
Bel querida
Já tem mais de duas semanas que você partiu para as estrelas e que eu venho tentando escrever essa carta para você. Mas toda vez que começo, abre uma torneirinha aqui em cada olho e eu não consigo nem mais achar as letras no teclado. Engraçado como a lágrima é um condutor de memórias e sentimentos. Parece que quanto mais se chora, mais se tem vontade de chorar. E disseram para gente que a gente precisava chorar. Que não era bom segurar o choro porque ele devagarinho ia ajudar a doer menos.
Sabe meu amor, a gente não tava pronto para sua partida. Foi um susto para todo mundo. Porque tudo aconteceu mais depressa do que a gente podia compreender com a nossa mente humana. E o nosso coração. Você sabe né, as coisas aqui na Terra sempre precisam de explicação. E é praticamente impossível para gente entender a morte. Principalmente para aqueles que acham que a morte é o fim de tudo. Eu não tenho nenhuma religião, mas encontro muitas respostas na compreensão do que é espiritualidade.
Acho que a gente nunca tinha conversado sobre isso, mas nos últimos anos eu aprendi muito sobre esse assunto misterioso no xamanismo e como essa filosofia de vida “entende” a morte. É bem lindo e faz muito sentido para mim. No xamanismo, quando alguém desencarna, costumamos dizer que essa pessoa atravessou o rio e deixou de caminhar o Caminho Vermelho (o caminho da vida, do sangue, de quando estamos encarnados) e passou a caminhar o Caminho Azul, o caminho das estrelas, do céu, do retorno ao Grande Mistério. Você ia adorar esse papo todo, tenho certeza. Tantas coisas que eu ainda queria trocar com você…
Mas enfim.
Nessas duas semanas eu não parei de pensar em você um minuto sequer. Antes de começar a te escrever, montei um altar bem lindo com o seu nome no centro, embaixo de uma máscara de teatro. E vivi momentos de uma emoção muito, muito profunda, porque senti demais sua presença ao meu lado. Tenho feito assim. Quando a saudade aperta demais eu vou lá fora e olho as estrelas e converso com você. E é incrível como eu te sinto. Te vejo. Se eu fechar os olhos agora, posso ver seu sorriso, o brilho que tem nos seus olhos, o cheiro delicioso que vem dos seus cabelos, sua alegria que sempre me transbordou.
Ainda é difícil de acreditar que tenha partido. Porque você está muito presente dentro de nós. Você está em todos os lugares. Ainda pulsa e vai pulsar, enquanto nós estivermos aqui. E essa é a beleza da vida. O que fomos na vida uns dos outros. O que significamos para eles. O que deixamos plantado no coração de cada um com quem tivemos a chance de conviver. Sempre digo isso para as minhas filhas: o que deixaremos de legado após nossa partida? O Amor que pudemos amar. Já dizia Frida Kahlo: “Onde não puderes amar: não te demores.”
Eu te vejo assim. Um universo inteiro de amor numa única alma. Pura luz, pura beleza, pura alegria. Um anjo que passou por nossas vidas e que precisou voltar muito cedo às estrelas porque anjos são muito ocupados. Mesmo que a gente sinta que foi cedo demais, eu acredito que o Tempo da Terra não é o mesmo Tempo do Cosmos. E se você partiu é porque precisava ter partido. Porque tinha cumprido sua missão por aqui. E eu agradeço minha querida, agradeço e honro cada minuto passado ao seu lado. Cada abraço e sorriso que recebi seu, cada ajuda que me deu naquela peça de teatro que fizemos ano passado. Você foi a assistente mais maravilhosa que eu podia ter sonhado. E espero que me ajude esse ano, daí das estrelas. Eu vou precisar você sabe.
Quanto a sua família, fique tranquila. Estamos cuidando deles da melhor forma que podemos. E eu sei que você também estará cuidando deles daí de cima. E que em algum momento, todos se reencontrarão, igual aquele filme lindo “Viva, a vida é uma festa!” Marina me falou que tem quase certeza que você viu. Tomara!
Sabe que eu sempre sonhei que minha avó Luzia me buscasse na Estação, quando fosse minha hora de voltar para as estrelas. Mas agora conversei com ela e pedi que você venha também. Será que você pode me buscar quando for minha hora de atravessar o rio? Vai ser maravilhoso te reencontrar minha querida. Ser recebida por você nas estrelas vai ser uma das minhas maiores alegrias.
Sabe, eu não tenho nenhum medo de morrer. Meu único medo é partir antes das minhas passarinhas saberem voar sozinhas. Mas quem sabe desses planos é o Grande Espírito. Então, vou deixar com ele as Grandes Decisões. Por hora, vou cuidando aqui de tentar ser feliz e multiplicar esse amor que habita meu coração.
No fim do ano, quando decidirmos a peça, vou lá no terraço e leio o roteiro para você. Combinado? Ah! E uma última boa notícia: sabe a sala de teatro da Escola Nossa? Vai ser batizada com o seu nome.
Sala de Teatro Isabel Sampaio.
Não é incrível? Eu sabia que você ia gostar.
Me despeço com um abraço apertado e essa canção, que cantamos para você lá na Escola. O clipe é a sua cara!
Com todo o meu amor,
Tita








