Quimera do olhar

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Foto Clara Meira

Árvores. Folhas verdes. Vários tons de verde. Várias texturas de folhas. Céu azul. Nuvens brancas. Brancas, com tons de rosa e laranja. A laranja-fruta tem furinhos. Pequenininhos. Como os poros da pele. Que também pode ser colorida. Branca, vermelha, amarela, negra. Negra, como a cor da noite. Noite onde tem estrela brilhando. Ela pisca, ou é impressão? Não, impressão é o que os olhos sentem, porque o mundo é da forma que você o vê. Ou da forma que te ensinaram a ver. Poetas tem esse dom. Eu vejo o mundo vibrante se o dia tem sol. Mas se chove, vejo a vida triste, com toda a beleza que pode existir na melancolia. Eu gosto de ver chuva. De ver gota pingando no chão. Gota correndo do vento. Relâmpago. Trovão. Adoro ver essa luz eletrizando o céu. Luz elétrica. Luz linda é a luz da vela. Luz suave, doce, mágica. A luz do mundo, quando o mundo era simples. A luz que atravessa os poros e ilumina a alma. Luz perfeita para se escrever cartas de amor. Amor. Eu vejo amor por toda a parte. Na flor que desabrochou hoje no jardim. Na borboleta que é pétala que voa, como me ensinou Clarice. Vejo amor nos olhos miúdos da Clara. Na ponta dos dedinhos dela quando acaricia a boneca. Vejo amor no suspiro profundo. No choro miúdo. Na gargalhada do Marcelo. Vi amor quando fiz pudim de leite ontem. Vi amor nos sorrisos felizes dos que comeram o pudim. Ah! As coisas de comer podem ser as mais lindas do mundo. Principalmente as que vem direto da natureza. Como os morangos, por exemplo. Kiwi, quando se revela por dentro. Carambola, quando vira estrela. Gominho de mexerica. Carocinho de mamão. Tudo tem sua beleza. Não foi Neruda que viu na cebola uma rosa de água com escamas de cristal? Eu não vejo mais, eu fotografo com a minha polaroid mental. E vou guardando tudo na memória até encontrar a palavra certa para cada imagem arquivada. Aquilo que minha retina viu e ficou pasma, eu corro para tentar traduzir em palavras. Acho que é por isso que tenho tido tanta urgência em escrever. Por medo de perder esse instante. Mas coisa feia eu não guardo. Por nada. Não perco meu tempo. Mas as lindas, ah… estas eu foco o olhar com o coração e deixo que elas me inundem. Como zeppelin voando no céu. Clara conversando com formiga. Sorriso desdentado de velhinha. Vento varrendo folha. Açúcar virando caramelo. Cata-vento ventando. Gato se espreguiçando. Córrego escorrendo. Copo de vinho tinto. Bocas se beijando de língua. Trilho de trem quando se bifurca. Avião rasgando o céu indo para longe. Arco-íris! Cavalo correndo livre. Noite virando dia. Dia virando noite. Ondas do mar fazendo espuma. Gelo boiando na água. Tinta de caneta virando poema. Última página de livro. Os cílios da minha mãe. Língua falando lápis-lazúli. Linhas do tempo na palma da mão. Mão fazendo pão. Mão carinhando alguém. Mão dando adeus. Mão pedindo. Mão oferecendo. Mão é uma coisa danada de linda. Pode ser mão pequena, delicada. Ou mão de homem da terra, toda enrugada. Mão maltratada pelo tempo. Mão de bebê. Para mim, mão é a parte mais linda do corpo. Acima dela, só mesmo o olho. Olho que é o único órgão que brilha, que se explica na íris e que se entrega na lágrima. Olho que pode ver tudo. Quantas vezes quiser. Que pode ver árvores. Folhas verdes. Vários tons de verde. Várias texturas de folhas. Céu azul. Nuvens brancas.

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