A louca da Posca

Minha vida foi desenhada por alguns marcos históricos que mudaram a minha trajetória para sempre.

São acontecimentos que se transformaram em divisores de água, como o nascimento das minhas filhas.

Ou, o dia que eu conheci a caneta Posca.

Escrevo desde os 16. Tenho mais de 40 cadernos escritos à mão. Bloquinhos, cadernetas, livretos. Tudo que é possível armazenar palavras escritas, eu já tive e guardo todos.

Mas o dia que eu descobri que existia uma caneta que escrevia em COISAS, eu enlouqueci.

Foi como se um universo se abrisse para mim, generoso e especialmente dedicado a satisfazer meus desejos mais profundos de escrever em absolutamente tudo que eu via pela frente.

Foram meses experimentando todas as superfícies possíveis, nos mais inusitados objetos. Eu só pensava nisso e só queria fazer isso. Não foi à toa que nessa mesma época recebi das minhas filhas o carinhoso apelido de A LOUCA DA POSCA.

Mas vamos combinar que para quem quer se expressar, uma folha amarelada de outono recém-caída de uma árvore, parece muito mais poética para absorver uma poesia, do que uma folha em branco.

E foi assim que começaram os objetos que falam. Meu hobby quase esquizofrênico de buscar coisinhas por aí que caibam palavras.

Já escrevi em pedras, telhas, azulejos, folhas, cascas de árvore, pétalas, garrafas, canecas, saboneteiras, tupperware, caixas, chinelos e sei que ainda há tantos lugares para descobrir… esse troço é uma cachaça!

Descobrir a Posca foi como ganhar asas ainda maiores para a minha alma escritora. E isso parece que foi um presente de Deus. Mas não foi não. Foi alguém generoso numa fábrica de canetas em algum lugar do mundo, que entendeu que tem gente doida por aí que precisa se expressar muito além de onde lhe cabe a poesia.

Hoje eu já sei que a Posca é uma das marcas que fabricam essas canetas. Que existem outras tão boas quanto. Mas nenhuma nunca vai ser como a minha primeira canetinha. Igual sutiã. A primeira Posca, a gente nunca esquece.

Confie

Algum tempo atrás, não me lembro bem quando, eu fui tomada por uma coragem súbita, entrei num estúdio de tatuagem e disse pro moço: por favor, será que o senhor podia escrever aí no meu punho a palavra coragem? Tinha que ser o punho da mão direita, que é a mão que eu uso para escrever. Ele me olhou com uma cara de quem não entendeu nada, mas respondeu simpático: como a senhora quiser!

Ele não imaginava, mas aquele era um movimento de urgência máxima, uma estratégia quase desesperada de quem tinha muito a dizer, mas não conseguia colocar para fora palavra alguma. E agora, apesar da palavra já estar meio gasta na pele que vai envelhecendo, ela ainda me motiva muito quando a olho escrita no meu braço.

Mas de um ano para cá, ando encasquetada de precisar tatuar outra palavra: confiança.
Eu não sei de onde vem esse delírio que tatuando o que me falta, eu vou conseguir por osmose da tinta sagrada, adquirir aquilo que me escrevo. Mas prefiro acreditar nisso a não acreditar em nada.

A verdade é que ando oscilando muito na minha fé. Porque fico entre a realidade crua dos dias e dos conflitos da vida e o deslumbramento da magia que é a própria vida. Ok. Bem-vinda ao mundo dos encarnados, Tatiana. Mas caramba. Como eu queria ter uma fé inabalável como tinha Santo Agostinho quando dizia que “fé é crer no que não vemos. O prêmio da fé é ver o que cremos”. Esse homem pode ter vivido muitos conflitos, mas se tem uma coisa que ele teve certeza era sobre sua fé. Bom, isso a gente acha né. Não sei o que se passava nos recôncavos da alma de Santo Agostinho, mas que a frase dele é inspiradora, isso é.

Confiar é um ato de fé.

Mas confiar para mim é como se jogar num abismo de braços abertos e acreditar que no final, tudo vai dar certo. Minha terapeuta costumava dizer: faça sua parte do que sonha que o Cosmos vai fazer a dele. Essa frase me acompanha desde então, mas nunca tive coragem de tatuá-la. Essa frase é coisa séria.

