A estranha consciência da morte

pódeestrela

Eu sempre fui uma pessoa esquisita. Fora dos padrões, fora do lugar. E sempre tive uma sensação muito profunda de inadequação no mundo.

Mas talvez uma das coisas que mais me faça sentir uma marciana nessa vida seja essa minha estranha consciência da morte.

Não tem nada a ver com morbidez. Ou qualquer outra esquizofrenia nefasta. É apenas uma estranha e absoluta certeza da minha finitude.

Não me lembro direito quando foi que essa sensação me arrebatou pela primeira vez.  Eu estava fazendo uma coisa qualquer, num lugar qualquer. E de repente, não mais que de repente, eu me descolei da cena e percebi que tudo aquilo, um dia, chegaria ao fim.

Me senti esvaziada. Olhei ao redor. Olhei pro céu. Respirei fundo. Como era possível um dia deixar de existir? Como era possível um dia ter que deixar isso tudo para trás?

Talvez esse tenha sido um dos momentos mais estranhos e solitários que eu já vivi. E mais significativos também. Como se o meu fim, muito antes de acontecer, me pudesse ter sido soprado no rosto e isso não tivesse vindo como maldição, mas como profunda benção divina. Claro que na hora foi meio assustador. Uma conscientização tão aguda assim da nossa não eternidade não é um troço fácil de viver. Foi quase como um tapa na cara. Um choque de realidade. Ou da não realidade. Sei lá.

Sei que isso voltou a acontecer muitas vezes. Mas depois, com o tempo, eu fui me acostumando àquela coisa que vinha de vez em quando. E quando a coisa vinha, eu acolhia como quem acolhe um filhotinho de qualquer espécie, com muito cuidado, amor e respeito.

Foi então que eu fui estudar espiritismo. Depois comecei a meditar. Comprei o “Livro Tibetano do Viver e do Morrer” (mas nunca li). Depois entrei na terapia. Descobri o xamanismo. Com o tempo, todo o processo foi perdendo peso e ganhando a leveza que precisava ganhar. E no final consegui transmutar a tal sensação de mau agouro numa profunda e abençoada consciência de estar viva.

Não é para todo mundo que eu posso contar essa história. As pessoas tem muita dificuldade de falar sobre a morte. Só o assunto provoca arrepios. E quando eu digo que quero ser cremada? As pessoas me olham com um olho arregalado, me achando uma criatura de outro mundo. “Como é que você pode pensar numa coisa dessas?” Ué gente. Eu acho bonito o ritual de jogar as cinzas de quem morreu num lugar bonito. Nunca vou esquecer o momento que joguei as cinzas da minha avó no Jardim Botânico. Foi uma das coisas mais bonitas que já vivi. Ela amava aquele lugar e pôde voltar para lá de alguma forma. Isso não é bonito? Inteiro? Verdadeiro? Por que a morte tem que ser um assunto tabu sempre? Por que a gente não pode nem falar sobre isso? Será que as pessoas não entendem que a gente está aqui só de passagem? Que somos seres espirituais, passando por uma experiência terrena? Será que as pessoas evitam o assunto porque não falando dele, ele passa a não existir?

Ah sei lá. Esses assuntos que a gente não pode nem tocar me fazem pensar sempre que são os que mais a gente precisava falar.

Talvez o único apertinho no coração que permaneça desse processo é quando a coisa vem e eu estou ao lado das meninas. Aí o meu coração contrai. Deve ser por esse amor desesperado que eu sinto por elas. Ou por essa coisa de ser mãe e achar que os filhos sempre precisarão da gente. Eu não tenho medo de morrer. Talvez tenha medo de sofrer para morrer. Mas da morte, não tenho medo nenhum. Muito pelo contrário. Imagino que voltar para as estrelas será um grande alívio no final das contas. Claro que viver é uma benção. Mas para mim não é fácil viver. Nunca foi. Nem mesmo quando eu era uma menina-fada e achava que a vida era um sonho.

Mas quando olho nos olhos dessas filhas que me escolheram para vir para cá, fica difícil de me imaginar fora daqui. Difícil me imaginar separada de corpo delas. Porque a separação só vai ser de corpo né. De energia – espiritualmente – eu nunca vou me separar delas. Um amor como o nosso, nem a morte pode romper.

Sim. Um dia eu vou morrer. E se Deus quiser, vou virar pó de estrela. Rezo muito para que quando eu já esteja nesse estado cintilante, Deus também possa me soprar no rosto, um estranho instante de consciência, só que ao invés da morte, seja da vida. E que esse sopro, me traga o hálito da Clara e da Catarina. Só para me dizer, que no final das contas, não importa em que dimensão a gente está. O que importa é o que a gente é. E acredita, esteja vivo ou não.

Velha Alma

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Por onde andas minha velha alma?

Escondida entre folhas em branco?

Espremida entre as horas perdidas desses dias vazios?

Por onde andas minha velha amiga?

Por que andas tão calada, tão ausente, tão desaparecida?

