Tem alguém olhando para mim

rosto

Coisas esquisitas acontecem todos os dias.

Nem sempre a gente dá a devida atenção a cada uma delas. Porque nem sempre a gente tem tempo para isso. Nem sempre a gente tem consciência da coisa. Até repara na coisa. Mas de uma forma inconsciente. Até que acontece de novo. E de novo. E aí a gente leva um susto. Porque a coisa é muito esquisita e não tem explicação.

Foi o que aconteceu comigo ontem. Eu tava no banheiro, fazendo xixi, olhando para o chão do corredor. O chão do corredor é de mármore. Daqueles que são chapiscados de desenhos: bege com desenhos preto e cinza. É uma pedra bonita, perfeita para esconder sujeirinha que eu não tenho tempo pra limpar. Mas eu tava lá, com o pensamento muito longe, quando de repente, meus olhos focalizaram um desenho. Um desenho perfeito de um rosto olhando para mim. Uai. De novo. De novo aquilo tava acontecendo.

Semana passada eu tava no telefone. Sentada no sofá. E eu tinha à minha frente um varal de pé, cheio de roupas penduradas. Eu coloco na sala quando chove porque minha área de serviço é coberta mas sempre molha tudo. E foi daquele jeito, distraída, que eu vi surgir de dentro da estampa de um vestido preto e branco, um rosto perfeito de mulher olhando para mim. Olhos, nariz, boca.

Foi quando eu me dei conta de que esse troço tava se repetindo há um bocado de tempo. E a coisa acontecia justamente quando eu tava distraída. Um rosto nas folhas do arbusto. Um rosto na textura da parede. Um rosto no estampado no papel do embrulho. Um rosto feito de gotículas de água, desenhado no embaçado do box. Estranho – pensei comigo. Será que isso acontece com todo mundo? Nunca ouvi ninguém falar sobre isso…  

Mas ontem detectar aquele rosto no mármore olhando para mim me deu um estranhamento diferente. Um desconforto. Porque aquele rosto tinha vida. Tinha expressão. Era uma moça, tinha cara de moça e ela estava sorrindo para mim. Me encarando. Foi quando resolvi encarar ela também. E então ficamos as duas ali – uma encarando a outra – durante um tempão. Até que me dei conta de que ela podia estar tentando falar comigo. Sei lá. Me mandar um recado do além. Sabe Deus! A gente não tá careca de saber que “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”? Vai saber se a mocinha não tava tentando um jeito de comunicação tridimensional?

Mas não. Ela não disse nada. Ficou muda o tempo todo e eu acabei cansando de esperar.

Eu sei que coisas esquisitas acontecem todos os dias na vida da gente. Mas vou te contar viu, eu to virando uma colecionadora de experiências esdrúxulas. Ainda bem que eu não fumo nem bebo. Se eu passo por isso careta, imagine com a consciência alterada. Deus me livre.

O que achou?