Chão de grama

Eu sou uma criatura de sorte.

De tempos em tempos, mesmo com a dureza crua dessa rotina que a gente insiste em viver, Deus me dá um sacode bonito e eu volto a ver um pouco daquilo tudo que está ao meu redor. O despertar dessa anestesia chega a ser emocionante de tão simples que é.

Todos os dias estaciono o meu carro na mesma vaga, na mesma posição, há mais de sete anos.

Mas hoje, depois de voltar do supermercado, minha retina ficou retida numa cena deslumbrante. O chão de grama estava coberto das pétalas da árvore. Coberto. Eu já tinha fotografado Catarina naquela grama, já tinha achado linda aquela cena, mas hoje aconteceu alguma coisa diferente dentro de mim que me fez ver aquilo tudo com os olhos da alma.

Como pode uma imagem estar carregada de tanta poesia? Tanta beleza, equilíbrio, delicadeza, simplicidade. É só um chão de grama coberto de pétalas de flor. É só um chão verde de grama fresca coberto de finas pétalas cor de laranja. Como pode?

Foi naquele pedacinho de mundo hoje que eu entendi um monte de coisas. Mas uma delas é que esse é o caminho que eu quero caminhar na minha vida. Um caminho de poesia e delicadeza. Um caminho simples onde eu possa de vez em quando ouvir Deus falando comigo.

Giulio, o meu amigo de barba

"Ritratto di vecchio con barba" Marcantonio Bassetti (1586 - 1630)

“Ritratto di vecchio con barba”
Marcantonio Bassetti (1586 – 1630)

Entrei na sala e dei de cara com ele. Giulio olhava para mim como se estivesse me esperando há muito, muito tempo. Seu olhar era tão cativante e simpático que eu o cumprimentei mesmo sem conhecê-lo. A paixão foi tão instantânea que eu tive que me controlar para não sair correndo e ir até ele para convidá-lo para um café comigo no bistrô do Paço. Mas eu sabia, que mesmo que quisesse muito, isto infelizmente não seria possível. Giulio está preso há alguns séculos num quadro e por mais vivo que pareça estar não pode sair dali.

Confesso que desde que fui assistir à exposição de pintura italiana no Paço Imperial, não paro de pensar no Giulio. Nele e em todas aquelas criaturas que estão presas lá. Algumas existiram de verdade e são tão bem retratadas que chega a dar um estranhamento olhá-las por mais tempo. Suas almas parecem presas na tinta. Me invade então a inquietante curiosidade de descobrir quem foi cada uma daquelas pessoas. Quem será que foram aquelas criaturas? Será que foram felizes? Pelo que passaram ao longo da vida? O que será que estavam fazendo na hora em que foram pintadas?

Quem viu “Moça com Brinco de Pérola” sabe do que estou falando. O filme de Peter Webber foi uma realização para as minhas fantasias. Na história ele recria o exato momento em que o pintor Johannes Vermeer retrata uma jovem camponesa, e tudo o mais que permeia a criação desta famosa obra de arte. É um filme encantador.

Percorro a exposição e percebo que não é só Giulio que parece estar presente. Tabeliões, condes, homens e mulheres. Sei que era um costume da época retratar o povo, mas qual seria o real desejo de cada um? Tornar-se imortal? Em tempos de selfie, fico imaginando o que há por trás dessa nossa obsessiva necessidade de se fotografar o tempo todo. Desejo de imortalidade também? Imaginem minha imagem fotografada por uma câmera digital, pendurada numa exposição em 2440 e alguém me observando tendo a mesma curiosidade de saber quem eu fui. Será que isso seria possível? Será que a humanidade vai existir até lá?

No fundo o que eu gostaria mesmo era de ser uma viajante do tempo. Ter a licença poética de Deus para conhecer o passado. Descobrir o que fazia esse velhinho bonachão que vocês podem ver aí em cima. Quem ele foi. As pessoas que amou. O que deixou de mais significativo em sua passagem pelo planeta. Acho que ele foi carpinteiro. E deve ter  feito uma cadeira de balanço tão bela para o pintor Marcantonio Bassetti, que este resolveu presenteá-lo com um retrato.