Amanheceres e anoiteceres têm passado e eu não tenho conseguido encontrar-te…

Nem no raio de sol que chega, nem no raio de sol que parte.

Por onde andas minha alma querida?

Andas esquecida de quem somos? Do que precisamos? Do que acordamos quando ainda sonhávamos juntas?

Tenho sentido tanto a tua falta em meus dias, em minhas noites.

Minhas madrugadas não fazem sentido sem tua presença.

Sem ti tenho andado esvaziada, exaurida, ressecada.

Não consigo escrever, não consigo sentir, não consigo viver.

Por onde andas minha alma velha?

Estás escondida? Ressentida? Adoecida?

Do que temes?

Tens preguiça? Estás perdida?

Andei buscando-te entre gavetas, recortes, figuras, livros velhos de poesia.

Em silêncios, lágrimas bobas, memórias esquecidas.

Nos abraços profundos, nas taças de vinho tinto, nas chamas das velas coloridas.

Mas não consigo encontrar-te em parte alguma.

Por onde andas minha alma ferida?

Diga-me: o que preciso fazer para que voltes a cantar em meu peito?

Para que me devolvas a esperança, o frescor dos dias, a alegria?

 

Venha, velha alma.

Venha de volta para mim.

Ajuda-me a nutrir tudo aquilo que somos nós.

Ajuda-me a ver de novo, a entender de novo, a sentir de novo.

Ajuda-me a escrever.

Ajuda-me a suportar.

Ajuda-me a crescer.

Traz-me de volta desse deserto que é viver sem você.

A Esquizofrenia da Ausência

Escultura de Camille Claudel

Escultura de Camille Claudel

Camille Claudel e eu temos algo muito profundo em comum: há sempre algo de ausente que nos atormenta.

Ela foi uma escultora francesa genial, que enlouqueceu de amor e morreu bem velhinha num hospício depois de longos trinta anos de abandono.

Eu sou uma professora de teatro, escritora, brasileira, mãe de duas filhas que mora num condado distante em Niterói.

Nossas realidades jamais poderiam ser comparadas. Mas ainda sim, eu sinto que há entre nós algo muito profundo que nos une: a esquizofrenia da ausência.

Muitas neuroses explicam a identidade e a vida de pessoas que habitam esse mundo. Essa neurose que eu denominei de “esquizofrenia da ausência” nada mais é do que uma insatisfação crônica do que se vive no presente. Confesso que me sinto envergonhada por compartilhar isso. Justo eu, a fervorosa defensora da filosofia transformadora do “poder do agora”. Sim. Não há nada mais libertador do que compreender que é no presente que a vida está. Que não há nada no passado que possa ser transformado e que o futuro é uma ilusão que nem aconteceu ainda. Sim. Mesmo sabendo de tudo isso racionalmente, eu ainda sofro da esquizofrenia da ausência e eu vou explicar por que.

Eu desejei desesperadamente entrar de férias. No fim do ano passado estava exaurida, exausta, entupida. E ficava, lá nos últimos instantes dos dias letivos, delirando, sonhando, planejando as férias que iam me salvar daquela sensação de sufocamento.

Ok.

Minhas férias estão chegando ao fim. Mas há semanas eu estou desesperadamente desejando a volta às aulas. Exaurida, exausta, entupida. Com a mesma sensação de sufocamento, só que por outros motivos.

É.

É preciso coragem para se confessar uma coisa dessas. Mas é a mais pura verdade. E o pior, é uma insatisfação que parece estar sempre à espreita na minha vida tentando se manifestar.

No verão, me queixo do calor. Esbravejo, suo como uma condenada e fico o tempo todo desejando o inverno. No inverno, fico cansada do frio, morro de saudade da praia e fico o tempo todo desejando o verão.

No fim do ano cortei meus cabelos curtos porque estava saturada da minha juba de leão. Agora de cabelos curtos, estou saturada da cor dos meus cabelos.

Quando viajo por exemplo. Passo meses planejando a viagem, curtindo tudo que quero fazer, os lugares que quero conhecer. Mas depois de um tempo viajando, já estou morrendo de saudade da minha casa, da minha cama e do meu feijão.

É uma eterna sensação de esvaziamento. Uma melancolia de uma incompletude que eu não consigo explicar.

E não é só isso, sabe? Eu queria me livrar desse sentimento doído que eu sinto todas as vezes que vejo uma foto da Grécia. Ou uma foto de Bora Bora. Fica lá uma impressão esquisita que eu nunca vou conseguir realizar todas as coisas que eu sonho nessa vida. E o pior, vem uma nostalgia no coração de todas as coisas que eu nunca vivi. Como é que pode?

Estranho né.

De vez em quando eu penso no que terá passado na cabeça de Camille Claudel naqueles trinta anos que ela passou no hospício. Pobre criatura.

Graças a Deus faço terapia e acho que vou conseguir me livrar do pinel nessa vida. Mas mesmo assim, mesmo no caminho do autoconhecimento, mesmo escrevendo para me salvar, mesmo sabendo da força que existe no poder do agora, mesmo sabendo que agradecer é o melhor caminho para compreender a verdadeira abundância, mesmo sabendo disso tudo… lá… bem no fundo do meu peito, ainda há sempre algo de ausente que me atormenta.

