Adeus, Bosque

Aqui entre caixas de papelão, paredes meio pintadas e malas prontas, tropeço em mim sem conseguir me encontrar direito.

Ô troço forte que é mudança, ainda mais quando a gente ficou no mesmo lugar durante tanto tempo.

Doze anos morando num Bosque. Doze anos lutando contra mosquitos. Doze anos me sentindo segura. Doze anos é muito tempo de uma vida.

Quando vim para cá, Catarina tinha três anos de idade. Celebramos os oito anos da Clara na primeira festinha em casa. Depois teve os 10 no Salão com direito a show dos primos. Depois 15 anos dela mesma na festa fosforescente. Os 10 da Cata na festa de Unicórnio. Parece que uma vida inteira passou nesses 12 anos.

Me lembro como se fosse hoje os primeiros amigos que vieram beber cerveja comigo na recém-inaugurada varanda e eu aflita pedindo silêncio, já que parecia tão tarde.

Foi Mari, minha amiga-irmã que disse:
– Tatoca, cê acha que vai conseguir enganar seus vizinhos por quanto tempo sobre quem é você?

Nunca esqueci disso.

Depois relaxei porque é assim mesmo. A gente não consegue esconder quem se é por muito tempo. E eu sempre fui festeira. Alegre. Falante.

Aqui vivi grandes amores, grandes crises, fiz grandes amigos, tudo grande.

Obrigada Rê, minha vizinha de quintal, por sua amizade extraordinária, seus cafés com Madeleine, nossas conversas tão profundas. Obrigada Nilce por sua prontidão e afeto de sempre. Obrigada Simone, amiga querida. Maína que chegou depois. Obrigada Tia Karla que já se foi do Bosque. Vânia que voltou! Obrigada Erivelto e Wagner que fazem desse lugar um luxo para se morar.

Obrigada por fim a todas as minhas crianças amadas que me abraçam quando eu passo pela pracinha, depois que virei a Tia Tati, professora de teatro! E obrigada Marcella querida, por ter me trazido esse universo infinito de amor, depois de insistir para que eu desse as aulas aqui. Não quero perder vocês nunca! Ano que vem tem mais!

Foram 12 anos fazendo o mesmo trajeto Largo da Batalha/Maria Paula 18 vezes por dia. Tendo o privilégio de viver e trabalhar a 6 minutos da minha casa. Acordar com maritacas, beija-flores, águias e um milhão de passarinhos cantantes.

Amar e sofrer por morar num pequeno condomínio que mais parece uma minicidade, com todos os benefícios e sofrimentos que essa realidade traz.

Foram três casas, em três blocos diferentes. Mas a última moradia me deu um céu e isso eu nunca vou esquecer. Ter tido um céu durante a pandemia foi a forma de não enlouquecer esses últimos dois anos. Uma grande bênção.
Agora vou trocar o céu de Pendotiba pelo mar de São Francisco. Em 15 anos de Niterói, estou indo morar no lugar onde sempre mais amei aqui nessa cidade que adotei como minha. Um sonho realizado. Um predinho velhinho, sem portaria nem elevador, mas há uma quadra do mar. Do mar! Minha amada Avó Oceano há um passinho de mim. Isso é incrível.


E podendo finalmente, depois de mais de uma década, poder comprar um pãozinho a pé. Imagina! Ter uma vida de bairro. Conhecer o jornaleiro. Cumprimentar o padeiro. Explorar os cantinhos dos arredores. Vender o carro. Não me preocupar mais com longas distâncias desertas na madrugada.

Tudo nessa vida são escolhas. Vou sentir muita saudade desse lugar mágico que me abrigou tantos anos e cuidou de mim e das minhas pequenas com tanto carinho. Mas também estou em paz com a possibilidade de estar mais perto da civilização. Estar há 10 minutos da Livraria da Travessa para um cafezinho. Isso não tem preço.
Finalmente me sinto pronta para partir. Para uma nova etapa da vida. Ano novo, bairro novo, vida nova.

Que as nossas histórias possam ser sempre assim, um baú de histórias incríveis que pudemos viver, a cada lugar que deixamos um pouco de nós.

O que achou?