O frio que me habita

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A chegada do frio essa semana me renovou as energias. Ainda estamos no outono, mas sinto que finalmente consigo pensar.

Depois de tantos meses de calor insuportável, do cotidiano esbaforido e melado, das noites mal dormidas na secura do ar condicionado e do superfaturamento da minha conta de luz, o friozinho chegou anunciando tempos de paz e quietude.

Eu não sei direito onde é dentro de mim que a temperatura mexe tanto com o meu humor. Vivemos num país tropical e todo mundo sabe que no Brasil só existem duas estações do ano: o verão e os poucos meses do ano que está um pouco mais fresquinho. Mas essa alegria incontrolável que me causa os 16˚ no termômetro tem uma explicação:

O frio para mim tem um glamour. Uma coisa cinematográfica. Ele veste botas, gorro e cachecol. Talvez seja por todos os filmes europeus que vi ao longo da vida. Talvez seja por essa coisa “Paris” que o frio faz habitar na minha imaginação. Mas sinto que ele nos dá a chance de sairmos de casa um pouco mais elegantes e voltarmos para casa no final do dia ainda razoavelmente inteiros. O frio é perfumado, chique, intelectual.

Claro que o verão tem suas qualidades. É uma estação expansiva, cheia de alegria. O sol brilha, o céu explode o azul, mas tanta energia solar cansa. Dias deslumbrantes de sol exigem da gente uma alegria enorme, e não é todo dia que a gente tá em condições de ser feliz, né?

Mas o inverno é diferente. Ele nos permite uma introspecção quieta. Um respeito maior aos sentimentos. Ele traz um silêncio junto de uma xícara de café fumegante. O frio nos retrai, mas isso não significa uma perda de espaço e sim um reencontro com um lugar interno nosso esquecido durante os meses de calor.

Meu pai costumava contar que os meus ancestrais que chegaram a Joinville no início do século passado sofreram muito com o calor do Brasil. Para quem estava acostumado com o frio da Alemanha, Joinville era uma sauna. Construída sobre um mangue, a cidade das flores no calor não só é muito quente como insuportavelmente úmida. Imagino os meus tataravôs sem conseguir entender aquele suor brotando dos poros e escorrendo por todos os cantinhos do corpo – e a falta da referência histórica de suas roupas pesadas e calefação para viver. Teve gente que morreu de depressão. Barra pesada.

O frio me traz oxigênio. Inspiração para escrever. Uma quietude na alma. Um tempo para ser. Para sentir.

Ele me faz pensar melhor, me dá uma disposição para viver. Ele me traz o vinho tinto, os pratos deliciosos de sopa, o fondue, o chocolate quente. As roupas macias, as luvas e meias coloridas, a lareira. Bem, eu não tenho lareira, mas passo o inverno todo atrás de uma. 

Claro que junto de toda essa coisa glamurosa do frio, vem também a parte sombria da coisa. Na eterna dualidade do meu ser, não poderia deixar de pensar em todos aqueles que não tem nada disso na vida. Nem no mínimo para viver. Não há um dia sequer do meu inverno que eu não pense em quem não tem um lugar para se abrigar, nem um alimento quente para se aquecer. No frio também mora esse aspecto angustiante e dramático como o cenário triste da “Menina dos Fósforos”. Sempre penso nesse história como a história mais triste de todos os tempos.

Vontade imensa de entrar num desses trabalhos voluntários que as pessoas distribuem uma sopa, um casaco, um café com leite. Como são preciosos os seres que disponibilizam seu tempo e energia para fazer bem aos outros. 

Nos ciclos da natureza, o tempo do frio é o tempo de entrar na caverna. Tempo de recolhimento. Para mim é também um tempo de agradecer por todas as bênçãos recebidas. Eu não moro em Paris, mas tenho um teto, alimento e o aconchego de um lar aquecido com muito amor. Sou ou não sou uma pessoa de sorte? 

