Onde estou

Se alguém me perguntasse “onde estou” há mais ou menos um ano atrás, eu saberia responder perfeitamente. Contaria da minha aventura de morar em Niterói há mais de 15 anos e ter me mudado para uma casa com céu no Bosque de Pendotiba. Falaria da missão de ser educadora e professora de teatro na Escola Nossa, do desafio e da alegria de ser mãe de duas meninas incríveis que transformaram completamente minha vida desde que chegaram. Contaria desse meu namorado companheiro com quem divido a vida há oito anos, e do filho dele que surgiu para mim como um presente. Falaria do meu sonho de ser escritora e da gratidão que sinto pela família que ganhei e os amigos que conquistei ao longo da estrada. Enfim!

Há um ano atrás eu sabia exatamente onde estava.

Mas hoje, um ano depois que as nossas vidas foram tomadas por essa pandemia e essa doença que ninguém conseguiu decodificar ainda, eu confesso que estou mais perdida do que jamais estive.

A sensação que eu tenho é que essa doença veio para virar a gente do avesso e colocar à prova tudo o que somos desde que nascemos.  

Então, responder “onde estou” hoje significa assumir que acordo de manhã e a primeira coisa que faço é recalcular a rota diante das notícias, para que o fim do dia chegue ao mínimo planejado.

Nunca fomos tão desafiados. Testados. Beliscados pelo destino.

Nunca tivemos tanta certeza de como não dá para ter certeza de nada.

Então, seu eu me pergunto “onde estou” hoje, posso responder pelas próximas 24 horas no máximo.

Estou aqui na minha casa, agradecendo quando acordo saudável e com a notícia que minha família e amigos também acordaram saudáveis. O resto do dia eu sigo tentando fazer tudo. Tentando dar a melhor aula online possível, tentando fazer um almoço nutritivo para gente, tentando dar conta das infinitas atividades domésticas que eu não tenho cabeça nenhuma para fazer. A tarde sigo tentando fazer alguma coisa de útil pela minha saúde emocional, depois tento dar uma boa aula presencial para os alunos que, como eu, estão se aventurando a estar na escola presencialmente. Depois passo no supermercado, tento pensar num lanche divertido, depois chego em casa, tento tomar um banho para tentar relaxar, depois tento escrever um pouco para tentar colocar para fora tudo que estou sentindo e depois vou para cama, tentar dormir. Mas essa tentativa tem sido a mais frustrada de todas.

Nunca tive tanta insônia como agora.

Então, é isso. No meu texto de hoje sobre “onde estou” o resumo é que estou tentando desesperadamente sobreviver a esse tsunami que virou nossa existência.

Alguns dias com sucesso nas tentativas, outros muito frustrada por só ter conseguido acordar/viver e voltar a dormir, sem nenhum acontecimento mais emocionante ou louvável para compartilhar. Mas é isso, pessoal. Tempos de guerra.

Amanhã é um novo dia. Eu vou seguir tentando. Quem sabe nas minhas próximas 24 horas tudo pode mudar. Sigamos… fortes! Não há nada que possa nos ajudar mais do que a esperança de acreditar que dias melhores virão.

Tô me agarrando nisso, gente. Aho!

De onde eu vim

Há um tempo atrás um senhor veio fazer um serviço elétrico aqui em casa. Era muito simpático e falante. Conversamos sobre muitas coisas e ele era tão querido, que lhe ofereci um cafezinho com pão e manteiga. Era fim da tarde. Os finais de tarde pedem um café com pão quentinho. Quando terminou, disse assim:

– Me desculpe perguntar, mas a senhora é mineira?

Eu respondi surpresa:

– Sim! Como é que o senhor adivinhou?

– A senhora tem todo jeitinho de mineira. Inda mais depois desse cafézim com pão que a senhora me serviu, isso é coisa de mineiro.

Eu sorri. E pensei comigo como voltar a Minas era um dos sonhos que eu ainda não tinha realizado nessa vida.

Eu nasci em Belo Horizonte. Mas saí de lá pequenininha, com três meses de idade. Mas pelo visto, Minas continuava a existir em mim de um jeito ou de outro.

Minha infância passei quase toda em Teresópolis no meio do mato e isso deve ter sido outra coisa que formou meu jeito de ser.

Crescer na terra faz a gente ser de um jeito bem diferente de quem cresceu na cidade grande.

