Uma Carta para Bel

Bel querida

Já tem mais de duas semanas que você partiu para as estrelas e que eu venho tentando escrever essa carta para você. Mas toda vez que começo, abre uma torneirinha aqui em cada olho e eu não consigo nem mais achar as letras no teclado. Engraçado como a lágrima é um condutor de memórias e sentimentos. Parece que quanto mais se chora, mais se tem vontade de chorar. E disseram para gente que a gente precisava chorar. Que não era bom segurar o choro porque ele devagarinho ia ajudar a doer menos.

Sabe meu amor, a gente não tava pronto para sua partida. Foi um susto para todo mundo. Porque tudo aconteceu mais depressa do que a gente podia compreender com a nossa mente humana. E o nosso coração. Você sabe né, as coisas aqui na Terra sempre precisam de explicação. E é praticamente impossível para gente entender a morte. Principalmente para aqueles que acham que a morte é o fim de tudo. Eu não tenho nenhuma religião, mas encontro muitas respostas na compreensão do que é espiritualidade.

Acho que a gente nunca tinha conversado sobre isso, mas nos últimos anos eu aprendi muito sobre esse assunto misterioso no xamanismo e como essa filosofia de vida “entende” a morte. É bem lindo e faz muito sentido para mim. No xamanismo, quando alguém desencarna, costumamos dizer que essa pessoa atravessou o rio e deixou de caminhar o Caminho Vermelho (o caminho da vida, do sangue, de quando estamos encarnados) e passou a caminhar o Caminho Azul, o caminho das estrelas, do céu, do retorno ao Grande Mistério. Você ia adorar esse papo todo, tenho certeza. Tantas coisas que eu ainda queria trocar com você…

Mas enfim.

Nessas duas semanas eu não parei de pensar em você um minuto sequer. Antes de começar a te escrever, montei um altar bem lindo com o seu nome no centro, embaixo de uma máscara de teatro. E vivi momentos de uma emoção muito, muito profunda, porque senti demais sua presença ao meu lado. Tenho feito assim. Quando a saudade aperta demais eu vou lá fora e olho as estrelas e converso com você. E é incrível como eu te sinto. Te vejo. Se eu fechar os olhos agora, posso ver seu sorriso, o brilho que tem nos seus olhos, o cheiro delicioso que vem dos seus cabelos, sua alegria que sempre me transbordou.

Ainda é difícil de acreditar que tenha partido. Porque você está muito presente dentro de nós. Você está em todos os lugares. Ainda pulsa e vai pulsar, enquanto nós estivermos aqui. E essa é a beleza da vida. O que fomos na vida uns dos outros. O que significamos para eles. O que deixamos plantado no coração de cada um com quem tivemos a chance de conviver. Sempre digo isso para as minhas filhas: o que deixaremos de legado após nossa partida? O Amor que pudemos amar. Já dizia Frida Kahlo: “Onde não puderes amar: não te demores.”

Eu te vejo assim. Um universo inteiro de amor numa única alma. Pura luz, pura beleza, pura alegria. Um anjo que passou por nossas vidas e que precisou voltar muito cedo às estrelas porque anjos são muito ocupados. Mesmo que a gente sinta que foi cedo demais, eu acredito que o Tempo da Terra não é o mesmo Tempo do Cosmos. E se você partiu é porque precisava ter partido. Porque tinha cumprido sua missão por aqui. E eu agradeço minha querida, agradeço e honro cada minuto passado ao seu lado. Cada abraço e sorriso que recebi seu, cada ajuda que me deu naquela peça de teatro que fizemos ano passado. Você foi a assistente mais maravilhosa que eu podia ter sonhado. E espero que me ajude esse ano, daí das estrelas. Eu vou precisar você sabe.

Quanto a sua família, fique tranquila. Estamos cuidando deles da melhor forma que podemos. E eu sei que você também estará cuidando deles daí de cima. E que em algum momento, todos se reencontrarão, igual aquele filme lindo “Viva, a vida é uma festa!” Marina me falou que tem quase certeza que você viu. Tomara!

Sabe que eu sempre sonhei que minha avó Luzia me buscasse na Estação, quando fosse minha hora de voltar para as estrelas. Mas agora conversei com ela e pedi que você venha também. Será que você pode me buscar quando for minha hora de atravessar o rio? Vai ser maravilhoso te reencontrar minha querida. Ser recebida por você nas estrelas vai ser uma das minhas maiores alegrias.

