Uma Carta de Amor

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Para Jonatan Agra 

Meu amado e admirável amigo,

Foi numa curva da vida que eu te conheci.
Num tropeço do destino, numa dessas armadilhas que reconfiguram a nossa estrada.
Não demorei muito para perceber o encanto.
A vida tem dessas coisas.
Ela é uma sucessão ininterrupta de surpresas lindas e aterrorizantes.
Te conheci para te reconhecer.
Mas esses últimos meses ao teu lado tem sido tão sublimes,
que ficou insuportável não escrever.

Vivemos os dias na eterna lembrança do que fomos.
E você diz finalmente ter lembrado de onde nos conhecemos.
“Da fogueira, minha querida. Nos conhecemos de outras vidas”
Acredito. Mas vou além.
Nos conhecemos de um lugar também muito profundo em nós.
Um lugar que habita a minha e a sua alma.
Um observatório que temos no centro do peito.
De onde contemplamos a vida e o lado de dentro de todas as coisas.
Tu e eu temos a mesma lente.
A mesma janela. O mesmo filtro.

E assim, nesse espelhamento deslumbrado, seguimos vivendo nossos dias.
O dia-a-dia contigo é um eterno achado de tesouros no fundo do mar.
Não há segundo desperdiçado.
Não há gesto esvaziado.
Não há suspiro que não seja justificado.
Você transpira emoção, razão e poesia.
Amor, arte e verdade.
Te assisto como quem assiste um milagre.
Um artista nas vísceras, uma criatura excêntrica, um ancião no tempo acelerado do mundo.
Há uma pureza em ti que me emociona.
Há uma crença no mundo em ti que me emociona.
Há uma esperança em ti que me emociona.

Meus olhos andaram fechados de cansaço.
O mundo me assusta.
Os seres humanos me assustam.
Mas algo muito puro emerge de teu coração, querido amigo, e esse algo tem me trazido de volta o frescor de um tempo perdido.
E eu me reconheço nesse frescor.
Sim, eu estou lá. Eu estou aqui.
Eu sou isso que você transpira.
Eu sou esse deslumbre.
Esse entusiasmo. Essa paixão.
Eu estou viva de novo e por tua causa.

Te agradeço amigo querido.
Todo o suporte diário.
Todos os abraços reequilibrantes.
Todas as coincidências.
Todos os olhares cúmplices.
Todos os insights, todas as gargalhadas que temos dado nas delícias e dores dessa rotina que você não permite que nos massacre.
Te agradeço os ensinamentos implícitos.
Os olhares que me compreendem mudos.
As palavras de amor e a troca de todos os instantes vividos.

Não levarei do mundo nada que não seja o amor que vivi com as pessoas que pude amar.
Te levo e te levarei comigo, num agradecimento interno e profundo.
Obrigada por extrair sempre o que há de melhor em mim.
Reencontrar uma alma-irmã é uma dádiva para poucos.
Devemos merecer isso minha Bruxa.
Devemos merecer.

Que o nosso amor seja eterno, até a próxima vida.
Que eu possa ter a sorte de te reencontrar sempre.
E que para sempre também possamos somar esse extraordinário e ordinário que há em nós.
Que possamos nos dividir e nos multiplicar.
E, sobretudo, que possamos sempre nos compreender.

Eu te amo, Jo.

Da sua sempre,
Tatiana

P.S. Obrigada por ter me apresentado Ludovico Einaudi. Sem dúvida, é a música da nossa alma.

Mecanismo de Salvação

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Na caminhada da vida, de vez em quando a gente precisa inventar uns mecanismos de salvação.

Uns botes que te salvem de redemoinhos, umas âncoras que te impeçam de sair voando pela atmosfera, umas máscaras de oxigênio que caiam automaticamente do nosso pai Céu.

Eu tenho algumas cartas na manga, mas atualmente a que mais tem surtido efeito nos meus dias de surto, é a meditação.

No inicio da jornada eu sofria muito só de ouvir a palavra “meditação”. Porque eu queria muito meditar, porque eu entendia perfeitamente o quanto aquilo podia ser maravilhoso para mim, mas era só eu me sentar para meditar que a ansiedade vinha a galope. Eu ficava numa luta incessante com os pensamentos. Suava frio. Respirava. Espantava o pensamento. Recomeçava. Respirava fundo. Respirava de novo. Ficava tonta de tanto respirar. Voltava a tentar. Depois de dez minutos eu desistia exausta e frustrada da minha categórica incompetência oriental de esvaziar a mente.

Mas os anos foram passando. E eu fui entendendo, com calma e um pouco mais de serenidade, que meditar está muito mais na intenção do ato que o ato em si. E que a grande sacada é o seu movimento interno de querer se aquietar. Pronto. Isso já é meditação.

O mundo por aí anda de arrepiar. Essa semana eu vivi um das semanas mais cansativas no trabalho de todos os tempos. As meninas andam agitadas, eu ando agitada, a vizinhança anda agitada. A rua anda frenética, as pessoas andam histéricas e a impressão que me dá é que a qualquer momento, algum de nós vai ter um colapso.

