
Sempre fui louca por São Francisco.
Quando vim morar em Niterói, há 15 anos, ele era o lugar de refúgio da minha alma. Bastava olhar para aquela praia que tudo se arrumava por dentro.
Tem 18 dias que eu estou morando nesse paraíso e já pude observar tantas curiosidades pitorescas sobre o bairro que resolvi escrever sobre isso.
Vocês sabem como eu sou. Quando a coisa transborda, preciso escrever, senão a alma entope.
A primeira coisa que tem me impressionado por aqui é a refinada e disparatada diferença entre as classes sociais. Eu sei que praticamente todos os lugares do Brasil vivem isso. Mas aqui tem alguma coisa diferente.
Explico.
Na calçada dos restaurantes a noite – todos caríssimos e chiquérrimos – tem o povo cheio da grana, cheiroso e feliz, degustando canapés da Paludo, chopinho de trigo da Noi e sushis maravilhosos do Sunsaki.
Mas se você atravessar a rua e for para o calçadão, vai ver uma infinidade de famílias, com nem um décimo da grana dos grã-finos, passeando felizes também, comendo cachorro quente, algodão doce e milho verde, como se aquele fosse o sábado mais importante do ano. Muitos casaizinhos com filhos pequenos, avós, tios, primos. Todos juntos. Em caravana.
Achei tão curiosa essa geografia social que não me impressionei quando comecei a fazer caminhadas pelas ruas de dentro do bairro, naquele delicioso labirinto de ruas com nomes indígenas.
Num mesmo quarteirão podemos admirar uma casa no estilo mansão do Morumbi, cheia de bromélias e mini Palmeiras no jardim, colunas de mármore na varanda e duas Landrovers estacionadas na garagem. E ao lado, literalmente ao lado, um casebre, habitado por quem um dia foi Barão e hoje não é nem pé-de-chinelo. São muitas as casas deslumbrantes que convivem lado a lado com casas que nitidamente são de famílias que faliram e nunca mais puderam fazer nenhum tipo de manutenção e estão caindo aos pedaços.
Que mundo bizarro.
É o Praia Clube São Francisco e o Morro do Preventório olhando para o mesmo paraíso. A mesma praia. Que cá entre nós, não tem preço, porque para a natureza não existe isso de desigualdade social. A beleza é gratuita.
Definitivamente não vai ser nessa vida que eu vou entender sobre dinheiro e o sistema que existe por trás dele.
Tudo bem. Quem sabe na próxima encarnação.