O próprio Paço Imperial é um exemplo de nostalgia histórica inquietante. Nunca consigo passar por lá sem dar uma espiada de rabo de olho nas carruagens e ficar imaginando a cena que Dom Pedro gritou para o povo que ia ficar. Imaginem só o rebuliço que não estava naquela praça, naquele 9 de janeiro de 1822. Não seria fascinante dar um pulinho lá para ver este discurso?

Ah, minha mente viaja. Torço muito para que no futuro uma máquina do tempo seja mesmo inventada e a humanidade possa viajar em todas as dimensões do espaço. Seria maravilhoso receber uma visita dos meus tataranetos. Já pensaram? Sem a menor cerimônia eu pediria a eles para darmos um pulinho no ano de 1600. O que eu faria? Convidaria meu amigo Giulio para tomarmos uma taça de vinho tinto na taberna mais charmosa da Itália. Não seria um programa adorável?

Miniconto de amor

transitoamor

Ela está parada no sinal, dentro do carro.

Na pista ao lado, para um carro ao seu lado.

Dentro, há um homem lindo, olhando para ela.

Ela desvia o olhar.

Depois de alguns segundos, toma coragem e resolve olhar de novo.

Ele continua a olhar para ela. Fixamente.

Sem dúvida nenhuma é um homem lindo.

De repente, o homem faz uma careta.

Ela leva um susto.

E resolve fazer uma careta para ele também.

Ele lhe devolve outra careta ainda mais engraçada.

Aos poucos, começam a competir quem faz a careta mais horripilante.

De repente, ele não aguenta e dá uma gargalhada com a última careta que ela faz.

Ela desaba e começa a rir também.

É quando ela descobre que ele tem o sorriso mais lindo que ela já viu.

O sinal abre.

Os dois percebem e se olham. Sérios.

Atrás, os carros começam a buzinar.

Ele se despede com um olhar triste, acelera e vai embora.

Ela, nervosa, engata a primeira, mas deixa o carro morrer.

Vê o carro se afastar e sente uma tristeza profunda no peito.

Em seguida se sente a mulher mais ridícula do mundo.

Tenta ligar o carro de novo. O motor responde e o carro finalmente pega.

Ela engata a primeira e vai embora.

Fim

Dentro

meditacao

A vida puxa, os desafios puxam, o externo puxa.

Mas a gente volta para dentro.

O cotidiano puxa, os problemas puxam, os obstáculos puxam.

Mas a gente volta para dentro.

A televisão puxa, a jornal puxa, o laptop puxa.

Mas a gente volta para dentro.

O Facebook drena, o Whatsapp suga, a internet absorve.

Mas a gente volta para dentro.

A política exaure, a violência consome, o futuro amedronta.

Mas a gente volta para dentro.

A família puxa, os amigos puxam,  o trabalho puxa.

Mas a gente volta para dentro.

A realidade puxa, o tempo puxa, o dever puxa.

Mas a gente volta para dentro.

A saúde fragiliza, a mente desequilibra, o corpo padece.

Mas a gente volta para dentro.

 

a gente volta para dentro
porque dentro
só existe paz

(isso se a gente volta para dentro)

Urgência artística

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Final da tarde. Céu azul já se pintando de laranja. Praça XV frenética com seu vai-e-vem de gente correndo para alcançar a barca. Um homem solitário está sentado numa cadeira meio quebrada, solando um som psicodélico em sua guitarra estridente, com os olhos vidrados em algum lugar muito longe dali. O amplificador – a um passo de quebrar também – não me parece amplificar somente sua música, mas também sua explícita angústia de colocar para fora esse desejo incontrolável de expressar-se. Me emociono. Ali está mais um caso de urgência artística, um dos grandes males que sofrem os artistas do mundo. Sei como o moço da guitarra se sente. Porque sou exatamente como ele.