2024 chegou todo novinho, todo carregado de esperança, mas trouxe com ele um monte de probleminhas velhos que eu amaria que tivessem ficado para trás.

Problemas de dinheiro, de moradia, de trabalho, de disciplina para conseguir fazer tudo que a minha alma precisa. Nunca vi tanto nó para desamarrar. Haja confiança para não sucumbir no primeiro mês do ano. Mas enfim…

Eu sinto que esteja fazendo minha parte, mas por que será que não consigo sentir profundamente a confiança necessária para acreditar que tudo vai dar certo no final? Onde será que mora em mim essa dúvida? Essa vírgula? Esse… mas?

Fecho os olhos. Respiro. Acendo a vela. O incenso. Me conecto ao silêncio mais profundo que possa existir dentro de mim. Respiro de novo. E de novo. Por uma fração de segundos, consigo compreender que estou no lugar certo, na hora certa, vivendo as coisas que preciso viver, para chegar onde desejo e preciso tanto chegar.

Esse segundo vivido, de incompreensível certeza, quem sabe… esse trocinho minúsculo que mora entre um sopro de vida e outro, possa ser chamado de fé.
É possível.
É muito possível.

Sobre sonhos

Para Sidarta Ribeiro

Não me lembro direito a idade que tinha quando comecei a fazer um diário de sonhos. Mas acho que foi na adolescência. Naquela época eu já me impressionava com os enredos cinematográficos que eu produzia na mente durante a noite. Eram tão absurdos que eu achava que precisava guardar.

Sempre tive essa relação visceral com sonhos. Sonhar é como viver uma parte muito mágica e incontrolável da nossa existência, sem ter nenhuma ferramenta para lidar com aquilo. É porque a gente se acostuma, mas vamos combinar que se dormir é estranho – esse apagão que a gente vive diariamente – sonhar então é surreal. Por que quem nunca acordou com a certeza que estava vivendo no sonho o que vivemos na realidade? Qual não foi a minha surpresa quando descobri que os índios lidam com o mundo dos sonhos como se eles fossem mesmo, assumidamente, uma outra dimensão para onde vamos e vivemos uma “realidade” tão preciosa como essa que vivemos quando estamos espertos.

Caramba.

Trabalhei muito meus sonhos na terapia. Amava. E com os anos fui entendendo meus próprios símbolos, meus próprios mecanismos através desse código divino. Os sonhos são um presente do Grande Criador. Quase uma brincadeira que Ele faz com a gente. Se soubermos aproveitar, nossa! Meio caminho andado para a compreensão de muitas coisas dessa vida.

Pois bem.

Desde que tive Covid meus cabelos começaram a cair assustadoramente. Eram tufos e tufos. Dizem que um dos sintomas mais comuns. Mas como tenho um pouco de nojinho de cabelo, comecei a fazer umas bolinhas simpáticas para jogar no lixo. Só que as bolinhas eram tão fofinhas, que do nada resolvi começar a guardá-las. É, eu sei. Estranho. Mas quem não ficou estranho depois da pandemia, gente?

Quando me dei conta, a coleção já tinha começado. Guardei-as num pote de vidro bonito e assim segui a vida. O pessoal aqui em casa começou a estranhar o ritual. Achavam a coisa meio macabra. Engraçado como algumas coisas carregam em si uma história né. Mas eu nem liguei. Naquela altura do campeonato já estava apegava às minhas bolinhas ruivinhas. E pensando no que eu faria com elas. Quando finalmente decidi, o pessoal ficou em polvorosa.

Uma bonequinha com cabelo de bolinhas. É isso.

Edu arregalou os olhos. “Bonequinha? Isso definitivamente é coisa de vudu” falou o namorado macumbeiro. Minha mãe teve outra reação completamente diferente. “Entrega isso para Mãe Natureza, minha filha” falou minha Mulher Estrela-Guia do Clã das Tartarugas. Mas o melhor foi quando contei para o Kim, meu sobrinho estudante de cinema: “Titi, bora fazer um stop motion com essa bonequinha!” Hahahaha. Sensacional. Cada um com a sua interpretação pessoal e intransferível sobre o símbolo em questão.

