Confie

Algum tempo atrás, não me lembro bem quando, eu fui tomada por uma coragem súbita, entrei num estúdio de tatuagem e disse pro moço: por favor, será que o senhor podia escrever aí no meu punho a palavra coragem? Tinha que ser o punho da mão direita, que é a mão que eu uso para escrever. Ele me olhou com uma cara de quem não entendeu nada, mas respondeu simpático: como a senhora quiser!

Ele não imaginava, mas aquele era um movimento de urgência máxima, uma estratégia quase desesperada de quem tinha muito a dizer, mas não conseguia colocar para fora palavra alguma. E agora, apesar da palavra já estar meio gasta na pele que vai envelhecendo, ela ainda me motiva muito quando a olho escrita no meu braço.

Mas de um ano para cá, ando encasquetada de precisar tatuar outra palavra: confiança.
Eu não sei de onde vem esse delírio que tatuando o que me falta, eu vou conseguir por osmose da tinta sagrada, adquirir aquilo que me escrevo. Mas prefiro acreditar nisso a não acreditar em nada.

A verdade é que ando oscilando muito na minha fé. Porque fico entre a realidade crua dos dias e dos conflitos da vida e o deslumbramento da magia que é a própria vida. Ok. Bem-vinda ao mundo dos encarnados, Tatiana. Mas caramba. Como eu queria ter uma fé inabalável como tinha Santo Agostinho quando dizia que “fé é crer no que não vemos. O prêmio da fé é ver o que cremos”. Esse homem pode ter vivido muitos conflitos, mas se tem uma coisa que ele teve certeza era sobre sua fé. Bom, isso a gente acha né. Não sei o que se passava nos recôncavos da alma de Santo Agostinho, mas que a frase dele é inspiradora, isso é.

Confiar é um ato de fé.

Mas confiar para mim é como se jogar num abismo de braços abertos e acreditar que no final, tudo vai dar certo. Minha terapeuta costumava dizer: faça sua parte do que sonha que o Cosmos vai fazer a dele. Essa frase me acompanha desde então, mas nunca tive coragem de tatuá-la. Essa frase é coisa séria.

2024 chegou todo novinho, todo carregado de esperança, mas trouxe com ele um monte de probleminhas velhos que eu amaria que tivessem ficado para trás.

Problemas de dinheiro, de moradia, de trabalho, de disciplina para conseguir fazer tudo que a minha alma precisa. Nunca vi tanto nó para desamarrar. Haja confiança para não sucumbir no primeiro mês do ano. Mas enfim…

Eu sinto que esteja fazendo minha parte, mas por que será que não consigo sentir profundamente a confiança necessária para acreditar que tudo vai dar certo no final? Onde será que mora em mim essa dúvida? Essa vírgula? Esse… mas?

Fecho os olhos. Respiro. Acendo a vela. O incenso. Me conecto ao silêncio mais profundo que possa existir dentro de mim. Respiro de novo. E de novo. Por uma fração de segundos, consigo compreender que estou no lugar certo, na hora certa, vivendo as coisas que preciso viver, para chegar onde desejo e preciso tanto chegar.

Esse segundo vivido, de incompreensível certeza, quem sabe… esse trocinho minúsculo que mora entre um sopro de vida e outro, possa ser chamado de fé.
É possível.
É muito possível.

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