Rapidamente me vem à cabeça meia dúzia de filmes que falam sobre isso. Nicole Kidman, no papel de Virginia Woolf, escrevendo alucinadamente até fazer calos nas mãos em “As Horas”. Ed Harris, no papel de “Pollock”, que quase enlouquece até encontrar sua melhor forma de pintar. Isabelle Adjani como “Camille Claudel”. Salma Hayek como “Frida Kahlo”. Sim, não há dúvida que há algo muito perturbador que assolam os artistas mas o mais incrível, é que mesmo que eles não tenham muita condição de se manifestar – como é o caso do guitarrista da Praça XV – eles sempre inventarão uma forma de serem ouvidos e sentidos. Mesmo que seja numa rua frenética cheia de transeuntes apressados e surdos.

Sigo meu rumo em direção ao CCBB. Esta noite vou assistir a uma peça sobre Clarice Lispector. Que alegria imaginar que daqui a algumas horas eu vou estar sentada dentro de um teatro, numa poltrona confortável, entregue de corpo e alma, simplesmente, a uma manifestação artística de alguém como eu, que não pode viver sem arte. A vida é maravilhosa.

Passo pelo Café Livraria Arlequim. Hummm. Sinto uma vontade incontrolável de tomar um café expresso. Entro no Café e agradeço poder sair um pouco do ar viciado e carbônico da Primeiro de Março e poder entrar num mundo paralelo, apenas atravessando uma porta de vidro. As livrarias definitivamente tem um cheiro divino, principalmente as que se misturam com café. Essa alquimia ainda pode se tornar mais curativa, quando além do olfato você cuida dos ouvidos. Entrei na Arlequim e tive um sopro de prazer. Tocava um tango. Belíssimo! Entrei, fechei os olhos, respirei fundo e disse para alguém que não ouviu: obrigada pelo instante!

Ah essa fartura sensorial de que é feito o mundo! Como é bom poder garimpar no cotidiano formas criativas para se viver melhor. Eu adoro. É claro que a gente precisa nutrir o corpo, mas nutrir a alma é quase tão importante. E não só de obras de arte, mas também da arte que a vida nos dá. No cotidiano, nos sentidos, no observar as pequenas coisas e inundar-se delas. Outro dia ganhei um presente da vida. Eu voltava para Niterói de 750 e me deliciava com aquela beleza absurda do sol refletindo na água do mar  – quando consegui me deparar com uma cena ainda mais linda dentro do ônibus. O trocador, quieto e concentrado, fazia um origami de pássaro numa nota de dois reais.

Uau.

Saramago costumava dizer que “todos somos escritores, só que alguns escrevem outros não.” Eu diria que todos somos artistas, só que alguns tem pressa, outros não.

Eu preciso ir além

estrada

Outro dia eu tava lavando louça quando uma frase invadiu minha cabeça:

Eu preciso ir além.

A frase entrou e foi direto para um lugar bem fundo de mim e encontrou lá dentro um eco profundo de aflição e verdade.

Eu preciso ir além.

Além da montanha, além da mesmice dos dias, além do que se vê apenas com os olhos.

Foi bem forte.

Eu sei que a vida habita no simples do dia-a-dia. E que depende de cada um de nós resignificar esse cotidiano.

Mas eu senti que essa invasão de pensamento tinha um porquê.

Como um chamado de uma alma ansiosa que precisa muito ser ouvida.

Um dia eu realmente vou precisar ir além.

Além do que eu planejei, além do que eu sonhei, além do que eu sequer imaginei.

E vou precisar arranjar tempo para ampliar meus horizontes. Ampliar minha consciência. Ter tempo para ler um livro inteiro. Ter tempo para digerir tudo que apreendo do mundo. Ter tempo para criar tudo aquilo que me transborda. Ter tempo para fazer arte. Escrever meus textos. Tempo para meditar, tempo para nadar sem tempo. Tempo para ser. Simplesmente ter tempo para ser.

Um dia eu vou conseguir ir além.

E vou conseguir me desprender um pouco das tarefas mundanas e me dedicar somente às realizações divinas. Aquelas que a gente sente que nasceu para fazer. Para tentar transformar o olhar. Para tentar transformar as pessoas. Para quem sabe, tentar transformar o mundo.