Assim são os sonhos. Eles falam com a gente através dos símbolos. Mas o que o Jung ensinou para minha mãe que ensinou para mim, é que, apesar de haver muitas definições do que significam determinados símbolos, o que a gente precisa mesmo é afinar a nossa definição dos nossos símbolos pessoais. O que aquilo significa para nós. Nós, que fomos criados de determinada maneira, sob determinada cultura, determinada região do planeta e educado segundo as normas sociais do nosso mininúcleo familiar. Pronto, isso já vira um caldeirão totalmente subjetivo para qualquer coisa.

Então, se para o Edu esses cabelinhos são coisa de vudu, para minha mãe elemento para devolver a Grande Mãe e para o meu sobrinho um objeto de arte a ser filmado, essas bolinhas de cabelo para mim significam as anteninhas que eu andei perdendo.

Como escrever sem antenas para me guiar e captar informações do mundo?

Quando a boneca estiver pronta mostro para vocês. Inté!

Tempo tempo tempo

Ô tempo, para de me espremer pelo amor de Deus.

Que coisa chata essa sua insistência em ficar me apressando e me apertando!

Você não sabe que não adianta me pressionar que eu não vou viver aprisionada na sua ampulheta?

Você não sabe que não faz sentido para mim viver assim no automático, como um robô, só cumprindo tarefas?

Eu não quero ficar encarcerada nessa jaula sem grade que é viver a vida em contagem regressiva.

Eu não uso relógio. Sabe por quê?

Porque não quero que você me controle. Controle minha mente, meu pulso, minhas mãos.

Eu quero viver sentindo. Percebendo o mundo. Apreendendo as experiências. E não tem hora certa para se sentir a vida. Ela acontece.

Eu quero estar no presente. Já aprendi que o futuro só me traz ansiedade e o passado, melancolia. Eles quase sempre são armadilhas perversas da mente. E desculpe se eu te ofendo falando isso, mas você geralmente compactua com eles nessas armadilhas.

Tá, eu sei que você foi uma coisa inventada pelo homem e que não tem culpa de ter nascido. E entendo também que em determinado momento da história, foi necessário organizar os ciclos, por uma demanda da sociedade. Não se podia mais viver só calculando dia e noite, primavera, verão, outono e inverno.

Mas convenha comigo, nesse momento, você anda enlouquecendo todo mundo.

Eu sei que a responsabilidade não é só sua. Que muita coisa aconteceu e desgovernou o mundo. Essa coisa de internet, redes sociais, mundo globalizado, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Na época dos bondes, a gente não sabia de tudo que estava acontecendo no mundo, em tempo real. E isso é muito opressor.

Mas essa criação diabólica do homem teve ajuda sua, sim senhor.

Ah tem gente que não liga para isso?

É, pode até ser. Mas esse surto de ansiedade mundial você acha que vem de onde? De contemplar o pôr-do-sol? Claro que não né. É dessa pressa desesperada que todo mundo está de cumprir suas milhões de demandas diárias.

Eu tenho muita dificuldade com essa urgência maluca que o mundo impôs para gente. E se você não é o único vilão da história, eu sinto muito. Grande parte da loucura leva seu nome e não há nada que possa ser feito.

Eu posso assumir menos coisas para o ano que vem?

É, até que essa não é uma má ideia.

Nisso você tem razão. A gente assume coisas demais na vida. Compromissos demais, responsabilidades demais. Depois não sabe por que tem que tomar ansiolítico e antidepressivo.

Eu vou pensar nas mudanças que quero fazer para o ano que vem. Adoro anos pares! Vou ver o quanto de carga horária posso diminuir, o quanto de tempo posso reduzir para as coisas sem significado. Preciso arranjar umas brechas para o nada.

Drummond falava disso: “a vida necessita de pausas”.

E se a gente vive a vida sobrevivendo, apagando incêndios, quase se afogando na turbulência das horas, não sobra tempo para as pausas.

É na pausa que a gente vê o sol nascer. É na pausa que a gente sente o vento. É na pausa que mora a chance da gente meditar. Silenciar. Serenar. Sentir.

Eu sei que é a sua função organizar o mundo. Mas pega mais leve com a gente, Tempo. Por favor.


Tá difícil de aguentar essa pressão. Ninguém aguenta ser sugado e vampirizado desse jeito que você tem feito. A existência fica muito insignificante e medíocre se a gente vive só para cumprir compromissos, agendas e horários.

Por que você não tira umas férias? Talvez até você esteja precisando de um tempo para descansar.