Mas a grande verdade mesmo da minha história, da minha origem, é que essa sensação de inadequação no mundo sempre me acompanhou. Desde que me entendo por gente. Foi preciso muito tempo de terapia e uma compreensão maior da espiritualidade, para eu finalmente entender que tinha vindo lá de cima, lá do povo das estrelas e que por isso o mundo me parecia tão incompreensível. Isso existe sabia gente? Tem muita gente que anda por aí que não é daqui.

Bom, isso explicou muita coisa sobre a minha trajetória de vida. Uma delas é essa busca frenética e apaixonada por decodificar o ser humano e esse lugar esdrúxulo que coabitamos chamado Planeta Terra. Passei a vida flertando com a arte, mas foi na escrita que eu encontrei meu caminho, minha melhor e mais afiada ferramenta para estar aqui.

De onde eu vim não existe maldade. Não existe dinheiro, nem ganância, nem esse monte de sombra que esse mundo aqui tem. Mas tá beleza. Eu já entendi que estou encarnada e que ainda tenho um monte de coisa para fazer. Uma delas é voltar a Minas. Qualquer hora eu chego lá…

DesEsperança

Hoje acordei muito triste pelas notícias que correm nesse nosso Brasil.

Não há como estar bem com a situação desesperadora que vivemos.

Por mais que eu tente, não estou conseguindo trazer leveza ou poesia para um momento tão crítico e chocante.

Tento, tento, mas não consigo entender de que são feitas essas outras pessoas que coabitam o mesmo espaço e tempo que eu.

Se há dois anos eu me choquei com a ruptura que vivia o país que nos dividiu nas urnas, hoje tenho a mesma sensação quando saio nas ruas e vejo pessoas sem máscaras, lotando barzinhos e vivendo suas vidas como se nada fosse, como se não estivéssemos na pior fase da pior pandemia que a nossa geração já viveu.

Eu não consigo me conformar, não consigo entender. Não consigo aceitar que falte tanta empatia e compaixão à tantas pessoas.

Me lembro que quando fiz a formação em Constelação Familiar (prática terapêutica que busca resolver conflitos familiares através de gerações) uma das coisas que mais me marcou foi uma fala do Bert Hellinger (criador da técnica) sobre o Brasil. Ele costumava dizer que para sermos um país próspero e saudável, precisaríamos constelar infinitamente tudo que fizemos de mal aos nossos antepassados. Que sem essa ação de “limpeza” e cura sistêmica, o Brasil nunca iria para frente. Tudo que fizemos aos nossos indígenas, tudo que fizemos aos negros escravizados ao longo de séculos… será que hoje vivemos essa cegueira coletiva por um retrocesso energético de todo mal que já derramamos em nossa terra?

Quando nosso atual presidente foi eleito, meu susto foi tão grande que eu fiquei em choque por semanas. Liguei para minha terapeuta e pedi se peloamordedeus ela tinha como me dar uma explicação simplificada sobre essa loucura que estávamos vivendo. Foi quando ela disse com sua tradicional calma e clareza: “O Brasil merece esse presidente. O povo vai precisar passar por essa provação para entender quem é e o que fez.”

Uau.

Depois disso eu fui tentando sobreviver. Fui fazendo o meu melhor aqui no micro da minha existência. Mas quando a pandemia chegou dividindo de novo o nosso país em dois tipos de brasileiros, volto a me perguntar por que diabos eu tinha que encarnar aqui. Caramba. Por que não nasci na Nova Zelândia?

Tá. Eu já sei a resposta. Porque nós temos trabalho a fazer aqui… Mas que loucura.

Eu sei.

Eu já sei o que a minha consciência vai falar: agradece. Agradece Tatiana. Agradece sua saúde, a sua consciência. Agradece sua casa, seu alimento e sua chance de lutar todos os dias. Agradece não ter perdido ninguém da sua família para essa doença. Agradece estar viva e poder lutar.

Já tenho a palavra Coragem tatuada em mim.

Acho que tá na hora de tatuar a palavra Esperança.

Planner da Alma

Janeiro a gente tem uma energia bárbara para recomeçar.
Por mais que a gente tenha aprendido que não dá para fazer mil promessas de mudança no ano novo, não dá para negar que tem uma força cósmica de abertura para novos propósitos e acertos do que ainda sonhamos fazer.

Aí a gente corre para comprar uma agenda nova, daquelas cheirosas e em branco que vê na prateleira da papelaria e se apaixona, como se aquele objeto pudesse conter todas as nossas chances de recomeçar do zero e sonhar com a nova vida que mora dentro dela.

Faço agendas desde os meus 10 anos de idade. Naquela época contava com detalhes meus dias vividos como se a vida fosse um filme a ser compartilhado com o mundo. Tenho até hoje as agendas que tive até parir as meninas. Um verdadeiro tesouro para minha futura biografia.