Um dia esse dia há de chegar.

E aí sim eu vou me acalmar. E me sentir realizada. E vou sentir que a vida finalmente fez sentido. E que o mundo pela primeira vez não pareceu tão surreal.

Um dia esse dia há de chegar.

Ou porque consegui um esquema mágico de não ter tantas demandas que me afoguem no dia-a-dia.

Ou porque envelheci e tive a chance de me aposentar.

Ou simplesmente porque desencarnei.

Não importa.

O que importa, é que um dia eu realmente vou precisar ir além.

Além do que eu planejei, além do que eu sonhei, além do que eu sequer um dia eu imaginei.

 

Fragilidade Urbana

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Uma vez a cada quinze dias preciso sair do Condado onde vivo para atravessar a cidade, o mar e outro tanto da cidade vizinha, para chegar à Tijuca, onde fica minha terapia. Confesso que me sinto uma hobbit corajosa quando saio em busca dessa aventura. A Tijuca parece um lugar completamente diferente de onde vivo, moro e trabalho em Pendotiba. Mas a trajetória até lá é que me impressiona, porque de alguma forma me mostra – como um raio X – o tamanho da minha fragilidade urbana.

A cidade grande me espanta. Todas as vezes que salto da barca e dou de cara com a Praça XV, fico chocada. São milhares e milhares de pessoas apressadíssimas, correndo, atrasadas, ocupadas, falando no celular, falando sozinhas. Elas não enxergam as outras pessoas, não parecem estar presentes no momento presente nem tampouco presentes no espaço onde estão. Elas correm aflitas para o futuro próximo de seus empregos, seus escritórios e seus compromissos. Há uma pressa opressora no ar. E o cenário não ajuda em nada. As ruas estão sempre imundas e em obras. Camelôs gritam para vender suas mercadorias. Cachorros latem para conseguir sua comida. Executivos correm atrás do sucesso. Funcionários correm atrás de bater seu ponto. E os mendigos… bem, os mendigos não correm para lugar nenhum. Eles não existem para a essa cidade. Não fazem parte do cartão postal.

Eu olho ao redor e me sinto totalmente fora do contexto. Uma peça com defeito que não se encaixa no quebra-cabeça. Um peixe fora d’água. O Neo de Matrix quando descobre que a Matrix é uma Matrix.

Não sei se sou eu que tenho essa extra sensibilidade irritante ou se é mesmo a rua que tem cheiros demais, buracos demais, barulhos demais. É uma poluição sonora, visual. Um excesso de energias diversas, contraditórias e desequilibradas. São pombos, pedras, placas, avisos luminosos, cartazes, jornaleiros, árvores secas e abandonadas, pessoas nas ruas dormindo abandonadas, bueiros, buracos, cuspes, pingos de ar condicionados, cocô de cachorro, cocô de gente, pichações, lixo… meu Deus… a quantidade de lixo que tem pelas ruas é uma coisa muito surreal. Um caos absoluto. Eu olho para esse mundo e não consigo acreditar que as pessoas não se afetem com tudo isso. Será que elas se acostumaram com a coisa ou nunca chegaram a perceber o cenário de ficção científica que estão inseridas?

São raros os momentos que eu consigo respirar nesse mundo. Raros, mas existem. E quando acontecem, são como tomar um fôlego, depois de muito, muito tempo sem respirar. Uma alegria instantânea. Uma brisa no rosto. Um carinhozinho na alma. Acontecem quando encontro um artista de rua – como aquele moço com vilolino que vi ontem em frente ao Paço Imperial. Gente! Que momento sublime foi aquele. Eu fiquei parada diante dele, derretendo por dentro de emoção. E ele tocou aquela melodia triste e me olhou nos olhos e durante alguns segundos eu não me senti mais sozinha. Foi incrível. Assim como quando dou a sorte de cruzar o olhar com um senhor de terno e gravata, cheiroso e arrumado e ele me cumprimenta com um sorriso e um sonoro “bom dia, senhorita”. Ou quando percebo uma florzinha nascendo solitária no meio da rua, no meio do cimento, no meio do caos cinzento. Esses momentos, são momentos importantíssimos para mim. Porque entendo que de alguma forma, há dentro de todos nós, desertos e oásis. E só depende de nós qual cenário valorizar. Se o cenário da luz ou o cenário da sombra. Só depende de nós.