Não é?
Você tá chorando, Tempo?
Só porque eu falei de férias?
Ô meu Deus, você também está estressado.
Vem cá, deixa eu te dar um abraço.

Dor de pé seco

Ser humano é um troço esquisito.

É que a gente se acostuma. Mas se a gente olhar mesmo, com aquele olhar de olhar de novo, vai ver que a gente é uma máquina bem esquisitinha.

Para começar tem esses membros, finos e compridos, que saem desse corpo central. Depois, na ponta desses membros, saem cinco membrozinhos compridinhos de cada um. No topo do corpo central tem presa uma bola e dessa bola saem um milhão de fiozinhos. Nessa mesma bola, imaginem, tem um orifício com ossinhos lá dentro e uma carninha presa que se movimenta quando a gente fala. Também têm duas bolinhas para ver, dois buraquinhos para cheirar, outros dois para ouvir e isso sem falar no universo inteiro que tem lá dentro.

Mas não era sobre essa esquisitice externa que eu queria falar. É sobre umas dores que eu sinto. Umas dores tão estranhas que eu duvido que alguém mais sinta. Como dor de pé seco por exemplo.

Meu namorado diz que nunca tinha ouvido falar dessa dor. E que ela é uma das coisas mais fofas em mim. Mas eu não vejo fofura nenhuma. Só agonia.

Dor de pé seco é literalmente o que a coisa quer dizer. Sinto ela todas as noites, antes de dormir. Geralmente já estou de banho tomado, de pijama, cheirosa e fresquinha. Mas bastou deitar na cama que ela aparece. Em poucos segundos me dou conta que a pele do pé está super seca para imediatamente a dor surgir.

É por isso que hidratar os pés antes de dormir virou um dos rituais mais prazerosos da minha existência.

O corpo nos dá infinitos prazeres.

Em diferentes níveis, proporções e possibilidades é claro. Mas eles são uma das coisas mais geniais que a natureza fez por nós.

Os prazeres escatológicos, por exemplo. São simples e fabulosos. Basta dar ao corpo o que o corpo quer. Fazer xixi quando se está muito apertado. Cocô. Tem coisa mais prazerosa do que fazer cocô quando a gente estava louco para ir ao banheiro, minha gente? Arrotar, soltar pum. Ah! Somos uma fábrica de mini prazeres. Espirrar, coçar, tossir. Rir, chorar, estalar os dedos. E comer? E beber? Pode no mundo existir coisa melhor? Pior que tem.

Os prazeres sexuais!

Deus devia estar inspiradíssimo quando criou o orgasmo. Também, para incentivar o povo a continuar popular a Terra, só transformando o exercício num parque de diversões.

Mas voltando às dores, essas são péssimas. Acho muito doido quem sente prazer na dor. Sem nenhum julgamento, cada um sabe de si. Mas acho que essa é uma coisa que eu nunca vou entender. Dor é dor e ela é um mecanismo de alerta para o corpo, mas que troço ruim de sentir. Tem gente que é forte para dor. Acho incrível. Minha sogra por exemplo faz tratamento de canal sem anestesia. Como é que pode, gente? Não sei. Mas certamente ela é feita de um outro material que o meu. Duvido que ela tenha dor de pé seco. Doida para saber.

Miniconto de amor

Ela está parada no sinal, dentro do carro.

Na pista ao lado, para um carro ao seu lado.

Dentro, há um homem lindo, olhando para ela.

Ela desvia o olhar.

Depois de alguns segundos, toma coragem e resolve olhar de novo.

Ele continua a olhar para ela. Fixamente.

Sem dúvida nenhuma é um homem lindo.

De repente, o homem faz uma careta.

Ela leva um susto.

E resolve fazer uma careta para ele também.

Ele lhe devolve outra careta ainda mais engraçada.

Aos poucos, começam a competir quem faz a careta mais horripilante.

De repente, ele não aguenta e dá uma gargalhada com a última careta que ela faz.

Ela desaba e começa a rir também.

É quando ela descobre que ele tem o sorriso mais lindo que ela já viu.

O sinal abre.

Os dois percebem e se olham. Sérios.

Atrás, os carros começam a buzinar.

Ele se despede com um olhar triste, acelera e vai embora.

Ela, nervosa, engata a primeira, mas deixa o carro morrer.

Vê o carro se afastar e sente uma tristeza profunda no peito.