Eu desejei meditar todos os dias.

Desejei o estado da coisa. Desejei o ritual que antecede a minha meditação. Aquela coisa deliciosa de acender a vela, o incenso na vela, a minha alma na vela. Mas o ritmo era tão sobrenatural, que antes mesmo de querer qualquer harmonização com o meu ser interior, eu desmaiava na cama, exausta de ser.

Hoje, pela primeira vez sozinha e em silêncio depois de muitos dias em desequilíbrio, aquietei minha mente e meu coração ouvindo um mantra e a impressão que me deu, é que eu redescobri um lugar em mim onde é só quietude. Equilíbrio. Esperança. Um lugar onde as coisas estão onde deveriam estar. Onde o mundo não é uma guerra, mas um paraíso. Onde a vida corre como um rio sereno, aceitando as pedrinhas que estão no caminho – porque assim é a vida, uma sucessão de pedrinhas no caminho – aprendendo simplesmente a desviar delas com sabedoria.

O desafio é conseguir trazer isso para o nosso dia-a-dia. E vivenciar esse lugar de plenitude pelo menos uma vez a cada 24 horas. Porque a gente precisa desse esvaziamento. A gente precisa esvaziar para encher de novo. Precisa digerir para conseguir se alimentar de novo.

Minha vida tem sido um safári. Termino meus dias não com a impressão de ter matado um leão, mas uma manada deles e isso é irracional. Desumano. Enlouquecedor. Mas como não posso – nesse momento – mudar a configuração de fora, então preciso mudar a de dentro. Porque não quero entrar em colapso. E para isso, não posso levar para a cama todos os conflitos, discussões, problemas e vivências que passei ao longo do dia. Não posso.

Eu entendi que meditar é um mecanismo de salvação. Agora o desafio é inventar um mecanismo para conseguir acessar esse mecanismo todos os dias. Alguém aí tem alguma ideia?

Esse magnífico vídeo tem imagens da Terra hipnotizantes.

Olhar essas imagens e ouvir essa música com total entrega é uma espécie de meditação.

Alguém aceita vir comigo?

Oração Miúda

Foto Clara Meira

Foto Clara Meira

Para Adélia Prado

Meu Deus,

me dá um pouco de silêncio.

 

Me ensina como é que faz para estancar pensamento,

me ensina a acalmar tanto desejo,

aliviar essa dor que eu tenho de existir.

 

Me leva de volta para pescar girino,

para colher morango silvestre,

para dormir no colo da minha mãe.

 

Meu Deus,

Me dá um pouco de silêncio.

 

Me ajuda a entender esse mundo,

me ajuda a traduzir tanto sentimento,

me ajuda a não querer embora antes da hora.

 

Minha Mestra Yoda

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Para Manoela Monteiro
minha irmã shiatsu-acupunturista

Pegou no meu pulso com aqueles dedinhos quentes, mediu alguma coisa ali que pulsava e disse categoricamente:

– É uma crise de fígado. Vamos pra maca.  Vou cuidar de você.

No domingo almocei na casa da minha irmã. Ela tinha feito uma incrível macarronada com atum e estávamos nos preparando para assistir um filme. Em cima da mesa, o laptop estava aberto com uma notícia do Johnny Depp. “Ué que estranho, olha como ele tá com o olho caído nessa foto” observei. Todo mundo olhou, mas ninguém viu. Foi aí que eu percebi que tinha alguma coisa de errado comigo. Eu cobria os olhos alternadamente e percebia que o olho direito estava bem, mas o esquerdo parecia em curto. Como se estivesse perdendo o foco e trepidando as imagens. Comecei a ficar aflita. Em minutos minha visão escureceu. Tudo aconteceu muito rápido. Me deu enjoo, a pressão baixou e, claro, fiquei tão nervosa que comecei a chorar: “Má, acho que eu tô tendo um treco.”

Ela me deitou na maca, pediu que eu respirasse fundo. Ligou o abajur e avisou: vou colocar uma música bem baixinho para te acalmar. Respira, Ti, respira que eu vou cuidar de você.

Minha irmã é shiatsu-acupunturista. E a medicina chinesa a transformou numa fada encantada – tipo um Mestre Yoda feminina – cheia de força, sabedoria e coragem.

O que vivi ontem me emocionou tanto que eu quis escrever esse texto em homenagem a ela. Em homenagem a tudo que ela se transformou depois que resolveu fazer da cura seu propósito de vida.

Ela sabe que eu detesto agulha. E que precisa de mais paciência comigo do que com qualquer paciente porque considero aquelas coisinhas fininhas um instrumento de tortura. Elas me dão uns tremeliques, e eu choro e quero morrer. Ela não liga. Dá umas palmadinhas, dessas que se dá em neném e diz: tá tudo bem, tá tudo bem…. e explica tudo como se eu realmente fosse entender:  tem vento aqui no seu fígado, seu pulso está cheio e a pulsação sem força nenhuma. Há muito calor no seu organismo e a sua energia está excessivamente yang. Vou esvaziar uns pontos e nutrir outros… Respira, irmã, vai dar tudo certo.