Talvez isso tenha um nome: humanidade.

 

 

A Jornada do Herói

Menina e o barco

Arte de Beatriz CarbonMade

Não.

Eu não concluí a Jornada do Herói.

Não voltei do processo mais forte.

Não entendi tudo que pretendia entender.

Não passei pelas etapas que um herói deve passar.

Não iluminei todas as sombras que desejei iluminar.

Não cheguei nem perto de desatar os nós que precisava tanto desatar.

A vida geralmente não é aquilo que a gente planeja. A vida é o que precisa ser. Ou aquilo que a gente suporta viver.

Mas de todas as experiências que passei nesses poucos dias, naquela linda casa cravada no coração da montanha, talvez uma das mais significativas tenha sido justamente respeitar os limites da minha dor e ter voltado à civilização antes que minha alma se despedaçasse. É preciso muita coragem para se olhar do avesso. Mas com o tempo aprendi que nem todas as experiências precisam ser vividas com dor. Porque eu também aprendi que o amor cura feridas. Que acolher os meus sentimentos, por mais contraditórios que sejam, também cura as minhas feridas. E que ser verdadeira comigo mesma, sempre, também vai curar as minhas feridas.

Estou há alguns dias recolhida no meu ninho e esse tempo foi extraordinário para me fazer entender o quão heroína eu fui, em todo o processo, desde o início até o fim. Heroína por ter tido coragem de ir, heroína por ter tido coragem de partir. Heroína por assumir que minha jornada era mais curta do que a dos outros heróis. Heroína por ter passado aquelas noites em claro chorando dores tão antigas. Heroína por não ter me envergonhado dessas dores. Heroína por ter pedido ajuda. Heroína por ter aceitado ajuda. E, sobretudo, heroína por não esconder isso de ninguém. Principalmente, de mim mesma.

Herói é aquele que tem coragem de viver, mesmo que por dentro sinta muito medo da vida. É aquele que enfrenta grandes perigos, mas também enfrenta pequenos desafios no dia-a-dia que podem ser perigosamente enlouquecedores. Herói é aquele que caminha com a verdade. É aquele que não desiste. Que insiste. Que permanece vivo. Que se refaz a cada manhã. Que encontra a saída dos labirintos, que se desespera com a fragilidade da vida mas que se supera apesar da efemeridade de sua existência.

Não. Eu não concluí a Jornada do Herói. Mas concluo minha vida todos os dias, a cada noite que anoitece e eu não desisto de viver.

Eu agradeço a todos que de alguma forma, me proporcionaram essa curta e intensa história de cura. De camada em camada, vou seguindo pela vida, resgatando cada pedacinho da minha alma que foi perdida.

Eu agradeço. Eu agradeço. Eu agradeço. Eu agradeço.

Tempos Sombrios

caminhosdafloresta

Vivemos tempos sombrios.

Olho para a cronologia da existência da humanidade e vejo que em todos os tempos, o homem sempre viveu profundos desafios. Desde a sua experiência como homem das cavernas na Idade Antiga, depois como guerreiro sanguinolento na época das Cruzadas na Idade Média, em seguida como desbravador do mundo nos grandes descobrimentos marítimos da Idade Moderna, chegamos ao que o homem se transformou hoje, na Idade Contemporânea. Um homem perdido dele mesmo.

Vivemos tempos sombrios de guerras veladas e movimentos de destruição em massa. Mas talvez o pior dos nossos tempos seja essa desconexão que o homem vive consigo mesmo. Com aquilo que é mais profundo e sagrado: o seu ser interior.

Essa semana, essa comoção que aconteceu com todo mundo pelo fato do whatsapp ter ficado algumas horas fora do ar me fez pensar no quão adoecidos estamos.

Desde a semana passada eu já tinha ficado sem celular. Essas modernidades são ótimas até a hora que ela pifa. O meu deu problema no touch. Para quem não sabe o “touchscreen” é uma tela sensível ao toque que representa o display eletrônico visual do celular e que é responsável por todos os movimentos e ações da gente dentro do aparelho.

Ficar sem celular esses dias me fez viver um curioso e patético processo de abstinência. Nas primeiras horas eu tive a impressão de cair num vazio silencioso esquisitíssimo. Um oco existencial. De hora em hora eu me lembrava que faltava alguma coisa. Eu sabia que estava sem celular, mas a impressão que eu tinha é que me faltava alguma coisa mais séria. No dia seguinte, eu comecei a sentir sintomas mais profundos da abstinência. Uma ansiedade enorme de pensar que as pessoas podiam estar tentando falar comigo e eu não tinha como responder. Ansiedade de querer falar com as pessoas e não poder. Ansiedade em pensar que as pessoas podiam estar precisando de algo com urgência. Ansiedade de me sentir excluída do mundo. Olha que louco isso. Aí me dei conta que os assuntos mais urgentes, eu podia tentar resolver pelo telefone fixo das pessoas. Mas cara. É surreal. Ninguém mais usa telefone fixo.

