
Para Clara Meira
Não. Definitivamente não há cursinho preparatório para gente ter filhos.
Ninguém avisou para gente do neném molinho que ia chegar aos nossos braços, nem da velocidade que as perninhas deles iriam ganhar quando aprendessem a andar. Ninguém avisou das perguntas que a gente precisaria responder, nem do amor avassalador que a gente iria sentir.
Todas as fases dão trabalho. Todas têm sua magia e complexidade. Todas são terrivelmente maravilhosas. Mas nenhuma delas se compara à adolescência.
Muito já foi dito sobre essa fase da nossa existência. Muitos já se debruçaram sobre esse tema. Por isso mesmo gostaria de tentar ir um pouco mais fundo nesse assunto. Essa coisa de dizer que os adolescentes estão desabrochando para a vida é uma visão muito simplista da coisa. Assim como chamá-los de aborrecentes é injusto e preconceituoso. A adolescência é um momento crucial de mudança, um estado dolorido, difícil e febril que todos nós passamos e precisa ser tratado com delicadeza e ternura, para que passe construindo seres e não destruindo essências.
Clara mudou muito desde que o calendário apontou essa mudança de fase em sua vida. Me lembro do aviso que nos deram na primeira reunião da escola, quando ela passou para o Fundamental II. A orientadora pedagógica teve muito cuidado para nos preparar. Mas a sentença era definitiva: em pouco tempo não reconheceríamos mais os nossos filhotes.
Eu tenho tentado com todas as forças enfrentar a coisa com sabedoria e humor. É isso ou me render a uma cartelinha de Rivotril. Mas confesso que os desafios são muito maiores do que podia imaginar. Cada casa deve ter seu drama, claro. Mas aqui a coisa é pesada: temos uma menina virando mulher, um bebê virando menina e uma mulher virando anciã. Uau.
Foi num desses dias de caos temporal que descobri um termo perfeito para o momento. Ela chegou aos prantos e me perguntou com os olhos transbordando de angústia:
– Mãe, peloamordedeus, o que tá acontecendo comigo?
Naqueles olhos eu via o tal desabrochar, mas via também um sentimento adoecido de confusão e medo. Ela tinha um misto de raiva, tédio e tristeza. A coisa saiu da minha boca como se tivesse acabado de ser inventado.
– Você tá adolescendo, filha.
– Como assim adolescendo, mãe?
– É uma fase esquisita onde a gente não é mais o que era e ainda não encontrou o que é. Imagina você se construindo, de dentro para fora e o mundo te moldando de fora para dentro. É meio conflituoso mesmo, mas você vai sobreviver e se tornar um grande ser.
Sabe que ela gostou? Acho que de alguma forma se sentiu explicada. Resumida. Bom, pelo menos naquele minuto.
Eu acho que a minha adolescência foi branda. Desde muito pequena me lembro da sensação de me sentir inadequada no mundo, então quando adolesci o sofrimento não foi assim tão grande. Eu não era desse mundo mesmo, para que sofrer? Eu não me lembro de ter muitos conflitos. Minha mãe já tinha me apresentado para a arte e ela de alguma forma me equilibrava para estar aqui, mesmo que eu me sentisse uma ET. Eu não me sentia obrigada a ser como os outros, nem me encontrar em nenhuma tribo, porque de alguma forma, já sabia que isso era uma ilusão. Então passei essa fase ocupada vendo muitos filmes, lendo muitos livros, escrevendo noites a fio nos meus cadernos. Eu tinha doze ou treze anos quando minha mãe um dia me encontrou numa vernissage no Shopping da Gávea, com uma taça de água gelada nas mãos, observando um quadro abstrato.
– Tá fazendo o que aqui sozinha minha filha?
– Ué mãe, to descobrindo a vida.
Minha mãe também não era fácil. Que mãe leva uma filha de treze anos para ver “Metropolis” do Fritz Lang? Ou “Koyaanisqatsi”, aquele documentário maravilhoso e barra pesadíssima com trilha sonora do Philip Glass, que fala sobre o desequilíbrio da vida moderna? Ela me ensinou muito sobre a vida no cinema. Me lembro de colocar saltinho, boina e óculos de grau para passar por mais velha nos filmes que tinham censura. Às vezes víamos até três filmes no mesmo dia. E tomávamos lanchinho entre um e outro. Era o nosso melhor programa.
Já minha irmã sofreu muito na adolescência. Nunca esqueço o dia que cheguei em casa e ela estava sentada no chão, de braços cruzados, olhando para a parede. Preocupada perguntei à minha mãe:
– O que é que ela tem mãe?
– Quem sabe, minha filha.
Manô pintou o cabelo com parafina e exigia que minha mãe comprasse roupas de marca para ela. Sua tribo era exigente. Ela convivia com a galera surfista do Leblon. Nada fácil.
Nos dias de hoje, Clarinha definiria minha irmã com maestria: ela estava bugada. Esse é o termo perfeito que se encaixa em quase todos os estados emocionais da Clara: quando a coisa não vai bem, ela se define estar bugada. Eu entendo. É muito bugado perder a inocência, ter que entender como funciona a vida adulta e ainda ter que decidir o que se vai fazer com um futuro que ainda nem chegou. É um processo muito pesado para uma criatura que outro dia mesmo tava brincando de boneca.
Ela tem se queixado de solidão. Que os amigos torcem o nariz quando ela fala uma palavra um pouco mais complicada. “É que eu leio muito, galera” se desculpa com um olhar sem graça. Já eu preciso disfarçar o orgulho que sinto dela e lhe digo com o coração apertado que a vida é assim mesmo, que as pessoas vão amadurecendo de forma diferente, em tempos diferentes, dependendo do jeito que cada um é criado e preparado para o mundo.
Hoje me dou conta do quanto valeu nunca ter mentido para ela, nunca tê-la poupado de nada. E ter forçado a barra para ela sempre ir além, além do sentimento, além do pensamento, além da superficialidade de todas as coisas.
Clara está adolescendo. E crescendo. E sofrendo. E todos os “endos” que é capaz. Eu não me preparei para esse pedaço da vida, mas como estou feliz em poder estar ao lado dela nessa caminhada. Estar com minha filha agora é estar imersa naquilo que chamo de resumo existencial: dói, mas é a dor mais bonita que a gente pode passar. Isso é viver.