Sobre fronhas e o universo

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Ontem eu estava dobrando uma fronha para guardar no armário, quando uma pergunta me invadiu a consciência: quanto do mundo pode caber em nós?

Já tem tempo que eu não passo mais roupa, mas confesso que o ritual das fronhas aqui em casa é complexo. Eu tenho um lance com fronha. E por isso cuido delas com muito carinho. O sucesso de uma boa noite de sono começa numa fronha cheirosa e macia. Fronhas são portais para o mundo dos sonhos. É através delas que começamos o processo de descanso. Delas e do jeito que deitamos nossas cabeças no travesseiro e dissolvemos todas as coisas que nos aconteceram ao longo do dia.

Mas a pergunta não veio na hora de dormir. Veio na segunda dobradinha da fronha. Quanto do mundo pode caber dentro de mim?

Desde que o mundo é mundo ele tem o mesmo tamanho. Mas antigamente a gente não tinha a dimensão do tamanho que ele tinha. Minha avó tinha uma casa, um quintal, uma janela e alguns sonhos. Claro que ela teve um rádio que ampliou seus ouvidos e uma televisão que lhe abriu os horizontes, mas eu tenho certeza que a minha vó nunca se fez essa pergunta: quanto do mundo podia caber dentro dela.

Perguntas filosóficas sempre me chegam como um soco na boca do estômago e geralmente quando estou debruçada sobre as pequenas tarefas do dia-a-dia. É impressionante. Como se o micro num pequeno espaço pudesse dar passagem ao macro de um mundo infinito.

Isso já tinha acontecido várias vezes comigo. Mas ontem, entre a fronha e a pergunta, um vazio se abriu dentro de mim. E eu acho que foi pela dimensão da pergunta. Porque sem querer ela comprovou uma teoria louca da minha realidade que eu nunca tinha contado para ninguém.

É assim.

De vez em quando, involuntariamente, eu faço um descolamento da realidade, como se na minha mente tivesse instalado um aplicativo do Google Earth que me situasse no tempo/espaço de onde pudesse me perceber no planeta numa perspectiva planetária.

Ai, deixa eu ver se eu consigo me explicar melhor.

Imagina que dentro do meu quarto, há uma câmera me filmando de cima, dobrando uma fronha. E essa câmera aos poucos vai se afastando. Subindo. O que vemos em seguida é a janela do meu quarto, comigo menor lá dentro, dobrando uma fronha. Ela sobe mais e podemos ver meu prédio, dentro do meu condomínio em Pendotiba, sabendo que lá dentro, eu estou dobrando uma fronha. A câmera continua a subir e então vemos a região serrana de Niterói. Para em seguida abrir um pouco mais para a cidade do Rio de Janeiro, para em seguida abrir para o estado, a região sudeste, o Brasil, a América do Sul, para enfim puxar até vermos o planeta azul, sempre lembrando de mim, lá no meu quarto, dobrando uma fronha.

Essa perspectiva quase sempre me enlouquece. E me faz pensar no tamanho do mundo e na nossa pequenez enquanto matéria, em contraposição ao infinito que representa o nosso espírito. Fico pensando se não foi uma sorte minha avó não ter tido acesso a tanta informação. Porque cá entre nós, esses avanços da tecnologia da informação podem ser fascinantes na perspectiva de evolução do homem. Mas poder ter informações do mundo inteiro através de um único click no mouse pode ser bem atordoante. Imagina a quantidade de imagens, sensações e informações que entram em nós a cada segundo? Bom, para pessoas excessivamente criativas como eu, é um prato cheio para a piração.

Porque fecho os olhos e posso ver uma mulher caminhando no Afeganistão, um bebê nascendo na Bósnia, um casal brindando em Cuba, um menino andando de bicicleta na Dinamarca, alguém comprando um remédio no Egito, uma velhinha falecendo na Finlândia, um casal fazendo amor na Grécia, uma mulher chorando na Hungria, um grupo meditando na Índia, alguém fumando um baseado na Jamaica, um elefante morrendo no Kenya, uma loira se prostituindo em Luxemburgo, alguém se embebedando no México, um homem escalando uma montanha no Nepal, outro rezando em Omã, uma menina tocando piano na Polônia, um sheik espirrando em Qatar, uma serviçal batendo tapetes num castelo na Romênia, um menino andando numa roda gigante em Singapura, alguém andando de balão na Turquia, um senhor fritando um ovo no Uruguai, uma senhora colhendo arroz no Vietnã, um atleta saltando sobre um camelo no Yemen e finalmente, alguém cozinhando taturanas para jantar no Zâmbia.

Meu Deus.

Quanto desse mundo pode caber em mim já que ele é ele e mais seus sete bilhões de indivíduos?

Será que existe alguém no mundo nesse exato momento se fazendo a mesma pergunta que eu?

Não sei. Talvez eu preferisse ter apenas uma casa, um quintal e uma janela. E sonhar sonhos mais simples e ter um varal apenas para pendurar fronhas ao sol.

Não sei.

3 ideias sobre “Sobre fronhas e o universo

  1. MÃE. GENIAL!!!!!!! Amei o texto inteiro de cabeça ao pé. Todas as suas percepções de mundo… Te amo!

  2. Sim Anna, eu descobri isso pelo Facebook! Que maravilha! Taurinas e tão parecidas. Um beijo, querida.

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