O Caminho Vermelho

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Entre o nascimento e a morte de um ser vivente, a linha da vida coleciona momentos arrepiantes que, na grande maioria das vezes, é um marco tão forte na vida da pessoa que ela se sente renascendo. Ou morrendo, tudo ao mesmo tempo. Isso foi exatamente o que aconteceu comigo quando conheci o xamanismo.

Me lembro como se fosse hoje. Minha mãe tinha me chamado para uma “coisa” que era a minha cara. Fui de olhos fechados, porque se tem alguém que eu confio me conhecer, é aquela mulher. A tal “coisa” era um lugar onde várias pessoas se reuniam uma vez por mês para estudar tradições e práticas do xamanismo. O grupo chamava-se Espiral Sagrada. Na hora que entrei na sala já senti alguma coisa diferente. Estavam todos sentados em roda e cada integrante tinha à sua frente um pequeno altar montado com os mais diversos objetos. Cada um mais bonito que o outro. Sobre panos coloridos, havia pedras, chocalhos, tambores, animais esculpidos, folhas, amarrados de penas, sementes, pequenas mandalas, objetos que nunca tinha visto antes. O ambiente era agradável. Um cheiro de sálvia pairava no ar. Era possível sentir na pele uma atmosfera de serenidade e calmaria. Busquei uma almofada para sentar e me juntei ao grupo em silêncio. Duas mulheres – coordenadoras do grupo – pediram para que déssemos as mãos para fazermos uma oração. Foi ali que a coisa aconteceu.

No momento exato em que todas as mãos se entrelaçaram, tive uma visão inacreditável. Estávamos todos num imenso e mágico descampado, num outro tempo, sentados à volta de uma fogueira e cantando canções muito, muito antigas. Aquela visão me inundou de uma emoção que eu nunca tinha sentido antes. Uma sensação profunda de pertencimento invadiu meu corpo e eu comecei a chorar. Como se minha alma pudesse reconhecer cada alma daquele grupo e como se aquele lugar fosse a resposta para algo que há muito tempo eu buscava.

Entre idas e vindas, este é o meu quarto ano na Roda de Cura da Espiral Sagrada. E tudo – absolutamente tudo – mudou na minha vida a partir daquele dia. Como se uma nova Tatiana tivesse despertado de dentro da velha e os meus olhos pudessem ter a chance de ganhar uma nova lente para observar o mundo. A mudança de perspectiva foi tão profunda que precisei entrar na terapia para dar conta de digerir tanto conteúdo. Minha sorte? As coordenadoras do grupo são terapeutas e com isso só precisei escolher em qual delas mergulhar. Foi uma experiência maravilhosa. Se em algum momento, tive coragem de ir fundo nas minhas sombras, isso se deve ao fato da minha interlocutora chamar-se Elizabeth Amaral. De longe, uma das pessoas mais incríveis e fascinantes que já conheci.

Foi ela, nossa querida Beth Bear – como é carinhosamente chamada pelo grupo – que me ensinou que na Grande Teia da Vida, é preciso compreender que não somos seres terrestres vivendo uma experiência espiritual. E sim seres espirituais vivendo uma experiência terrena. Nossa. Isso muda muita coisa, não muda?

O xamanismo é chamado de “o caminho vermelho, ou o caminho do coração”. Será que alguém nesse mundo consegue imaginar um caminho mais bonito do que esse? Poder estar alinhado aos movimentos da Mãe Terra. Atentos aos ensinamentos do Pai Céu. Ter no espírito dos animais, aliados tão fortes para a vida como temos nos grandes amigos. Poder pedir a benção ao Avô Sol ao despertar de cada dia. E a benção à Avó Lua, antes de dormir, para que ela nos ajude a atravessar a escuridão da noite. Ai, eu não sei vocês, mas para mim, essas coisas me dão um treco aqui na goela de emoção. Porque são ações tão simples e tão verdadeiras. Movimentos que me fortalecem, me amparam. Me fazem sentir totalmente integrada àquilo que sempre, sempre teve sentido para mim, mas eu tinha me esquecido…

Quando eu era menina costumava dizer que a natureza era a minha igreja e que era dentro dela que eu queria viver. Porque eu rezava com as estrelas, contava segredo para as árvores. Chorava com a chuva, brincava com o vento. Conversava com joaninha, meditava com o pôr-do-sol. Aprendia sobre as cores com o arco-íris, fazia arte com pétala de flor. Acho que contemplar a natureza era a forma mais profunda que eu encontrava de estar comigo mesma, numa integração plena que só hoje eu consigo entender. Estar mergulhada na terra me fazia estar próxima à minha essência e isso me bastava. Quando a natureza encontra espaço no coração do homem acontece o fenômeno mais bonito que a existência humana pode vivenciar: a reconexão com o Grande Mistério. Não há mais sofrimento, porque entendemos no mais profundo do nosso ser, que não estamos sozinhos. Nunca estivemos.

Somos todos um. E ao me integrar com o outro, vejo nele todas as respostas que procuro. Espíritos ancestrais nos guiam. Espíritos guardiões nos protegem. Objetos sagrados nos fortalecem. Temos um caminho vermelho a percorrer enquanto estamos vivos. Que possamos honrar nossa vida e agradecer por tudo que temos.  E que por fim, no momento de atravessarmos o rio, possamos compreender com o coração, que o caminho azul será apenas uma breve passagem, já que outra incrível jornada estará para começar. Aho!

Para a minha amada roda,
Espiral Sagrada

2 ideias sobre “O Caminho Vermelho

  1. Minha irma de jornada, de coracao, de alma. Numa ceremonia de fogo nossas almas dancam, e conosco, estao nossas irmas, nossas maes, nossas avos, e tambem os irmaos, os filhos e os avos…. O som dos tambores correm pelos ventos, e a vida honra os ciclos… Brincamos livres, e somos felizes… Te amo…

  2. Gica Mixirica. É uma honra ter você para dividir o caminho vermelho da vida. Você tanto fez, tanto fez, que hoje estou aqui: escrevendo. Essa vitória é nossa irmã. Te amo muito. Gratidão por nunca me deixar desistir…

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