Então, os dias começaram a passar. Tive dificuldade de achar um técnico para consertar o aparelho. E a coisa foi se distanciando. Se dissipando. Comecei a esquecer da coisa. E aquela preocupação urgente e desesperada pelo conserto foi dando lugar a um sentimento inédito de liberdade que eu há muito, muito tempo não sentia.

Uau.

Quando a coisa do whatsapp explodiu, eu já estava descolada do sistema e com isso pude observar a coisa de um outro lugar. De uma outra perspectiva. E foi surpreendente. A indignação, a revolta, o desespero das pessoas. Gente, o que é isso? As memes eram engraçadas, mas de alguma forma, retratavam uma verdade assustadora: o nosso grau de dependência da coisa.

Olha, eu gosto de tecnologia. Me divirto com o Facebook, me distraio com o Instagram e agradeço muitíssimo por poder falar sem nenhum custo com as amigas queridas que moram fora do Brasil, mas essa coisa do whatsapp tomou uma proporção muito esquisita. Fora que eu achei muito misterioso isso do aplicativo de ter sido bloqueado para investigação de uma ação criminal. Me pareceu coisa de filme. Sei lá.

O meu celular ainda não voltou do conserto. Mas alguma coisa aconteceu comigo nessa semana sem ele. E agora, eu queria muito entender o que foi. Porque na raiz dessa compreensão mora a chave que eu quero virar para o ano que vem. Em 2016 eu preciso rever meu tempo, as minhas prioridades. Descobrir o que me nutre e o que me suga energia. Entendo que estamos a um passo de um futuro robótico, mas ainda sim somos seres em evolução com potenciais incríveis em nossas mentes e almas. Ainda não somos máquinas e ainda não estamos ligados na tomada. Somos seres sensíveis a um mundo tomado por estímulos cada vez mais sintéticos. Se ainda pudermos sentir o mundo com os nossos sentidos reais, talvez possamos evoluir nossa espécie. Só o que precisamos é estar “ligados” ao nosso centro, ao nosso interior e à nossa sabedoria instintiva mais profunda: aquilo que somos em essência.

Que possamos usufruir da tecnologia, mas sem nos tornarmos reféns dela. Em tempos sombrios, precisamos estar juntos, conscientes, iluminando passo a passo o nosso caminho. Não com as lanternas dos nossos celulares, mas com a luz divina e preciosa que emana da nossa mais profunda consciência.

TOE – Transtorno Obsessivo pra lá de Esquisito

livros

Para Catita

O ser humano tem muitas neuroses.

Algumas são sérias, complexas, perturbadoras. Outras são engraçadas, meio patéticas, surreais. Mas hoje eu fiquei pensando que talvez o primeiro passo para curar uma neurose é ter coragem para olhar para ela de frente, assim como quem enfrenta um demônio num deserto. Você e ela, ali, cara a cara. Sem máscara, sem mentira. Sem panos quentes, sem vergonha. Olhar assim, de verdade. A conscientização de uma neurose pode ser um marco. O início mesmo de um processo de cura. Uma libertação definitiva da coisa que faz a gente ser, esse bicho esquisito que a gente é.

Eu, por exemplo. Eu sei que eu tenho um leve nível de TOC correndo nas minhas veias. Para quem não sabe, TOC é a sigla para o transtorno obsessivo compulsivo, um distúrbio psiquiátrico que faz as coitadas das pessoas terem “pensamentos obsessivos e compulsivos, comportamentos considerados estranhos pela sociedade ou por si próprios; normalmente trata-se de ideias exageradas e irracionais de saúde, higiene, organização, simetria, perfeição ou manias e “rituais” que são dificilmente controláveis”. Pois é. Eu tenho um pouquinho dessa coisa aí. Uma coisa leve, assim, quase imperceptível a olho nu. Mas eu tenho. E toda a vez que eu percebo a coisa em mim, um sininho toca e eu fico bem aborrecida com o fato. Não, eu não fico aborrecida. Eu fico me sentindo prisioneira de uma coisa que não precisava ser.

Deixa eu explicar melhor.

Desde pequena eu tenho um lance com arrumação. Minha mãe sempre foi super organizada. Minha avó era metodicamente organizada. Então de alguma forma, alguém me ensinou que a ordem sobre o caos é uma coisa positiva. Até aí tudo bem. A questão é quando a coisa começa a se desequilibrar e se torna uma obsessão, isto é, um apego exagerado a uma ideia de que tudo tem que estar milimetricamente no lugar. Eu tenho para mim que muito do meu TOC tem a ver com um caos interno. As coisas aqui dentro já são tão bagunçadas que eu fico arrumando desesperadamente o lado de fora na esperança de que dentro as coisas vão se organizar melhor. Eu até já escrevi um texto sobre isso: sobre as minhas arrumações compulsivas dos armários quando estou deprimida. Mas ultimamente tenho percebido que a coisa extrapolou o armário e tomou conta da casa toda.

