa? Em casa a gente quer aconchego, abraço. Descanso para os olhos. Descanso para a alma. Não? Uma luzinha de abajur ligado no fim da noite faz a gente esquecer o mundo.

Tem coisas que eu vou morrer sem entender. Essa da luz é uma delas.

Um Sal de Fruta Mágico

Quando minha irmã morou em Teresópolis uns anos atrás, a coisa que eu mais lembro era de passar o fim de semana toda empanturrada.

Os cafés da manhã eram fartos, lindos e cheirosos. Comíamos com a mesma satisfação de quem come café da manhã de hotel. Uma alegria! Depois, ainda tirando a mesa do café já começava a função do almoço. Era um acontecimento a família toda reunida para cozinhar. Tinha música, cervejinha gelada, amendoim, gargalhada. Depois do almoço uma soneca na rede, uma biribinha, uma pausa daquelas incríveis que os finais de semana nos permitem sem culpa. O fim da tarde vinha chegando e com ele, claro, a hora do café. Um bolinho, um biscoitinho, uma torradinha talvez. Eu nem tinha digerido o almoço direito e já tava me enchendo de pão com geléia.

Durante o café da tarde se discutia qual seria o lanche: wafflles, pizza ou uma sopinha mais leve? Mesmo que fosse a sopinha, ela não vinha sem pães de queijo, pastinhas, broas e croissants. Era uma orgia gastronômica.

Lembrei disso essa semana porque nos últimos meses eu tenho me sentido assim empanturrada. Não de comida. Mas de vida.

São tantas vivências, notícias, preocupações que a impressão que me dá é que num dia de 24 horas eu nunca consigo digerir nem metade das coisas que coloquei para dentro. Tipo aquela sensação de quem acabou de sair de uma churrascaria.

Drummond já dizia que “a vida necessita de pausas”. Mas com a vida apressada que a gente tem levado quem tem tempo para dar um tempo? Ninguém.

E aí vem a sensação de empanzinamento. Caramba. Até a palavra é indigesta.
Não sei se você se sente assim, leitor. Mas de uns tempos para cá, eu venho desejando um sal de fruta mágico para dar conta da vida pós-pandemia. A gente coloca coisas demais para dentro e não tem nenhuma estrutura emocional para dar conta de absorver tanta coisa.

Minha terapeuta costumava dizer que as vivências precisam de tempo para ser integradas. Qualquer que seja a experiência, a gente não consegue assimilar nada de uma hora para outra. E mesmo as noites, que dividem os dias, não são tempo suficiente para nenhuma digestão. Claro né. Com a cabeça cheia, quem consegue ter uma noite restauradora de sono? Ninguém.

Outro dia uma amiga tentou salvar um passarinho-bebê de ser atropelado. Parou o trânsito, fez mil manobras numa rua super agitada, mobilizou toda sua energia para no final, ter que assistir uma pessoa louca de pressa, furar todos os bloqueios e esmigalhar o pobre bichinho bem na sua frente. Ela ficou destruída. Estragada para o resto do dia, que estava apenas começando. Uma vivência assim, como tantas outras que a gente tem vivido, precisa de um tempo para assentar na alma.

Eu ando suspirando muito. Acho que é essa tentativa de colocar a alma no lugar. Trazer ar para um corpo que anda sufocado. Um corpo que anda amedrontado que falte ar. Que falte sorte. Que falte leito. Que falte vacina. Que falte compaixão. Que falte vergonha na cara desses governantes. Que falte dinheiro. Que falte esperança. Que falte, sobretudo, força e coragem para a gente enfrentar tudo que precisa enfrentar, todos os dias, quando abre os olhos de manhã.

Alguém aí conhece uma solução para isso? Algum Sonrisal milagroso que ajude o corpo e a alma a dar conta de tanto sapo engolido? Sapo, tristeza e dureza?

Aguardo dicas! Inté!

Uma Carta para Dona AstraZeneca

Bom dia, Dona AstraZeneca.

Que imenso prazer te conhecer!

Seja muito bem-vinda ao meu organismo.

Entre aí pela musculatura do meu braço gordinho e fique à vontade de se espalhar por todas as veias e vielas do meu corpo! Eu te recebo com imensa gratidão. Nem acredito que finalmente estamos nos conhecendo.

Sei que por onde a senhora entrou vai ficar dolorido, mas não se preocupe que já tenho aqui arnica ou o velho e bom Vick Vaporub para massagear o local.

Pensar que veio de tão longe, não é? Oxford se não me engano. Acho chiquérrimo. Depois passou uma temporada com o pessoal da Fiocruz para dar uma garibada no visual que eu estou sabendo. Ô povo mais esforçado para nos salvar Dona AstraZeneca. Emocionante de ver… nem sei como agradecer. A eles e a todos os laboratórios do mundo que correram contra o tempo e a ciência para tentar encontrar uma solução para essa pandemia louca que nos enfiamos.