O Looping da Ladainha

elastico

Esse ano o Natal aqui em casa foi diferente.

Tivemos a tradicional troca de presentes – aquele momento mágico da noite que todo mundo volta a ser criança – mas junto dela eu tive a ideia de propor uma novidade para galera, dando uma sacolinha a mais de presente para cada um.

Na verdade, dentro da sacolinha misteriosa, tinham dois presentes. Duas propostas de prática espiritual para o ano novo: o Potinho da Gratidão e a pulseirinha mágica das reclamações.

A primeira é fácil e bonita de fazer. Junto de um potinho com tampa, vinha um bloquinho colorido e uma caneta para todo mundo escrever e colecionar os melhores momentos vividos em 2016. Foi uma ideia copiada do Facebook, mas achei tão simples e tão carregado de poesia que resolvi fazer um potinho para cada um da família. O pessoal adorou. Já a segunda proposta… Uau.

A tal da “pulseirinha mágica” foi um rebuliço. Há meses atrás eu já tinha recebido o desafio da minha amiga de Joinville, aquela que eu amo e é a minha dentista preferida – mas tinha desistido nos primeiros dias depois de surtar por descobrir minha total incompetência de realizar a tal tarefa.

Mas com a chegada do fim do ano – e a percepção de todos os erros que eu tinha cometido nesse mesmo ano – achei que era uma boa hora de tentar de novo o desafio e carregar todo mundo que eu amo pro mesmo barco que eu, onde as grandes oportunidades de crescimento estão escondidas atrás das grandes superações.

Bom, a prática da pulseirinha em si é muito fácil de fazer. Você coloca a pulseira num braço. E todas as vezes que reclamar, muda a pulseirinha de braço. Para minha família, eu distribui um monte de elásticos coloridos, porque são fáceis de tirar e porque eu já sabia de antemão que isso ia acontecer muito mais vezes do que eles podiam imaginar. Na verdade, o tipo de pulseirinha que você vai escolher não importa – cada um vai poder usar o modelo que quiser. O que acontece é que a tal pulseira vai se transformar num retrato de quem você é. E é aí que mora o perigo. Porque parece uma coisa fácil né. Mas não é. Se a gente for honesto com o processo, vai ficar chocado com a quantidade de vezes que reclama de tudo, o tempo todo.

Mas por que eu inventei de fazer isso com a minha pobre família? Porque eu acredito profundamente no poder que está por trás das nossas sombras. No que pode acontecer de mágico quando a gente muda o jeito de ver as coisas. E a gente só muda o jeito de ver as coisas, quando tem coragem de colocar uma lupa nas coisas que esconde.

A gente está habituado a reclamar. Habituado a ser chato.  Habituado a nunca estar satisfeito com nada. Habituado a olhar as coisas de um jeito negativo. Habituado a julgar a tudo e a todos. E cara, isso é uma energia péssima e totalmente voltada para o lado negro da Força. Na reclamação a vida não flui, não tem espaço, não tem luz, não tem para onde se expandir. Porque a reclamação é uma energia estagnada, repetitiva e muito, muito ingrata.

Na noite de Natal, na hora que a proposta foi apresentada, todo mundo achou muito engraçado. Divertido. Depois de uma hora, todo mundo já tinha trocado a pulseirinha de braço umas dez vezes cada um. E olha que a gente estava numa noite de festa, tranquila e alegre. Imagina numa segunda-feira de manhã, nesse calor que tem feito, no trânsito, indo para o trabalho? Todo mundo saiu da minha casa meio bolado. E eu fiquei feliz por isso.