Sabe, eu não tenho nenhum medo de morrer. Meu único medo é partir antes das minhas passarinhas saberem voar sozinhas. Mas quem sabe desses planos é o Grande Espírito. Então, vou deixar com ele as Grandes Decisões. Por hora, vou cuidando aqui de tentar ser feliz e multiplicar esse amor que habita meu coração.

No fim do ano, quando decidirmos a peça, vou lá no terraço e leio o roteiro para você. Combinado? Ah! E uma última boa notícia: sabe a sala de teatro da Escola Nossa? Vai ser batizada com o seu nome.

Sala de Teatro Isabel Sampaio.

Não é incrível? Eu sabia que você ia gostar.

Me despeço com um abraço apertado e essa canção, que cantamos para você lá na Escola. O clipe é a sua cara!

Com todo o meu amor,

Tita

A casa com céu e o menino sem estrelas

Fevereiro agora faz um ano que eu ganhei um céu.

Um ano que eu passei a olhar para cima com uma sensação absoluta de propriedade. Difícil de explicar, mas explico.

O céu é um teto planetário misterioso que está lá todos os dias, para todos nós, desde o dia que nascemos até o dia que partimos. E desde pequenininha que eu tenho essa relação com ele de espanto e paixão, porque nunca consegui me acostumar com o deslumbramento das nuvens e das estrelas. Perdi a conta das horas que ganhei na vida deitada na grama olhando para essa coisa azul que ninguém explica.

Mas no ano passado eu tava em busca de uma nova casa que pudesse abrigar as meninas em quartos separados e qual não foi a minha surpresa quando descobri que tinha uma cobertura para alugar no meu condomínio, pelo preço de um apartamento normal, porque o terraço não tinha telhado, nem churrasqueira nem piscina. Só um céu. Mas as pessoas não estavam interessadas nisso.

Pois bem. Aluguei a cobertura e na primeira noite que dormi na casa nova, saí sozinha no terraço e fui invadida por um sentimento avassalador. Era uma noite estrelada, limpa, fresca. Silenciosa. Já era tarde e quase todas as luzes dos prédios vizinhos estavam desligadas. Eu me deitei no chão de braços abertos e bebi daquela imensidão como se estivesse vendo o céu pela primeira vez. Uma epifania pela qual nunca tinha passado. Como alguns poucos momentos que a gente passa e entende uma centelha da existência.

Enfim, me sentindo profundamente abençoada, segui meu ano colecionando céus, tempestades, pores e nasceres de sol, uns mais lindos que outros. Estrelas-cadentes, luas cheias e minguantes, arco-íris, gaivotas, balões, aviões. Meu céu tinha se transformado num divã: o melhor lugar para curar minhas angústias só pela simples contemplação do infinito.

E foi assim, observando essa imensidão, que um dia, eu descobri o menino sem estrelas.

Ele mora numa janela em frente ao meu terraço e quase todas as vezes que eu o busco no olhar, ele está lá, no mesmo lugar, no mesmo quarto, na mesma cadeira, olhando a mesma tela grande que reproduz imagens de um laptop, que reproduz imagens de uma guerra, onde ele está sempre atirando em alguém.  

É desesperador. Meu coração tem que se contraído ao observá-lo na mesma proporção que se expande ao olhar para o céu e eu não sei o que fazer com isso. Já tentei várias formas de me desapegar dessa história, mas a cada dia, me sinto mais envolvida na trama de observá-lo, assim como fazia o personagem de James Stewart em “A Janela Indiscreta” de Alfred Hitchcock.

Queria me desapegar do julgamento de vê-lo ali tão preso, mas não consigo. Queria tentar entender o que leva alguém tão jovem a encarcerar-se dessa forma, mas não consigo. Queria ter a coragem de chama-lo para a vida, mesmo sabendo que não tenho direito de achar que o que vive não é vida, mas não consigo.

Os sóis nascem, os dias correm, as luas chegam, as noites caem. E o menino sem estrelas está sempre ali. E não há nada que eu possa fazer por ele. A não ser sonhar com o dia que lhe mostraria o céu e a paleta de cores que pode surgir num entardecer. Ah, seu eu pudesse, mostraria ao menino os vários tipos de vento que o vento sabe ventar. E lhe mostraria a dança das folhas, a forma mágica das nuvens, o anúncio de calor que trazem as cigarras, a liberdade que nos ensinam os passarinhos. Esperaria ao seu lado o anoitecer e lhe ensinaria que a primeira estrela que nasce no céu não é uma estrela e sim um planeta. E que todas as mais lindas constelações tem nomes próprios e que surgiram para ajudar os nossos ancestrais a compreenderem os ciclos da terra e do tempo.