Em seguida se sente a mulher mais ridícula do mundo.

Tenta ligar o carro de novo. O motor responde e o carro finalmente pega.

Ela engata a primeira e vai embora.

Fim

Borbulhei

Tudo começou na necessidade desesperada de expressão. Essa que me habita desde que me reconheci como escritora. Que borbulha, borbulha, mas nunca têm onde derramar.

Aí veio a cria, que fez dezoito, virou mulher e me chamou na chincha:

– Mãe, se escrever é a tua vida, tá na hora de buscar um lugar para se mostrar para o mundo. O seu site é lindo, mas se não tiver uma ponte para as pessoas atravessarem, elas não vão encontrar o caminho.

“Meudeusdoceu” eu pensei, a gente coloca as criaturas no mundo e elas que nos criam.

“Tá bem” concordei. Mas eu não sabia muito como fazer. Ela continuou.

– Abre um espaço para você escrever todos os dias. Não só para os seus amigos. Mas para o mundo. Pensa num jeito que só você faria. Com a tua letra. Tua energia.

Aí eu mergulhei lá no fundo e descobri que queria criar uma página que pudesse nadar nas palavras, nas cores, nas miudezas e em tudo aquilo de poesia que eu via no mundo.

Então, lá fui eu. Começando mergulhada no vermelho do meu sangue, na paixão por escrever e nessa alma esquisita e deliciosa que Deus me deu. Sejam bem-vindos ao universo de ONDE HABITA MINHA ALMA, agora também no Instagram!

Meu Novo Corpo

O corpo é a máquina que nos acompanha desde o primeiro momento em que somos cuspidos para fora do corpo da nossa mãe, até o dia em que voltamos para terra – no caso – a Mãe Terra. Um mesmo coração batendo ininterruptamente nesse mesmo corpo, uma vida inteira. Do girino até o último suspiro. Não é um troço incrível?

O corpo é um universo inteiro dentro dele, mas eu nunca tinha pensado muito nisso, antes de começar a envelhecer.

Quando a gente é jovem não pensa muito no próprio corpo: só usufrui dele. Tem muita energia, não usa protetor solar, não se cuida, sobrecarrega o fígado, não dorme, vira a noite, faz loucuras e sempre fica tudo bem.

Aí chega a hora de reproduzir. Pã! Hora de ter filhos.
As barrigas que trazem o milagre da nossa existência também serão as que mais vão nos cansar. Imaginem só: gestar, parir e depois criar a criançada toda? Não é brincadeira não. Tive duas e sei bem como foi.

Pois bem.

Ano passado eu fiz 50 anos. E achei um luxo fazer 50. Nunca me preocupei com pé de galinha nem com cabelo branco porque sempre achei rugas um charme e desde os 16 pinto meu cabelo de vermelho. Mas de repente, tudo começou a mudar. Sentimentos, sintomas e características físicas começaram a mudar meu corpinho da água pro vinho. E por mais que eu tenha consciência da efemeridade da vida, a ficha está demorando um pouco a cair.

É uma dor no joelho aqui, uma travada na lombar acolá. Os dez quilos que surgiram do nada (mentira: tudo cerveja, azeitona e amendoim) que acabaram virando umas curvinhas e dobrinhas que eu não reconheço no espelho. São os calores do climatério, as pintas brancas e marrons iguaizinhas da minha avó alemã, uma barriguinha desgraçada que nem com cinta se disfarça, as teias azuladas das varizes, o cansaço absurdo que eu sinto quando levanto da cama às seis da manhã. A preguicinha de sair no fim de semana, a melancolia sem explicação, as desculpas para não ir nadar, a disposição extraordinária que se precisa ter para uma noite de amor.

Outro dia passei na frente de uma vitrine, me olhei de longe e levei um susto. “Meu Deus! Será que aquela senhora ali sou eu?” E era.

Envelhecer…


Irene Ravache deu uma entrevista dizendo que não fez nenhuma plástica porque estava muito curiosa para saber como ia ficar enrugada. Achei genial. É assustador o que anda acontecendo com as jovens senhoras que estão com medo do tempo: estão todas ficando muito parecidas. Com a mesma bocona de Angelina Jolie e sem nenhuma expressão por terem se esticado. Será que elas não percebem que tirar as linhas de expressão vai justamente impedi-las de expressar-se? De ser quem são? E que as rugas são o registro físico de tudo aquilo que vivemos?