Sobre fronhas e o universo

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Ontem eu estava dobrando uma fronha para guardar no armário, quando uma pergunta me invadiu a consciência: quanto do mundo pode caber em nós?

Já tem tempo que eu não passo mais roupa, mas confesso que o ritual das fronhas aqui em casa é complexo. Eu tenho um lance com fronha. E por isso cuido delas com muito carinho. O sucesso de uma boa noite de sono começa numa fronha cheirosa e macia. Fronhas são portais para o mundo dos sonhos. É através delas que começamos o processo de descanso. Delas e do jeito que deitamos nossas cabeças no travesseiro e dissolvemos todas as coisas que nos aconteceram ao longo do dia.

Mas a pergunta não veio na hora de dormir. Veio na segunda dobradinha da fronha. Quanto do mundo pode caber dentro de mim?

Desde que o mundo é mundo ele tem o mesmo tamanho. Mas antigamente a gente não tinha a dimensão do tamanho que ele tinha. Minha avó tinha uma casa, um quintal, uma janela e alguns sonhos. Claro que ela teve um rádio que ampliou seus ouvidos e uma televisão que lhe abriu os horizontes, mas eu tenho certeza que a minha vó nunca se fez essa pergunta: quanto do mundo podia caber dentro dela.

Perguntas filosóficas sempre me chegam como um soco na boca do estômago e geralmente quando estou debruçada sobre as pequenas tarefas do dia-a-dia. É impressionante. Como se o micro num pequeno espaço pudesse dar passagem ao macro de um mundo infinito.

Isso já tinha acontecido várias vezes comigo. Mas ontem, entre a fronha e a pergunta, um vazio se abriu dentro de mim. E eu acho que foi pela dimensão da pergunta. Porque sem querer ela comprovou uma teoria louca da minha realidade que eu nunca tinha contado para ninguém.

É assim.

De vez em quando, involuntariamente, eu faço um descolamento da realidade, como se na minha mente tivesse instalado um aplicativo do Google Earth que me situasse no tempo/espaço de onde pudesse me perceber no planeta numa perspectiva planetária.

Ai, deixa eu ver se eu consigo me explicar melhor.

Imagina que dentro do meu quarto, há uma câmera me filmando de cima, dobrando uma fronha. E essa câmera aos poucos vai se afastando. Subindo. Como se estivesse num desses drones loucos que tem hoje em dia. O que vemos em seguida é a janela do meu quarto, comigo menor lá dentro, dobrando uma fronha. Ela sobe mais e podemos ver meu prédio, dentro do meu condomínio em Pendotiba, sabendo que lá dentro, eu estou dobrando uma fronha. A câmera continua a subir e então vemos a região serrana de Niterói. Para em seguida abrir um pouco mais para a cidade do Rio de Janeiro, para em seguida abrir para o estado, a região sudeste, o Brasil, a América do Sul, para enfim puxar até vermos o planeta azul, sempre lembrando de mim, lá no meu quarto, dobrando uma fronha.

Essa perspectiva quase sempre me enlouquece. E me faz pensar no tamanho do mundo e na nossa pequenez enquanto matéria, em contraposição ao infinito que representa o nosso espírito. Fico pensando se não foi uma sorte minha avó não ter tido acesso a tanta informação. Porque cá entre nós, esses avanços da tecnologia da informação podem ser fascinantes na perspectiva de evolução do homem. Mas poder ter informações do mundo inteiro através de um único click no mouse pode ser bem atordoante. Imagina a quantidade de imagens, sensações e informações que entram em nós a cada segundo? Bom, para pessoas excessivamente criativas como eu, é um prato cheio para a piração.