Diz ela que não sou só eu, que muitas pessoas têm medo de agulha. Mas, na verdade, o medo não é das agulhas. O medo é de sentir medo. É de antecipar na mente, uma dor que ainda não veio. É o medo da energia que o corpo tem e a gente nem sempre consegue controlar. É o medo dessas emoções que estão contidas nos nossos nervos e que a agulha vem para equilibrar. Cá entre nós, essa coisa de medicina chinesa é muito genial. Eles têm um olhar tão diferente para todas as coisas. Imagina que minha irmã quando me encontra não me pergunta mais se estou bem. Só pede para ver minha língua. Oi?!

Bom, só sei que ontem aquela salvação foi realmente extraordinária. Como a simplicidade do vento que venta, ela esvaziou meu medo e, no lugar do desequilíbrio, fez surgir uma serenidade dessas que a gente quer levar pra vida. E aquilo me inundou de um amor e um orgulho tão profundo que me fez chorar de novo. Mas esse chorinho ela não viu, porque estava naquela hora totalmente absorvida, de corpo e alma, numa massagem revigorante na planta do meu pé. Ela disse que ia cuidar de mim. Mas ela não me cuidou, ela me curou.

O Caminho Vermelho

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Entre o nascimento e a morte de um ser vivente, a linha da vida coleciona momentos arrepiantes que, na grande maioria das vezes, é um marco tão forte na vida da pessoa que ela se sente renascendo. Ou morrendo, tudo ao mesmo tempo. Isso foi exatamente o que aconteceu comigo quando conheci o xamanismo.

Me lembro como se fosse hoje. Minha mãe tinha me chamado para uma “coisa” que era a minha cara. Fui de olhos fechados, porque se tem alguém que eu confio me conhecer, é aquela mulher. A tal “coisa” era um lugar onde várias pessoas se reuniam uma vez por mês para estudar tradições e práticas do xamanismo. O grupo chamava-se Espiral Sagrada. Na hora que entrei na sala já senti alguma coisa diferente. Estavam todos sentados em roda e cada integrante tinha à sua frente um pequeno altar montado com os mais diversos objetos. Cada um mais bonito que o outro. Sobre panos coloridos, havia pedras, chocalhos, tambores, animais esculpidos, folhas, amarrados de penas, sementes, pequenas mandalas, objetos que nunca tinha visto antes. O ambiente era agradável. Um cheiro de sálvia pairava no ar. Era possível sentir na pele uma atmosfera de serenidade e calmaria. Busquei uma almofada para sentar e me juntei ao grupo em silêncio. Duas mulheres – coordenadoras do grupo – pediram para que déssemos as mãos para fazermos uma oração. Foi ali que a coisa aconteceu.

No momento exato em que todas as mãos se entrelaçaram, tive uma visão inacreditável. Estávamos todos num imenso e mágico descampado, num outro tempo, sentados à volta de uma fogueira e cantando canções muito, muito antigas. Aquela visão me inundou de uma emoção que eu nunca tinha sentido antes. Uma sensação profunda de pertencimento invadiu meu corpo e eu comecei a chorar. Como se minha alma pudesse reconhecer cada alma daquele grupo e como se aquele lugar fosse a resposta para algo que há muito tempo eu buscava.

Entre idas e vindas, este é o meu quarto ano na Roda de Cura da Espiral Sagrada. E tudo – absolutamente tudo – mudou na minha vida a partir daquele dia. Como se uma nova Tatiana tivesse despertado de dentro da velha e os meus olhos pudessem ter a chance de ganhar uma nova lente para observar o mundo. A mudança de perspectiva foi tão profunda que precisei entrar na terapia para dar conta de digerir tanto conteúdo. Minha sorte? As coordenadoras do grupo são terapeutas e com isso só precisei escolher em qual delas mergulhar. Foi uma experiência maravilhosa. Se em algum momento, tive coragem de ir fundo nas minhas sombras, isso se deve ao fato da minha interlocutora chamar-se Elizabeth Amaral. De longe, uma das pessoas mais incríveis e fascinantes que já conheci.

Foi ela, nossa querida Beth Bear – como é carinhosamente chamada pelo grupo – que me ensinou que na Grande Teia da Vida, é preciso compreender que não somos seres terrestres vivendo uma experiência espiritual. E sim seres espirituais vivendo uma experiência terrena. Nossa. Isso muda muita coisa, não muda?

