Tempo tempo tempo

Ô tempo, para de me espremer pelo amor de Deus.

Que coisa chata essa sua insistência em ficar me apressando e me apertando!

Você não sabe que não adianta me pressionar que eu não vou viver aprisionada na sua ampulheta?

Você não sabe que não faz sentido para mim viver assim no automático, como um robô, só cumprindo tarefas?

Eu não quero ficar encarcerada nessa jaula sem grade que é viver a vida em contagem regressiva.

Eu não uso relógio. Sabe por quê?

Porque não quero que você me controle. Controle minha mente, meu pulso, minhas mãos.

Eu quero viver sentindo. Percebendo o mundo. Apreendendo as experiências. E não tem hora certa para se sentir a vida. Ela acontece.

Eu quero estar no presente. Já aprendi que o futuro só me traz ansiedade e o passado, melancolia. Eles quase sempre são armadilhas perversas da mente. E desculpe se eu te ofendo falando isso, mas você geralmente compactua com eles nessas armadilhas.

Tá, eu sei que você foi uma coisa inventada pelo homem e que não tem culpa de ter nascido. E entendo também que em determinado momento da história, foi necessário organizar os ciclos, por uma demanda da sociedade. Não se podia mais viver só calculando dia e noite, primavera, verão, outono e inverno.

Mas convenha comigo, nesse momento, você anda enlouquecendo todo mundo.

Eu sei que a responsabilidade não é só sua. Que muita coisa aconteceu e desgovernou o mundo. Essa coisa de internet, redes sociais, mundo globalizado, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Na época dos bondes, a gente não sabia de tudo que estava acontecendo no mundo, em tempo real. E isso é muito opressor.

Mas essa criação diabólica do homem teve ajuda sua, sim senhor.

Ah tem gente que não liga para isso?

É, pode até ser. Mas esse surto de ansiedade mundial você acha que vem de onde? De contemplar o pôr-do-sol? Claro que não né. É dessa pressa desesperada que todo mundo está de cumprir suas milhões de demandas diárias.

Eu tenho muita dificuldade com essa urgência maluca que o mundo impôs para gente. E se você não é o único vilão da história, eu sinto muito. Grande parte da loucura leva seu nome e não há nada que possa ser feito.

Eu posso assumir menos coisas para o ano que vem?

É, até que essa não é uma má ideia.

Nisso você tem razão. A gente assume coisas demais na vida. Compromissos demais, responsabilidades demais. Depois não sabe por que tem que tomar ansiolítico e antidepressivo.

Eu vou pensar nas mudanças que quero fazer para o ano que vem. Adoro anos pares! Vou ver o quanto de carga horária posso diminuir, o quanto de tempo posso reduzir para as coisas sem significado. Preciso arranjar umas brechas para o nada.

Drummond falava disso: “a vida necessita de pausas”.

E se a gente vive a vida sobrevivendo, apagando incêndios, quase se afogando na turbulência das horas, não sobra tempo para as pausas.

É na pausa que a gente vê o sol nascer. É na pausa que a gente sente o vento. É na pausa que mora a chance da gente meditar. Silenciar. Serenar. Sentir.

Eu sei que é a sua função organizar o mundo. Mas pega mais leve com a gente, Tempo. Por favor.


Tá difícil de aguentar essa pressão. Ninguém aguenta ser sugado e vampirizado desse jeito que você tem feito. A existência fica muito insignificante e medíocre se a gente vive só para cumprir compromissos, agendas e horários.

Por que você não tira umas férias? Talvez até você esteja precisando de um tempo para descansar.

Não é?
Você tá chorando, Tempo?
Só porque eu falei de férias?
Ô meu Deus, você também está estressado.
Vem cá, deixa eu te dar um abraço.

O que achou?