Carta aos meus pés

Meus queridos pés,

Caminhamos juntos há quase quarenta e quatro anos.

Chegamos a esse planeta num parto rápido e indolor, num país chamado Brasil, mais precisamente nas terras de Minas Gerais, no outono de abril de 1973.

Não demoramos muito a nos firmar no chão. Nossos primeiros passos foram dados em Teresópolis, numa solitária casinha no Vale São Fernando.

Nossos primeiros anos foram preciosos.

Nos refrescávamos em riachos, pisávamos felizes em pedrinhas, grama verde e chão de terra batida. Corríamos livres por colinas e bosques. Subíamos em árvores altas, escalávamos montanhas, percorríamos nosso pequeno mundo com curiosidade. Tínhamos muita coragem.

Crescemos e fomos parar na cidade grande. Estranhamos muito o Rio de Janeiro. A dureza do asfalto, a pressa das pessoas, a ausência dos vaga-lumes. Mas nos encantamos a primeira vez que pisamos na areia da praia de Ipanema. Encontramos o mar e o mar nos curou da saudade da terra.

Foram anos bonitos também.

Andávamos de patins, de bicicleta. Aprendemos a dançar, a gostar da cidade, tínhamos muitos amigos. Até que um dia encontramos um solo tão precioso para nós quanto um dia tinha sido a terra. Lembram? Foi quando pisamos num palco de teatro pela primeira vez. Depois de muitos anos, tínhamos encontrado de novo um lugar no qual nos sentíamos em casa.

Foram anos emocionantes.

Brincávamos de ser outros pés, de existir de outras formas. Sonhávamos acordados, voávamos para onde queríamos. Descobrimos que a vida era sonho e que sonhar também podia ser uma forma de caminhar pelo mundo.

Mas o tempo passou. E o tempo nos trouxe o tempo de carregar outros pés dentro de nós. Colocamos no mundo dois pares de pezinhos encantadores. E encontramos de novo o sentido de existir.

Foram anos incríveis. E muito trabalhosos também.

Porque passávamos quase o tempo todo ou alimentando os pezinhos ou correndo atrás deles. Acho que nunca podíamos imaginar o que significava colocar outros pés no mundo.

Foi quando a vida nos levou a percorrer outros solos do nosso país. Fomos para São Paulo, para Joinville. Mudávamos de endereço como quem muda de sapato. Buscávamos alguma coisa que nunca encontrávamos.

Foram anos estranhos.

Até que chegamos a Niterói. Cidade que vivemos hoje. E durante muito tempo aqui fomos felizes. Até que vocês adoeceram.

Há mais de um ano, vocês passaram a sentir muitas dores para caminhar. No início, a dor acontecia somente na hora de sairmos da cama. Eram os primeiros passos depois do sonho que nos faziam sofrer. Mas com o passar dos meses, a dor no caminhar foi se transformando em algo constante e muito angustiante para nós.

Falo com vocês, tento entender o que sentem, mas nenhum dos dois parece me ouvir. É onde nós estamos que vocês não querem mais estar? É por onde caminhamos que vocês não querem mais caminhar? A dor paralisou vocês e eu preciso entender por que.

Temos vivido um período de profunda tristeza. Cuido de vocês com toda a dedicação. Já fiz de tudo que podia. Tudo que estava ao meu alcance. Massagem com cremes, banhos de óleo com canela. Salmoura com ervas. Gelo úmido. Comprei sapatos confortáveis. Tomei anti-inflamatórios, babosa, florais. Encomendei pantufas coloridas. Toalhas felpudas para secar vocês. Fiz fisioterapia com bolinhas, moxabustão. Fiz carinho. Escrevi em vocês palavras de amor e cura. Os abracei com amor. Mas nada parece ajudar.

Meus pés, meus queridos pés

O que é que vocês estão tentando me dizer com essa dor que não cessa nunca? Que vocês não querem mais caminhar? Ou que não suportam mais o caminho que escolhemos trilhar?

Será que não nos enraizamos o que precisávamos para estar aqui? Será que nunca ancoramos na Terra como deveríamos? Ou será que precisamos agora de asas para voar?

Meus pés, falem comigo. Me digam o que preciso fazer para que parem de chorar.

Sei que sentem falta do tempo que andávamos livres por riachos e também sentem saudade dos palcos da vida. Mas será que são essas ausências que fizeram vocês adoecerem? Me deem uma pista do que posso fazer. Por vocês… por nós.

Se estamos vivos, é sinal de que nossa missão ainda não chegou ao fim.

Mas não me deixem aqui sozinha. Caminhar sem vocês não faz sentido algum. Porque não conseguirei caminhar por inteiro. E muito menos ser feliz.