O xamanismo é chamado de “o caminho vermelho, ou o caminho do coração”. Será que alguém nesse mundo consegue imaginar um caminho mais bonito do que esse? Poder estar alinhado aos movimentos da Mãe Terra. Atentos aos ensinamentos do Pai Céu. Ter no espírito dos animais, aliados tão fortes para a vida como temos nos grandes amigos. Poder pedir a benção ao Avô Sol ao despertar de cada dia. E a benção à Avó Lua, antes de dormir, para que ela nos ajude a atravessar a escuridão da noite. Ai, eu não sei vocês, mas para mim, essas coisas me dão um treco aqui na goela de emoção. Porque são ações tão simples e tão verdadeiras. Movimentos que me fortalecem, me amparam. Me fazem sentir totalmente integrada àquilo que sempre, sempre teve sentido para mim, mas eu tinha me esquecido…

Quando eu era menina costumava dizer que a natureza era a minha igreja e que era dentro dela que eu queria viver. Porque eu rezava com as estrelas, contava segredo para as árvores. Chorava com a chuva, brincava com o vento. Conversava com joaninha, meditava com o pôr-do-sol. Aprendia sobre as cores com o arco-íris, fazia arte com pétala de flor. Acho que contemplar a natureza era a forma mais profunda que eu encontrava de estar comigo mesma, numa integração plena que só hoje eu consigo entender. Estar mergulhada na terra me fazia estar próxima à minha essência e isso me bastava. Quando a natureza encontra espaço no coração do homem acontece o fenômeno mais bonito que a existência humana pode vivenciar: a reconexão com o Grande Mistério. Não há mais sofrimento, porque entendemos no mais profundo do nosso ser, que não estamos sozinhos. Nunca estivemos.

Somos todos um. E ao me integrar com o outro, vejo nele todas as respostas que procuro. Espíritos ancestrais nos guiam. Espíritos guardiões nos protegem. Objetos sagrados nos fortalecem. Temos um caminho vermelho a percorrer enquanto estamos vivos. Que possamos honrar nossa vida e agradecer por tudo que temos.  E que por fim, no momento de atravessarmos o rio, possamos compreender com o coração, que o caminho azul será apenas uma breve passagem, já que outra incrível jornada estará para começar. Aho!

Para a minha amada roda,
Espiral Sagrada

O altar de todos os dias

velas

“Fé é crer no que não vemos.
O prêmio da fé é ver o que cremos”.
Santo Agostinho

No dia que troquei a rotina pelo ritual, ganhei meu destino.

Aconteceu de um dia para o outro. Eu coloquei uma música, acendi uma vela e entendi que ou pegava minha vida no laço ou ela ia passar batida sem que eu conseguisse fazer nada do que desejava. E eu desejava muito. Muitas coisas.

A vida é mais ou menos assim. Ela passa depressa, como um trem sem freio. E se a gente não se atenta, perde a viagem. Eu sempre tive dificuldade de encaixar minha alma no presente. Vivo viajando numa outra dimensão, flutuando na imensidão etérea da minha existência. Só que com isso, não consigo realizar quase projeto nenhum. Claro né. E pipa tem lá algum objetivo que não seja apenas… voar? Foi quando eu entendi que eu precisava mesmo plantar os pés no chão. Virar um Jequitibá falante. Enraizar minhas ideias, florescer meus projetos, tornar meus sonhos frutos maduros e suculentos.

Descobrir o ritual foi quase como descobrir a pólvora. Porque nele está contido todo o extraordinário poder da intenção. Essa coisa simples e bonita que Deus nos deu e que a gente tem como um potencial radioativo bem no centro do peito. Mas uma coisa precisa da outra. Não adianta ter uma intenção clara e objetiva, se a gente não tem um lugar que nos faça olhar para ela diariamente. É preciso um plano de ação. Uma estratégia metódica para sacramentar a intenção.

Foi quando nasceu meu altar de todos os dias. Altar é um lugar qualquer que você elege dentro da sua casa que vai cercar o seu espaço sagrado. É lá que você vai reunir tudo o que considera importante para lembrar seus objetivos e consagrar diariamente os passos percorridos na sua caminhada. Qualquer objeto pode ser sacralizado. Se ele tem um propósito ou se você o considera um objeto de poder, o importante é que ele esteja lá. Independente da sua religião, todo o indivíduo pode ter um altar que represente a sua própria verdade. Ele deve ser pessoal e intransferível. E sobretudo um território livre para que as bênçãos caiam sobre ele com abundância e prosperidade.

Meu altar tem de tudo um pouco. Começando pelos quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Esse quarteto fantástico reúne toda a sabedoria milenar que rege nosso planeta. Terra representa nosso corpo, nossa Mãe Terra. Nossa conexão com as matas, as árvores, as pedras. Água representa nosso sangue. Nossos oceanos, nossos rios. As águas internas que regem nossos sentimentos. Sangue, suor e lágrimas! Ar representa nosso sopro divino. Aquilo que nos dá a vida. E por fim, fogo representa nosso espírito. Nossa paixão. Nossa força criativa.

É mexendo neles que começo o processo. Em cima de uma toalha de linho branco, ajeito com todo o cuidado meu quadrado mágico metafísico: acendo a vela do dia, meu incenso cheiroso, honro a água que está no copo de vidro mais bonito da casa. Honro a flor que está dentro do copo, colhida diretamente do meu jardim para trazer beleza e delicadeza ao altar. Toco na pedra de cristal e lembro que foi colhida dentro de uma caverna, há alguns anos atrás. Fecho os olhos e sinto ser a conexão entre o meu Pai Céu e a minha Mãe Terra. Pronto. O portal mágico foi aberto. Depois é só colocar uma música especial tocando bem alto e começar a chamar a força e a presença do pessoal. Cada um vai fazer do seu jeito.

