
Como num filme, observo silenciosamente as cenas no cenário da casa:
a louça por lavar empilhada na pia, as roupas batidas na máquina esperando para serem penduradas, as roupas secas no varal esperando para serem recolhidas. A poeira no chão aguarda para ser aspirada. Os lixos, nas cestinhas de lixo pela casa, também aguardam para serem recolhidos. As mensagens de whatsapp azuis esperam por resposta. A conta de gás aguarda para ser paga. E os ovos em cima da pia aguardam para virar omelete.
Não é que nenhuma dessas coisas não sejam mais importantes. Elas são. E fazem parte de um cotidiano de quem existe e vive uma vida normal. Mas é que agora eu estou reaprendendo a olhar para elas de uma forma diferente. Não vou mais permitir que elas me consumam, como consumiam antes. Funções domésticas tem essa característica cruel: elas nunca terminam. E agora nada mais importa do que proteger minha vida criativa.
A não ser que seja um compromisso de aula, ou alguma coisa num caráter importantíssimo, a prioridade nesse momento é fazer diferente do que fiz uma vida inteira, isto é, abrir tempo, espaço e alma para a escrita.
Como pode uma ação tão pequenininha fazer tanta diferença no meu espírito? Ando animadíssima!
Queria compartilhar isso com vocês que me acompanham nesse momento tão importante. É realmente incrível constatar que a gente pode mudar um padrão tão antigo e tão arraigado, mesmo que seja aos 51 anos de idade.
Por tantos anos, li, estudei e grifei o capítulo de “Mulheres que Correm com os Lobos” que fala sobre “hambre del alma” e a necessidade vital do sustento da vida criativa. Lá, Clarissa sempre dizia que a arte não podia ser feita em apenas momentos roubados do dia. E que para vencer as infinitas demandas da vida externa, era preciso muita força, resignação e aprender a dizer “não” a tudo aquilo que roube nosso tempo. E nos impeça de acessar nosso mundo interno e subterrâneo.
Minha louça na pia me chama baixinho. Eu diminuo o volume de sua voz. Sinto muito, querida. Te lavarei mais tarde, quando tiver feito aquilo que mais importa nesse momento: aumentar o volume da MINHA voz.