Agora existem os planners. Agendas ainda mais estilosas e feitas sob encomenda para nos dar ainda mais esperança de conseguirmos nos organizar com os planos da vida. Uma coisa.

Pois bem.

Mas não era exatamente sobre isso que eu queria falar.

Ontem, olhando um tempão para um fila de formigas extraordinária que atravessava meu terraço, eu pensei no quanto não nos planejamos, ou abrimos espaço, para os compromissos da alma. Sim, porque as agendas e os planners da vida guardam todos os encontros importantes, compromissos de trabalho, reuniões, lembretes de consultas de médicos, listas das infinitas tarefas que precisamos dar conta no nosso dia-a-dia, mas não contempla um único espaço para a demanda do que anseiam fazer nossas almas.

A gente precisa lembrar do oftalmologista? Claro que precisa. Mas e parar para ver o pôr-do-sol? Não deveria ser tão importante quanto?

John Lennon dizia uma frase perfeita sobre isso: “a vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos”.

Talvez a gente pudesse pensar a partir de agora em fazer um Planner da Alma também em janeiro. O que vocês acham?

Abrir uma agenda para as demandas da alma. Compromissos que a gente pudesse honrar com tudo aquilo que a nossa alma deseja, mas nunca encontra tempo para fazer. Por exemplo: dar um mergulho no mar. Ir a praia e escutar o vento. Ir tomar um sorvete com um amigo e pedir para ele escolher um sabor surpresa. Planejar um banho de cachoeira por semana. Marcar hora para um banho bem relaxante e cheiroso. Rever o filme que mais amamos nos últimos tempos, só para curtir de novo o sentimento maravilhoso que ele nos deixou. Meditar olhando a chama de uma vela. Comer um milho verde na barraquinha da esquina. Dançar uma música bem alta em casa sozinha. Tocar tambor. Assoviar na janela. Ir em busca de um pomar para colher uma fruta do pé. Tomar banho de chuva. Tirar uma soneca sem culpa de tarde. Bater um bolinho só pelo cheiro que vai deixar na casa. Nossa… minha lista não tem fim.

Cada alma sabe exatamente o que anseia fazer. Elas vivem nos dando dicas do que desejam, mas a gente quase nunca tem tempo para elas.

Algo muito profundo em nós vai agradecer. Disso eu tenho certeza. Afinal, a vida não é feita só de compromissos. Muitas vezes, ganhamos vida quando perdemos tempo. E isso, só a alma sabe fazer direito. Mais ninguém.

Eu só sei sentir

Dizem que o homem não vale pelo que é nem pelo que tem. Mas sim para o que serve.

Acho essa frase um soco na boca do estômago, mas ela me faz pensar.

Outro dia, desesperada com as contas para pagar, eu subi no terraço e fui olhar o céu para ver se me acalmava. Naquele exato momento, o sol estava se pondo e as cores do céu estavam explodindo nuns laranjas misturados com uns violetas. Tinha umas nuvens carregadas de branco e um cinza chumbo, porque estava armando uma chuva daquelas de fim de tarde. Tudo aquilo parecia uma enorme e deslumbrante tela abstrata que Deus tinha acabado de pintar. Fui tomada por uma emoção indescritível. Tive vontade de chorar, de gritar, de chamar as meninas, de tirar uma foto ou sentar ali mesmo com um bloquinho e uma caneta para ver se eu conseguia traduzir em palavras o que eu tava vendo.

Dinheiro para pagar as contas eu não tinha.

Mas tinha um céu inteiro explodindo em cores na minha frente. Só para mim.

Depois que a coisa passou eu pensei:

“Como é que pode um pôr-do-sol me fazer sentir tantas coisas?”

Foi quando um pensamento me invadiu: porque eu só sei sentir. Aliás, sentir é o que sei fazer de melhor nessa vida. Sentir e eternamente tentar traduzir aquilo que sinto. Ia ser bem legal se um dia alguém me oferecesse um emprego só para sentir.

Porque se eu não valho pelo que sou nem pelo que tenho e sim para o que sirvo, eu sirvo para sentir. Isso devia existir no mundo!

Já imaginaram? Eu preenchendo uma ficha de cadastro? Profissão: SENTIR.

Tem um provérbio xamânico muito lindo que diz:

Sinto, logo compreendo.

Esse é o meu lance com a vida.

Talvez por isso não seja considerada pelo mundo como uma pessoa de sucesso. Quase não consigo pagar minhas contas, não tenho casa própria, não acumulei propriedades nem bens.