Eu sei que o menino nem imagina que eu existo. Mas se eu tivesse uma chance, uma chance apenas, diria a ele que a vida é um sopro e que o tempo passa depressa e que se ele não se atentar, vai perder a chance de viver, tudo que a vida tinha reservado para lhe dar.

A começar pelo céu.

Viagem ao fundo de mim

“Se você quer pegar um peixinho,
pode ficar em águas rasas.
Mas se quer um peixe grande,
terá que pescar em águas profundas”
David Lynch

E aí, eu resolvi escrever um livro.

Porque não dava mais para ficar calada, não dava mais para ficar parada.

Não dava mais para sentir e não registrar. Mas também não dava para registrar só as coisas que eu sentia na superfície. Era preciso ir mais fundo, era preciso ter coragem, era preciso tomar uma decisão.

Foi preciso dar um salto na escuridão.

E foi assim que a ideia do livro nasceu. Do desespero. Do choro vazio das coisas que se perdem sem sentido. Da falta absoluta de outra escolha que não fosse escrever. A ideia do livro nasceu da aflição da existência. Essas coisas que vem de um lugar muito estranho nos artistas. Das vísceras. De um profundo tão difícil de explicar quanto a própria existência.

E o salto na escuridão aconteceu. Não como quem se mata. Mas como quem renasce.

E desde então, escrevo sem parar. Há meses me sinto voando. Tentando não reler nada, não criticar nada. Tentando segurar a língua ferina do ego que pode silenciosamente me plantar a dúvida. Às vezes choro enquanto escrevo. Às vezes rio. Às vezes sinto uma clareza absoluta. Muitas vezes me perco. Mas lembro de Clarice quando ela diz: “perder-se também é caminho”.

Escrevo à mão. Jamais no computador.

E por vezes, me vejo como uma médium espírita incorporada, psicografando algo do além. Porque escrevo depressa, com os olhos semicerrados. Uma mão na caneta e outra segurando a cabeça, que pesa com tantas ideias e sentimentos. Numa urgência estranha, dessas que faz a gente achar que não tem mais tempo, porque talvez vá partir. Não para a morte. Mas para o parto. De algo que precisa desesperadamente nascer.

Esses últimos meses tem sido maravilhosos e sofridos. Na mesma proporção. Porque o meu escrever é simples, mas a tradução não é. Ela requer entrega. Verdade. Coragem. Ela requer uma escuta muito, muito apurada de um mundo invisível. O mundo paralelo das memórias. Tenho visitado lembranças de tempos remotos. Coisas da infância, da juventude, da luz e da sombra que já habitei. Da alegria e da dor. Do fácil e do terrivelmente difícil de ser visto. Mas é isso. Não consigo fazer diferente. Minha escrita é o que é e isso está posto.

Talvez eu nunca tenha me sentido tão feliz. E tão confusa. E eufórica. Mas eu agradeço.

Estou livre.

Sou um pássaro voando alto no céu de muitas nuvens. Me sinto o próprio vento, ventando ventanias. A chuva que chove abundante para encharcar a terra de tudo aquilo que ela precisa.

Estou livre. Porque pela primeira vez escrevo livremente.

Não sei se chegarei a algum lugar. Não sei se esse livro poderá ser compreendido. Não sei nem se algum dia conseguirei organizar tantos manuscritos. Não posso pensar nisso agora.

Se eu rezo para que esse livro termine?

Sim.

Eu rezo para que esse livro termine. Assim como rezo para ver minhas filhas crescidas e criadas para que possam voar sem mim. Assim como rezo para envelhecer lúcida, para que possa contar aos meus netos tudo que vivi. Rezo por saúde e a mínima compreensão do mundo antes de partir.

É.

Eu resolvi escrever um livro.

E isso está mudando tudo, dentro e fora de mim.

Que assim seja. E assim é.

Perdigotos da Alma

Arte de Anne Marie Zilberman

A vida às vezes se revela de forma estranhíssima. Mas é preciso estar atento e forte para decodificar os sinais, por mais esdrúxulos que eles pareçam ser.

Tudo começou na semana passada quando Catarina reclamou comigo, amorosamente, que eu agora tinha dado para cuspir enquanto falava.

Depois de fazer cara de nojo e rir, pedi desculpas para ela e disse que era um movimento involuntário. Que eu nunca tinha percebido isso em mim. Mas que ficaria atenta.

De noite comentei com Edu sobre o episódio e ele danou a rir. E confirmou que já tinha reparado que de uns meses para cá eu andava cuspindo para falar.

Cruzes, eu pensei. Troço mais nojento alguém que cospe para falar.