Porque fecho os olhos e posso ver uma mulher caminhando no Afeganistão, um bebê nascendo na Bósnia, um casal brindando em Cuba, um menino andando de bicicleta na Dinamarca, alguém comprando um remédio no Egito, uma velhinha falecendo na Finlândia, um casal fazendo amor na Grécia, uma mulher chorando na Hungria, um grupo meditando na Índia, alguém fumando um baseado na Jamaica, um elefante morrendo no Kenya, uma loira se prostituindo em Luxemburgo, alguém se embebedando no México, um homem escalando uma montanha no Nepal, outro rezando em Omã, uma menina tocando piano na Polônia, um sheik espirrando em Qatar, uma serviçal batendo tapetes num castelo na Romênia, um menino andando numa roda gigante em Singapura, alguém andando de balão na Turquia, um senhor fritando um ovo no Uruguai, uma senhora colhendo arroz no Vietnã, um atleta saltando sobre um camelo no Iêmen e finalmente, alguém cozinhando taturanas para jantar no Zâmbia.

Meu Deus.

Quanto desse mundo pode caber em mim já que ele é ele e mais seus sete bilhões de indivíduos?

Será que existe alguém no mundo nesse exato momento se fazendo a mesma pergunta que eu?

Não sei. Talvez eu preferisse ter apenas uma casa, um quintal e uma janela. E sonhar sonhos mais simples e ter um varal apenas para pendurar fronhas ao sol.

Talvez.

Eu já tenho

chazinho

Arte de Inge Löök

Outro dia olhei para o meu pé e me dei conta de uma certeza avassaladora: eu já tenho um joanete.

Eu já tenho manchas brancas na pele. Brancas e beges. Daquelas que as velhinhas alemãs têm aos montes.

Eu já tenho varizes nas pernas.

Eu já tenho manias.

Mania de tomar chazinho antes de dormir. Mania de passar creme no cotovelo antes de dormir. Mania de dormir na frente da televisão.

Surdez eu sempre tive. Isso não é novidade. A novidade agora é colocar os óculos para ler, depois de não aguentar mais esticar o braço para reconhecer qualquer coisa.

Eu já tenho uns cansaços esquisitos, uma dor no calcanhar misteriosa e uma câimbra na costela esquerda desde a última gravidez.

Eu já tenho rabugices. Detesto quando os homens da minha casa fazem xixi e não fecham a tampa de volta. Me irrito quando abro a geladeira e não tem água gelada nas garrafas, mesmo não gostando de tomar água gelada. Reclamo baixinho sempre que posso. Resmungar é uma rabugice deliciosa de fazer.

Eu já tenho muitas histórias para contar que aconteceram há mais de duas décadas. Tá. Há mais de três. E isso de vez em quando me assusta.

Eu já tenho rugas nos olhos. E um olhar diferente para as coisas. Incrivelmente, eu hoje tenho mais calma do que jamais tive e isso é maravilhoso porque foi o que mais sonhei para minha idade avançada. A serenidade para olhar e reagir à vida.

Eu já tenho filhas que me aconselham, sobrinhos que namoram e uma tiavó de 105 anos que já não lembra mais muito de mim.

Eu já tenho cabelos brancos. E levo um susto cada vez que o cabelo ruivo cresce e eu me dou conta de que não sou ruiva e no meu couro cabeludo mora uma grisalha que eu nem conheço.

Eu já tenho isso tudo e nem fiz cinquenta anos. E o melhor, estou muito feliz por isso.

 

P.S. Quando fui pesquisar imagem para colocar no texto, achei essa preciosidade no Google. Pinturas de velhinhas felizes da artista finlandesa Inge Löök! Tudo que eu sonho para minha velhice. Divirtam-se!

http://www.contioutra.com/as-velhinhas-felizes-da-artista-finlandesa-inge-look/

 

Os sons da alma

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De todas as memórias afetivas que eu guardo no meu coração, talvez uma das mais preciosas e celestiais seja a lembrança do apito do trem que passava nas madrugadas em Joinville.