Mas sei sentir as coisas mais extraordinárias e esdrúxulas e inexplicáveis que um ser humano já sentiu. Isso deve ter seu valor, não?

Em algum mundo deve ter. Só não descobri qual.

Perdigotos da Alma

Arte de Anne Marie Zilberman

A vida às vezes se revela de forma estranhíssima. Mas é preciso estar atento e forte para decodificar os sinais, por mais esdrúxulos que eles pareçam ser.

Tudo começou na semana passada quando Catarina reclamou comigo, amorosamente, que eu agora tinha dado para cuspir enquanto falava.

Depois de fazer cara de nojo e rir, pedi desculpas para ela e disse que era um movimento involuntário. Que eu nunca tinha percebido isso em mim. Mas que ficaria atenta.

De noite comentei com Edu sobre o episódio e ele danou a rir. E confirmou que já tinha reparado que de uns meses para cá eu andava cuspindo para falar.

Cruzes, eu pensei. Troço mais nojento alguém que cospe para falar.

Dali em diante passei a me policiar. Até que um dia consegui confirmar o crime. Vi com nitidez o perdigotozinho ser expelido da minha boca. Que coisinha nojenta. Na hora me deu muita vontade de rir.  Depois me veio uma enorme curiosidade de entender, porque de um dia para o outro, eu tinha começado a cuspir para falar.

A resposta veio de uma forma mágica e surreal, como quase tudo na minha vida.

Eu estava folheando meu livro de cabeceira, “A Doença como Símbolo” de Rüdiger Dahlke (Pequena Enciclopédia de Psicossomática) a procura das possíveis causas emocionais da pressão alta do meu namorado, quando dei de cara com a palavra PERDIGOTO no dicionário.

– É agora, pensei comigo. É agora que eu vou entender esse cuspe na minha vida.

Qual foi o meu choque ao me deparar com o que estava escrito. Como um soco na boca do estômago, ou um safanão na cara daqueles de novela, as causas emocionais dos perdigotos me jogaram num vazio existencial profundo.

Lá dizia:

“Plano corporal: boca (expressão). Plano sintomático: cuspir ao falar, cuspir nos outros durante uma conversa: expressar agressividade inconsciente, fala molhada, fala da alma: a carência de uma participação anímica interior torna-se visível. Tratamento: tomar consciência dos planos que inconscientemente vibram junto com a fala, proporcionar válvulas libertadoras à alma em sua própria expressão, conceder espaço aos conteúdos que vem através dos modos de expressão.”

Gente! Que loucura!

Eu tô cuspindo nas pessoas porque não escrevo, porque há meses não expresso meus turbilhões internos, não dou vazão às questões da minha alma e não escrevo mais.

Caramba.

Caramba.

Aquilo foi para mim um dos maiores insights dos últimos tempos. Sem terapia, eu tinha conseguido sozinha entender de onde estava vindo tanta tristeza, apatia, desânimo, confusão mental e cuspe: falta de escrita.

As minhas desculpas são sempre as mesmas. Falta de tempo, excesso de demanda. Mas a verdade é que nos últimos meses desse conturbado ano de 2018 a gente tem vivido uma depressão coletiva. Com tudo que tá acontecendo fora, tem sido difícil acessar o dentro. Porque essa coisa de matar um leão por dia cansa muito. E quando eu chego em casa de noite, só penso em comer, tomar banho, engolir uma melatonina e cair dura na cama. Acho que esse processo é um desejo inconsciente que o sonho resolva para mim, tudo aquilo que eu não consigo resolver na realidade. Não é a toa que tenho tido tanto pesadelo. Mas enfim.

A verdade nua e crua é que talvez eu precise entender que muito mais importante do que dormir, seja despertar. E que escrever seja uma forma de salvar-me desse apocalipse que a gente tá vivendo. Há um peso generalizado. Da violência, da crueldade. Da impunidade, da falta de perspectiva de mudança.

Essa semana eu tive uma visão que estava perdida em alto-mar. Completamente sozinha. De longe eu me via, e não sabia o que fazer para me salvar. Até que a frase do Ferreira Gullar me chegou como um bote salva-vidas: a arte existe porque a vida não basta.

Pronto. Foi o que bastou para eu acordar e perceber que não dá para ficar cuspindo nas pessoas. Eu preciso escrever para entender o mundo. Eu preciso escrever para não morrer. Eu preciso escrever porque em algum lugar da minha alma, eu sinto que ao expor meu coração, eu ajudo a alguém a ter coragem de fazer o mesmo. É preciso encontrar uma forma de salvação em meio ao caos que vivemos. É preciso acreditar que a esperança é a última que morre. E quem sabe até, acreditar que a esperança não morre. Jamais.