Dali em diante passei a me policiar. Até que um dia consegui confirmar o crime. Vi com nitidez o perdigotozinho ser expelido da minha boca. Que coisinha nojenta. Na hora me deu muita vontade de rir.  Depois me veio uma enorme curiosidade de entender, porque de um dia para o outro, eu tinha começado a cuspir para falar.

A resposta veio de uma forma mágica e surreal, como quase tudo na minha vida.

Eu estava folheando meu livro de cabeceira, “A Doença como Símbolo” de Rüdiger Dahlke (Pequena Enciclopédia de Psicossomática) a procura das possíveis causas emocionais da pressão alta do meu namorado, quando dei de cara com a palavra PERDIGOTO no dicionário.

– É agora, pensei comigo. É agora que eu vou entender esse cuspe na minha vida.

Qual foi o meu choque ao me deparar com o que estava escrito. Como um soco na boca do estômago, ou um safanão na cara daqueles de novela, as causas emocionais dos perdigotos me jogaram num vazio existencial profundo.

Lá dizia:

“Plano corporal: boca (expressão). Plano sintomático: cuspir ao falar, cuspir nos outros durante uma conversa: expressar agressividade inconsciente, fala molhada, fala da alma: a carência de uma participação anímica interior torna-se visível. Tratamento: tomar consciência dos planos que inconscientemente vibram junto com a fala, proporcionar válvulas libertadoras à alma em sua própria expressão, conceder espaço aos conteúdos que vem através dos modos de expressão.”

Gente! Que loucura!

Eu tô cuspindo nas pessoas porque não escrevo, porque há meses não expresso meus turbilhões internos, não dou vazão às questões da minha alma e não escrevo mais.

Caramba.

Caramba.

Aquilo foi para mim um dos maiores insights dos últimos tempos. Sem terapia, eu tinha conseguido sozinha entender de onde estava vindo tanta tristeza, apatia, desânimo, confusão mental e cuspe: falta de escrita.

As minhas desculpas são sempre as mesmas. Falta de tempo, excesso de demanda. Mas a verdade é que nos últimos meses desse conturbado ano de 2018 a gente tem vivido uma depressão coletiva. Com tudo que tá acontecendo fora, tem sido difícil acessar o dentro. Porque essa coisa de matar um leão por dia cansa muito. E quando eu chego em casa de noite, só penso em comer, tomar banho, engolir uma melatonina e cair dura na cama. Acho que esse processo é um desejo inconsciente que o sonho resolva para mim, tudo aquilo que eu não consigo resolver na realidade. Não é a toa que tenho tido tanto pesadelo. Mas enfim.

A verdade nua e crua é que talvez eu precise entender que muito mais importante do que dormir, seja despertar. E que escrever seja uma forma de salvar-me desse apocalipse que a gente tá vivendo. Há um peso generalizado. Da violência, da crueldade. Da impunidade, da falta de perspectiva de mudança.

Essa semana eu tive uma visão que estava perdida em alto-mar. Completamente sozinha. De longe eu me via, e não sabia o que fazer para me salvar. Até que a frase do Ferreira Gullar me chegou como um bote salva-vidas: a arte existe porque a vida não basta.

Pronto. Foi o que bastou para eu acordar e perceber que não dá para ficar cuspindo nas pessoas. Eu preciso escrever para entender o mundo. Eu preciso escrever para não morrer. Eu preciso escrever porque em algum lugar da minha alma, eu sinto que ao expor meu coração, eu ajudo a alguém a ter coragem de fazer o mesmo. É preciso encontrar uma forma de salvação em meio ao caos que vivemos. É preciso acreditar que a esperança é a última que morre. E quem sabe até, acreditar que a esperança não morre. Jamais.

O café com leite da Ari

E por falar em conversinhas com Deus, outro dia minha amiga e parceira Arianne me contou que tomava doze canecas de café com leite por dia. Levei um susto. Mas ela arrematou. “É meu jeito de me encontrar com Deus.”

Gente, achei essa uma das declarações mais bonitas que eu já ouvi na vida. E parei para pensar que essa coisa de querer ser “catadora de lindezas” no fundo, no fundo, é um pouco isso: esse desejo incessante de de querer encontrar com Deus.

Quando escrevi “Onde Habita Minha Alma”, aquela lista nada mais era do que um mapa do tesouro para encontrar com o Criador. Não que eu o perca de vista de vez em quando. Não. Deus está em mim e em todas as coisas. Mas foi o que disse ontem, as vezes eu fico surda. E essa possibilidade de ter um mapa, de poder ter um encontro mais íntimo com ele, mais tête-à-tête, me faz encontrar um pouco de sentido nessa coisa mega sem sentido que é a vida.