Mas é isso aí.

Espalhe esse coitado do Coronavírus por todos os cantos do meu corpo que o esquadrão antibomba já está a postos para treinar o pessoal.

Diga a ele que eu sinto muitíssimo por sua triste existência, mas não que não há como perdoá-lo depois de tudo que ele fez. Imagino que ele não tenha feito por mal. Dizem os espiritualistas que essa doença chegou para nós para uma expansão de consciência da humanidade. Mas fica difícil de explicar isso para as milhões de famílias do mundo que perderam seus amores. É uma situação muito delicada, a senhora entende.

Mas siga aí sua digna tarefa de espalhar esses bichinhos pelo meu corpo que eu sei que a guerra entre eles e os meus anticorpos não será fácil. Mas estou aqui a postos para toda e qualquer luta.

Estou preparada para as reações que eu sei que a senhora vai provocar. Eu não ligo. Acolho com alegria a dor de cabeça, a febre, os calafrios e a dor no corpo que virá. Para cada uma delas tenho um remedinho de prontidão. Só não há remédio para morte Dona AstraZeneca. Para a morte e para o medo que invadiu nossas vidas há exatos 15 meses. Por isso a senhora e as outras vacinas que estão sendo produzidas pelo mundo são tão importantes nesse momento. Porque são nossa única defesa.

Eu não sei se a senhora está acompanhando a situação do Brasil, mas a coisa por aqui está gravíssima. Nosso governante é um homem completamente louco e traçou para o Brasil uma necropolitica assustadora. Ele acha mesmo que pode decidir quem vive e quem morre por aqui. Ele, a senhora sabe quem, é um lunático e está sendo chamado por muitos de genocida. Faz ideia da gravidade disso? Parece coisa de filme da Marvel. Ele, a Capitã Cloroquina e outros personagens sinistros são no momento nossos arquinimigos. Se a pandemia já era assustadora para o planeta, aqui no Brasil o que temos vivido é um verdadeiro pesadelo. Ele foi contra a compra de vacinas até muito pouco tempo e só Deus sabe como estamos fazendo para sobreviver a esse Voldemort brasileiro. Temos tanto horror ao capiroto que nem gostamos de mencionar o nome dele.

Mas enfim, não quero mais atrapalhar seu trabalho. Cuide bem aí da minha patrulha e me ajude a ficar bem forte para caso do Coronga me aparecer de algum espirro alheio. Sabe que aqui o povo ainda resiste à máscara e ao distanciamento. É um povo que precisa ser estudado Dona AstraZeneca. A senhora nem imagina.

Mas é com imensa gratidão que me despeço. Desde já agradeço por todo o trabalho que está desenvolvendo.

Lembranças ao pessoal de Oxford.

Abraços calorosos,

Tatiana Monteiro – do distante e bucólico Condado de Pendotiba

Eu vejo amor

Foi uma cena simples.

Um pai e uma filha se despediam no portão de embarque do aeroporto.

Ela chorava muito, ele tentava se segurar. A mãe ao lado se emocionava ao ver os dois abraçados.

Ela já era uma moça adulta, mas naquele instante, parecia uma menina pequenininha se despedindo de um grande herói. Quando finalmente conseguiram se desgrudar, a esposa o abraçou e eu percebi que ela também chorava.  Ele entregou seu cartão de embarque com o coração despedaçado, a mãe abraçou a filha e a acolheu da melhor forma que pôde.

Ele atravessou o portão, voltou a olhar para trás e ao olhar para as duas, tentou brincar fazendo um gesto de tirar o coração do peito e jogar para elas. Elas de longe, seguraram o coração. Ele finalmente entrou e as duas se abraçaram.

Eu, que já tinha embarcado minhas duas pequenas para a casa do pai, desmontei ali mesmo com aquela cena linda de amor. Não sei se mais alguém acompanhou aquele momento, mas eu segui tomando meu café com o coração tomado de gratidão.

Eu vejo amor em quase todos os lugares.

Queria que a vida tivesse mais momentos assim. Esses fragmentos de tempo carregados de sentimentos genuínos e profundos. A humanidade, em sua melhor versão. Como é bonito testemunhar a vida assim. Bonito e verdadeiro.

Eu vejo amor em muitos lugares. Vejo amor nessa despedida. Vejo amor na moça que me serviu o café com um sorriso imenso e gratuito. Vejo amor no taxista que me levou de volta para casa contando do nascimento de sua filha. Vejo amor quando vejo alguém ajudando a senhorinha a atravessar na Praia de Icaraí. Vejo amor na dona do cachorro dando água para ele num potinho no calçadão. Vejo amor no rapaz que dá moedas para o artista de rua que soprou fogo nesse calor de 40º. Eu vejo amor na moça de patins, dançando de fone. Vejo amor no rapaz que acaba de piscar para ela.

Há amor em muitos lugares. A gente só precisa estar com os olhos da alma bem abertos para perceber.