Talvez a maior sacação dessa prática espiritual não seja a intenção de cura do vício de reclamar, mas nos fazer perceber o quão repetitivos e dramáticos podemos ser na vida. Claro que muitas vezes fazemos a coisa de uma forma inconsciente. Pelo hábito da coisa. Por ignorar a potência negativa da coisa. E por isso mesmo, devemos nos perdoar. E rir desse nosso jeito pentelho de ser. Porque só o humor vai poder nos salvar da raiva que sentiremos de nós mesmos. Foi assim comigo na primeira vez. Eu senti tanta raiva e vergonha de mim mesma que desisti de tentar não reclamar.

Mas dessa vez, eu encontrei uma outra forma de ver a coisa.  Porque passei a me observar de longe. E entender que para sair do looping da ladainha é preciso, antes de mais nada, ter muita paciência com a gente mesmo. Se a intenção é mudar a forma de ver, é preciso antes mudar a forma de ser. E essa mudança é possível. Com a pulseirinha no braço, o mecanismo de conscientização vai evoluindo aos poucos. Depois de passar algumas horas sem mudar a pulseira de lado, seu sistema de reclamação começa a ficar em alerta. E antes mesmo de abrir a boca para reclamar de algo, a consciência pára e se pergunta: será mesmo que eu preciso reclamar disso agora? Será que não dá para respirar fundo e tentar transformar o que está me incomodando sem colocar a boca no trombone?

Gandhi costumava dizer que “não existe um caminho para a paz, porque a paz é o caminho”. Eu não quero mais me preocupar com o resultado do processo. E sim, como vou viver o processo. Não importa quantas horas eu vou conseguir ficar sem reclamar. O que eu quero é sentir o sabor dessa alegria de estar ao menos tentando ser uma pessoa melhor. E curtir essa felicidade que é tomar posse de algo tão simples e tão poderoso.

Desejo para o próximo ano que outras pessoas possam aceitar esse desafio e que elas possam afinar seu próprio jeito de olhar para a vida. E perceber o tamanho de espaço que se estabelece para outras coisas incríveis acontecerem, quando paramos de reclamar da vida e simplesmente agradecemos as enormes e incomensuráveis bênçãos que recebemos todos os dias.

Que o Potinho da Gratidão possa contabilizá-las e que o ano de 2016 seja um ano de novos e transformadores padrões de comportamento.

Nossas almas agradecem. E os nossos amigos também!

Feliz ano novo, pessoal!

P.S. Mickaela Lindermann, minha irmã, obrigada mais uma vez por me ajudar a ser uma pessoa melhor. Eu te amo!

Processo Funil

Radha

Arte de Francina LaXisca

É batata! Basta entrar dezembro no calendário que a minha alma começa a querer viver o mesmo ritual de sempre: o processo funil.

Tem coisas que são da gente e por mais que a gente tente, não consegue mudar. Eu sou assim com os rituais. Não consigo sentar para escrever sem acender uma vela, um incenso e pedir à benção do Grande Espírito. Não consigo mais dormir sem agradecer todas as coisas divinas que tenho. Não consigo mais tomar banho sem mentalizar que aquela água me limpa por fora e por dentro. Os rituais nos ajudam a viver. Nos ajudam a integrar sensações, resolver sentimentos. A encarar melhor a insanidade maravilhosa que é viver.

O processo funil também é um ritual. Acho que um jeito maroto que a minha alma encontrou para não se perder. E começa no início do mês para dar tempo de fazer a limpa em todos os setores do organismo e da alma. Tipo um Clean Master da pessoa. Ele vai escaneando todos os meus arquivos internos e vendo o que precisa ser jogado fora. É muito bom. Como se fosse uma retrospectiva da sua vida, só que meio resumido, feito um filme. Parece incrível, mas olhar a vida sob uma perspectiva distanciada nos dá uma noção subjetiva bem interessante das coisas.

Eu gosto muito quando o processo funil começa. Assim como eu adoro começar uma faxina. Sabe aquela energia de arregaçar as mangas para o trabalho? É isso que eu sinto. Claro que cada um vai encontrar o seu próprio mecanismo. Eu por exemplo adoro fazer listas porque elas tem o poder mágico de sintetizar as minhas bagunças internas. Então eu sento e começo a listar tudo que me vem à cabeça. As melhores lembranças do ano, as piores. O que eu quero mudar no ano que vem. O que eu quero fazer nas férias. O que vou mudar na casa. O que de jeito nenhum quero viver mais. Os lugares que quero visitar. Os livros que quero ler.