Meu pai é ateu. E eu tenho um monte de amigos que não acreditam em Deus. Tá tudo certo. Aos 44, finalmente entendi que não preciso convencer ninguém de nada. Mas também entendi que não preciso me desculpar por ter essa facilidade de comunicação com o cara.

Guimarães Rosa dizia que a “felicidade se acha em horinhas de descuido”. Eu vou além. Eu acho que em horinhas de descuido, eu sou como a Ari, que encontra Deus dentro do seu cafezinho com leite.

Esse texto é para você minha amiga, que me ensina tanto sobre a vida, todos os dias.

Chão de grama

Eu sou uma criatura de sorte.

De tempos em tempos, mesmo com a dureza crua dessa rotina que a gente insiste em viver, Deus me dá um sacode bonito e eu volto a ver um pouco daquilo tudo que está ao meu redor. O despertar dessa anestesia chega a ser emocionante de tão simples que é.

Todos os dias estaciono o meu carro na mesma vaga, na mesma posição, há mais de sete anos.

Mas hoje, depois de voltar do supermercado, minha retina ficou retida numa cena deslumbrante. O chão de grama estava coberto das pétalas da árvore. Coberto. Eu já tinha fotografado Catarina naquela grama, já tinha achado linda aquela cena, mas hoje aconteceu alguma coisa diferente dentro de mim que me fez ver aquilo tudo com os olhos da alma.

Como pode uma imagem estar carregada de tanta poesia? Tanta beleza, equilíbrio, delicadeza, simplicidade. É só um chão de grama coberto de pétalas de flor. É só um chão verde de grama fresca coberto de finas pétalas cor de laranja. Como pode?

Foi naquele pedacinho de mundo hoje que eu entendi um monte de coisas. Mas uma delas é que esse é o caminho que eu quero caminhar na minha vida. Um caminho de poesia e delicadeza. Um caminho simples onde eu possa de vez em quando ouvir Deus falando comigo.

Carta aos meus pés

Meus queridos pés,

Caminhamos juntos há quase quarenta e quatro anos.

Chegamos a esse planeta num parto rápido e indolor, num país chamado Brasil, mais precisamente nas terras de Minas Gerais, no outono de abril de 1973.

Não demoramos muito a nos firmar no chão. Nossos primeiros passos foram dados em Teresópolis, numa solitária casinha no Vale São Fernando.

Nossos primeiros anos foram preciosos.

Nos refrescávamos em riachos, pisávamos felizes em pedrinhas, grama verde e chão de terra batida. Corríamos livres por colinas e bosques. Subíamos em árvores altas, escalávamos montanhas, percorríamos nosso pequeno mundo com curiosidade. Tínhamos muita coragem.

Crescemos e fomos parar na cidade grande. Estranhamos muito o Rio de Janeiro. A dureza do asfalto, a pressa das pessoas, a ausência dos vaga-lumes. Mas nos encantamos a primeira vez que pisamos na areia da praia de Ipanema. Encontramos o mar e o mar nos curou da saudade da terra.

Foram anos bonitos também.

Andávamos de patins, de bicicleta. Aprendemos a dançar, a gostar da cidade, tínhamos muitos amigos. Até que um dia encontramos um solo tão precioso para nós quanto um dia tinha sido a terra. Lembram? Foi quando pisamos num palco de teatro pela primeira vez. Depois de muitos anos, tínhamos encontrado de novo um lugar no qual nos sentíamos em casa.

Foram anos emocionantes.

Brincávamos de ser outros pés, de existir de outras formas. Sonhávamos acordados, voávamos para onde queríamos. Descobrimos que a vida era sonho e que sonhar também podia ser uma forma de caminhar pelo mundo.

Mas o tempo passou. E o tempo nos trouxe o tempo de carregar outros pés dentro de nós. Colocamos no mundo dois pares de pezinhos encantadores. E encontramos de novo o sentido de existir.

Foram anos incríveis. E muito trabalhosos também.

Porque passávamos quase o tempo todo ou alimentando os pezinhos ou correndo atrás deles. Acho que nunca podíamos imaginar o que significava colocar outros pés no mundo.

Foi quando a vida nos levou a percorrer outros solos do nosso país. Fomos para São Paulo, para Joinville. Mudávamos de endereço como quem muda de sapato. Buscávamos alguma coisa que nunca encontrávamos.

Foram anos estranhos.

Até que chegamos a Niterói. Cidade que vivemos hoje. E durante muito tempo aqui fomos felizes. Até que vocês adoeceram.