Carta aos meus pés

Meus queridos pés,

Caminhamos juntos há quase quarenta e quatro anos.

Chegamos a esse planeta num parto rápido e indolor, num país chamado Brasil, mais precisamente nas terras de Minas Gerais, no outono de abril de 1973.

Não demoramos muito a nos firmar no chão. Nossos primeiros passos foram dados em Teresópolis, numa solitária casinha no Vale São Fernando.

Nossos primeiros anos foram preciosos.

Nos refrescávamos em riachos, pisávamos felizes em pedrinhas, grama verde e chão de terra batida. Corríamos livres por colinas e bosques. Subíamos em árvores altas, escalávamos montanhas, percorríamos nosso pequeno mundo com curiosidade. Tínhamos muita coragem.

Crescemos e fomos parar na cidade grande. Estranhamos muito o Rio de Janeiro. A dureza do asfalto, a pressa das pessoas, a ausência dos vaga-lumes. Mas nos encantamos a primeira vez que pisamos na areia da praia de Ipanema. Encontramos o mar e o mar nos curou da saudade da terra.

Foram anos bonitos também.

Andávamos de patins, de bicicleta. Aprendemos a dançar, a gostar da cidade, tínhamos muitos amigos. Até que um dia encontramos um solo tão precioso para nós quanto um dia tinha sido a terra. Lembram? Foi quando pisamos num palco de teatro pela primeira vez. Depois de muitos anos, tínhamos encontrado de novo um lugar no qual nos sentíamos em casa.

Foram anos emocionantes.

Brincávamos de ser outros pés, de existir de outras formas. Sonhávamos acordados, voávamos para onde queríamos. Descobrimos que a vida era sonho e que sonhar também podia ser uma forma de caminhar pelo mundo.

Mas o tempo passou. E o tempo nos trouxe o tempo de carregar outros pés dentro de nós. Colocamos no mundo dois pares de pezinhos encantadores. E encontramos de novo o sentido de existir.

Foram anos incríveis. E muito trabalhosos também.

Porque passávamos quase o tempo todo ou alimentando os pezinhos ou correndo atrás deles. Acho que nunca podíamos imaginar o que significava colocar outros pés no mundo.

Foi quando a vida nos levou a percorrer outros solos do nosso país. Fomos para São Paulo, para Joinville. Mudávamos de endereço como quem muda de sapato. Buscávamos alguma coisa que nunca encontrávamos.

Foram anos estranhos.

Até que chegamos a Niterói. Cidade que vivemos hoje. E durante muito tempo aqui fomos felizes. Até que vocês adoeceram.

Há mais de um ano, vocês passaram a sentir muitas dores para caminhar. No início, a dor acontecia somente na hora de sairmos da cama. Eram os primeiros passos depois do sonho que nos faziam sofrer. Mas com o passar dos meses, a dor no caminhar foi se transformando em algo constante e muito angustiante para nós.

Falo com vocês, tento entender o que sentem, mas nenhum dos dois parece me ouvir. É onde nós estamos que vocês não querem mais estar? É por onde caminhamos que vocês não querem mais caminhar? A dor paralisou vocês e eu preciso entender por que.

Temos vivido um período de profunda tristeza. Cuido de vocês com toda a dedicação. Já fiz de tudo que podia. Tudo que estava ao meu alcance. Massagem com cremes, banhos de óleo com canela. Salmoura com ervas. Gelo úmido. Comprei sapatos confortáveis. Tomei anti-inflamatórios, babosa, florais. Encomendei pantufas coloridas. Toalhas felpudas para secar vocês. Fiz fisioterapia com bolinhas, moxabustão. Fiz carinho. Escrevi em vocês palavras de amor e cura. Os abracei com amor. Mas nada parece ajudar.

Meus pés, meus queridos pés

O que é que vocês estão tentando me dizer com essa dor que não cessa nunca? Que vocês não querem mais caminhar? Ou que não suportam mais o caminho que escolhemos trilhar?

Será que não nos enraizamos o que precisávamos para estar aqui? Será que nunca ancoramos na Terra como deveríamos? Ou será que precisamos agora de asas para voar?

Meus pés, falem comigo. Me digam o que preciso fazer para que parem de chorar.

Sei que sentem falta do tempo que andávamos livres por riachos e também sentem saudade dos palcos da vida. Mas será que são essas ausências que fizeram vocês adoecerem? Me deem uma pista do que posso fazer. Por vocês… por nós.