A coisa é mais ou menos assim. To passando do quarto para a sala. Olho de butuca de olho a pilha de livros que está lá na estante do outro lado da sala. Os livros estão empilhados de qualquer jeito. Assim, uns por cima dos outros, mas sem nenhuma simetria estética. Cada um olhando para um lado. Eu não sossego enquanto não vou lá para empilhá-los direitinho. Não é uma atitude meio esquisita? Isso já foi pauta de terapia. E dever de casa desafiador no grau máximo. A tarefa era simples. Olhar a pilha de livros e ficar contando, respirando no incômodo, até me libertar do desejo louco de ir lá arrumá-los. Ahhhhhh. Que agonia!

Quando comecei a pensar nesse texto e no tema polêmico do TOC, liguei para minha irmã, que na minha modesta opinião, está alguns níveis acima da minha loucura. Aquela ali tem TOC brabo, mas não se incomoda com isso. A casa dela é Casa Cláudia e ela se orgulha disso. Tudo está sempre pronto para ser fotografado. Não há uma gavetinha sequer naquela casa que não esteja em ordem total. Mas eu estava aflitíssima ao telefone:

– Má, fiz a besteira de entrar num site para pesquisar os sintomas de quem tem TOC. Cara, eu tô num nível básico em quase todas as listagens. Você acha isso grave?

– Ti, se acalma. A gente foi criada assim. Não lembra que a gente não podia brincar na casa da vovó para não desarrumar nada?

– É, eu lembro.

– Nossa mãe tem o armário arrumado em degrade de cores, cara. Isso tem um peso nas nossas referências.

– É, você tem razão. Mas eu quero me libertar disso.

Para quê secar a bancada da pia depois de lavar a louça? Por que fazer a cama e ficar paranoica que alguém vai sentar e engruvinhar toda a colcha que você acabou de esticar? Pra quê se preocupar de fazer bolinhas com as meias e calcinhas depois que as tiramos do varal? Por que passar Veja tantas vezes na mesa da sala? Por que se importar tanto com as impressões digitais gordurosas no vidro da varanda?

Não pensem vocês que me orgulho de ser assim. Se pudesse mudar alguma coisa em mim, com certeza que essa neurose de arrumação estaria no topo da lista. Claro que eu gosto de ver as coisas organizadas, limpas, cheirosas. Me orgulho de saber que não sou uma acumuladora e que na minha casa não tem nada quebrado ou fora de uso. Arrumar o lugar onde a gente mora tem a ver com honrar de alguma forma tudo que foi conquistado. Eu sei. Mas também sei aqui dentro de mim, que a linha que divide a ordem do ambiente para uma coisa psicoticazinha de arrumação é bem tênue. E assustadoramente esquisita.

Minha irmã teve um professor de história da arte que disse que 1% da população mundial tem alguma preocupação com estética. Taí. Deve ser isso. Eu sou um desses caras. Estética é um ramo da filosofia que tem por objetivo o estudo da natureza da beleza e dos fundamentos da arte. Talvez meu lance lá com os livros assimétricos fale de uma necessidade filosófica de tornar o ambiente da minha casa bonito e equilibrado. Até aí tudo bem. Mas o que me incomoda é perceber que sou prisioneira dessa estética. Eu não conto para ninguém, mas depois que Marly vai embora na segunda-feira – depois de um dia auspicioso de faxina – eu saio consertando objeto por objeto na casa, arrumando as coisinhas na simetria lógica da minha cabeça que não tem lógica nenhuma. Ou tem?

Ah, sei lá. Esse é um assunto que dá muito pano para manga. Das muitas características bizarras de quem sofre TOC realmente essa da arrumação – em mim – me parece a pior. Eu sei que tem muita gente que padece com essa doença. Que fique aqui registrado meu profundo respeito e compaixão para quem luta com esse dragão. Só mesmo a psicanálise para explicar tanta esquisitice. Ou não. Dizem as pesquisas que apesar de vários estudos publicados o TOC ainda é considerado um “enigma” e continua sendo um desafio para os pesquisadores.

Na minha pesquisa pessoal, descobri que algumas sensações mentais se repetem no coração de quem sofre a coisa: percepções ilusórias de se “sentir em ordem”, sensação constante de incompletude, de “ter que” fazer alguma coisa e por fim, a sensação de esvaziamento da energia interna. Nossa. Essas sensações me parecem ser de um profundo sofrimento subjetivo.

Escrever é um processo de cura para mim. Compartilho com o mundo as minhas neuroses para ver se com isso consigo dar uma meia dúzia de socos nesses demônios que me atormentam. E na esperança também de ajudar alguém que talvez sofra do mesmo TOE que eu. Porque gente, não dá para ficar levando a vida tão a sério né. Tudo bem. A gente é esquisito. Mas eu não quero ficar me martirizando com isso. Eu quero rir disso. Talvez a verdadeira libertação das neuroses esteja no segredo de rir delas. Ou escrever sobre elas. Cada um com a sua possibilidade de libertação exorcizante. Nietzsche dizia que “temos a arte para que a verdade não nos destrua”. Eu tenho as palavras para que as neuroses não me destruam. Aho!