Há mais de um ano, vocês passaram a sentir muitas dores para caminhar. No início, a dor acontecia somente na hora de sairmos da cama. Eram os primeiros passos depois do sonho que nos faziam sofrer. Mas com o passar dos meses, a dor no caminhar foi se transformando em algo constante e muito angustiante para nós.

Falo com vocês, tento entender o que sentem, mas nenhum dos dois parece me ouvir. É onde nós estamos que vocês não querem mais estar? É por onde caminhamos que vocês não querem mais caminhar? A dor paralisou vocês e eu preciso entender por que.

Temos vivido um período de profunda tristeza. Cuido de vocês com toda a dedicação. Já fiz de tudo que podia. Tudo que estava ao meu alcance. Massagem com cremes, banhos de óleo com canela. Salmoura com ervas. Gelo úmido. Comprei sapatos confortáveis. Tomei anti-inflamatórios, babosa, florais. Encomendei pantufas coloridas. Toalhas felpudas para secar vocês. Fiz fisioterapia com bolinhas, moxabustão. Fiz carinho. Escrevi em vocês palavras de amor e cura. Os abracei com amor. Mas nada parece ajudar.

Meus pés, meus queridos pés

O que é que vocês estão tentando me dizer com essa dor que não cessa nunca? Que vocês não querem mais caminhar? Ou que não suportam mais o caminho que escolhemos trilhar?

Será que não nos enraizamos o que precisávamos para estar aqui? Será que nunca ancoramos na Terra como deveríamos? Ou será que precisamos agora de asas para voar?

Meus pés, falem comigo. Me digam o que preciso fazer para que parem de chorar.

Sei que sentem falta do tempo que andávamos livres por riachos e também sentem saudade dos palcos da vida. Mas será que são essas ausências que fizeram vocês adoecerem? Me deem uma pista do que posso fazer. Por vocês… por nós.

Se estamos vivos, é sinal de que nossa missão ainda não chegou ao fim.

Mas não me deixem aqui sozinha. Caminhar sem vocês não faz sentido algum. Porque não conseguirei caminhar por inteiro. E muito menos ser feliz.

 

 

O ancião de barro

Comprei um filtro de barro esses dias.

Depois de passar anos sonhando com essa peça de museu, outro dia achei uma loja no centro de Niterói que tinha um com preço ótimo. Trouxe o bichinho para casa com o amor e o cuidado como quem traz um filho recém-parido da maternidade.

Os primeiros dias foi uma história de amor. A gente não parava de se namorar.  Era eu passar pela cozinha que queria fazer um carinho nele.

Passada a primeira semana, comecei a perceber que ele era um pouco lento na filtragem. O vendedor tinha me alertado sobre isso, disse que a vela demorava um pouco para ganhar velocidade.

Esperei mais uma semana.

Duas.

Três.

Com um mês de filtro, a paixão começou a virar irritação. As meninas começaram a reclamar de falta de água, eu perdia a conta de quantas vezes já tinha enchido e esvaziado a botija e no frigir dos ovos, estava comprando mais garrafas d’água na padaria do que pão.

Foi quando me deu o clique.

Eu tinha sentado para tomar um café na mesa da cozinha, de tarde, sozinha. E enquanto esperava o café esfriar na xícara, olhei fixamente para o filtro. Com a mesma raiva embotada de antes. Até que o mundo ao meu redor escureceu. E o filtro, sozinho no meu campo de visão, sussurrou o que eu precisava ouvir. E eu entendi. Entendi tudo.

O filtro não era só um filtro. Era um retrato do tempo. Não como uma ampulheta, mas como um velho ancião, um sábio, que chega à vida da gente para nos ensinar lições profundas sobre a existência.

Eu senti vergonha de mim. Da minha pressa, do meu imediatismo, da minha surdez. Aquele filtro tava tentando, há mais de um mês, me ensinar que por mais que eu tente, por mais que eu corra, por mais que eu queira o tempo não vai ser o tempo que eu quero que ele seja. O tempo é do tempo que as coisas precisam para ser. Para existir.

Como a mãe que espera para ver o filho nascer, o arco-íris que espera a chuva cair, uma planta que espera para florescer, um dia que espera a noite chegar, uma lua que espera para mudar, uma maré que espera para encher, uma vela que espera para queimar, um fruto que espera para amadurecer, uma vida que espera para findar.

A gente não tem mais tempo de esperar. A gente quer a vida depressa, a gente quer a vida pronta. Tem microondas para descongelar o feijão. Tem despertador para acordar da ilusão. Tem Waze para cortar o trânsito, tem Whatsapp para encontrar as pessoas, tem Facebook para validar a vida. A gente tem isso tudo, mas tempo, isso a gente não tem mais.

