Redes Surreais

Para Clara Meira

A discussão toda começou por causa de um texto que eu tinha postado e resolvido tirar do ar. Um texto que ela tinha amado. Mas que eu não tinha ficado nem um pouco satisfeita.

– Mas mãe, por que você fez isso?

– Porque eu não gostei do texto, filha. O site é quase um retrato da minha alma. Uma extensão do meu coração. Se escrevo alguma coisa da qual me arrependo, eu tenho todo o direito e licença poética para ir lá e tirar.

– Aff mãe, você se preocupa demais com umas coisas e de menos com outras. Com quantas curtidas está sua página no Facebook?

Ali percebi que a discussão ia esquentar.

– Minha filha, sinceramente, você acha que eu sei essa resposta assim, na ponta da língua?

– Mãe, você parou de abastecer sua página, não dialoga com o seu público, como quer que a página cresça se não investe nela? Nem Twitter você tem!

– Ah não Clara, não me vem com essa história de Twitter de novo…

– Mãe, o Twitter tem um poder muito maior de divulgação que o Facebook. E o seu Instagram, há quanto tempo você não coloca nada lá? Assim não dá mãe…

– Mas filha, para mim é tudo a mesma porcaria. Eu não consigo entender para que tanta diversidade de rede social. Pensa bem: é Whatsapp, Facebook, LinkedIn, Twitter, YouTube, Instagram, Skype, Vimeo, Snapchat, Tumblr. Caramba! Todo mundo tem tanta coisa pra falar, mas quantas se escutam? Eu conto nos dedos os amigos que eu realmente troco alguma coisa de verdade.

Ela fez aquela cara que ela faz quando tá arquitetando uma resposta inteligente para me desarmar.

E de repente, me deu um aperto no peito. Uma angústia, misturada com frustração, com desânimo. Meus olhos se encheram d’água e eu não sabia mais o que falar.

Ela desarmou a cara de briga e me olhou com aquele olhar doce de quem entendeu tudo. E veio me abraçar com todo o carinho.

– Mãezinha, por que você tá chorando?

Eu queria tentar explicar para ela que os poucos anos que dividem as nossas gerações, transformou tudo rápido demais e o que parecia tão simples e óbvio para ela, não fazia quase nenhum sentido para mim.

– Clarinha, eu sou de um tempo muito diferente do seu. Quando eu tinha a sua idade ninguém tinha acesso a computador. Não existia essa tecnologia toda que existe hoje. Imagina que só tinha aparelho para tocar CD quem fosse muito rico. O máximo que eu tive em casa foi um telefone com fax e isso era assim uma coisa muito extraordinária. Eu tinha aparelhos eletrônicos sim, mas era um toca-fitas, uma vitrola e um aparelho de videocassete para ver filmes alugados. Você sabia que se a gente não rebobinasse a fita pagava uma multa na locadora? Você entende agora a diferença dos nossos tempos?

– Entendo mãe, claro que entendo. Mas hoje você tá muito bem adaptada às modernidades desse novo tempo, só resiste um pouco a elas.

– Eu to, claro que eu to. Eu tenho um laptop meio calhambeque, mas tenho. Tenho um site oficial de crônicas e isso eu agradeço muito porque foi a chance que eu tive de mostrar para muita gente aquilo que escrevo. Eu tenho um celular moderno, com android – mesmo sem saber direito o que isso significa – e eu tenho conta em algumas redes sociais, mas no fundo, lá no fundinho de mim, eu sempre fico com a impressão de que esses lugares mais me sugam energia do que me nutrem…

– Como assim, mãe?

– Ah Clara, tem muita gente postando coisas interessantes nas redes sociais, mas na grande maioria o que vejo é o retrato de uma geração solitária e esvaziada de sentido. Por exemplo: as pessoas amam tirar selfie. Tudo bem. Mas para quê tanto selfie? Ninguém mais tá vivendo o momento, porque só se preocupa em registrar o momento.

– Mãezinha, não precisa levar tudo tão a sério… Posso te falar uma coisa?

– Pode.

– Você não quer ser uma escritora famosa e poder viver do que escreve?

– Sim.

– Você não sabe que o caminho para publicar um livro através de uma editora é bem complicado?

– Sei.

– Então, a internet mãe é uma ferramenta poderosa porque atinge muitas pessoas em segundos. Eu sei que isso te assusta um pouco, mas respira e segue em frente.

– Eu não sei se eu consigo dar conta desse mundo, filha.

– Presta atenção. Foca nas três redes mais importantes para você agora. O Facebook, o Instagram e o Twitter são redes diferentes, mas você precisa de todas para formar uma grande rede de pessoas. No Facebook você pode trocar coisas interessantes com os seus amigos, divulgar seus textos e ideias. O Instagram é um registro mais pessoal de você como pessoa e o Twitter é aquela rede social mais rapidinha, que tudo acontece em segundos, mas que por causa da possibilidade dos retweets, você vai atingir muito mais gente…

– Mas como que eu vou dar conta de tanta coisa num dia só? Abastecer todas as minhas redes sociais, escrever, ler, cuidar de vocês, de mim, da casa, do trabalho e do espírito? Eu não vou dormir né?

Dessa vez ela abriu um sorriso tentando buscar paciência.

– Mãe, é só se organizar que você vai conseguir. Quer que eu te ajude?

– Quero.

– Quer perguntar alguma coisa?

– Quero. O que é retweet pelo amor de Deus?

 

5 ideias sobre “Redes Surreais

  1. Também me sinto perdido nessa sopa…me encontro e vejo sentido quando passo aqui. :*

  2. mãezinhaaaa!!! sei que vc tá vivendo uma época que não combina com seu estado de espírito, mas até que vc tá indo bem agora. te amo + que tudo!!! ❤

  3. AI Tati… Corei aqui… Que coisa Linda é a Clarinha…
    Olha, eu tenho: Twitter, Face, Instagram, snap, mas não dou conta de tudo não!!
    Boa Sorte! Você consegue!! E fique de olho nas dicas da Clarinha… Essa menina é de Ouro!! Beijos

  4. A Clarinha é demais! Ela explica as coisas com tanta facilidade, tanta sabedoria e simplicidade ! Adorei!

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