Uma Canção para Aylan

maefilha

Já perdi a conta da quantidade de vezes que fui acusada de alienação.

Já perdi a conta da quantidade de vezes de ver gente bufando o absurdo da minha postura de não ler jornal.

Já perdi a conta da quantidade de vezes que tirei gente do sério simplesmente por fazer a escolha de não querer saber das notícias cruéis do mundo.

No início, eu me sentia envergonhada. Escondia de todo mundo essa escolha bizarra de ir no contrafluxo do mundo enlouquecido de informações e me desculpava constrangida por não saber do menino que matou outros vinte na escola. Pedia desculpas pela minha ignorância e disfarçava essa minha opção maluca de vida.

Mas com o tempo, eu me fortaleci. Compreendi em profundidade o que era a sombra do mundo e o que fazia parte da cultura do medo. Entrei de cabeça no estudo e na vivência da minha jornada espiritual. Saí de grupos do Facebook que me alertavam sobre os perigos da cidade, saí de fininho das conversas que sangravam, aprendi a dizer para o motorista de táxi que não me contasse os casos de assalto da região, aprendi a defender minha escolha de vida com orgulho e ver nela todo o sentido que eu buscava. É impressionante como a gente acha que não, mas a gente pode escolher em que frequência do mundo quer viver.

Mas mesmo com todo o cuidado, todo o filtro e toda a tentativa de escapar da dor que o mundo me causa, um dia, uma fotografia gruda na minha retina e não me deixa respirar. A fotografia de um menino morto na beira da praia entra em mim e me toma por inteiro. Me doem os ossos. Me dói o estômago. Me dói a alma. Tento desesperadamente entender o contexto, ler as notícias atrasadas. Me sinto culpada pela impotência, sou bombardeada de mensagens no whatsapp de amigos em sofrimento como eu e penso: quando é meu deus, que a humanidade vai parar de ser como é?

Muito já foi dito sobre essa história essa semana. E o Efeito Aylan Kurdi é real. Depois da morte do menino sírio, algumas coisas já se transformaram na Europa. De alguma forma, essa dor que o mundo sentiu fez mover energias profundas que precisavam desesperadamente ser transformadas.

Mas aqui dentro de mim, dentro desse meu pequeno universo que habito, o que eu queria dizer com esse texto essa semana, era que desde o dia que aquela imagem foi divulgada para o mundo, antes de dormir, eu não consigo fazer outra coisa que não seja imaginar colocar o pequeno Aylan no colo e cantar para ele uma canção de ninar. Rezo para que ele, sua mãe e seu irmão encontrem luz no Caminho Azul e compreendam que a humanidade ainda vai precisar de muito, muito tempo para se transformar. Não consigo imaginar mais nada que eu possa fazer por essa história nesse momento.

O mundo não me cabe. Mas como Aylan pode não caber?

A Soma dos Dias

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Hoje o despertador tocou às seis horas da manhã. Eu desliguei o alarme e me espreguicei. Quando levantei, a coluna travou. Senti uma dor lancinante e caí de volta na cama sem acreditar no que estava acontecendo. Era a minha alma gritando outra vez.

Há muito tempo venho repetindo um mesmo processo emocional que não consigo me curar. Somatizar significa transferir para o corpo um problema de origem psicológica. Hoje, depois de toda a estrada percorrida nos meus quarenta e dois anos, já entendi que não há nada, absolutamente nada que o corpo fale, que não tenha sido dito pela alma. Mas mesmo com toda a compreensão, com todos os anos de terapia sofridos, todos os florais tomados, meu corpo segue dando pistas de como minha alma continua inflamada.

É mais ou menos como varrer a casa e colocar toda a sujeira embaixo do tapete. Com o tempo, o que era só uma fina camada de poeira vai se transformando num enorme calombo. A gente começa a tropeçar na sala e percebe que não dá mais para disfarçar aquele bolo gigante de sujeira. A mesma coisa acontece com a gente. No dia-a-dia, a gente vai vivendo aos trancos e barrancos. Vivemos intensamente e mal conseguimos compreender tudo que nos acontece. São emoções, frustrações, raivas. Sentimentos e experiências acumuladas que não conseguimos digerir. Esse acúmulo, ao invés de nos nutrir, começa a nos intoxicar. As  vivências vão se transformando num grande e espesso lixo anímico que se transforma numa massa de dor. A alma pede socorro, mas não temos tempo de ouvi-la. Porque desprezamos o cansaço. Enterramos a tristeza. Desrespeitamos os sentimentos. Então a alma começa a chorar.