Se estamos vivos, é sinal de que nossa missão ainda não chegou ao fim.

Mas não me deixem aqui sozinha. Caminhar sem vocês não faz sentido algum. Porque não conseguirei caminhar por inteiro. E muito menos ser feliz.

 

 

Catadora de Lindezas

Arte de Pieter Bruegel

Para Rosane

Esse ano eu amanheci diferente.

Também pudera.

Dia 31 não fiz nenhuma lista de metas para o próximo ano. Não prometi nada para ninguém nem para mim mesma. Não fiz nenhuma expectativa para a festa de réveillon. Não tive pressa do tempo.

No último dia do ano, passei o dia experimentando a difícil e linda tarefa de não reclamar de nada. De verdade.  Respirando fundo quando me aborrecia. Agradecendo mentalmente tudo aquilo de maravilhoso que tenho em minha vida. Agradecendo a chance de estar viva e poder recomeçar.  Tentando me perdoar pelos erros que ainda me atormentavam. Mas, sobretudo, desejando ter entendido tudo que a vida me ensinou, para pelo amor de Deus não ter que voltar para mesma lição, toda de novo, no início do ano.

Esse ano eu amanheci diferente.

Com um propósito simples de olhar para vida de um lugar diferente. Todos os dias. Como se eu simplesmente pudesse mudar de ângulo. De perspectiva. Numa mesma vida. Num mesmo corpo. Numa mesma alma. E parte dessa decisão se conectava justamente ao ato de não querer mais reclamar. Reclamar é um veneno que intoxica. E apodrece a gente por dentro.

Transformar o lamento em alguma coisa melhor pode ser um ato diário extraordinário. Porque todos os dias eu preciso lavar louça. Mas não é por causa disso que preciso me estressar tanto. É preciso reinventar a coisa. É preciso aprender a brincar com a espuma. Conversar com as xícaras.  Fazer poesia com as panelas.

Foi quando me lembrei de um texto que recebi de uma amiga querida esse ano que dizia assim:

“Eu venho de um lugar que é luz mesmo em noite escura. Que é paz, fé e carinho.
Eu venho de lá e não estou sozinho, “sou catador de lindezas”, sobrevivo de encantamento, me alimento do que é bom, do bem. Procuro bonitezas e bem querer, sobrevivo do que tem clareza e só busco o que aprendi a gostar.”

Nessa hora, minha alma deu um estalo. E eu decidi o que queria fazer em 2017. Ser catadora de lindezas. Virar uma caçadora de poesia nas coisas escondidas. Mudar o olhar para o mundo. E fazer isso diariamente. Não só no dia de inspiração profunda. Mas também no dia da tristeza, do mau humor, da desesperança. Para mudar, é preciso alterar as nossas configurações mais profundas. Parar de reclamar é uma escolha. Viver poeticamente também.

Esse ano eu amanheci diferente.

Também pudera.

Voltei a escrever.

P.S. O trechinho do texto lindo é da autora Rita Maidana.

Uma carta para Marcia do Valle (ou esse labirinto dentro da gente)

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Marcinha, minha amiga querida

Há umas semanas atrás você encontrou Clara e Catarina no ônibus e perguntou sobre os meus textos. “Cadê os textos da tua mãe, gente?” Elas riram. Adoram você. E trouxeram a notícia como quem traz uma sementinha. Jogaram a coisa dentro de mim e quem diria, a coisa brotou.

Desde então não paro de pensar em você. E nesse vazio que ficou lá no “Onde Habita Minha Alma” desde que me perdi pela última vez. Levei um susto ontem quando me dei conta que tem mais de dois meses que eu não escrevo. Nem uma linha sequer.

É impressionante como a gente se perde nessa vida. A toda hora. A todo instante. Eu sou mestra em me perder de mim mesma. E me encontrar. E logo em seguida me perder. Até parece que a minha existência foi plantada num labirinto.

A grande verdade minha amiga, é que essa coisa de existir para mim é bem complicado. Principalmente existir todos os dias. Porque se eu tivesse que existir só de vez em quando, talvez eu desse conta. Mas todo dia po. É uma canseira esse troço. Principalmente quando a gente se exige inteireza. Aí é que a coisa pega.