É preciso olhar e celebrar o que deu certo. Jogar fora o que não deu. Cuidar com afeto aquilo que não foi bem compreendido. Digerir o que ficou entalado. Deixar ir aquilo que não serviu. Ritos de passagem requerem coragem. Não é um processinho fácil não. Às vezes pode ser doloroso e esquisito. Mas muitas vezes pode ser divertido também. O ideal é que a gente se divirta com o processo e encare os fatos com leveza.

No meu pente fino desse ano eu já descobri algumas coisas. Mas a que mais tá me incomodando foi ter descoberto que a grande promessa que eu fiz a mim mesma no ano novo, eu não cumpri. No réveillon de 2014 eu prometi que em 2015 eu faria dança de salão. Eu tenho loucura para voltar a fazer dança de salão. Tá, mas então o que é que aconteceu? Por que eu não consegui? Foi por falta de tempo? Por falta de lugar? Dinheiro? Preguiça? Aiiii. No processo funil nada passa batido.

Eu também não meditei tanto quanto gostaria, não cuidei da minha saúde como deveria. Li bem menos livros do que prometi, fiz bem menos exercício do que precisava. Mas em compensação realizei meu sonho de abrir um site e escrever um texto por semana, trabalhei arduamente pela Escola que amo, cuidei com bravura das minhas filhotas, passei quase cinco meses sem comer açúcar. Dá para lamentar e celebrar com cada coisa vivida.

Mas ainda estamos no dia 06 de dezembro. E eu espero que o processo funil possa me ajudar a afinar tudo que precisa ser transformado para o ano que vem. Todos os campos, todas as camadas, todos os poros do meu ser serão revistos. Porque desejo profundamente acertar mais no próximo ano. Estar mais leve no próximo ano. Estar ainda mais inteira no próximo ano.

Somos seres em construção. Em evolução. Que todos os processos de cada um de nós possa nos levar a apuração do melhor que podemos ser em cada área de nossas vidas. Viver é um grande desafio. Mas viver com consciência pode fazer uma profunda e significativa diferença na nossa existência. A gente só precisa acreditar. E ter coragem para mudar.

O Jequitibá e o tempo

Foto de Irene Monteiro

Foto de Irene Monteiro

No fim de semana passado vivi uma experiência extraordinária.

Eu tinha viajado com a minha família para o Sítio São José, em Cachoeira de Macacu e minha mãe cismou que eu precisava conhecer uma árvore. Vocês conhecem minha mãe né. A mulher é uma bruxa e geralmente quando ela cisma com alguma coisa, alguma coisa tem.

Pois bem. Lá fomos nós: minha mãe, meu padastro, as pequenas e eu para o Parque Estadual dos Três Bicos, onde morava a tal da árvore.

Caminhamos uns dez minutos num trilha deliciosa, das minhas preferidas: bem úmida, fechada, com milhões de texturas e cores de folhas, um cheiro de terra inebriante. Passamos por cavernas de pedras, raízes esculturais, várias espécies de borboletas. De repente, numa clareira, eu vi a árvore. E quando me deparei com ela, levei um susto. Perdi o fôlego e fiquei olhando para aquela coisa sem acreditar no que via. A árvore era nada mais nada menos que um Jequitibá-rosa de 40 metros de altura e um tronco com um diâmetro de mais ou menos sete metros. Um gigante em meio àquela floresta. Mas o que mais me emocionou e me tocou e me fez ficar pensando nele desde o dia que nos conhecemos é que essa árvore existe há mais de mil anos.

Gente. Mil anos. Pensem comigo. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, essa árvore já estava ali há 500 anos. Eu não sei para vocês, mas para mim é uma piração imaginar uma coisa dessas.