Depois desse dia, passei a olhar para o filtro com uma enorme gratidão. Porque ele estava ali, na minha cozinha, para me lembrar todos os dias, que eu não preciso correr tanto para viver. E que para ser – ser num sentido mais profundo de existir – eu vou precisar mesmo caminhar no contra fluxo do mundo. Mesmo que isso seja difícil. Mesmo que todo mundo me estranhe.

O que está posto não muda. O que muda é o nosso jeito de caminhar. O nosso poder de escolha. Eu escolho por uma vida menos acelerada e mais cheia de sentido. Eu escolho filtrar e deixar para trás tudo aquilo que me não me alimenta e não me faz bem. Eu escolho desacelerar minha corrente sanguínea, meu batimento cardíaco, para simplesmente voltar a ter algum tempo.

Pensar que no dia que comprei o filtro de barro, estava comprando de volta a minha liberdade.

A vida é maravilhosa.

Catadora de Lindezas

Arte de Pieter Bruegel

Para Rosane

Esse ano eu amanheci diferente.

Também pudera.

Dia 31 não fiz nenhuma lista de metas para o próximo ano. Não prometi nada para ninguém nem para mim mesma. Não fiz nenhuma expectativa para a festa de réveillon. Não tive pressa do tempo.

No último dia do ano, passei o dia experimentando a difícil e linda tarefa de não reclamar de nada. De verdade.  Respirando fundo quando me aborrecia. Agradecendo mentalmente tudo aquilo de maravilhoso que tenho em minha vida. Agradecendo a chance de estar viva e poder recomeçar.  Tentando me perdoar pelos erros que ainda me atormentavam. Mas, sobretudo, desejando ter entendido tudo que a vida me ensinou, para pelo amor de Deus não ter que voltar para mesma lição, toda de novo, no início do ano.

Esse ano eu amanheci diferente.

Com um propósito simples de olhar para vida de um lugar diferente. Todos os dias. Como se eu simplesmente pudesse mudar de ângulo. De perspectiva. Numa mesma vida. Num mesmo corpo. Numa mesma alma. E parte dessa decisão se conectava justamente ao ato de não querer mais reclamar. Reclamar é um veneno que intoxica. E apodrece a gente por dentro.

Transformar o lamento em alguma coisa melhor pode ser um ato diário extraordinário. Porque todos os dias eu preciso lavar louça. Mas não é por causa disso que preciso me estressar tanto. É preciso reinventar a coisa. É preciso aprender a brincar com a espuma. Conversar com as xícaras.  Fazer poesia com as panelas.

Foi quando me lembrei de um texto que recebi de uma amiga querida esse ano que dizia assim:

“Eu venho de um lugar que é luz mesmo em noite escura. Que é paz, fé e carinho.
Eu venho de lá e não estou sozinho, “sou catador de lindezas”, sobrevivo de encantamento, me alimento do que é bom, do bem. Procuro bonitezas e bem querer, sobrevivo do que tem clareza e só busco o que aprendi a gostar.”

Nessa hora, minha alma deu um estalo. E eu decidi o que queria fazer em 2017. Ser catadora de lindezas. Virar uma caçadora de poesia nas coisas escondidas. Mudar o olhar para o mundo. E fazer isso diariamente. Não só no dia de inspiração profunda. Mas também no dia da tristeza, do mau humor, da desesperança. Para mudar, é preciso alterar as nossas configurações mais profundas. Parar de reclamar é uma escolha. Viver poeticamente também.

Esse ano eu amanheci diferente.

Também pudera.

Voltei a escrever.

P.S. O trechinho do texto lindo é da autora Rita Maidana.

Uma carta para Marcia do Valle (ou esse labirinto dentro da gente)

labirinto-de-loureiros-em-glendurgan

Marcinha, minha amiga querida

Há umas semanas atrás você encontrou Clara e Catarina no ônibus e perguntou sobre os meus textos. “Cadê os textos da tua mãe, gente?” Elas riram. Adoram você. E trouxeram a notícia como quem traz uma sementinha. Jogaram a coisa dentro de mim e quem diria, a coisa brotou.

Desde então não paro de pensar em você. E nesse vazio que ficou lá no “Onde Habita Minha Alma” desde que me perdi pela última vez. Levei um susto ontem quando me dei conta que tem mais de dois meses que eu não escrevo. Nem uma linha sequer.

É impressionante como a gente se perde nessa vida. A toda hora. A todo instante. Eu sou mestra em me perder de mim mesma. E me encontrar. E logo em seguida me perder. Até parece que a minha existência foi plantada num labirinto.