Depois que iniciei minha caminhada no xamanismo, começo sempre pedindo a benção do Grande Espírito. Depois chamo a força dos meus ancestrais sagrados, meus mestres espirituais, a guiança do meu animal de poder… nossa… é uma patota que eu chamo todo dia. E de repente eu sinto todos ali, reunidos sobre a minha cabeça, unidos para fazer da minha jornada um caminho aberto, próspero, abundante e equilibrado. Acho que nunca me senti tão assessorada em toda a minha vida.

Engraçado, fé foi uma coisa que eu aprendi a ter depois de burra velha. E na verdade não acho que seja uma coisa que possa ser ensinada. Posso ensinar minhas filhas a ter confiança. A acreditarem profundamente em algo. Mas fé é um processo individual de busca. Uma força colossal que vem de dentro de nós. De um lugar muito profundo de nós. E isso não tem como ensinar a ninguém. Ele faz parte do processo de individuação de cada um de nós.

Ah, foi tão bom quando eu aprendi a rezar. Eu sempre tive tanta dificuldade para falar com Deus. Não fui batizada em religião nenhuma. Meus pais nem tios nem avós tinham esse hábito. Mas eu sabia que orar tinha cara de ser uma prática poderosa. Tentei muitas vezes rezar o Pai Nosso, mas nunca senti muita verdade naquelas palavras.  Depois tentei a Ave Maria. Ela tinha um quê de poder feminino. Mas a parte que eu precisava que ela rogasse por nós pecadores… nessa parte minha boca travava. Pecadora? Mas eu não me sentia uma pecadora. Tudo que fazia na vida estava de acordo com o meu coração. Só preguei o bem e tinha um profundo respeito por todas as coisas. Como é que eu podia ser pecadora?

O dia que eu consegui ultrapassar todos os meus preconceitos, abri meu coração e falei: “Deus, você está aí? Pode me ouvir? Olha, eu preciso falar umas coisas com você…” Nossa, esse foi um dos melhores dias da minha vida. Depois disso, foi só me abrir para o caminho espiritual que tudo o mais foi acontecendo.

Faço a manutenção do meu altar, religiosamente, todos os dias. Troco as flores, a água, a vela, o incenso. Limpo. Renovo cada intenção em cada coisa. As vezes coloco pedacinhos de papel com palavras escritas. Outras, coloco fotos de alguém. O que me der na telha eu coloco. Basta ter uma motivação que venha de dentro. Pode ser uma concha, uma frase, uma pintura. Meu altar é um lugar inventado onde habitam todos os meus sonhos. Estar com ele é como estar com o mais genuíno de mim mesma. Com tudo aquilo que anseio, acredito e desejo. É estar de frente para a estrada da minha vida e repetir, quantas vezes forem necessárias, quem sou, para onde vou e principalmente, o que vim fazer aqui. Aho!

 

O pentelho voador

mosquito

Poucas coisas nessa vida me tiram do sério. Inseto é uma delas.

Minha vida nova na casa nova é um paraíso. Apartamento térreo, predinho de quatro andares. O lugar é um sonho. Estou onde sempre sonhei estar. Num lugar tranqüilo, silencioso, rodeada de árvores por todos os lados, convivendo com passarinhos, corujas, flores de todas as cores… e insetos. Muitos insetos.

Tudo nessa vida tem um preço. E já tem um bocado de tempo que eu aprendi essa lição. Mas há alguns dias, quando completei um mês de vida na roça, tive meu primeiro surto psicótico no adorável condomínio de Bosques de Pendotiba.

Tudo por causa de um microscópico mosquito.

Gente, o que é um ser humano, adulto e inteligente, travar uma batalha de titãs com uma criatura ordinária como o mosquito? Foi uma cena patética.

No entardecer, é preciso fechar todas as janelas porque é no lusco-fusco, a hora em que os mosquitos procuram abrigo. Ok. Mas nossa… eu estava apaixonada pela brisa fresca que adentrava minha bucólica janela, iluminada pela lua cheia daquela noite. Pensava comigo no quão privilegiada era minha nova existência, ali deitada, no lugar mais calmo do planeta. Estava quase pegando no sono, quando ouvi o primeiro rasante da criatura no meu ouvido. Arrancada do momento mágico que antecede nosso primeiro soninho da noite, abri os olhos e pensei: “Cara, não acredito que tem um mosquito no quarto.”

Silêncio. Voltei a olhar para lua e a pensar que no fundo, estava tudo bem. Mosquitos fazem parte desse lugar encantador. Então, vagarosamente fui deitando na cama de novo, pesando a cabeça no travesseiro macio, quase embarcando na jangada dos sonhos, quando…

Zzzziiuuummmmm

Respirei fundo. Tentando me controlar, levantei devagar e fui fechar um pouco a janela. Voltei. Deitei. Outro rasante. Só que dessa vez do outro lado, no outro ouvido. Pronto. Agora eu tinha ficado irritada. Permaneci na cama imóvel e de olhos bem abertos, tentei adivinhar o próximo movimento do pentelho voador. Outro rasante. Foi quando eu dei um pulo da cama, acendi a luz e gritei para as paredes: “Cadê você seu desgraçado!”. Abri correndo o armário, peguei a raquete, liguei no ON e gritei de novo, para quem quisesse ouvir, provavelmente de olhos bem arregalados: “Agora eu quero ver você vir para cima de mim, seu mosquitinho de merda… vem! Vem que eu vou te fritar de uma vez só! ”

Louca. Louca. Louquinha de pedra.

