
Há dias não consigo dormir. É quando a madrugada chega que a vida não digerida volta ao meu estômago e se contorce de incompreensão.
Me sinto tão privilegiada por ter uma cama limpa, alimento, água e um ar-condicionado que quase não me dou o direito de sofrer.
Mas eu sofro. Sofro silenciosamente há noites seguidas percebendo sutilmente o que essa onda de calor apocalíptico quer dizer: que aqueles tempos que temíamos estão batendo à nossa porta.
Faz calor e eu fico quieta.
Todo o tempo que posso, me refúgio nesse oásis que virou meu quartinho em Pendotiba. Mas fico aqui nesse ar-condicionado, sempre culpada por quem não pode estar. Culpada pelo valor da conta de luz. Culpada por sentir que não faço nada pelo planeta.
Que inferno.
Meus tataravós chegaram da Alemanha nas primeiras embarcações que colonizaram Joinville. Mas há histórias desses mesmos antepassados que morreram de tristeza pela calor que fazia no Brasil. Mas isso aconteceu há muito tempo.
Hoje o calor que faz parece esfregar na nossa cara o abandono com a Terra. Que tempos estranhos vivemos…
De repente aquelas previsões de fim do mundo estão entrando pelas nossas janelas como um bafo quente de terror. E é agora. Não mais num futuro distópico e distante de Blade Runner.
Outro dia li que somos a última geração que vai conhecer os vagalumes. Chorei de tristeza.
E lembrei da minha infância em Teresópolis quando eu saia para dançar com os vagalumes a noite e sentia que a vida era tão mágica que eu mal conseguia segurar a emoção que aquilo me trazia.
Acho que minhas noites de insônia falam essencialmente sobre essa vontade desesperada de partir.
Fugir para mata. Pra floresta. Para viver o que ainda tenho de vida num lugar onde as coisas ainda façam algum sentido. Fugir para natureza, onde haja pouca civilização e nenhuma inteligência artificial. Onde haja verde e nenhum cinza. Onde haja flores, frutos e paz para existir. Onde a gente ainda tenha alguma chance de aprender com aquela que tem tanto a nos ensinar.
Eu não preciso de nada além de uma casinha, um riacho e um pedacinho de terra para plantar. E uns vagalumes para brincar.
Alguém aí quer vir comigo?








