Viagem no Tempo

Ontem aconteceu uma coisa extraordinária aqui em casa: acabou a luz.

Não sei se porque choveu, ou ventou. Só sei que umas sete horas a luz se foi e não voltou mais. A princípio todo mundo reclamou. Eu estava fazendo jantar, as meninas estavam cada uma em seu universo. Catarina no computador, Clara no Instagram, Edu vendo TV e João jogando no celular.

Acendemos algumas velas pela casa. Tentando ambientar os olhos e o corpo para aquela escuridão repentina, vi o pessoal perambulando pelos cômodos meio perdido. Um silêncio tranquilo se instalou pela casa. Pela rua. Pelo bairro.

Aos pouquinhos fui percebendo que aquelas velas me faziam viajar no tempo. Num tempo não muito distante do nosso, mas numa configuração de cotidiano completamente diferente pelo simples fato de não existir luz elétrica. A sensação era muito boa. De uma serenidade estranha, incomum.

As meninas foram chegando na cozinha, oferecendo ajuda com a comida. João e Edu resolveram colocar a mesa. Começamos a conversar sobre como devia ser o mundo antes da tecnologia. Alguma coisa começou a acontecer com a gente. Como se de repente, naquela luz tão calma, nossa alma pudesse se acalmar também.

Nos sentamos para comer numa mesa cheia de velinhas – como é linda a luz da vela – que nem parecia a mesma casa barulhenta de antes.

Depois do jantar lavamos a louça, arrumamos a cozinha e fomos para sala. Uma chuvinha caia lá fora. Clara resolveu pintar. Catarina começou a ler. Edu, João e eu ficamos conversando, rindo de coisas que tinham acontecido durante o dia.

Fui deitar impressionada com o que tinha acontecido com a gente. Tínhamos ficado juntos, como há muito tempo não ficávamos. Juntos de verdade, não somente coabitando o mesmo espaço.  

Dizem que os cronistas são nostálgicos. Mas como não sofrer de nostalgia e saudade de um tempo em que a vida parecia tão mais simples e profunda? Uma época em que o excesso de estímulos não transformava as pessoas em zumbis, hipnotizadas pelos aparelhos elétricos, celulares, computadores, tablets e smarts tvs. Ai ai.

Estou ansiosa pela próxima falta de luz lá em casa. Ansiosa por viajar no tempo e exercer com a minha família a oportunidade única de estar inteira e presente para eles. Para mim mesma e para a história das nossas vidas.

O que achou?