(clique aqui para ouvir o que eu ouvia)

Todas as noites, ele passava a mesma hora, no mesmo silêncio da cidade adormecida. E eu esperava por ele. Não sei porquê. Mas algo em mim fazia sentido quando aquele trem passava. Eu morava num bairro distante, numa parte da cidade que estava no extremo oposto à estação que o trem passava. Mas mesmo assim eu conseguia ouvi-lo com uma impressionante nitidez. Todas as noites. Eu repetia a mesma cena. Saia da cama em silêncio e ia até a varanda, de camisola, esperar por ele. Perdi a conta de quantas estrelas contei e quantos desejos desejei em estrelas cadentes ao esperar por aquele trem.

A vida é estranha e maravilhosa. E nela habitam tantos sentimentos, tantas experiências e tantas impressões que às vezes, fica difícil de explicar. Deve ser por isso que inventaram a poesia. Para explicar as coisas inexplicáveis. E deve ser por isso que eu vejo poesia em tudo. Porque há coisas demais no mundo que são indescritíveis e inenarráveis.

Sim. Eu vejo poesia em quase tudo. Mas nem sempre ela se traduz em palavra. A poesia as vezes pode ser simplesmente um estado de ser. Uma forma de ver. Eu via tanta poesia naquele apito de trem. Porque via pessoas partindo. Pessoas chegando. Via um imenso fantasma de ferro atravessando o mundo como quem busca o próprio destino. Havia algo mágico naquele som. E eu não precisava explicar. Só precisava me permitir sentir o que sentia.

Nunca mais esqueci aquela experiência.

Eu tenho uma coisa com o som das coisas. Eu fico mexida quando um sino toca. Quando ouço uma onda se quebrar na beira da praia. Quando o vento chia forte, ou quando o próprio vento faz barulhinho nas folhas das árvores. Eu fico mexida com ouço trovoada, daquelas fortes que dão medo. E desmaio de amor com o som da chuva. Me emocionam os barulhos na natureza. Todos eles. Tipo sapo coaxando. Grilo grilando. Galo cocorocando. Mas também gosto do som de gente. Gente assoviando. Gente cantarolando. Gente gargalhando.

Se eu pudesse juntar minhas memórias afetivas num só lugar, eu gostaria que fosse numa trilha sonora, onde tudo aquilo que ouvi e senti do mundo pudesse se condensar num única música. Uma canção que me fizesse lembrar as melhores e mais profundas experiências que eu pude viver. Só com os sons da minha alma. Para ouvir nas estrelas o dia em que eu não estivesse mais aqui.

Que lindo seria.

 

 

Pouca gente sabe

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Pouca gente sabe de coisas que só a gente sabe. Não é questão de segredo. É questão de intimidade.

Pouca gente sabe,
que eu perdi um neném entre a Clara e a Catarina e que de vez em quando eu sonho com ele.

Que eu encontro uma paz profunda e silenciosa no fundo da piscina.

Que os meus sonhos são como filme e eles estão todos registrados num caderno de sonhos que eu tenho desde os quinze anos.

E que eu acordo de hora em hora durante a noite, todas as noites da minha vida.

Pouca gente sabe,
que eu tenho uma paixão inexplicável por trens e trilhos enferrujados de trem.

Que eu já quase morri afogada em Ipanema e quase morri engasgada com uma azeitona.

Que eu sinto um prazer estranhíssimo espremendo cravo.

Que eu sou a louca por bolinhas e que se pudesse só me vestia delas.

E que eu tenho mania de falar comigo mesma em inglês.

Pouca gente sabe,
que um dos maiores sonhos da minha vida é voar de balão.

Que eu tenho medo do escuro porque no escuro que eu vejo muitas coisas.

Que eu como tomate todos os dias porque eu sou louca por tomate.

E que geralmente eu converso com as comidas que preparo.

Pouca gente sabe,
que eu tenho um olfato tão apurado que sinto a chuva chegar muitos antes dela pingar.

Que eu penso na morte todos os dias e isso me faz sentir muito viva.

Que eu assistiria dois filmes por dia se pudesse.