Minha alma é um vendaval, você sabe. Bastou ventar mais forte que eu me desequilibro. Há dois meses minha vida deu uma desmoronada – nada grave, os desmoronamentos normais da vida – e aí eu fiquei sem telefone, sem internet, depois tive que mudar às pressas de onde eu morava para o antigo apartamento da minha mãe e desde então, passei a viver acampada entre caixas. Se isso já é uma coisa esquisita, imagina para uma taurina? Fora que eu ando trabalhando exaustivamente na Escola. E trabalhando exaustivamente nesse projeto que é criar dois seres humanos. Parece bobagem . Mas foi o bastante para me perder. E quando eu me perco, a primeira coisa que acontece é eu parar de escrever.

Deveria ser o contrário né. Lembra daquela mãe-de-santo que me disse uma vez que minha escrita deveria ser meu porto seguro, meu norte, minha bússola? Pois é.  Pois eu nunca consigo colocar isso em prática. E ao invés de jogar esse bote salva-vidas na água, eu fico me afogando que nem uma louca no mar de todos os dias. Por que eu faço isso? Porque eu sou um ser humano e apesar de toda genialidade genética da minha espécie, no fundo eu sou um poço de contradição e chatice.

Mas enfim, minha bichinha, às vezes a mágica acontece e uma pessoa do nada chega na vida da gente e sopra uma esperança. Como foi o seu caso, lá naquele ônibus, quando fez a tal pergunta para as meninas.

Por isso, e por mais um bocado de saudade, resolvi vir aqui te escrever e dizer, que mesmo perdida, eu vou seguindo o curso do rio. Porque no fundo acredito que alguma hora, alguma correnteza vai fazer sentido. Que as desventuras em série vão se esclarecer, os medos vão se dissipar e o equilíbrio vai voltar a governar. Pelo menos até a próxima encruzilhada.

Tem duas coisas que tem me ajudado muito no labirinto: uma é chamar pelo presente. Conhece aquele gnomo da luz, Eckart Tolle? Cara, desde que descobri esse homem e essa teoria do “Poder do Agora” que não paro de pensar no quanto é possível dissipar as angústias se a gente chama pela nossa simples presença nos dias. Essa teoria dele é genial, mas como tudo no cotidiano, fica forte quinze minutos e se perde no resto das 23 horas e quarenta e cinco minutos do dia. Mas esses quinze minutos! Ah caramba! É o nirvana. Porque é isso Marcinha! Não existe nada que não seja o momento presente. No fundo, no fundo, repara. A gente tá sempre sofrendo muito pelo que passou ou pelo que ainda nem chegou. Faz uma lista! É impressionante descobrir o quanto a gente é refém dessa merda de mente pensadora enlouquecida e esquizofrênica. Mas enfim.

E a outra é pensar, assim que eu acordo, onde é que está meu coração naquela manhã. Aprendi isso com uma amiga querida aqui de Niterói, a Catita. Uma irmã de caminho maravilhosa que você ia adorar conhecer. Ela me ensinou que grande parte da desconexão da gente diária se dá, porque nem todo dia a gente sabe onde está nosso coração. Situá-lo no mundo significa essencialmente nos ouvir a cada manhã. Entender e acolher a forma que acordamos. Entender se estamos fortes para a luta, ou sensíveis demais. E nos alinhar para a forma que conduziremos o dia. E nos respeitar apesar de todos os pesares.

Eu me alinho muito quando ouço músicas que habitam minha alma. E acendo uns incensos cheirosos. E tomo um café com Adélia Prado e faço minhas preces de gratidão à vida e a todas as infinitas bênçãos que tenho – apesar de ainda desejar tantas que ainda não tenho (olha a contradição aí de novo pentelhando). Mas enfim, paciência Tatiana, paciência com a sua humanidade.

E como humana anônima repito: só por hoje consegui escrever. Só por hoje consegui me conectar. Só por hoje tenho coragem de confessar: morro de saudade e desejo de voltar aos palcos contigo. Uma hora dessas, eu encontro a saída e a gente vai ser capaz de se reencontrar. Não só na vida, como na arte.

Te amo, minha irmã. Nunca se esqueça.

Beijos da tua eterna, Tatiane Pelinque

 

Amor e verdade

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Para Marcia Cypriano

Eu sempre achei essa coisa de “lema de vida” uma coisa meio cafona, meio lugar comum, meio comercial da Nike. Talvez por preconceito. Talvez por temer ficar na superfície das coisas, como se uma frase de motivação não pudesse nunca resumir um sentido de vida para mim. Uma atitude bem pedante se a gente for pensar, mas era assim que eu sentia.

