O Jequitibá e o tempo

Foto de Irene Monteiro

Foto de Irene Monteiro

No fim de semana passado vivi uma experiência extraordinária.

Eu tinha viajado com a minha família para o Sítio São José, em Cachoeira de Macacu e minha mãe cismou que eu precisava conhecer uma árvore. Vocês conhecem minha mãe né. A mulher é uma bruxa e geralmente quando ela cisma com alguma coisa, alguma coisa tem.

Pois bem. Lá fomos nós: minha mãe, meu padastro, as pequenas e eu para o Parque Estadual dos Três Bicos, onde morava a tal da árvore.

Caminhamos uns dez minutos num trilha deliciosa, das minhas preferidas: bem úmida, fechada, com milhões de texturas e cores de folhas, um cheiro de terra inebriante. Passamos por cavernas de pedras, raízes esculturais, várias espécies de borboletas. De repente, numa clareira, eu vi a árvore. E quando me deparei com ela, levei um susto. Perdi o fôlego e fiquei olhando para aquela coisa sem acreditar no que via. A árvore era nada mais nada menos que um Jequitibá-rosa de 40 metros de altura e um tronco com um diâmetro de mais ou menos sete metros. Um gigante em meio àquela floresta. Mas o que mais me emocionou e me tocou e me fez ficar pensando nele desde o dia que nos conhecemos é que essa árvore existe há mais de mil anos.

Gente. Mil anos. Pensem comigo. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, essa árvore já estava ali há 500 anos. Eu não sei para vocês, mas para mim é uma piração imaginar uma coisa dessas.

Bom, naquele dia, quando eu consegui chegar pertinho da árvore, a primeira coisa que me veio ao coração foi a necessidade profunda de me deitar aos pés daquela divindade e reverenciar sua ancestralidade e sabedoria. Depois me levantei e abri os braços para abraça-la quando percebi que Clara e Catarina já estavam abraçadas a ela de olhos fechados há um tempão. Minhas filhas fadas. Que orgulho meu Deus.

Passamos ali um tempo mágico. Ninguém queria ir embora. Ninguém conseguia acreditar no que via. A presença do Jequitibá era tão forte que a impressão que me dava é que a gente podia senti-lo respirando. Parece que no Parque Estadual do Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro em São Paulo, tem o maior e mais antigo Jequitibá-rosa vivo no Brasil. Ele tem 3.032 anos de idade. Gente! Como assim?

Desde o dia que eu estive na presença do Jequitibá, não consigo parar de pensar nele. Fecho os olhos, coloco na palma das mãos o pedaço de tronco que encontrei dele no chão e me conecto a alma daquele ser de uma forma estranha e mágica. Nesse momento volto a pensar no tempo do mundo, no tempo interno da gente e nessa nova perspectiva que a física quântica nos traz hoje sobre o tempo. Não é para pirar?

Desde pequena sou uma viajante do tempo. Perdi a conta da quantidade de vezes que fui ao Centro do Rio e fechei os olhos, sentada num banco de praça e imaginei o tempo voltando no tempo. Eu abria os olhos e via os bondes, as pessoas elegantes vestidas passeando com seus chapéus, via Machado de Assis escrevendo no Café da esquina. Quantas vezes me vi na praia imaginando o tempo em que essa terra era somente habitada por índios!

Eu acho que não sou do meu tempo. Vocês podem achar isso uma viagem, mas eu tenho uma sensação física de estar fora do meu tempo. Deve ser por isso que sou apaixonada pelo filme “Meia Noite em Paris”, do Woody Allen. Ele teve naquele filme uma sacação incrível sobre esse desejo de viagem no tempo das pessoas. Mesmo a moça que morava no tempo antigo que ele visita, sonha em viajar no tempo ainda mais antigo do que o dela, achando que somente aquele tempo deveria ser legal. Minha cara.

Para o futuro nunca me projetei. Até porque a minha cultura cinematográfica me impede de desejar o futuro. Quem viu “Blade Runner” sabe do que eu estou falando. Mas a verdade é que aquele Jequitibá me atiçou a loucura de pensar no tempo. E nas dobras do tempo. E nas possíveis dimensões que o tempo nos traz.  Quem me dera ter capacidade mental de estudar a fundo a física quântica. Isso sim deve fazer uma pessoa pirar o cabeção. Na física quântica a realidade é comprovadamente relativa. E o tempo não existe como o compreendemos. Pensar nisso me enlouquece. E como eu já sou bem fora da casinha, prefiro ficar com o poder da minha imaginação.

Na terapia a gente tem muito essa coisa de cuidar das nossas “crianças internas que um dia passaram por algum trauma”. Pois bem. Não esqueço a emoção que vivi meses atrás, quando numa jornada, pude vivenciar um encontro emocionante da minha Tatiana adulta – eu, euzinha no corpo de hoje – colocando no colo uma Tatianinha minha, pequenininha, que chorava sem parar. Quem vai me dizer que isso não pode ser verdade? Que numa dobra do tempo, todos nós não podemos nos encontrar com outros nós em outro tempo?

Hoje eu vou deitar na minha cama e imaginar o encontro dessa Tatiana que eu sou hoje com a minha Tatiana, bem bem velhinha. E dizer para ela que estou fazendo de tudo, tudo mesmo, para que ela seja uma velhinha absolutamente satisfeita com a vida que viveu. E antes de adormecer, vou voltar ao meu querido Jequitibá e agradece-lo por toda essa viagem que ele tem me feito fazer. Essas conexões tão mágicas não são à toa. Não podem ser. Quem sabe eu não fui uma indiazinha que presenciou o início do crescimento desse Jequitibá há mil anos atrás? Hein? Quem sabe?

Só Deus.

9 ideias sobre “O Jequitibá e o tempo

  1. Sandra, minha amada! Eu é que agradeço sua visita aqui na minha casa… e a sua presença iluminada na minha vida! Saudade minha querida!

  2. Tati querida! Como sempre iluminada! Vamos nos encontrar, querida amiga! Saudades infinitas, Ana.

  3. minha carioca amada… nossa… viajei … sei la… essa coisa de passado e futuro mexem muito comigo tambem…. este Jequitibá… que fantastico.. que experiencia maravilhosa… quero conhecer tambem…

  4. Mãe, só você mesmo para pensar em algo assim e – conseguir – transformar em arte. E que jeito majestoso de fazer isso. Amei o texto! Te amo! ❤

  5. Eu não te disse que você tinha que conhecer esse jequitibá? Eu sabia que ia dar nisso!
    Eu vivi uma das minhas maiores epifanias numa outra árvore dessas – um jequitibá do mesmo porte (ou talvez até maior) que mora na Floresta da Tijuca (lá pela subido do Horto). Ele tem uma caverna no tronco que comporta umas dez pessoas sentadas dentro! Foi ali dentro que eu ouvi (senti?), pela primeira e única vez na minha vida, uma árvore falar com a minha alma. E ela me falou justamente sobre a minha jornada no corpo da mãe terra. Ainda hoje eu sinto a temperatura do seu corpo, o cheiro daquela ‘caverna’. Sai dali de dentro transformada (e em prantos, claro!)
    No ano passado esse jequitibá foi atingido por um raio. Uma parte do seu corpo veio ao chão. Ele está em parte caído na mata. O órgão do governo que cuida da Floresta da Tijuca cercou a área. E o processo de morte-vida-morte está ali para nós vermos esse milagre. Se um dia você quiser, vamos lá pra você ver, sentir e se integrar. Epifanias, minha filha, epifanias que nos ensinam o que é viver.

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