Foi quando começou a guerra. A ridícula guerra entre um gigante e um micróbio. Corri atrás dele uns bons segundos até conseguir, numa jogada de mestre, incinerar o pobre coitado. Um cheiro de defunto invadiu o ar. Olhei o corpinho da coisa pulverizada no chão. Uma meia perninha. Um pedaço da cabeça. Senti culpa. Não pelo mosquito, que tem vida curta mesmo e nem merecia viver depois de me atormentar tanto. Mas culpa pela dimensão do prazer sádico que me deu ver aquela morte. Olhei para raquete e pensei: isso aqui é uma arma carniceira. Um jeito bem esquisito da gente entrar em contato com a nossa sombra mais maquiavélica.

Ainda bem que poucas coisas nessa vida me tiram do sério. Caramba.

Tempos esvaziados

transito

Tem uns tempos complicados na vida que ou a gente assume a necessidade de solucioná-los ou assume a necessidade de uma postura zen-budista perante eles. São os tempos esvaziados. Eles acontecem praticamente todos os dias da nossa existência. Fazem parte da rotina, do feijão-com-arroz, do escovar os dentes. Não tem como escapar. É o caso do tempo que esperamos um elevador. Pensei justamente nesse texto hoje depois do oitavo minuto sozinha na garagem, olhando a porta do elevador fechada. Eu já tinha tentado meditar, fechar os olhos, esvaziar a mente, respirar profundamente, ir fundo ao néctar do meu silêncio interior, mas não consegui. A irritação pela impressão de tempo perdido foi maior.

A mesma irritação me abate quando sou pega de surpresa e calho de ter que ir ao banco sem ter nada para ler dentro da bolsa. Banco é sinônimo de fila. E fila em banco é sinônimo de tempo esvaziado. Muitas vezes tento ser positiva, aproveitar para observar as pessoas, essa absurda diferença que há entre nós – indivíduos de mesma espécie – e todas as nossas curiosas particularidades. Crio uma história para cada um, depois vou juntando os enredos e tudo acaba em novela. Mas mesmo nessa compulsão-criativa-instantânea, esse ato desesperado de aproveitamento de tempo nada mais é que um retrato de tempo esvaziado também. Como se o próprio tivesse sido mesmo consumido sem propósito. Queimado. Desperdiçado. Jogado fora.

Tempo perdido em trânsito engarrafado então, não preciso nem falar. Todo mundo já falou, já sofreu, sofre e não há nada que se possa fazer. A inexorável realidade dos tempos modernos. Milhões de carrinhos, apertadinhos, engavetadinhos num gigantesco quebra-cabeça de ruas. E as pessoas lá dentro pensando – o que é mesmo que eu estou fazendo aqui? – e olha que pode ter boa música, boa companhia, snacks para comer, coca-cola geladinha que alguém acabou de te vender… nada aplaca a dor do tempo esvaziado.

A danação não tem a ver com o tempo que escapa. Mas com o que foge sem sentido. Gasto muito tempo olhando o céu quando ele está daquela azul de chorar. Olhando o que o sol faz com as coisas de manhãzinha. Observando Clara pintar com cotonete, a cebola fritar na manteiga. E as coisas que tem água então, nossa… gasto um tempo que nem sei. Nada melhor do que ver cachoeira cachoeirar. Até aquelas fontes de água em casa esotérica me hipnotizam. No ato. Posso ficar lá por horas vendo a água fazer nada.

A questão é que esse tipo de coisa não esvazia meu tempo. Mas preenche ele de um monte de riqueza. Há uma enorme diferença em ficar olhando a porta do elevador fechada esperando ele resolver chegar e olhar um arco-íris se desfazer no céu. São tempos completamente diferentes. O primeiro é como estar olhando a areia da ampulheta cair, a outra é ver o milagre da vida se expandir. Por que eu não subo de escada? Ah leitor, eu não sou uma atleta. E no mais, subir escada também é um tempo esvaziado. A não ser que elas tenham enormes janelas dando para o mar.

A Revelação da Tríade

triade

Sensibilidade, espiritualidade ou imaginação?

Há uns dias atrás tive um insight incrível. Um estalo desses que a gente vive poucas vezes, mas quando vive, fica com a impressão de que entendeu quase tudo sobre a vida. A iluminação aconteceu no Mergulhão, aquele lugar sinistro da Praça XV.