Aí um dia eu conheci um cara que revolucionou a minha forma de olhar o mundo. Que me fez despertar de um monte de coisa esquecida em mim e me fez reavaliar metade das coisas que eu achava que pensava do mundo. Sabe essas pessoas que a gente conhece e acabam virando um divisor de águas na nossa vida? Pois é. Isso foi o que fez Jonatan Agra quando chegou na minha vida. Uma bagunça incrível que eu nunca vou esquecer.

Eu não sei bem como a coisa começou. Eu sei que duas palavras surgiram nas nossas bocas e passaram a ser repetidas como um mantra. Quando a gente via, lá vinham elas de novo, trazendo tudo que a gente queria dizer. Foi então que a gente entendeu que elas tinham chegado para ficar. E que de alguma forma, tinham virado um lema de vida. A gente passou a ter orgulho delas. E orgulho de ter um lema. Para vocês verem como a vida às vezes dá um safanão na nossa cara. Mas tudo bem.

Amor e verdade.

De repente, tudo no meu cotidiano parecia perfeitamente espelhado no sentido mais profundo dessas duas palavras. E elas passaram a ser um pilar. Uma estrutura básica de conduta e força para a minha vida. Uma coisa linda. Poética. Viva. Real.

Mas… A vida é como ela é.  E não é só é uma caixinha de surpresas. Mas também um baú de concreto que de vez em quando cai sobre as nossas cabeças. Mesmo que a gente ache que já passou por tudo, não. Não passou.

Então, na semana passada, um golpe do destino me fez cair do cavalo e me fez regurgitar meu lema de vida só para me mostrar que as coisas não são tão simples como eu gostaria que fossem e que para se ter um lema de vida é preciso muito mais do que proferir duas palavras. E preciso entender que ou elas caminham juntas, ou podem simplesmente se aniquilar.

A vivência foi simples. Eu coloquei o amor na frente da verdade, contei uma mentira e vi todo o meu mundo despencar. Foi patético. E muito doloroso.  Porque acabei ferindo outras pessoas, mesmo sem ter tido a intenção.

Mentira é uma coisa muito esquisita. Porque ela é tolerada pela sociedade desde que o mundo é mundo e muita gente acabou se acostumando com ela. As pessoas falam mentiras, os políticos falam mentiras, as propagandas falam mentiras. Ela está entranhada no nosso dia-a-dia. E a pergunta que me faço é: por que é tão difícil falar a verdade?

Prestemos atenção num dia de 24 horas: quantas pessoas no mundo conseguem passar um dia inteiro sem contar uma mentirinha sequer? Para alguém ou para si mesmo?

Aquele ditado que mentira tem perna curta é irritantemente verdadeiro. Mas porque será que ela não se sustenta? Porque ela é feita de pó. De boato. De embromação. De ilusão. No dia que fui pega na mentira, senti uma dor tão forte no peito que mal podia respirar. Deve ter sido o efeito da adrenalina. Ou da vergonha. Voltei para casa com vontade de fugir para longe e nunca mais voltar. Mas como é da minha natureza, ao invés de fugir eu resolvi que queria ir fundo na experiência e entender porque, naquela altura da vida, eu ainda conseguia cair numa armadilha dessas. E cheguei à conclusão de que a verdade é muito mais difícil de ser aplicada do que o amor.

O amor, para quem foi amado, é um sentimento fácil de ser multiplicado. Porque ele se espalha e penetra com facilidade nos menores cantinhos. Em muitas ações, grandes ou pequenas, podemos disseminar o amor.  Até mesmo para aqueles que preferem o substantivo ao verbo. Mas a verdade…

A verdade já são outros quinhentos. Porque ela carrega em si um peso daquilo que não tem filtro, não tem máscara, não tem saída. A verdade é crua. E absoluta. E por isso pesa. Porque o ser humano é contraditório e egoísta. E por mais que a gente queira ser honesto sempre, muitas vezes acaba simplesmente não conseguindo falar a verdade, porque acha que ninguém vai entender o que você não conseguiu explicar.

Mas é uma escolha.

Assim como muitas que a gente precisa fazer todos os dias.

Com a verdade não há sobressaltos, nem medo, nem adrenalina, nem arrependimento. Com a verdade só há preto no branco. Ou uma paradoxal transparência.

Amor e verdade.

Eu rogo para que vocês nunca mais se separem, e que ao caminharem juntas, possam me ensinar que muito mais do que um lema para a minha vida, vocês possam ser aquilo que eu vou poder deixar de herança para as minhas filhas. Um legado de paz a um mundo que cada vez parece mais perdido em suas contradições. E por isso, termino meu texto aqui parodiando Frida Kahlo, com toda a admiração que tenho por ela:

“Onde não puderes amar e falar a verdade, não te demores”.