Quando a alma chora, a gente leva um susto. E rapidamente saca da bolsa um Rivotril para calar essa coisa estranha que nos aperta o peito. Ou toma logo uma Neosaldina para essa enxaqueca que não passa. Ou um Omeprazol para essa dor de estômago que nos incomoda tanto. E como esses milhões de remédios vão sendo consumidos todos os dias para que os lamentos da alma se calem. E a gente possa continuar a jornada da vida, afinal de contas, nós precisamos trabalhar. Precisamos lutar pelo pão de cada dia. Porque precisamos ser felizes. Porque precisamos ter sucesso. Porque precisamos mostrar para todo mundo como somos felizes e como somos bem-sucedidos. Até que um dia a alma explode e não há remédio que nos tire de uma crise de lombalgia aguda.

Eu herdei do meu pai uma hipocondria patética. Talvez por ter descoberto desde pequena que a doença sempre o traria para mais perto de mim. Mas a verdade é que aprendi com louvor a ler e decifrar bulas na intenção de sufocar qualquer tipo de dor. A dor de existir já me é tão dolorida que as dores do corpo eu não consigo suportar. E assim, aprendi um mecanismo esquizofrênico de me antecipar ao sofrimento, antes mesmo que ele possa me alertar de qualquer coisa que esteja errado com a minha máquina. É engraçada a hipocondria do Woody Allen nos filmes. Mas na vida real é uma doença aprisionante e bem deprimente. E uma grande aliada nesse processo de calar a voz da alma.

Não fazemos por mal. Não fazemos numa intenção maléfica. Fazemos porque temos medo. Porque não sabemos se suportaremos tudo que a alma tem a nos dizer. Nem se suportaremos as nossas mais profundas verdades. Porque no fundo, não queremos sair das nossas zonas de conforto. Não queremos ter trabalho. Não queremos ter que olhar para as nossas sombras. Olhar para a parte em nós que nos envergonhamos. Olhar para as nossas feridas que nunca cicatrizaram. Não. Tudo isso é demais para quem tem que acordar às seis da manhã e viver um dia inteiro de trabalho e provações e desafios.

Mas um dia o despertador toca. E a gente levanta. E a coluna trava de tal maneira que por mais que a gente queira muito, ou precise, o corpo simplesmente te impede de levantar. É um mecanismo genial esse não, que a natureza inventou? Me estico para pegar o livro que está na cabeceira – “A Doença como Símbolo”, de Rüdiger Dahlke – e abro na página que diz: lombalgia. Leia o parágrafo com desânimo: “sobrecarga; não suportar o peso que se carrega; sentimentos de pequenez e inferioridade, o chamado entre o eu e o instinto dilacera a pessoa; dilacerar-se; torcer-se.” Não é possível. Mas está tudo bem! Eu estou dando conta de tudo. A vida está me trazendo os desafios e eu estou correspondendo a eles como devo.

Não Tatiana. Nada está bem. Você tem sofrido o último ano de infecção urinária de repetição – que nada mais é do que “chorar por baixo”, ter uma necessidade desesperada de se livrar de lixos anímicos – vira e mexe volta a ter labirintite – que é uma luta agressiva pela orientação certa em relação ao mundo e ao equilíbrio anímico. Anímico! Tudo gira em torno da sua alma, você não percebe? Até quando você pretende fingir que não está escutando o que sua alma tem a dizer? Até chegar a um diagnóstico de câncer?

Minha terapeuta costumava dizer que a gente cura as nossas feridas em camadas. E que se voltamos ao que nos parece ser o mesmo ponto que partimos, é sinal que na espiral da vida, ao menos um véu já conseguimos tirar dos olhos. E muitos… muitos são os véus que nos cegam. Depois de passar semanas com dores insuportáveis nas costas, descobri que minha lombalgia tinha se transformado numa hérnia de disco. Hérnia de disco quer dizer: “abertura de uma ferida antiga; estar sob pressão em decorrência de problemas antigos, que já eram urgentes na época da lesão”.

Talvez eu precise voltar para terapia. Sinceramente não me vejo capaz nesse momento de conseguir decodificar tantos sinais. Me sinto perdida numa escuridão interna. Não estou sozinha. Sei que muitos seres invisíveis me ajudam e me apoiam na minha caminhada. Mas a jornada da alma é um caminho de muitas bifurcações e escolhas delicadas. Não quero me perder dentro de mim mesma. Não quero fazer o quadro de uma doença sem cura. Não quero e não pretendo morrer antes da hora.

A doença do labirinto

Lucca_labirinto

para Bia Albernaz

Há muito tempo entendi que a estrada da vida não é uma linha reta e sim uma espiral sagrada aonde vamos percorrendo a existência em profundo desejo de ascendência. O que eu não sabia é que em determinados momentos a espiral dá lugar a labirintos e que só saímos dele se entendermos em profundidade o seu significado.

Há três semanas cheguei à emergência do hospital passando muito mal. Tonta, enjoada e com dores de cabeça, o diagnóstico da médica foi certeiro: labirintite. Dizem que a labirintite é uma inflamação no ouvido. Mas isso não é verdade. Labirintite é uma inflamação na alma. De origem exclusivamente emocional, a doença do labirinto é coisa séria e dependendo do Teseu, pode ser tão trágica quanto as piores tragédias da mitologia grega. No meu labirinto não há somente um, mas diversos Minotauros soltos querendo me pegar e o pior, sem ter nem meio metro de fio de Ariadne para me ajudar.