Eu saí das barcas e muito a contra gosto desci as escadarias para pegar um ônibus para Tijuca. Geralmente prefiro caminhar até o metrô, mas nesse dia estava muito atrasada e resolvi enfrentar a fedentina. Foi descer as escadas para começar a sentir uma pressão no peito. Respirei fundo. De concreto ali havia a penumbra do lugar, o gás carbônico dos ônibus apressados e o semblante infeliz dos que esperavam sua condução. Mas eu… eu comecei a sentir um monte de coisas.

Primeiro foi o enjoo. Aquele bafo quente dos carros quando se mistura ao cheiro de xixi e cocô de gente é um odor nauseabundo. Mas para o meu espanto, ninguém estava com cara de quem ia vomitar, só eu. Tudo bem. Sigo em frente. Do enjoo vem uma tontura. Uma opressão no peito que eu não sei direito de onde vem. Não consigo entender se é uma sensação, ou um pressentimento. Mas é um peso. Eu não ouço vozes, nem vejo nada demais, mas tenho uma certeza estranha de que outros tipos de seres perambulam por ali. E por último – certamente já sob efeito alucinógeno de todos os meus sentidos invadidos – começo a imaginar tudo que já deve ter acontecido naquele lugar: cenas de violência, crime, tensão, medo… afinal ninguém imagina uma cena de amor num subterrâneo sombrio de filme de terror.

Enfim, tomada por essa mistura esdrúxula de sentimentos, me veio a súbita pergunta: será que eu tava passando mal por uma extrema sensibilidade, por uma espiritualidade não desenvolvida (e por isso vítima de possíveis obsessores presentes) ou por um afogamento de ideias que toda aquela situação me fez criar na cabeça em menos de cinco minutos?

Eureca! Foi nesse instante que milhares de fichas começaram a cair. Tipo Las Vegas.

Sou a construção de um ser baseado na conjuntura de uma santíssima trindade: sensibilidade, espiritualidade e imaginação. A vida me invade e eu a filtro nessa lente onde se misturam impressões sensitivas, espirituais e imagéticas do mundo. Sou mega sensível,  tenho antenas que captam coisas do outro mundo e para completar, uma cultura cinematográfica de arrepiar. Pronto, fechou. Não preciso de mais nada para chegar a uma locação propícia e pirar o cabeção.

Essas confirmações são mágicas porque nos fazem compreender um pouco mais sobre nós mesmos. Esse tal de insight é uma revelação mística. Um presentão do inconsciente para gente entender um pouco melhor sobre a gente mesmo. Poxa, ajuda muito saber que sou simplesmente um conjunto exagerado de absorção do mundo. Um alívio para quem sempre se julgou meio trelelé. Não é fácil não gente, ser assim… super suscetível ao mundo sutil e ter criatividade saindo pelo ladrão.

O fofo do Caetano já dizia que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Hoje eu entendi que não preciso mais sentir tanta dor por ser essa coisa esquisita que eu sou. Só preciso aceitar “o sentir”. E rezar. E escrever. Afinal, a tríade pode se revelar nos lugares e nos momentos mais esquisitos do dia. Nunca se sabe.

Na cama com Morfeu

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O relógio dá uma piscadinha para mim. Onze horas da noite. Perfeito.

As meninas já estão dormindo, a casa está tranqüila. O cd de piano na última faixa, o incenso na guimbinha da cinza. O pijama macio já esquentou o corpo, o chá de erva-cidreira já esquentou a alma. Já pinguei o soro no nariz, o floral na língua. Acho que não falta nada. Só respirar fundo, abraçar minha cama e deitar para dormir.

Fecho os olhos. Intrometido, vem o primeiro pensamento. Xííí… não paguei a conta da internet hoje, putz grila. Não! Nada de repassar a lista do que não foi feito hoje. Amanhã você faz isso. Relaxa.

Respiro profundamente. Esvazio o peito de ar mentalizando esvaziar meu dia que termina. Mudo de posição. Aquela tava meio ruim. Esse edredom tá pouco para o frio de hoje… Será que coloquei cobertor suficiente nas meninas?

Respiro fundo. Clara espirra no outro quarto. Sento na cama e espero o próximo. Ele vem. Tá vendo, coloquei pouca coberta… Levanto, vou até o quarto das meninas, saco mais uma mantinha do armário, cubro as duas e antes de voltar para cama, dou uma última espiadela. Sinto inveja do sono profundo que estão mergulhadas. Tão profundo que parecem pálidas e com olheiras. Uma vez comentei isso com Dra. Manoela – minha irmã shiatsu-acupunturista, grande conhecedora de medicina chinesa – e ela me explicou esse fenômeno que faz minhas bonecas parecem meio mortinhas quando dormem: quando entramos em estado de sono profundo, o nosso chi – energia vital – se recolhe também, ao centro do nosso organismo para se recuperar. Nesse momento, nosso corpo fica em absoluto relaxamento. E é na face que mais percebemos sua ausência.

Sei. Deve ser por isso que estou sempre pálida e com olheiras quando estou acordada. Como durmo pouco, meu pobre chi nunca tem tempo de se recolher. O cara vive cansado. Assim como eu.