Que eu viajaria pelo mundo inteiro se pudesse.

É.

Pouca gente sabe que quase sempre eu me pego pensando em como pouca gente sabe das coisas estranhas que a gente faz.

Uma carta quântica

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Na dimensão quântica do meu ser, essa noite, eu recebi uma carta. Uma carta, escrita por mim mesma, com a incrível data de 27 de abril de 2063. O dia em que eu supostamente estaria fazendo noventa anos de idade. Eu reconheci minha letra. A caligrafia, apesar de trêmula, era minha. O meu jeito de fazer o “M”. O meu jeito de falar. O meu jeito de escrever.

Talvez eu não consiga descrever aqui a emoção que senti na hora. Passei algumas horas caminhando em silêncio depois de recebê-la. E agora, só o que desejo é compartilhá-la com vocês, no desejo profundo de eternizar esse momento:

“Tati, minha querida e adorável Tati

Hoje é o dia do nosso aniversário de 90 anos. A casa está cheia e movimentada como a gente gosta. Há flores para todos os lados. Música, incensos, velas perfumadas. Clara e Catarina estão aqui com os nossos maravilhosos genros e netos. Você não imagina que mulheres incríveis que elas se tornaram. E os nossos netos! Tenho tanto orgulho do que fazem pelo mundo. Na verdade, estão todos aqui minha querida. Nossos sobrinhos amados, Joaquim e Victor. Nossa irmã Nenela, nosso irmão Gabriel. Toda a nossa imensa e maravilhosa família. Nossos amigos que permaneceram ao nosso lado, a vida toda. Sinto falta da mamãe e do papai. Sinto falta de todos aqueles que já partiram, mas sei que em breve eu poderei estar junto a todos aqueles que já atravessaram o rio. Sinto que a minha passagem se aproxima e me sinto tão feliz por isso.

Vivemos tão intensamente todos esses anos. Amamos tanto e com tanta força, fizemos tantos amigos. Realizamos o sonho de conhecer o mundo através dos nossos livros. Sabe quantos títulos temos publicado pelo mundo? Mais de cem, minha querida. Por isso te digo, não há o que temer. Você precisa continuar confiando no que é em essência e naquilo que pode dizer ao mundo através do filtro do seu coração.

Daqui desta minha dimensão, de vez em quando, eu posso te observar sabia? Na verdade faço isso desde que Clara nasceu. Ela veio ao mundo e de alguma forma abriu – com sua enorme capacidade espiritual – a janela que nos separava entre as muitas camadas energéticas que existem entre nós. É difícil te explicar como. Mas você vai ver que daqui a alguns anos a humanidade vai compreender as fendas no tempo e as infinitas possibilidades que temos de viajar entre as dimensões.

Muita coisa ainda acontecerá ao nosso planeta. Você ainda vai testemunhar algumas guerras e ver surgir uma nova Era para o que chamamos de Novo Mundo. Muitas coisas mudarão. Mas a sua capacidade de amar e olhar o mundo com esperança permanecerá. E é isso que nos salvará no futuro. Sua imensa e infinita capacidade de amar.

O que quero que saiba, é que todo o esforço que fez para ser o que sou hoje, valeu a pena. Sei o quanto a vida é difícil e estranha para você. Sei o quanto se esforça para estar nesse mundo, sei o quanto sofre para se adaptar a esta encarnação, mas acredite. Tudo terá valido a pena. Até mesmo o sofrimento que passará algumas vezes. Até ele terá sido importante para a nossa história.

Então, aqui eu me despeço. Preciso descer. Estão todos a minha espera lá embaixo para cantarmos parabéns. Que os anjos possam fazer essa carta chegar até você e que ela possa te encher o coração de força.

Orgulhe-se minha querida. Sua vida será repleta de sentido e propósito. Por isso, continue a escrever. Sua escrita mudará a vida de muitas pessoas.