Bom, naquele dia, quando eu consegui chegar pertinho da árvore, a primeira coisa que me veio ao coração foi a necessidade profunda de me deitar aos pés daquela divindade e reverenciar sua ancestralidade e sabedoria. Depois me levantei e abri os braços para abraça-la quando percebi que Clara e Catarina já estavam abraçadas a ela de olhos fechados há um tempão. Minhas filhas fadas. Que orgulho meu Deus.

Passamos ali um tempo mágico. Ninguém queria ir embora. Ninguém conseguia acreditar no que via. A presença do Jequitibá era tão forte que a impressão que me dava é que a gente podia senti-lo respirando. Parece que no Parque Estadual do Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro em São Paulo, tem o maior e mais antigo Jequitibá-rosa vivo no Brasil. Ele tem 3.032 anos de idade. Gente! Como assim?

Desde o dia que eu estive na presença do Jequitibá, não consigo parar de pensar nele. Fecho os olhos, coloco na palma das mãos o pedaço de tronco que encontrei dele no chão e me conecto a alma daquele ser de uma forma estranha e mágica. Nesse momento volto a pensar no tempo do mundo, no tempo interno da gente e nessa nova perspectiva que a física quântica nos traz hoje sobre o tempo. Não é para pirar?

Desde pequena sou uma viajante do tempo. Perdi a conta da quantidade de vezes que fui ao Centro do Rio e fechei os olhos, sentada num banco de praça e imaginei o tempo voltando no tempo. Eu abria os olhos e via os bondes, as pessoas elegantes vestidas passeando com seus chapéus, via Machado de Assis escrevendo no Café da esquina. Quantas vezes me vi na praia imaginando o tempo em que essa terra era somente habitada por índios!

Eu acho que não sou do meu tempo. Vocês podem achar isso uma viagem, mas eu tenho uma sensação física de estar fora do meu tempo. Deve ser por isso que sou apaixonada pelo filme “Meia Noite em Paris”, do Woody Allen. Ele teve naquele filme uma sacação incrível sobre esse desejo de viagem no tempo das pessoas. Mesmo a moça que morava no tempo antigo que ele visita, sonha em viajar no tempo ainda mais antigo do que o dela, achando que somente aquele tempo deveria ser legal. Minha cara.

Para o futuro nunca me projetei. Até porque a minha cultura cinematográfica me impede de desejar o futuro. Quem viu “Blade Runner” sabe do que eu estou falando. Mas a verdade é que aquele Jequitibá me atiçou a loucura de pensar no tempo. E nas dobras do tempo. E nas possíveis dimensões que o tempo nos traz.  Quem me dera ter capacidade mental de estudar a fundo a física quântica. Isso sim deve fazer uma pessoa pirar o cabeção. Na física quântica a realidade é comprovadamente relativa. E o tempo não existe como o compreendemos. Pensar nisso me enlouquece. E como eu já sou bem fora da casinha, prefiro ficar com o poder da minha imaginação.

Na terapia a gente tem muito essa coisa de cuidar das nossas “crianças internas que um dia passaram por algum trauma”. Pois bem. Não esqueço a emoção que vivi meses atrás, quando numa jornada, pude vivenciar um encontro emocionante da minha Tatiana adulta – eu, euzinha no corpo de hoje – colocando no colo uma Tatianinha minha, pequenininha, que chorava sem parar. Quem vai me dizer que isso não pode ser verdade? Que numa dobra do tempo, todos nós não podemos nos encontrar com outros nós em outro tempo?

Hoje eu vou deitar na minha cama e imaginar o encontro dessa Tatiana que eu sou hoje com a minha Tatiana, bem bem velhinha. E dizer para ela que estou fazendo de tudo, tudo mesmo, para que ela seja uma velhinha absolutamente satisfeita com a vida que viveu. E antes de adormecer, vou voltar ao meu querido Jequitibá e agradece-lo por toda essa viagem que ele tem me feito fazer. Essas conexões tão mágicas não são à toa. Não podem ser. Quem sabe eu não fui uma indiazinha que presenciou o início do crescimento desse Jequitibá há mil anos atrás? Hein? Quem sabe?

Só Deus.