Enfim, volto para cama. Deito e deixo o corpo pesar na cama que me acolhe. Cama querida… Ela quer que eu durma. Ela sempre quer que eu durma. Me chama não sei quantas vezes todas as noites. Minha mente cansada também quer dormir. Meu corpo exausto também quer dormir. Ótimo, vamos todos dormir. Fechos os olhos. Respiro fundo.

Procuro ficar quieta na cama, quase imóvel. Contendo qualquer movimento que me distraia. Não deixo o corpo mexer. Não deixo nem as pálpebras se mexerem. Mas não consigo conter o globo ocular. Vejo o escuro da direita. Depois o escuro da esquerda. E quando paro para olhar o escuro do centro, vejo nele uma palavra freneticamente piscando. Em cores fosforescentes. No centro do escuro dos meus olhos, emitindo um sinal malévolo, está mais uma vez, a palavra INSÔNIA.

Pronto. Quando essa constatação é feita, o desencadear dela é destruidor. Eu não posso acreditar que estou com insônia. De novo. Mas que droga!

Assumir uma insônia é como assinar um atestado de óbito de uma noite bem dormida. É perder a esperança de recolher o chi, de descansar o corpo, dar um tempinho para alma. Minha irmã diz que eu tenho muito dificuldade de abrigar o shen – alma etérea – porque sou muito ativa, penso demais, tenho excesso de criatividade. Engraçado ela falar de shen. Os índios chamam nosso excesso de pensamento de chenhenhem. Não parecem palavras primas? Culturas tão distintas falando sobre uma mesma coisa.

Seja o que for: shen ou chenhenhem, já entendi que esse nheco-nheco é a base da minha problemática noturna. Mas o que fazer para mudar esse comportamento maníaco-destruidor?

Sou uma pessoa totalmente avessa a calmantes, tranqüilizantes e qualquer ante que me faça dormir quimicamente. Não sei, tenho uma cisma com qualquer remédio de tarja preta. Parece aviso funerário. E se eu me viciar no vodu? Como é que faço depois para curtir um Passiflorine, uma Maracujina? Nada mais disso vai fazer efeito. E no mais, são anos e anos lutando contra a falta de sono. A longo prazo, a medicina vai ser mais nociva do que o próprio cansaço acumulado.

Quando eu era adolescente, me lembro de precisar colocar uma toalha na soleira da porta, para esconder a luz do quarto acesa durante a madrugada. Tudo para impedir que minha mãe entrasse lá pela décima vez para dizer: mas minha filha, será possível que você não vai dormir de novo! Tudo bem. Naquela época eu não dormia antes das quatro. E forçava totalmente uma barra para ter insônia. Como dormir se uma vida inteira clamava por mim? Livros a serem lidos, colagens a serem feitas, poesias a serem escritas sob a noite fresca do luar? Dormir era puro perda de tempo.

Mas depois as filhas chegaram. E o sono passou a ser artigo de luxo. Eu vivia exausta. Porque cuidava delas tempo integral. Mas também precisava de tempo para mim. Então, ao invés de descansar enquanto elas descansavam, eu me metia a escrever, estudar e pintar nas únicas horas que me restavam. Resultado? Estafa. Mas só jogava a toalha depois de um diagnóstico alarmante do médico: ou eu dormia, ou a máquina ia pifar de vez. Foram anos de um cansaço profundo. Absoluto. Avassalador.

Isso praticamente descabela minha irmã. Ela acha que 90% dos meus problemas existem por causa da minha falta de sono. Meus cabelos brancos, minha tristeza, minha dificuldade em processar os conflitos, meu desânimo… isso tudo fala da perda constante da minha essência, que os orientais explicam que uma vez perdida, jamais pode ser recuperada.

Tá, eu sei que faço do tempo moeda de troca. E que se uma madrugada resultar num bom texto, eu realmente não me importo em virar um legume no dia seguinte. Mas também… tem troço mais esquisito do que dormir? Vivenciar essa “pequena morte” todos os dias requer um bocado de confiança na vida. Acho meio surreal passar oito horas de olhos fechados, esticada numa cama, desconectada do mundo, sem controle nenhum sobre nada e ainda por cima, sonhando as coisas mais esdrúxulas que a gente sonha. Pô, coisa de maluco.

Descobri a pouquíssimo tempo que Morfeu era um dos mil filhos de Hipnos, o deus do sono. Assim como o pai, era dotado de grandes asas, que o transportavam em poucos instantes, e silenciosamente, aos pontos mais remotos do planeta. Se eu soubesse disso antes já teria mudado de atitude e teria me esforçado bem mais para dormir toda noite. Cair nos braços de um cara desses? Espetáculo de noite!

A partir de hoje vou mudar radicalmente minha estratégia para dormir. Nada de pijaminhos macios e chá de erva-cidreira. Vou deitar de camisola bonita e perfumada. Nada de perder a chance de ir para cama como um deus grego e conquistar o coração daquele que pode ser – e eu nunca soube – a maior inspiração para as minhas criações literárias: Morfeu, o cara que tem o poder de revestir de sonhos a imaginação dos mortais adormecidos. Loucura!