E obrigada por me deixar existir. Cuide-se bem. Coma menos carne, medite mais e durma pelo menos oito horas por dia. Pare de se preocupar com sua saúde e insista nas aulas de dança de salão que quer tanto fazer.

Eu te amo.

Beijos com todo o amor e verdade,

Tatiana”

Uma Carta de Amor

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Para Jonatan Agra 

Meu amado e admirável amigo,

Foi numa curva da vida que eu te conheci.
Num tropeço do destino, numa dessas armadilhas que reconfiguram a nossa estrada.
Não demorei muito para perceber o encanto.
A vida tem dessas coisas.
Ela é uma sucessão ininterrupta de surpresas lindas e aterrorizantes.
Te conheci para te reconhecer.
Mas esses últimos meses ao teu lado tem sido tão sublimes,
que ficou insuportável não escrever.

Vivemos os dias na eterna lembrança do que fomos.
E você diz finalmente ter lembrado de onde nos conhecemos.
“Da fogueira, minha querida. Nos conhecemos de outras vidas”
Acredito. Mas vou além.
Nos conhecemos de um lugar também muito profundo em nós.
Um lugar que habita a minha e a sua alma.
Um observatório que temos no centro do peito.
De onde contemplamos a vida e o lado de dentro de todas as coisas.
Tu e eu temos a mesma lente.
A mesma janela. O mesmo filtro.

E assim, nesse espelhamento deslumbrado, seguimos vivendo nossos dias.
O dia-a-dia contigo é um eterno achado de tesouros no fundo do mar.
Não há segundo desperdiçado.
Não há gesto esvaziado.
Não há suspiro que não seja justificado.
Você transpira emoção, razão e poesia.
Amor, arte e verdade.
Te assisto como quem assiste um milagre.
Um artista nas vísceras, uma criatura excêntrica, um ancião no tempo acelerado do mundo.
Há uma pureza em ti que me emociona.
Há uma crença no mundo em ti que me emociona.
Há uma esperança em ti que me emociona.

Meus olhos andaram fechados de cansaço.
O mundo me assusta.
Os seres humanos me assustam.
Mas algo muito puro emerge de teu coração, querido amigo, e esse algo tem me trazido de volta o frescor de um tempo perdido.
E eu me reconheço nesse frescor.
Sim, eu estou lá. Eu estou aqui.
Eu sou isso que você transpira.
Eu sou esse deslumbre.
Esse entusiasmo. Essa paixão.
Eu estou viva de novo e por tua causa.

Te agradeço amigo querido.
Todo o suporte diário.
Todos os abraços reequilibrantes.
Todas as coincidências.
Todos os olhares cúmplices.
Todos os insights, todas as gargalhadas que temos dado nas delícias e dores dessa rotina que você não permite que nos massacre.
Te agradeço os ensinamentos implícitos.
Os olhares que me compreendem mudos.
As palavras de amor e a troca de todos os instantes vividos.

Não levarei do mundo nada que não seja o amor que vivi com as pessoas que pude amar.
Te levo e te levarei comigo, num agradecimento interno e profundo.
Obrigada por extrair sempre o que há de melhor em mim.
Reencontrar uma alma-irmã é uma dádiva para poucos.
Devemos merecer isso minha Bruxa.
Devemos merecer.

Que o nosso amor seja eterno, até a próxima vida.
Que eu possa ter a sorte de te reencontrar sempre.
E que para sempre também possamos somar esse extraordinário e ordinário que há em nós.
Que possamos nos dividir e nos multiplicar.
E, sobretudo, que possamos sempre nos compreender.

Eu te amo, Jo.

Da sua sempre,
Tatiana

P.S. Obrigada por ter me apresentado Ludovico Einaudi. Sem dúvida, é a música da nossa alma.

Mecanismo de Salvação

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Na caminhada da vida, de vez em quando a gente precisa inventar uns mecanismos de salvação.

