Giulio, o meu amigo de barba

"Ritratto di vecchio con barba" Marcantonio Bassetti (1586 - 1630)

“Ritratto di vecchio con barba”
Marcantonio Bassetti (1586 – 1630)

Entrei na sala e dei de cara com ele. Giulio olhava para mim como se estivesse me esperando há muito, muito tempo. Seu olhar era tão cativante e simpático que eu o cumprimentei mesmo sem conhecê-lo. A paixão foi tão instantânea que eu tive que me controlar para não sair correndo e ir até ele para convidá-lo para um café comigo no bistrô do Paço. Mas eu sabia, que mesmo que quisesse muito, isto infelizmente não seria possível. Giulio está preso há alguns séculos num quadro e por mais vivo que pareça estar não pode sair dali.

Confesso que desde que fui assistir à exposição de pintura italiana no Paço Imperial, não paro de pensar no Giulio. Nele e em todas aquelas criaturas que estão presas lá. Algumas existiram de verdade e são tão bem retratadas que chega a dar um estranhamento olhá-las por mais tempo. Suas almas parecem presas na tinta. Me invade então a inquietante curiosidade de descobrir quem foi cada uma daquelas pessoas. Quem será que foram aquelas criaturas? Será que foram felizes? Pelo que passaram ao longo da vida? O que será que estavam fazendo na hora em que foram pintadas?

Quem viu “Moça com Brinco de Pérola” sabe do que estou falando. O filme de Peter Webber foi uma realização para as minhas fantasias. Na história ele recria o exato momento em que o pintor Johannes Vermeer retrata uma jovem camponesa, e tudo o mais que permeia a criação desta famosa obra de arte. É um filme encantador.

Percorro a exposição e percebo que não é só Giulio que parece estar presente. Tabeliões, condes, homens e mulheres. Sei que era um costume da época retratar o povo, mas qual seria o real desejo de cada um? Tornar-se imortal? Em tempos de selfie, fico imaginando o que há por trás dessa nossa obsessiva necessidade de se fotografar o tempo todo. Desejo de imortalidade também? Imaginem minha imagem fotografada por uma câmera digital, pendurada numa exposição em 2440 e alguém me observando tendo a mesma curiosidade de saber quem eu fui. Será que isso seria possível? Será que a humanidade vai existir até lá?

No fundo o que eu gostaria mesmo era de ser uma viajante do tempo. Ter a licença poética de Deus para conhecer o passado. Descobrir o que fazia esse velhinho bonachão que vocês podem ver aí em cima. Quem ele foi. As pessoas que amou. O que deixou de mais significativo em sua passagem pelo planeta. Acho que ele foi carpinteiro. E deve ter  feito uma cadeira de balanço tão bela para o pintor Marcantonio Bassetti, que este resolveu presenteá-lo com um retrato.

O próprio Paço Imperial é um exemplo de nostalgia histórica inquietante. Nunca consigo passar por lá sem dar uma espiada de rabo de olho nas carruagens e ficar imaginando a cena que Dom Pedro gritou para o povo que ia ficar. Imaginem só o rebuliço que não estava naquela praça, naquele 9 de janeiro de 1822. Não seria fascinante dar um pulinho lá para ver este discurso?

Ah, minha mente viaja. Torço muito para que no futuro uma máquina do tempo seja mesmo inventada e a humanidade possa viajar em todas as dimensões do espaço. Seria maravilhoso receber uma visita dos meus tataranetos. Já pensaram? Sem a menor cerimônia eu pediria a eles para darmos um pulinho no ano de 1600. O que eu faria? Convidaria meu amigo Giulio para tomarmos uma taça de vinho tinto na taberna mais charmosa da Itália. Não seria um programa adorável?

2 ideias sobre “Giulio, o meu amigo de barba

  1. Maravilhoso! Estou enlouquecendo com a ideia de que se eu pudesse escolher um lugar/evento/pessoa para visitar, no futuro ou passado, o que/quem eu escolheria!!!???

  2. Que belo texto. Sinto a mesma vontade que você. Lembro so filme “meia noite em Paris” acho que quem escreve tem o dom de ser povoado das almas que já viveram.

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