Dizem que o labirinto é, essencialmente, um entrecruzamento de caminhos, dos quais alguns não têm saída e outros só nos levam a alguns impasses. Não há quem me faça desassociar a imagem do labirinto à minha labirintite. Perder o chão é como perder o caminho. Estar perdida dentro de mim mesma é como chegar a uma determinada parte da jornada e perceber que algo muito importante está errado.

No livro “A Doença como Símbolo” a definição de labirintite é devastadora: a doença vem como uma alerta do corpo à alma para que ela pare de se enganar. Como se de repente o indivíduo precisasse voltar a olhar de frente para tudo aquilo que construiu e rever os valores e crenças na qual baseou sua vida. Pancada não?

Debruçada sobre o significado do símbolo descobri que o labirinto foi construído pela primeira vez na intenção de ser um inteligente sistema de defesa. E que há dois tipos de labirintos: aqueles que tem a intenção de confundir os viajantes – e não tem saída – e aqueles que, como numa viagem iniciatória, não tem a intenção de aprisionar o viajante e sim transformá-lo através da experimentação – já que percorrer é mais importante do que sair – e geralmente guarda em seu centro um precioso e sagrado tesouro.

É muita riqueza num símbolo só! Mas tomar consciência da verdade não me livra da labirintite, nem tampouco do labirinto no qual estou perdida. Tenho tomado uma quantidade absurda de remédios alopáticos, florais de emergência, trabalhado minhas questões na terapia. Diminui café, mate, chocolate. Durmo sentada e não abaixo a cabeça para mais nada. Tenho estudado sobre o assunto. Tenho escrito – à mão já que fui proibida de ficar no computador – e meditado. A única coisa que não fiz que a médica mandou fazer foi caminhar. Ah, eu acho tão chato caminhar. Será que isso significa alguma coisa?

Tudo significa algo na simbologia da existência humana. Mas a verdade é que não consigo ficar boa. Não consigo me sentir bem de novo. Não consigo achar uma saída nem achar nada de precioso no centro de coisa alguma. Na vertical já voltei a ter alguma controle. Sigo trabalhando, dirigindo, cuidando das meninas. Mas se abaixo, levanto ou me deito depressa, o mundo continua vibrando na sensação estranha de ter tomado um porre sem ter ingerido uma única gota de álcool.

Os espíritas tem uma explicação para o meu caso. Vários já vieram falar comigo. E o diagnóstico é sempre o mesmo: mediunidade não trabalhada. Dizem que minha tontura e mal estar nada mais é do que um chamado sério da alma para a necessidade de um desenvolvimento espiritual.

Pode ser. Não estou fechada para nada. Já estou em busca de mim mesma, buscar um centro espírita vai ser moleza. Mas que fique registrado no livro cósmico da vida: se a intenção é que eu expanda minha consciência ajudando ao próximo, de uma coisa tenho certeza; isso eu já venho fazendo ao longo dos meus quarenta anos. Tenho um respeito profundo pelo mundo e pelas pessoas. Sou amorosa e isso se multiplica a partir do meu coração em todas as minhas ações cotidianas. Descobri que posso curar alguns espíritos com aquilo que escrevo e isso tudo, de alguma forma, já é trabalhar minha mediunidade, não?

Mas se preciso fazer mais, farei. Se preciso ir mais fundo, eu irei.

Diz o “Dicionário de Símbolos” de Jean Chevalier:

“O labirinto conduz o homem ao interior de si mesmo, a uma espécie de santuário escondido, no qual reside o mais misterioso da pessoa humana. A transformação do eu, que se opera no centro do labirinto, e que se afirmará à luz do dia no fim da viagem de retorno, no término dessa passagem das trevas à luz, marcará a vitória do espiritual ao material e, ao mesmo, tempo, do eterno sobre o perecível, da inteligência sobre o instinto, do saber sobre a violência cega.”

Que o meu saber possa conter essa violência que tenho feito sofrer meu corpo. Que o meu amor vença todos os medos que surgirem em forma de Minotauros. E que a minha fé me faça encontrar a Ariadne que habita em mim e ela possa me alertar, através de sua coragem e inteligência, que não há verdade que doa mais do que a ilusão daquilo que construímos nos labirintos de nós mesmos.

Ausência

trilho

Há sempre algo de ausente que me atormenta
Um avião que parte no céu
A saudade de um amor que nunca voltou
Um trilho de trem nunca mais percorrido
Fotografias de pessoas que já partiram
Navio escondido no fundo do mar
Móveis cobertos com lençol branco
Garrafa de vinho vazia
Flores secas
Perfume que carrega sentimento esquecido
Quadro antigo de lugar que não existe mais

Há sempre algo de ausente que me atormenta
Sentimento que não se explica
Só aperta o coração e faz suspirar
Para tentar arrumar o que não pode ser arrumado
Nem na alma
Nem em nenhum outro lugar