Ainda assim, estou aqui no meu processo de aprender a amar o meu novo corpo. Porque não sou mais a Tatiana gatinha, magrinha de 20 anos, que usava calça Saint-Tropez e dançava descalça nas festas até o amanhecer, mas também não sou a vovó fofinha e gordinha que serei aos oitenta. Que vai fazer muitos bolos, usar xale de tricô e contar histórias deliciosas para os meus netos. Me sinto agora como se estivesse num vácuo do tempo. Nem gatinha, nem vovozinha. Então, quem sou eu? Balzac escreveu sobre as mulheres de 30. Roberto Carlos fez música para as de 40. E as de 50? Ninguém vai homenagear não?


Meu novo corpo continua macio e cheiroso. Continua saudável e faminto. De amor e de vida. Talvez isso seja o suficiente para viver mais uns 30 anos. Mais 30 anos com o meu coração batendo sem parar. Nessa máquina mágica que abriga minhas histórias e minhas memórias. Não há nada mais lindo e digno do que envelhecer amando quem se é.

Recolhida

Adélia Prado tem uma frase que eu amo que diz assim:

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.”

Isso também acontece comigo e é muito estranho. Como se alma de repente se recolhesse e se negasse ao extraordinário. Tipo: cansei.

É bem assustador ser quem eu sou e não ver graça nas coisinhas miúdas do dia-a-dia. Porque eu não me reconheço. E me aguça ainda mais aquela velha sensação de que não sou daqui.

Dizem que é bom vez em quando recolher-se. Que a gente toma um fôlego desse mundo louco e se limpa um pouco de tanta informação, tanta história,  tanta emoção.

Existir para mim não é fácil. Vejo as pessoas existindo por aí tão facilmente. Tirando a vida de letra. Adoraria ser assim. Mas eu não sou. Para mim viver é uma luta diária. De sumô. Porque eu amo existir mas acho tudo bem esquisito. As pessoas são esquisitas, o que eu sinto é esquisito, o nosso tempo é esquisito.

Talvez o maior problema de me recolher e ficar quietinha seja o fato d’eu parar de escrever quando me recolho. Isso é fatal. Porque as ideias – que estão lá dentro de mim vivas, loucas para serem escritas e elaboradas e sentidas – ficam presas e começam a fermentar.

Daí danou-se. É azia, é enxaqueca, é prisão de ventre. Ficar sem escrever é mofar por dentro.

Mas como escrever quando Deus me tira a poesia? Eu não sei não. Por isso vim aqui hoje. Na força do amor. Para ver se conseguia espremer alguma coisinha.

É inverno, mas eu saí para ver o sol. Agora é pôr as ideias para quarar no varal, bater um papo com o carinha lá de cima e ver o que acontece.

Seja o que a gente quiser.

O máximo que consigo fazer

Tenho pensado em tantos projetos incríveis que rondam minha cabeça.

Mas o máximo que tenho conseguido fazer é um arroz com feijão com um legume e uma farofa, tirar o lixo e passar uma vassoura na casa.

Tenho planejado escrever pelo menos metade do meu livro até o fim do ano. Minha biografia. O livro tão sonhado.

Mas o máximo que tenho conseguido fazer é rabiscar umas frases no caderninho da cabeceira, dar conta da roupa suja e ir ao supermercado.

Está na lista o curso de meditação, começar a yoga, caminhar no condomínio. Até voltar a pensar na minha tão amada dança de salão.

Mas o máximo que tenho conseguido fazer é acender um incenso no fim do dia, tomar um Torsilax para a lombar e me alongar um pouco no chuveiro.

Tenho idealizado muito as viagens e as aventuras que quero fazer antes dos 50 anos. São tantos lugares para ir. Tantas coisas diferentes para viver!

Mas o máximo que tenho conseguido fazer é almoçar na Barra da Tijuca no fim de semana, caminhar no Muriqui e tomar um sorvete em São Francisco.

Tenho sonhado muito em encontrar equilíbrio. Achar o sentido da vida, o propósito da minha existência e o porquê de estarmos aqui.

Mas o máximo que tenho conseguido fazer é olhar o céu com devoção todos os dias, agradecer por estar viva e sobreviver. Ah! E escrever umas crônicas de vez em quando. Como essa aqui.