Uns botes que te salvem de redemoinhos, umas âncoras que te impeçam de sair voando pela atmosfera, umas máscaras de oxigênio que caiam automaticamente do nosso pai Céu.

Eu tenho algumas cartas na manga, mas atualmente a que mais tem surtido efeito nos meus dias de surto, é a meditação.

No inicio da jornada eu sofria muito só de ouvir a palavra “meditação”. Porque eu queria muito meditar, porque eu entendia perfeitamente o quanto aquilo podia ser maravilhoso para mim, mas era só eu me sentar para meditar que a ansiedade vinha a galope. Eu ficava numa luta incessante com os pensamentos. Suava frio. Respirava. Espantava o pensamento. Recomeçava. Respirava fundo. Respirava de novo. Ficava tonta de tanto respirar. Voltava a tentar. Depois de dez minutos eu desistia exausta e frustrada da minha categórica incompetência oriental de esvaziar a mente.

Mas os anos foram passando. E eu fui entendendo, com calma e um pouco mais de serenidade, que meditar está muito mais na intenção do ato que o ato em si. E que a grande sacada é o seu movimento interno de querer se aquietar. Pronto. Isso já é meditação.

O mundo por aí anda de arrepiar. Essa semana eu vivi um das semanas mais cansativas no trabalho de todos os tempos. As meninas andam agitadas, eu ando agitada, a vizinhança anda agitada. A rua anda frenética, as pessoas andam histéricas e a impressão que me dá é que a qualquer momento, algum de nós vai ter um colapso.

Eu desejei meditar todos os dias.

Desejei o estado da coisa. Desejei o ritual que antecede a minha meditação. Aquela coisa deliciosa de acender a vela, o incenso na vela, a minha alma na vela. Mas o ritmo era tão sobrenatural, que antes mesmo de querer qualquer harmonização com o meu ser interior, eu desmaiava na cama, exausta de ser.

Hoje, pela primeira vez sozinha e em silêncio depois de muitos dias em desequilíbrio, aquietei minha mente e meu coração ouvindo um mantra e a impressão que me deu, é que eu redescobri um lugar em mim onde é só quietude. Equilíbrio. Esperança. Um lugar onde as coisas estão onde deveriam estar. Onde o mundo não é uma guerra, mas um paraíso. Onde a vida corre como um rio sereno, aceitando as pedrinhas que estão no caminho – porque assim é a vida, uma sucessão de pedrinhas no caminho – aprendendo simplesmente a desviar delas com sabedoria.

O desafio é conseguir trazer isso para o nosso dia-a-dia. E vivenciar esse lugar de plenitude pelo menos uma vez a cada 24 horas. Porque a gente precisa desse esvaziamento. A gente precisa esvaziar para encher de novo. Precisa digerir para conseguir se alimentar de novo.

Minha vida tem sido um safári. Termino meus dias não com a impressão de ter matado um leão, mas uma manada deles e isso é irracional. Desumano. Enlouquecedor. Mas como não posso – nesse momento – mudar a configuração de fora, então preciso mudar a de dentro. Porque não quero entrar em colapso. E para isso, não posso levar para a cama todos os conflitos, discussões, problemas e vivências que passei ao longo do dia. Não posso.

Eu entendi que meditar é um mecanismo de salvação. Agora o desafio é inventar um mecanismo para conseguir acessar esse mecanismo todos os dias. Alguém aí tem alguma ideia?

Esse magnífico vídeo tem imagens da Terra hipnotizantes.

https://www.youtube.com/watch?v=19nm5_nAwQg

Olhar essas imagens e ouvir essa música com total entrega é uma espécie de meditação.

Alguém aceita vir comigo?

Oração Miúda

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Para Adélia Prado

Meu Deus,

me dá um pouco de silêncio.

 

Me ensina como é que faz para estancar pensamento,

me ensina a acalmar tanto desejo,

aliviar essa dor que eu tenho de existir.