A grande verdade minha amiga, é que essa coisa de existir para mim é bem complicado. Principalmente existir todos os dias. Porque se eu tivesse que existir só de vez em quando, talvez eu desse conta. Mas todo dia po. É uma canseira esse troço. Principalmente quando a gente se exige inteireza. Aí é que a coisa pega.

Minha alma é um vendaval, você sabe. Bastou ventar mais forte que eu me desequilibro. Há dois meses minha vida deu uma desmoronada – nada grave, os desmoronamentos normais da vida – e aí eu fiquei sem telefone, sem internet, depois tive que mudar às pressas de onde eu morava para o antigo apartamento da minha mãe e desde então, passei a viver acampada entre caixas. Se isso já é uma coisa esquisita, imagina para uma taurina? Fora que eu ando trabalhando exaustivamente na Escola. E trabalhando exaustivamente nesse projeto que é criar dois seres humanos. Parece bobagem . Mas foi o bastante para me perder. E quando eu me perco, a primeira coisa que acontece é eu parar de escrever.

Deveria ser o contrário né. Lembra daquela mãe-de-santo que me disse uma vez que minha escrita deveria ser meu porto seguro, meu norte, minha bússola? Pois é.  Pois eu nunca consigo colocar isso em prática. E ao invés de jogar esse bote salva-vidas na água, eu fico me afogando que nem uma louca no mar de todos os dias. Por que eu faço isso? Porque eu sou um ser humano e apesar de toda genialidade genética da minha espécie, no fundo eu sou um poço de contradição e chatice.

Mas enfim, minha bichinha, às vezes a mágica acontece e uma pessoa do nada chega na vida da gente e sopra uma esperança. Como foi o seu caso, lá naquele ônibus, quando fez a tal pergunta para as meninas.

Por isso, e por mais um bocado de saudade, resolvi vir aqui te escrever e dizer, que mesmo perdida, eu vou seguindo o curso do rio. Porque no fundo acredito que alguma hora, alguma correnteza vai fazer sentido. Que as desventuras em série vão se esclarecer, os medos vão se dissipar e o equilíbrio vai voltar a governar. Pelo menos até a próxima encruzilhada.

Tem duas coisas que tem me ajudado muito no labirinto: uma é chamar pelo presente. Conhece aquele gnomo da luz, Eckart Tolle? Cara, desde que descobri esse homem e essa teoria do “Poder do Agora” que não paro de pensar no quanto é possível dissipar as angústias se a gente chama pela nossa simples presença nos dias. Essa teoria dele é genial, mas como tudo no cotidiano, fica forte quinze minutos e se perde no resto das 23 horas e quarenta e cinco minutos do dia. Mas esses quinze minutos! Ah caramba! É o nirvana. Porque é isso Marcinha! Não existe nada que não seja o momento presente. No fundo, no fundo, repara. A gente tá sempre sofrendo muito pelo que passou ou pelo que ainda nem chegou. Faz uma lista! É impressionante descobrir o quanto a gente é refém dessa merda de mente pensadora enlouquecida e esquizofrênica. Mas enfim.

E a outra é pensar, assim que eu acordo, onde é que está meu coração naquela manhã. Aprendi isso com uma amiga querida aqui de Niterói, a Catita. Uma irmã de caminho maravilhosa que você ia adorar conhecer. Ela me ensinou que grande parte da desconexão da gente diária se dá, porque nem todo dia a gente sabe onde está nosso coração. Situá-lo no mundo significa essencialmente nos ouvir a cada manhã. Entender e acolher a forma que acordamos. Entender se estamos fortes para a luta, ou sensíveis demais. E nos alinhar para a forma que conduziremos o dia. E nos respeitar apesar de todos os pesares.

Eu me alinho muito quando ouço músicas que habitam minha alma. E acendo uns incensos cheirosos. E tomo um café com Adélia Prado e faço minhas preces de gratidão à vida e a todas as infinitas bênçãos que tenho – apesar de ainda desejar tantas que ainda não tenho (olha a contradição aí de novo pentelhando). Mas enfim, paciência Tatiana, paciência com a sua humanidade.

E como humana anônima repito: só por hoje consegui escrever. Só por hoje consegui me conectar. Só por hoje tenho coragem de confessar: morro de saudade e desejo de voltar aos palcos contigo. Uma hora dessas, eu encontro a saída e a gente vai ser capaz de se reencontrar. Não só na vida, como na arte.

Te amo, minha irmã. Nunca se esqueça.

Beijos da tua eterna, Tatiane Pelinque