 

Me leva de volta para pescar girino,

para colher morango silvestre,

para dormir no colo da minha mãe.

 

Meu Deus,

Me dá um pouco de silêncio.

 

Me ajuda a entender esse mundo,

me ajuda a traduzir tanto sentimento,

me ajuda a não querer embora antes da hora.

 

Minha Mestra Yoda

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Para Manoela Monteiro
minha irmã shiatsu-acupunturista

Pegou no meu pulso com aqueles dedinhos quentes, mediu alguma coisa ali que pulsava e disse categoricamente:

– É uma crise de fígado. Vamos pra maca.  Vou cuidar de você.

No domingo almocei na casa da minha irmã. Ela tinha feito uma incrível macarronada com atum e estávamos nos preparando para assistir um filme. Em cima da mesa, o laptop estava aberto com uma notícia do Johnny Depp. “Ué que estranho, olha como ele tá com o olho caído nessa foto” observei. Todo mundo olhou, mas ninguém viu. Foi aí que eu percebi que tinha alguma coisa de errado comigo. Eu cobria os olhos alternadamente e percebia que o olho direito estava bem, mas o esquerdo parecia em curto. Como se estivesse perdendo o foco e trepidando as imagens. Comecei a ficar aflita. Em minutos minha visão escureceu. Tudo aconteceu muito rápido. Me deu enjoo, a pressão baixou e, claro, fiquei tão nervosa que comecei a chorar: “Má, acho que eu tô tendo um treco.”

Ela me deitou na maca, pediu que eu respirasse fundo. Ligou o abajur e avisou: vou colocar uma música bem baixinho para te acalmar. Respira, Ti, respira que eu vou cuidar de você.

Minha irmã é shiatsu-acupunturista. E a medicina chinesa a transformou numa fada encantada – tipo um Mestre Yoda feminina – cheia de força, sabedoria e coragem.

O que vivi ontem me emocionou tanto que eu quis escrever esse texto em homenagem a ela. Em homenagem a tudo que ela se transformou depois que resolveu fazer da cura seu propósito de vida.

Ela sabe que eu detesto agulha. E que precisa de mais paciência comigo do que com qualquer paciente porque considero aquelas coisinhas fininhas um instrumento de tortura. Elas me dão uns tremeliques, e eu choro e quero morrer. Ela não liga. Dá umas palmadinhas, dessas que se dá em neném e diz: tá tudo bem, tá tudo bem…. e explica tudo como se eu realmente fosse entender:  tem vento aqui no seu fígado, seu pulso está cheio e a pulsação sem força nenhuma. Há muito calor no seu organismo e a sua energia está excessivamente yang. Vou esvaziar uns pontos e nutrir outros… Respira, irmã, vai dar tudo certo.

Diz ela que não sou só eu, que muitas pessoas têm medo de agulha. Mas, na verdade, o medo não é das agulhas. O medo é de sentir medo. É de antecipar na mente, uma dor que ainda não veio. É o medo da energia que o corpo tem e a gente nem sempre consegue controlar. É o medo dessas emoções que estão contidas nos nossos nervos e que a agulha vem para equilibrar. Cá entre nós, essa coisa de medicina chinesa é muito genial. Eles têm um olhar tão diferente para todas as coisas. Imagina que minha irmã quando me encontra não me pergunta mais se estou bem. Só pede para ver minha língua. Oi?!

Bom, só sei que ontem aquela salvação foi realmente extraordinária. Como a simplicidade do vento que venta, ela esvaziou meu medo e, no lugar do desequilíbrio, fez surgir uma serenidade dessas que a gente quer levar pra vida. E aquilo me inundou de um amor e um orgulho tão profundo que me fez chorar de novo. Mas esse chorinho ela não viu, porque estava naquela hora totalmente absorvida, de corpo e alma, numa massagem revigorante na planta do meu pé. Ela disse que ia cuidar de mim. Mas ela não me cuidou, ela me curou.